"A Trilogia de Copenhaga", D. Quixote, 2022. Tradução do dinamarquês de João Reis
Há livros cuja leitura deixam marcas que permanecem durante longo tempo. Creio que este é um deles. A autora é a dinamarquesa Tove Ditlevsen que faleceu em 1976, induzindo a morte a si própria com 58 anos. O livro, tal como o nome indica, é dividido em três partes: «A Infância», «A Juventude» e «Relações Tóxicas», sendo que este último livro é titulado de «Gift» em dinamarquês que significa «Casamento». A trilogia é claramente confessional tendo sido editado em 1967 e percorre toda a vida da escritora para quem escrever é uma necessidade quase física. Nascida no seio de uma família da classe trabalhadora dinamarquesa, com o pai e irmão militantes social-democratas, apercebe-se cedo da luta de classes, embora se afaste da política partidária. A infância, mesmo com algumas dificuldades ligadas ao desemprego temporário nos membros da família, é relativamente saudável surgindo em Tove a ligação íntima com a escrita, particularmente à poesia. Parte da juventude é passada sob a ocupação alemã, empregos temporários, alojamentos arrendados em pensões e relações fugazes. A sua vida reparte-se entre festas, empregos, a escrita e uma vaga adesão à resistência através de um seu companheiro. Nada adivinhava o que se veio a verificar após o seu primeiro casamento com o seu editor. O que escreve em «Relações Tóxicas», ou seja, no período referente ao casamento e algumas relações fortuitas que manteve por pouco tempo, é de tal modo directa que a empatia por ela cresce à medida que lemos o livro, mesmo que algumas relações e estados de espírito sejam claramente fora daquilo a que chamamos de «normalidade». Ela não é propriamente uma burguesa, mas apercebemo-nos que ela reivindica para si um espírito livre de quaisquer amarras, nomeadamente as masculinas. Ficamos vivamente impressionados com as descrições de um casamento que se esvai pouco a pouco até ao silêncio, com o nascimento do primeiro filho e principalmente com a última parte em que é descrito o processo penoso de um aborto e, mais tarde, da sua adição toxicodependente. É raro uma frontalidade tão arrasadora como a que é descrita quando é sujeita a um aborto, tal como a sua dependência a drogas que lhe são induzidas em mais uma ligação falhada. É evidente que não estamos perante um conto de fadas e a força da escrita de Tove Divletsen é directamente proporcional à tragédia que constituiu a sua vida, sem que transpareça, contudo, uma chispa de lástima ou de auto-comiseração. Inesquecível.
alc
