sábado, janeiro 31, 2026

"A Trilogia de Copenhaga", Tove Ditlevsen

"A Trilogia de Copenhaga", D. Quixote, 2022. Tradução do dinamarquês de João Reis
Há livros cuja leitura deixam marcas que permanecem durante longo tempo. Creio que este é um deles. A autora é a dinamarquesa Tove Ditlevsen que faleceu em 1976, induzindo a morte a si própria com 58 anos. O livro, tal como o nome indica, é dividido em três partes: «A Infância», «A Juventude» e «Relações Tóxicas», sendo que este último livro é titulado de «Gift» em dinamarquês que significa «Casamento». A trilogia é claramente confessional tendo sido editado em 1967 e percorre toda a vida da escritora para quem escrever é uma necessidade quase física. Nascida no seio de uma família da classe trabalhadora dinamarquesa, com o pai e irmão militantes social-democratas, apercebe-se cedo da luta de classes, embora se afaste da política partidária. A infância, mesmo com algumas dificuldades ligadas ao desemprego temporário nos membros da família, é relativamente saudável surgindo em Tove a ligação íntima com a escrita, particularmente à poesia. Parte da juventude é passada sob a ocupação alemã, empregos temporários, alojamentos arrendados em pensões e relações fugazes. A sua vida reparte-se entre festas, empregos, a escrita e uma vaga adesão à resistência através de um seu companheiro. Nada adivinhava o que se veio a verificar após o seu primeiro casamento com o seu editor. O que escreve em «Relações Tóxicas», ou seja, no período referente ao casamento e algumas relações fortuitas que manteve por pouco tempo, é de tal modo directa que a empatia por ela cresce à medida que lemos o livro, mesmo que algumas relações e estados de espírito sejam claramente fora daquilo a que chamamos de «normalidade». Ela não é propriamente uma burguesa, mas apercebemo-nos que ela reivindica para si um espírito livre de quaisquer amarras, nomeadamente as masculinas. Ficamos vivamente impressionados com as descrições de um casamento que se esvai pouco a pouco até ao silêncio, com o nascimento do primeiro filho e principalmente com a última parte em que é descrito o processo penoso de um aborto e, mais tarde, da sua adição toxicodependente. É raro uma frontalidade tão arrasadora como a que é descrita quando é sujeita a um aborto, tal como a sua dependência a drogas que lhe são induzidas em mais uma ligação falhada. É evidente que não estamos perante um conto de fadas e a força da escrita de Tove Divletsen é directamente proporcional à tragédia que constituiu a sua vida, sem que transpareça, contudo, uma chispa de lástima ou de auto-comiseração. Inesquecível.

alc