domingo, fevereiro 15, 2026

"Terra Queimada", Jonathan Crary

Antígona, 2023. Tradução de Nuno Quintas

Conhecido em Portugal com o seu «24/7», também editado pela Antígona, Jonathan Crary avisa-nos nesse livro para o projecto sub-reptício do capitalismo em ver-nos disponíveis para o trabalho durante 24 horas, 7 dias por semana. Numa altura em que o governo de Milei impôs 12 horas de trabalho cujo salário pode ser pago em géneros, habitação ou comida e os laboratórios científicos de empresas multinacionais ligadas à saúde e à defesa desenvolvem medicamentos capazes de levar a humanidade a não dormir, ou a dormir cada vez menos, para aumentar a produção de bens, é mesmo para levar a sério. Se olharmos igualmente para o nova Lei Laboral em Portugal somos levados a crer que existe um programa que mimetiza todo um projecto de claro retrocesso civilizacional.

«Terra Queimada» leva-nos por um caminho complementar a «24/7». Não é somente o que se está ao fazer ao planeta tornando-o literalmente inabitável, mas realçar o fim do que resta de coesão social através de um programa letal do capitalismo seja na forma de neoliberalismo, seja pelo capitalismo chamado cinicamente de «verde». Hoje, encontram-se activos 500 mil poços e jazidas minerais extrativas em todo o mundo que empregam 50 milhões de pessoas quase escravizadas e com um rasto de assassínios de ambientalistas e de povos indígenas por forças de segurança privadas. E isto só para o fabrico de componentes para microprocessadores, painéis solares, turbinas eólicas e veículos eléctricos, não contando com a extração carbonífera e de petróleo que tiveram um novo alento com a administração Trump, de Putin e de Xi Jiping. O desastre total ao virar da esquina: «Os paladinos do capitalismo verde e das ''renováveis'' dão garantias enganosas de que, mediante fiscalização, se poderiam extrair recursos sem destruir habitats, ecossistemas e comunidades, mas sabem que isso nunca vai acontecer. A História demonstrou categoricamente que o capitalismo é irreconciliável com qualquer espécie de conservação e preservação.» (pág.41) Trata-se pois de exercer a objectificação da Natureza «que nos separa da nossa inerência com a criatividade e a variabilidade ilimitadas do mundo físico» que foi exemplarmente demonstrado por Marx, Debord ou Agamben para só citar alguns que Crary chama profusamente no seu livro. E esta separação já desenhada e criticada nos anos 60 do século XX teve um novo desenvolvimento socialmente tóxico com a nova «era digital» em que assenta a construção de enormes centro de dados e torres de servidores para gerir o aumento imenso de produção de dados que exigem forças energéticas assombrosas e levam ao gasto de milhões de litros de água por dia para arrefecer os níveis de calor que causam danos aos circuitos integrados. Não pensem, portanto, que a utilização da internet é «neutral». Antes pelo contrário. 

O trabalho aturado de Jonathan Crary, neste «Terra Queimada», leva-nos directamente para o que designamos por um isolamento do indivíduo enquanto ser social faze à ditadura dos ecrãs sejam eles dos telemóveis, dos computadores ou do trabalho online, aumentado desde a pandemia de 2019/20. E a viagem até aos pressupostos da biopolítica é uma evidência clara e a que nos leva a formulações mais inquietantes:

«Conforme o complexo internético se expande e agrega, masi facetas da nossa vida convergem nos protocolos das redes digitais. A calamidade é a irredimível incompatibilidade das operações online com a amizade, o amor, a comunidade, a compaixão, o livre curso do desejo ou a partilha da dor e da dúvida. Muito disso desaparece ou recompõe-se em pobres simulações, sem singularidade nem inefabilidade, infundidas de ausência e superficialidade. Não há alegria ou tristeza, beleza ou exuberância na internet. Encontraremos poemas, mas poesia não. Como avaliar as consequências plenas de uma restrição tão drástica da abundante e inesgotável potencialidade humana na desolação e na monotonia dos sistemas digitais? Por toda a parte se evidenciam a loucura e a violência desta dissonância, mas, ao mesmo tempo, turva-a a crença delirante na inevitabilidade de vivermos a vida online, onde inexoravelmente se dissipam as nossas esperanças e energias criativas.» (pág.103)

Uma das críticas mais interessantes e talvez as mais contundentes de Crary é a que elabora relativamente à esquerda radical entre os anos 60 e 80. Exceptuando o caso de Guy Debord que nas suas teses já apontava a destruição do planeta e da Vida perpetrado pelo capitalismo espectacular, é a ausência de uma crítica radical face ao lento, mas sustentado, ocaso da Terra com as perspectivas cada vez mais sombrias das alterações climáticas, do extractivismo e do neocolonialismo baseado na rapina dos recursos naturais em todo o mundo. Enquanto os ecologistas e ambientalistas bradavam contra o que se passava, os intelectuais de esquerda, menosprezavam esses clamores óbvios, realçando os temas que segundo eles estariam na primeira página das lutas empreendidas: o desemprego, o tráfico de armas, as guerras interétnicas, a guerra nuclear ou o terrorismo. O terror do fim do planeta não se encontrava nas suas maiores preocupações. E assim tudo se manteve até aos anos 90. Se ainda vamos conseguir lutar contra o negacionismo entranhado socialmente é a grande questão com que temos de lidar nos próximos tempos, não tão distantes como isso. 

alc