sexta-feira, abril 16, 2021

Utópicos, um podcast de Luísa Costa Gomes

Para quem já não pode, por manifesta incapacidade física e mental, de consumir as drogas duras que nos entram em casa via rádio e TV, há espaços que ainda são suficientemente livres para nos colarmos a eles e gostar. É o caso de Luísa Costa Gomes que sabe utilizar as redes sociais numa adição à inteligência em conversas soltas e livres sobre temas incontornáveis. Isto em https://open.spotify.com/show/3kzqMIa7iLilE4FQ5R3V7V

Os temas vão desde o provocador «Para quê tanto papel?» até ao (atenção universidades!) «Para que serve a pontuação?» passando pela distopia aterradora de «Um dia seremos todos atletas». Não percam este verdadeiro shot de desaceleração e queiram mais desta receita, que ninguém disse aqui que havia só más dependências.

terça-feira, abril 13, 2021

Antes que o Choupal seque e a Inês verta lágrimas de sangue

 

O meu lugar preferido no Choupal

A traçar um risco com as velhas Pilot

 


Traçar um simples risco por uma mão que pretende ser minha mas quando desenhada deixa de o ser. Estranho sempre quando desenho a minha mão. Fica outra. A Pilot preta de 0,4 que me acompanha há tanto tempo soube agora que me terá traído. Esborrata com a aguarela enquanto as novas Staedtler não o fazem. Totalmente limpas de constrangimentos em papel. Mas, mesmo assim, gosto de desenhar com as «velhas» Pilot ao ar livre, pontilhando os sombreados e realçando as sombras e os contornos.

quinta-feira, abril 08, 2021

O Tempo da Revolta, de Donatella Di Cesare


«O Tempo da Revolta», de Donatella Di Cesare
Edições 70, Janeiro de 2021

Donatella Di Cesare já nos tinha surpreendido com o seu «Vírus Soberano? A Asfixia Capitalista» editado igualmente por esta editora e com distribuição do jornal «Público», com prefácio de António Guerreiro. Apresentemos rapidamente a autora: professora de Filosofia na Universidade de Roma tem colaboração regular em websites e vários jornais europeus.
Irreverente e marginal do pensamento mainstream, neste momento nas mãos da direita, não deixa contudo de se mostrar rigorosa na apresentação das linhas de força do seu pensamento através de sínteses notáveis. Directa e transformadora analisa sem floreados inúteis o tardocapitalismo e os perigos de asfixia (por vezes literal) que o sistema económico dominante que nos vai fazendo a vida num crivo. Tanto económica, como política e socialmente. Ninguém está a salvo num capitalismo que nos mata numa emergência não escondida desde há muito e com uma avidez de lucro em que talvez pressinta que não poderá durar muito mais tempo.
Tal como um espectro que ameaça a sociedade de domínio, desde há séculos, «A revolta irrompe por todo o lado no mundo. Acende-se, apaga-se; volta a propagar-se. Transpõe as fronteiras, sacode as nações, agita os continentes. Um olhar sobre o mapa das suas explosões repentinas, dos seus imponderáveis movimentos, atesta a intermitência na acidentada paisagem política do novo século. A extensão faz-se acompanhar da intensidade. A topografia delineia um cenário onde o confronto é feito de contraste, dissidência, luta aberta. Os protestos alastram-se, as ocupações repetem-se, os atos de desobediência multiplicam-se, os confrontos intensificam-se. É o tempo da revolta.» Assim abre o livro de Donatella Di Cesare. 
As barricadas do século XIX, as praias debaixo das calçadas dos anos 60, as ruas das manifestações passaram, no início deste século para as ocupações de praças, transformadas em ágoras e assembleias abertas e livres, de microfones abertos onde os discursos são ainda ambivalentes e até contraditórios. Mas a raiva e a ira estão lá. Por dias, semanas e meses as pessoas ocupam as praças, porque já não é só a ocupação das universidades e fábricas que valem no estertor do capitalismo. A produção passou para segundo lugar. A vida é que interessa, a reocupação dos nossos dias e de uma nova economia e política congregacionais e livres de cadências alienantes de puro delírio do lucro e da especulação. 
A máscara, para a autora, é mais do que um suporte para a vida que se tornou pandémica. A máscara que usamos nas manifestações e protestos de rua não são mais do que verdadeiras metáforas que apelam ao nosso anonimato e que denunciam a inexistência de faces visíveis dos indivíduos sem nome e gigantescas empresas que usam o domínio sobre os 99% da população. O 1% ainda não foi derrotado e tomará medidas cada vez mais letais contra aqueles que se rebelem.
Hobsbawm passou uma parte substancial da sua vida a estudar rebeldes e revoltados. Tal como Donatella Di Cesare, que vê nas revoltas, sinais de explosões futuras que nada terão de programas nítidos de poder. São destruições e gritos, mas que isso não afaste a esquerda e os movimentos políticos ainda não recuperados, de criar hostilidades perigosas para com essas realidades que se multiplicam com várias facetas e que por vezes podem juntar camponeses rebelados com jovens de subúrbios completamente desesperados. Tanto mais que a extrema-direita e aflita direita sanitária está atenta a estas reivindicações para as canalizar para os seus programas de continuidade, algumas mais brutais e totalitárias que outras, mas sempre repressivas.
Cabe-nos compreender estas manifestações e «O Tempo da Revolta» dá-nos pistas e interpretações que apelam à transformação. O que faz dele uma obra útil.
António Luís Catarino

quinta-feira, março 25, 2021

Quem com faca nos dentes anda, a bom porto há-de parar. A poesia de António José Forte

António José Forte. Foto de Aldina

Poeta sem sombras, luminoso, de índole revolucionária, conhece-se pouco de António José Forte não fossem a Parceria A.M.Pereira, a Hiena, a &etc e a Antígona do amigo Luís Oliveira, que agora publicou a sua poesia «completa», mais Cesariny, Virgílio Martinho, Eugenio Castro e Aldina a darem-lhe a visibilidade merecida. Tal como Dacosta, Forte esteve uma interregno de dezenas de anos sem nada publicar, o que não o impedia de escrever. E só o facto de saber que escrevia abre todo um leque de possibilidades de virmos a conhecer melhor este poeta surrealista do Grupo do Café Gelo. Aliás, escreveu um texto belíssimo sobre os cafés de Lisboa onde se lhe refere. Herberto Helder prefaciou «Uma Faca nos Dentes» e Luís Oliveira fala do contacto que com ele teve em Santarém e Lisboa, quando António José Forte calcorreava o país com as Citroën das bibliotecas volantes da Gulbenkian. Helder coloca-o como um dos grandes poetas «Como muita poesia surrealista ou afim, a de Forte molda-se num corpus de fragmentos soldados por pontos magnéticos de analogia imaginística ou verbal, por enlaces rítmicos: uma colagem orgânica de fragmentos.»; palavras, expressões feitas de fragmentos e colados no poema que atinge o(s) sentido(s) «num continuum, sempre perfeito, denota[ndo] a ágil intuição dos recursos de escrita, uma oficina atenta.» (HH). Mas António Cândido Franco, num excelente e interessante texto sobre a publicação castelhana de «Uma Faca nos Dentes» vê-o deste modo: «Trata-se de um poeta invulgarmente coerente, que deixou uma obra breve mas pontuada de sinais vivos e imperecíveis - e não tanto pela grandeza da arte, que lhe foi quase indiferente, mas pela potência ingénita do sopro. O que é admirável no seu verbo é a força da imprecação, a destemperada fúria da voz, a altivez do tom profético e apocalíptico a denúncia e o combate.» (Revista A Ideia, nº90,91,92,93, pág. 314).

Já, nós mesmos, queremos então apontar-vos a «destemperada fúria» de António José Forte com um excerto de «EXPOSIÇÃO DADA» direccionada para os falsos avestruzes que pedem emprestados o nome DADA para servirem à mesa de divindades académicas com que se alimentam de tempos a tempos em realizações que têm tanto de basbaque como de ridículo. 

Ora tomem lá do Forte:

EXPOSIÇÃO DADA

(...) Se houvesse cadáver DADA, mas não há, o que vai chegar agora aí embalsamado seria um falso cadáver. Se houvesse cadáver insepulto de DADA, cheirava mal num continente inteiro. Se houvesse cadáver de DADA enterrado em vala comum, havia ainda hoje fogo-fátuo que dava para iluminar uma cidade - exemplo, Lisboa. Como não cheira e tudo permanece muito às escuras, segue-se que não há cadáver de DADA.» («Uma Faca nos Dentes», Ed. Antígona, 2017, pág. 124)

DENTE POR DENTE

«Entrar de costas no festival das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares.» (Op.Cit., pág. 47)

RESERVADO AO VENENO

«...é um dia perfeitamente para cães...» (Op.Cit., pág. 34)

QUASE 3 DISCURSOS QUASE VEEMENTES

«Não estranheis os sinais, não estranheis este povo que oculta a cabeça nas entranhas dos mortos. Fazei todo o mal que puderdes e passai depressa.» (Op. Cit. pág. 27)

E assim se faz forte ainda incompleto.

António Luís Catarino


quinta-feira, março 18, 2021

A palavra e a acção. Um trecho de Herberto Helder

 

Desenho de Herberto Helder em post-it numa esferográfica Caran d'Ache

«(...) E já ouvi que a palavra não traduz a acção. Se a não traduz, como pode superlativamente «ser» a acção? Rimbaud despede-se, e sobretudo toda a grande jerarquia da palavra geradora desde - que sei eu? - a Kabbalah às, remontando, mais eminentes cosmogonias. Resta o jogo?
Afinal o poeta intenta uma forma onde a história se consubstancie e se transmude e miticamente ultrapasse os poderes dispersivos. Não sendo a história nem efectivando nela a revolução, a poesia refere-a no âmbito porventura incontingente, permanente, desconto feito às morfologias.
Para quem se não satisfaça no ludismo nem esgote  o empenho do verbo nas gramáticas, e nenhuma alta poesia nelas se esgota, o lugar de passagem e o lugar hipotético de chegada serão sempre dramáticos. Toda a poesia é insolúvel. Não lhe falta ou sobra do mundo aquilo que a embaraça. Trata-se do vácuo criado pela história no seio do mito. O silêncio não traduz apenas a renúncia, mas a ruptura entre mundo e linguagem. O que não se exprime fatalmente pela ausência do dizer. Não será essa mesmo uma condição do dizer? O paradoxo reside nessa ambição unitária no meio da descontinuidade e fragmentarismo de tudo: o mito, a história, o eu. (...)»

Herberto Helder, em «Nota Útil» a «Uma Faca nos Dentes» de António José Forte, Antígona, páginas 17 e 18


Scketch. 100 anos do PCP. Largo da Portagem, Coimbra, 6 de Março de 2021


 100 anos do PCP. 6 de Março de 2021. Largo da Portagem, Coimbra


domingo, março 14, 2021

«A Ideia» em número quádruplo (90,91,92 e 93). Cruzeiro Seixas, Luiz Pacheco, Mário-Henrique Leiria, surrealismos & Florbela Espanca, espanca.

 

Uma revista incontornável para quem prefere o debate de ideias ao consumo fácil do entretenimento. António Cândido Franco e a comissão editorial constituída por João Freire, José Maria Carvalho Ferreira e Paulo Eduardo Guimarães apresentam-nos neste número quádruplo (90,91,92 e 93) um Cruzeiro Seixas algo diferente do que estamos habituados pelas apresentações académicas habituais no artigo «Rasgos, Homenagens & Outros Sinais» uma excelente retrospectiva do pintor/poeta surrealista. Estamos a falar de pessoas que o conheceram pessoalmente e que trocaram com ele cartas, ideias e lugares.

De resto, cartas inéditas de Mário Cesariny, uma «aproximação afirmativa à ''arte'' dos loucos», de Eugénio Castro, uma entrevista a Mário-Henrique Leiria, por Tania Martuscelli, autora que assinou o monumental estudo em três volumes daquele autor, um estudo sobre Luiz Pacheco de Ana da Silva e um artigo belíssimo de Henrique Garcia Pereira que talvez o tenha conhecido como ninguém na nocturna e lisboeta urbe, diríamos nós; Teixeira de Pascoaes é tido em conta como não poderia deixar de ser para uma revista que tem sedimentado, de número para número, o seu apego ao surrealismo e aqui à referência cesariniana de um surrealista antes do tempo. Tal como foi feito em números anteriores o desconcerto de ver Júlio Dantas com linguagem dada e Florbela Espanca, numa outra Espanca. Como diria Adília Lopes, Florbela espanca, espanca. Perspectivas oblíquas, pois. Mas inquestionavelmente interessantes de seguir e pensarmos que em poesia, tal como na literatura, tenham elas os rótulos com que as querem enfeitar, nem tudo o que parece é. Esta revista surpreende-nos sempre.

A ler, consultar e a guardar. Podem adquiri-la na Letra Livre, Snob, em Lisboa, Utopia, no Porto ou directamente à revista.

A Ideia toda:

REVISTA A IDEIA - 2020
Nºs 90/91/92/93
CENTENÁRIO DE CRUZEIRO SEIXAS

340pp.
Dezembro, 2020

GRUPO SURREALISTA DE MADRID & REVISTA
FLAUTA DE LUZ
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA
LUIZ PACHECO
HENRIQUE GARCIA PEREIRA
GANDHI & A ANARQUIA
GIUSEPPE PINELLI & MILÃO 50 ANOS DEPOIS
CARTAS INÉDITAS DE MÁRIO CESARINY
SIMON WATSON TAYLOR
A RAINHA DE INGLATERRA
MIGUEL PEREZ CORRALES
ANDRÉS DEVESA
EUGÉNIO CASTRO & A ARTE DOS LOUCOS
ANTÓNIO TELMO & CARLOS CASTANEDA
TEIXEIRA DE PASCOAES & FLORBELA ESPANCA
ENCONTROS DOS BARDINHOS DE 2019
A TECNOLOGIA 5 G
MURRAY BOOKCHIN versus DAVID WATSON
OS COMEDORES DE FOGO EM ÉVORA
POESIA DE JESUS LIZANO

presenças & inéditos
Adalberto Alves, Amadeu Baptista, Ana da Palma, Ana da Silva, Ana Rita Fialho, António
Ferra, António José Queiroz, António Salvado, Bruno Silva Rodrigues, Carlos Baptista,
Carlos d Abreu, Carlos Diaz, Carlos Mota de Oliveira, Enrique Nogueras, Fátima Pitta
Dionísio, Fernando J. B. Martinho, Ferra// Aisa, Francisco Cardo, Gabriel Rui Silva, Guy
Girard, Isabel Mendes Ferreira, João Freire, João Prates, Joélle Ghazaria/i, José Emílio-
-Nelson, José Matutei Martins, José Pais de Carvalho, José Rui Teixeira, Júlio Henriques,
Hugo Gonçalves Silva, Luís de Barreiros Tavares, Luis Ma/a/el Gaspar, M. Ricardo de Sousa,
Mara Rosa, Margarida Morgado, Maria Estela Guedes, Mário Bui Pinto, Michael Lòwy,
Nata/t Schafer, Nicolau Saião, Paulo J. Brito e Abreu, Pedro Fernando, Pedro Martins, Pedro
Morais, Risoleta Pinto Pedro, Rui Sousa, Sílvia das Fadas, Sofia A. Carvalho, Sofia Santos.


desenhos, ilustrações & imagens
Almerinda Pereira, Ana da Silva, A/tabela Calatróia, André e Alice Montanha, António
Couvinha, Cruzeiro Seixas, Délia Vargas, Dominique Lahaume, João Francisco Vilhena,
João Prates, José Ma/a/el Rodrigues, Luis Manuel Gaspar, Luiz Pires dos Reys [Capa e
Contracapa], Manuel de Almeida e Sousa, Mara Rosa, Maria João Vasconcelos, Mário Rui
Pinto, Miguel de Carvalho, Rik Lina, Vasco Rosa.


Com dois suplementos: um de João Freire e outro uma antologia poética inédita de Dulce Pascoal


História da África, de J.D.Fage, com William Tordoff

 

Não deverá ser das melhores Histórias de África, mas é uma referência que julgo difícil de ignorar quando se quer estudar o continente africano e a sua riqueza histórica. Há, contudo, nesta obra algo que me fez pensar a razão de não ser estudada com mais profundidade a época que medeia entra o neolítico e o século XIV. Embora se aborde o tema, poder-se-ia ir mais além através das descobertas arqueológicas mais recentes e tentar descrever quer a economia, a sociedade e o sistema político que antevemos de enorme diversidade, consoante as regiões. 
O que se vislumbra nesta obra de J.D.Fage é a comodidade da investigação através dos acervos europeus quando se iniciou a expansão contínua para o continente africano estabelecendo quer feitorias, quer capitanias e fortalezas que constituíram uma das páginas mais vergonhosas que o mundo conheceu. Não só da escravatura falamos, e isso daria para muita tinta, mas também dos sistemas de exploração mercantil primeiro e capitalista depois, que redundaram numa rapina das matérias-primas de África para o comércio intercontinental em que este continente era a parte mais fraca do triângulo.
Desde o Império Romano que conhecemos relativamente bem o Norte de África e o Alto e Baixo Nilo (estes últimos, até de muito antes). Todavia, a África Oriental só a conhecemos ou pela historiografia indiana, árabe ou pela europeia, incluindo a portuguesa. Portugal que estará presente também na presença branca da África Ocidental e é quase só por esta historiografia que assenta a análise do livro. 
Podemos afirmar, portanto, que o livro apresenta mais dados concretos da História de África no século XIX e XX e quase sempre através do olhar ocidental. O que é pena, mas sempre há uma referência. 

Zizek: pós-pandemia, comunismo e «noli me tangere»! O senhor sente-se bem?

 

Por vezes penso no desconcerto que constitui ler Slavoj Zizek. Agora penso um pouco mais rasteiro: será que Zizek estará «bom da cabeça»? Passou-me esta ideia várias vezes pela minha, mas acedo que ele é um filósofo e que os filósofos têm todos o direito de se passarem da cabeça, sem quaisquer outros problemas que teria o comum dos mortais. Como, por exemplo, meter baixa no emprego e ficar sem quase metade do ordenado, complicações com a família, iniciar um processo de afastamento e disjunção da sociedade... essas coisas que, ao que se julga, 60% dos portugueses conhecem ou já conheceram na sua vida. Mas não se infira disto que não gosto de Zizek. Gosto de o ler, mas por vezes custa-me levá-lo a sério até por a sua prolixidade e de tanto tema tratar produz a imagem de um «enfant terrible» da filosofia e do pensamento contemporâneo. Mas o homem é incontornável.

Falemos um pouco dele antes de nos debruçarmos sobre o livro em questão. Define-se a si próprio com um «ateu cristão». Não me é difícil considerar uma pessoa nesse campo específico da espiritualidade actual. Não é por aí que coloco dúvidas, mas Zizek deve viver, ele próprio numa espécie de limbo interior em que não se vê uma resolução capaz, se é que a procura mesmo. Nem para os lados do materialismo, nem para o da espiritualidade (ele emprega mesmo esse conceito). Mas com o «Noli me tangere» de Jesus a Madalena, inicia uma pequena viagem, neste livro, pela pandemia que vivemos todos os dias, há mais de um ano e sem perspectivas de um fim rápido... para este vírus, ou para outros que hão-de vir. Zizek é um optimista, não o esconde, e vive bem com isso. Mas o excesso de optimismo também cansa as pessoas que o lêem, visto que o mundo pode caminhar exactamente em sentido contrário às suas teorias. Sim, ele vem com o Decameron de Bocaccio, escrito em tempos de peste e, já agora, embora o filósofo esloveno não o faça, poderia igualmente chamar os roaring twenties, para marcar o fim da guerra e da epidemia de 1918! Nada de novo aqui. Mas como Zizek se define, sem qualquer problema de maior e o que, aliás, mais me aproxima dele, é quando se afirma como «despudorado filósofo da subjectividade». Depois, ele explica o que entende por «agenciamento» e pela necessidade de «adoptar um ponto de vista inumano» como forma de compreender todos os actantes desse agenciamento planetário. Em segundo lugar, defende a acepção muito subjectiva de não ignorar as «crenças e valores», esse agenciamento religioso complexo de dogmas, instituições, práticas sociais e individuais e experiências íntimas onde nunca é dito o que seria bom dizer. Termina com uma frase terrivelmente provocatória: «É possível que uma prova científica de que Deus existe deixasse atónito o próprio crente»! Creio que não é necessário mais nada para definir um «ateu cristão», crença (!!) que tem os seus múltiplos acólitos nos tempos que correm. Com tendência para aumentar, diga-se.

Quero voltar, contudo, ao que penso que o optimismo de Slavoj Zizek se mostra mais desconcertante e que me levou à minha questão singela do filósofo esloveno estar, ou não, «bom da cabeça»: o comunismo. Encarar a epidemia deste coronavírus como uma janela de oportunidade para o comunismo, trata-se mesmo de excesso de crença e fé, seja ela marxista ou mesmo leninista. Zizek ataca todos os pensadores e filósofos, principalmente Agamben, por denunciarem as medidas desproporcionais dos estados face ao coronavírus, relativamente às liberdades e à nova escravatura do trabalho. A resposta do esloveno a estas preocupações onde se poderia esperar um brutal regresso à barbárie generalizada, ele contrapõe um receio maior: uma «barbárie de rosto humano», sem dúvida a pior de todas: perante o descontrolo dos estados, aceitarmos o genocídio dos mais velhos, dos doentes e dos fracos como de natural se tratasse. Optimista, Zizek? Mas é um receio que ele não crê que se venha a consumar.

O comunismo pós-epidemia que Zizek lobriga é este: «(...) uma versão daquilo que, na União Soviética, em 1918, se chamou ''comunismo de guerra''»; Na página 85, Zizek defende-se dos «ataques» a que foi sujeito depois de defender a «Barbárie ou Comunismo»: «De Alain Badiou a Byung-Chul Han e muitos outros, da esquerda à direita, todos me criticaram, ridicularizaram até, depois de eu ter sugerido repetidamente a chegada de uma forma de comunismo em resultado da pandemia de coronavírus.». Falando de uma cacofonia de vozes contra ele, reconhece que estas críticas se baseiam em que o capitalismo sairá mais forte e não o contrário. Penso que a onda generalizada contradizendo Zizek obrigou-o a tentar definir que comunismo será este: «(...) não é um sonho obscuro, mas simplesmente um nome para aquilo que já está a acontecer (...), medidas que já estão a ser consideradas e mesmo parcialmente implementadas. Não é uma perspectiva de um futuro risonho, mas antes de um ''comunismo de desastre'' como antídoto para o capitalismo de desastre. O Estado devia não só assumir um papel muito mais activo, organizando a produção de bens de que haja necessidade urgente(...)».

Não creio que um comunismo reaccionário como este que Zizek defende seja possível, ou sequer, plausível. Tantas questões se poderiam colocar e que não caberiam aqui. Mas é demasiado pouco para ser possível levantar hipóteses minimamente sérias para um projecto comunista. Coloca-se somente uma: por que razão o Estado, por si só e vendo-o em abstracto como Zizek o faz, abraçaria medidas comunistas? E a produção de bens? E quem faria o controlo dessa produção de bens?

António Luís Catarino

sexta-feira, março 05, 2021

100 anos: o primeiro manifesto de Julho de 1921

 A luta operária, determinada e motivada pelas humilhações constantes em que a quiseram remeter, causada pela exploração desenfreada do capitalismo que não poupava crianças, mulheres e homens foi uma marca do século XIX e dos inícios do século XX. Em Portugal, país de brandos costumes e eternos comedimentos, a classe operária soube erguer-se e dizer que não ao capitalismo e propôs-se lutar e resistir, num país medroso de insurreições, de uma religiosidade doentia e com um respeitinho atávico às hierarquias e aos chefes. Mais: conseguiu mostrar-nos um mundo novo. O comunismo surgiu como uma esperança para os produtores e a modernidade veio com os anarco-sindicalistas, sindicalistas revolucionários e finalmente, em 1921, com os comunistas organizados. O PCP nasceu aí. E a modernidade que os operários imprimiram à época é inesquecível e impossível de contornar por historiadores honestos. Em Julho de 1921 começava uma história de 100 anos. O incontornável manifesto podem lê-lo aqui https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4482255

António Luís Catarino

quinta-feira, março 04, 2021

Vinte anos depois, reviver Castelo de Paiva


Um estágio antecipado levou a Madalena, mãe da minha filha, nessa altura com um ano e meio, a Castelo de Paiva. Viagens difíceis para lá e para cá, resolvemos que eu me trespassaria definitivamente para a vila perto da confluência de três rios: o Douro, o Tâmega e o Paiva. Na brincadeira dizia que tinha ido viver na Mesopotâmia, em Entre-os-Rios. Adorei viver lá durante três anos antes de me fixar no Porto e, mesmo não sendo necessário dizê-lo, ainda hoje contacto com alunos do ensino secundário que acompanhei durante esses anos. Tornámo-nos amigos inesquecíveis. Até hoje.

O 4 de Março, domingo, dia em que a ponte Hintze Ribeiro soçobrou, foi o corolário de chuvas intensas que levaram quase três meses a cair. O Douro estava castanho da terra das margens arrancadas com fúria e com uma corrente fortíssima das suas águas. No sábado anterior passámos a ponte, em direcção a Penafiel, para comprar, no supermercado do costume, as coisas para a semana. Lembro-me de termos ido a um café e almoçámos por lá. Atravessámos a ponte pelas dezasseis horas de retorno a Castelo de Paiva.

O dia da véspera passou-se como um sábado normal, numa pequena vila. Discutia-se política, futebol, previa-se o tempo e desejava-se que parasse finalmente de chover, esperando que aparecessem uns raios de sol. O domingo que se seguiu foi diferente, sem dúvida. Ao fim do dia, pressentiu-se que alguma coisa não corria bem. As notícias sucediam-se e lembro-me de ouvir dizer que uma camioneta de pessoas em excursão às amendoeiras em flor em Trás-os-Montes tinha tido um desastre. Subitamente, nem rede de telemóveis, nem telefones ou televisão por cabo. Mas nunca imaginámos a extensão do drama que iria acontecer e que ainda só estava no princípio.

De manhã, ao sair com a minha filha para ir tomar café e comprar o jornal a notícia tremenda que nos foi atirada à cara. Ainda havia dúvida no número de vidas ceifadas, mas dizia-se mais de cinquenta. A camioneta não teve um mero desastre. A ponte foi abaixo e com ela a camioneta cheia de pessoas; seguiram-se dois automóveis também com passageiros. Não houve sobreviventes das três viaturas.

O que se seguiu foi um silêncio brutal, avassalador. Não se ouvia um barulho sequer, é o de que me lembro sempre que falo neste desastre que assisti. Chuva miudinha. O silêncio que correspondia a um verdadeiro luto sentido. As comunicações chegaram pelas 13:00. As chamadas caíam nos telemóveis e o telefone fixo não parava. A net também ajudava à comunicação, mas comunicar o quê? Sim, estávamos vivos, se era isso que queriam saber.

Depois, foi o que nunca quererei ver repetido. Para além das perdas sofridas e do sentido de desorientação íntima de uma população, a comunicação social em peso na pequena vila. De todas as estações incluindo algumas estrangeiras. Dias seguidos, em entrevistas. Pessoas a fugirem literalmente de jornalistas e a não saírem das casas; jornalistas que, de microfone na mão, perguntavam «o que se sentia» a pessoas ainda em estado de choque. O facto hediondo de oferecerem uns euros a jovens estudantes para segurarem os cabos das televisões e as suas recusas em querer ganhar dinheiro daquela maneira, quando primos, irmãos e amigos jaziam no fundo do Douro ou arrastados até ao mar, visto que as barragens não podiam ser fechadas devido ao forte caudal do rio. Falava-se na velocidade de 20 metros por segundo, dados da Marinha que, mesmo assim e para acalmarem os media, faziam mergulhar bombeiros que nada viam a centímetros de profundidade e expostos a serem mortos por troncos emersos ou partir-se o cabo que os mantinha agarrados aos barcos insufláveis, eles próprios em risco de acidente grave se os motores falhassem contra a corrente!

Mesmo a culpabilização dos «políticos» que levou ao fim da carreira de Jorge Coelho e Luís Patrão não teve qualquer eco na população de Castelo de Paiva. Um jovem presidente da câmara social-democrata desejoso de protagonismo (por onde andará ele agora?) e tão culpado de omissão como todos os outros cirandava por televisões e rádios a justificar o injustificável. Cinquenta e três pessoas poder-se-iam ter salvo, não fossem viver no interior de um país esquecido e cujos relatórios do LNEC foram mantidos anos no fundo de várias gavetas. Dos jornalistas, houve alguns que se destacaram, pela positiva, do circo montado: Miguel Carvalho, da Visão, o Emanuel da rádio local (mais tarde perseguido e posto de lado na Rádio Paivense) e Fernando Alves da TSF. O resto é melhor esquecer.

Quando, passados uns meses e sabendo que era o meu último ano em Castelo de Paiva em mudança para o Porto, devido aos trabalhos da fundação da Deriva Editores, e em jeito de despedida num almoço de colegas e com um famoso padre ultramontano da freguesia de Raiva, uma das mais atingidas pelo desastre, o questionei sobre uma afirmação dele na RTP1 em que defendia que, para a igreja católica, o corpo não era o importante, julgando eu que o dizia para acalmar os familiares que nunca recuperaram os corpos, respondeu que não, não foi: «É mesmo assim, caro colega; para a igreja, o importante é a alma, o espírito. O corpo não é, nem nunca será o mais importante. É perecível. A alma, não!» Sinceramente, não tive coragem de o contrapor, nem queria. Não era esse o meu objectivo de iniciar uma discussão inútil. Mas senti quanta razão, e nem sempre pelos melhores motivos, aquele padre tinha: o corpo é perecível! Acham possível que naquelas circunstâncias eu lhe fosse dizer quanto importante era o corpo como objecto de desejo e de amor, quando a igreja o negou desde sempre? 

Já não me lembro se nessa noite eu dormi. Como, meses antes, em 4 de Março de 2001, não o consegui também.

António Luís Catarino

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

Dos tempos que correm: «Viagem à roda do meu quarto», de Xavier de Maistre


Calma gentes!, De Maistre, Xavier de seu nome, que, previdente nas suas primeiras edições assinava somente com X, é irmão de Joseph, o tal de má companhia e péssimos pensamentos, da índole de um Bossuet mas para pior... Este senhor é somente um romântico empedernido, com vida complicada, fora do penico institucional, marcado por alguma libertinagem, combates nas guerras europeias e algo errante, o que desdiz a obra que o marcou: «Viagem à roda do meu quarto», de 1795.

Quis a época e o estado lastimoso do confinamento perpétuo que eu me dedicasse um pouco a este livrinho esgotado, tão bem elaborado que dá gosto tocar nele, embora exista outro da Tinta-da-China que ainda se vende por aí. Este, uma edição belíssima, encontra-se esgotado.

Comecemos a viagem então. Analisemos as causas do périplo e o aviso sensato do autor: «Iniciei e terminei uma viagem de quarenta e dois dias à roda do meu quarto. (...) Sente o meu coração uma satisfação inexprimível quando penso no número infinito de infelizes a quem ofereço um meio garantido contra o tédio e um alívio para os males de que sofrem. O prazer que se encontra ao viajar no próprio quarto está ao abrigo da inquieta inveja dos homens; é independente da fortuna.» 

Nós, hoje, cidadãos do século XXI, enclausurados contra vontade sabemo-lo bem, quer pelas viagens intermináveis que poderão não serem apenas num pequeno quarto ou numa casa inteira, quer também pela ultrapassagem miserável dos quarenta e dois dias enfiados entre paredes. Onde já vão os quarenta e dois dias? Meses de confinamento dão para sentirmo-nos verdadeiramente incomodados e aterrados ao sairmos, fugindo à polícia, para respirarmos o ar do mar e do verde de um parque. Já conseguimos ser felizes dentro dos nossos quartos! Grande De Maistre!

Será possível esquadrinhar a topografia de um quarto? Principalmente quando se permanece nele quarenta e dois dias? Para De Maistre, é! Vejamos: «O meu quarto situa-se a quarenta e cinco graus de latitude, segundo as medições do Padre Beccaria; está orientado na direcção levante-poente; forma um quadrilongo de trinta e seis passos em volta, bem rentes à parede. A minha viagem, todavia, comportará mais, pois irei atravessá-lo muitas vezes de um lado ao outro, ou então diagonalmente, sem seguir regra ou método. - Farei mesmo ziguezagues e todas as linhas possíveis em geometria, se necessidade houver.» E depois perora sobre a infelicidade das pessoas que são muito donas dos seus passos e das suas ideias e que promovem planos rígidos das tarefas diárias. Não, De Maistre, homem moderno do início do século XIX, vê, com grande entusiasmo, a liberdade irónica aposta num simples quarto.

Depois de alguns voos metafísicos de quem não esquece os tempos passados na cama, as recordações que trazem à memória e testemunha (a cama) dos mais elevados estados de espírito, tantos quantos os momentos de depressão, lembra-nos que a obra versa sobre um périplo à volta do quarto, não sendo um mero exercício de solidão. Portanto, é com gosto que vemos passar à nossa frente e pelos nossos olhos a Madame de Hautcastel, a musa do escritor que se lhe refere, através do retrato, deste modo: «Ali, a minha mão tinha-se apoderado maquinalmente do retrato da Sra. de Hautcastel, e o outro (Xavier De Maistre, caracteriza-se como sendo duplo: um ser pensante e o animal) divertia-se a limpar o pó que o cobria. - Tal ocupação proporcionava-lhe um prazer tranquilo, que se fazia sentir na minha alma, muito embora esta estivesse perdida nas vastas planícies do céu.» Lembrem-se que ele era um romântico! Agora vem aí o animal, o tal outro, em cadência acelerada: «(...)interessando-se sempre mais pelo trabalho, pensou em pegar numa esponja molhada posta à sua disposição e em passá-la subitamente sobre as sobrancelhas e os olhos, - sobre o nariz, - sobre as faces, - sobre aquela boca; ah, meu Deus! o coração bate-me: sobre o queixo, sobre o peito: foi questão de um instante; todo o rosto pareceu renascer e sair do nada. - A minha alma precipitou-se do céu como uma estrela cadente; encontrou o outro num êxtase arrebatado que conseguiu aumentar, partilhando-o.» 

Digam agora que Xavier De Maistre era um romântico! Por testemunhas destes devaneios no quarto ainda estavam presentes Joannetti, um criado cujas humilhações o autor não compreende como as suporta, mesmo sendo ele a cometê-las, e a sua cadela Rosine, muito mais bem tratada que o primeiro, diga-se. 

E mais não escrevo, que isto de estar confinado no início século XIX era bem mais perigoso do que se pensa. Um clássico a ler nos tempos que correm. Um verdadeiro mapa de passos confinados.

Editora &etc, Maio de 2002
Esgotado

António Luís Catarino
24 de Março de 2021


sábado, fevereiro 20, 2021

Os buxos do império para onde merecem!

 

E Portugal continua, imparável, na senda da defesa dos buxos do Império! 
Pessoalmente tenho uma vaga ideia onde poderão enfiar os ditos buxos.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

A «culpa» de Mamadou Ba e os intelectuais indignados

Não vou falar da minha repugnância em observar a subida de Marcelino da Mata a um qualquer panteão onde o querem colocar. Tinha eu 14 ou 15 anos e já ouvia falar das façanhas «heróicas» deste indivíduo em pleno conflito na Guiné. Se o TPI, consequência institucional do Estatuto de Roma de 1998, tivesse existido durante a guerra colonial Marcelino da Mata iria lá parar, possivelmente com pena perpétua. Mas o fascismo encobriu-o com o alto patrocínio da PIDE e de Salazar, mesmo contra a opinião de membros do exército colonial enojados com os relatórios das suas acções criminosas. 

Mas a caixa de Pandora abriu-se e agora Mamadou Ba vê-se na contingência de ser insultado como nunca antes o fora (e foi muitas vezes) por uma miríade de fascistas, grunhos, racistas, ignorantes e imbecis que serão à volta de, a esta altura, vinte mil. Sejam quinhentos mil e continuarão tão estúpidos quantos os que assinaram uma petição mal escrita, em português sofrível, mas cujos intuitos são claros: a deportação de um cidadão português de origem senegalesa, juntando assim a anterior tentativa de igual deportação de Joacine Katar Moreira, outra portuguesa de origem guineense. 

O delito é não só de opinião e poder-nos-emos interrogar se é de facto isso que move aquela gente. O delito de Mamadou Ba é ser negro. E de citar Frantz Fanon. E de colocar o colonialismo, as suas raízes e o seu ramos subliminares no comportamento das sociedades europeias, no centro da sua acção política. Portugal é tão racista como os outros racistas. Gilberto Freire e a bonomia do seu luso-tropicalismo ficou e permaneceu num país demasiado tempo fascista e corporativista. Por causa desta teoria, este país fez a triste figura de ver cair o último império da Terra sem grandeza ou orgulho como nos querem fazer passar a mensagem. Sem contar com o genocídio inquisitorial secular. Ou como Ramalho Eanes que há dias declarou, melancólico, que sem o império seríamos uma Catalunha qualquer! Pois não somos, não. Mamadou Ba pôs o dedo nas feridas ainda abertas do domínio ocidental nas colónias portuguesas. E sentimo-nos incomodados com o que diz, embora, para mim, isso seja salutar como forma de encontrarmo-nos como povo duas vezes violentado. Pelo fascismo elevado a estado durante 48 anos com o seu rol de arbitrariedades e de violências cobardes de quem dispõe de força bruta e a usa sem grandes problemas de ética cristã e igualmente por um império de papel em que outros, mais fortes, tiravam todo o proveito. 

Não se admirem de ver intelectuais «de esquerda» nesta onda racista contra Mamadou Ba. Eles existem e estão por aí, abrindo, ou melhor, escancarando portas para o ataque violentíssimo ao responsável do SOS Racismo pela direita, quer seja ela «civilizada» ou ultra. E não falo de Fátima Bonifácio, José Manuel Fernandes, Rui Ramos, João Miguel Tavares ou outros, mais soturnos, que vão subindo a escada universitária pela Nova Portugalidade muito mais perigosa que os «chegas» deste país. 

Estou a referir-me a um indivíduo em particular: a Guilherme Valente que fez um dos libelos anti-Mamadou mais violentos que alguma vez eu li, com ampla mediatização pelo Expresso e sem possibilidade de este se defender. Isto logo em 22 de Dezembro de 2020! Um editor, dito amante da cultura, dito antifascista e anti-racista, editor da Gradiva, auto-denominado igualmente de «ser humano» e com «amigos de origem africana» (claro!) afirma nesse artigo coisas destas: «O Senhor Mamadou Ba é um perigo público. Um racista à solta que as autoridades fingem ignorar e a justiça e as leis deixam impune. Racista desde logo porque para ele só há racismo ''branco''.» E continua imparável: «O racista (já expliquei porquê) Mamadou Ba volta a chamar racistas às nossas instituições, as nossas leis, aos portugueses. Continuarão em silêncio os ''racistas'' PGR, ministra da Justiça, primeiro-ministro, deputados da AR, Presidente da República?». Mas Guilherme Valente não tem medo: «A mim não me dividirá Mamadou Ba: estou ao lado dos meus compatriotas e amigos Portugueses de origem africana.» Certamente contará com a presença do espírito de Marcelino da Mata! E o excelso editor, magoado, pela não deportação de Mamadou e possivelmente de Joacine, remata: «Pode agora o Senhor Mamadou Ba afirmar-se perseguido e mártir, como já começou a fazer, mas essa treta não pegará. Se quer passar por mártir e herói vá para África ou para o Médio Oriente (...)».

Querem mais exemplos de como construir um clima de ódio e perseguição a uma pessoa como Mamadou Ba? Assim se abrem portas para «Preto, vai para a tua terra!» e nos mostramos em toda o esplendor imperial e colonial que povoam muitas cabeças. E pretensiosamente pensantes. È deles que eu tenho receio. 

António Luís Catarino

18 de Fevereiro de 2021


sábado, fevereiro 13, 2021

Centro histórico de Bergen, Noruega. Scketchbook a preto e branco.

 

Bergen, uma cidade da Noruega de que gostei muito, desenhado e aguarelado em preto e branco, por mim. É o seu centro histórico. Tudo o que se vê, tal como em desenhos anteriores que publiquei aqui, foi bombardeado pelos nazis em 1943, segundo me disseram. Só restaram duas casas de madeira do século XVI da velha Hansa e que eu visitei igualmente.

terça-feira, fevereiro 09, 2021

Bergen, Noruega. Aguarela

 


Aguarela de Bergen, Noruega. Centro histórico em Junho 2018

Feito em 6 de Fevereiro de 2021

segunda-feira, fevereiro 08, 2021

«O Eclipse da Razão», de Max Horkheimer

 

Antígona, 2015. Tradução de João Tiago Proença

Livro datado no tempo, mas ainda assim actual. No sentido em que a análise que faz da sociedade capitalista e do seu sistema de produção provoca o aparecimento da alienação. A Razão, quer objectiva, quer subjectiva não produz nenhuma superação da democracia por uma incapacidade teórica baseada nos pressupostos da Revolução Francesa e, antes, pelo sistema iluminista que a provocou, provavelmente sem a querer.

Assim, o ideal tão hipócrita da Igualdade, Liberdade e Fraternidade soçobrou perante a avidez liberal-capitalista responsável pela destruição da Natureza e, por consequência, do próprio ser humano. A Razão alcandorou-se no pragmatismo e no bom-senso desígnios tão burgueses, quanto dominadores. Sem compreenderem, porém, que estes mesmo valores são causas da sua própria destruição, porque incitam a Razão à democracia e à sua perversão, ou seja ao campo totalitário e fascista-nazi. Todo o democrata que provoca guerras (e continuam a ser constantes pelo domínio imperial-capitalista) tem igual razão convocada em nome da verdade, como o nazi que estabelece e coordena o holocausto, a guerra genocida e o horror em nome da mesma verdade e objectivo racional.

O pragmatismo, contudo, nem só dos sistemas políticos vive. Igualmente terá os seus dias contados a religião que à custa de ser pragmática e utilizando o bom senso no decorrer de 2000 anos, vê os seus crentes boquiabertos, ao verem o que eram verdadeiras heresias ainda há poucos anos serem transformadas em encíclicas papais. A modernidade oblige. Tal como os ateus que, acreditando num ser supremo, como Voltaire, ele próprio um papa do Iluminismo, também ele um pragmático que se socorria de dar a Razão aos iluminados nobres e burgueses, retirando essa prebenda ao povo. Infelizmente os seus seguidores tiveram de aceitar por meio de revoltas irreversíveis a ascensão popular e o voto universal. 

Hoje, não se fez ainda a superação da democracia racional e iluminada, nem do capitalismo e dos meios de produção que recorre através da alienação. No entanto, Horkheimer não transforma, não propõe, até resiste ao activismo, opondo-se ao «velho» Marx que rogava, e até certo ponto construiu, uma filosofia transformadora, portanto, não contemplativa como até aí. Percebe-se até certo ponto. O filósofo da Escola de Frankfurt pretende voltar à filosofia como um sistema de pensamento especulativo, germinal que vele pelas aspirações livres da humanidade e do indivíduo. Por isso, ou talvez por isso, confronta o anti-intelectualismo e ignorância bem presente tanto na cultura de massas como à brutalidade fascista inerente. 

Falecido em 1973, como veria ele hoje, que tanto criticou, já em 1946, o domínio e alienação do Homem pela tecnologia, a sociedade contemporânea? Sociedade essa que colocou panópticos em satélites que podem vasculhar (e vasculham mesmo) a nossa vida mais recôndita? 

António Luís Catarino

«Paraíso e Inferno», de Jón Kalman Stefánsson

 

Edição da Cavalo de Ferro, 2013

Frio como tudo, não fosse Bárdur a personagem primeira do livro de Jón Stefánsson ter morrido de hipotermia no mar revolto do Ártico. Estamos na Islândia do século XIX e acompanha-nos esse clima gelado, mesmo quando desponta a primavera, e um amigo, Gúdrun, ou «o rapaz», como lhe passou a chamar o autor, desse pescador morto tragicamente porque se esqueceu de um simples impermeável na faina, se dispõe a atravessar montanhas geladas para devolver «O Paraíso Perdido», de Milton, a Holsteinn, um alemão cego (tal como Milton) e que este tinha emprestado a Bárdur. A errância de um local para outro é tão soturna quanto aos lugares que vai habitando. As personagens seguem-se num ritmo lesto, como quem bate os pés na neve para os não deixar frios ou mexermo-nos constantemente de modo a fazer circular o sangue. E a cerveja mais o vinho que correm nas tabernas. Mas é um livro triste, sem esperança. Só aparece algum conforto com mulheres de estranhos nomes, sardentas, louras ou de cabelos negros. Geirprúdur, Helga, Andrea, Gíslí, Torfhildur ou Ólafía esperam pelos homens que se afogam amiúde e recebem maridos como quem colecciona arenques ou bacalhaus. Talvez o autor queira insinuar uma sociedade matriarcal. E fala-se da morte como uma espécie de companhia permanente desses ilhéus viquingues. E de palavras também. Regista-se:
«As palavras são flechas, balas, pássaros mitológicos que perseguem deuses, as palavras são peixes com muitos milhares de anos que descobrem algo terrível nas profundezas, são redes suficientemente vastas para prenderem o mundo e também o céu, mas, por vezes, as palavras não são nada, roupa rasgada que o frio penetra, uma ameia desmoronada por cima da qual saltam ligeiramente a morte e a infelicidade.» (pág. 163)
Embora o Atlântico que banha o meu país, seja a continuidade sul do Ártico, juro que nunca tinha percebido as palavras desta maneira.

Sendo este o primeiro romance de Stefánsson e editado em 2013 em Portugal continuaremos a saga com «A Tristeza dos Anjos» já nas nossas mãos. Mas comparar este romance com «Moby Dick» ou «O Velho e o Mar», como fazem realçar os editores na badana da capa, não será um pouco exagerado?

António Luís Catarino

segunda-feira, janeiro 25, 2021

Carta entreaberta aos jovens antifa

Porto, na Gato Vadio
À malta mais nova antifa: tenho 64 anos e já vi o suficiente para dar-vos um conselho sem qualquer paternalismo já que devem estar fartos dessas elucubrações de tipos obesos de tanto «achismo». A direita, junto com o PS, entendeu desmantelar, em décadas, o SNS, a educação pública, a habitação social, degradar salários e carreiras, impedir o acesso à justiça (claramente parcial), favorecer e fortalecer até ao inacreditável as multinacionais. Aceitou o Tratado de Lisboa e foi o melhor aluno da Europa no desmantelamento do tecido produtivo do país; apostou em dar cabo dos agricultores e dos pescadores com grande violência para o seu património; encolheu os ombros à floresta a arder; recebeu a troika. contente, radiante e humilhou-vos, mais a nós e aos reformados. Obrigou-vos à emigração. Escarneceu da cultura e do pensamento. Abocanhou a comunicação social. Riu-se da Constituição não a cumprindo nos seus valores mais solidários e sociais. Privatizou à bruta, retirando do interior do país os correios, as escolas, os centros de saúde, os bancos, os comboios e reduziu a circulação dos habitantes do interior até às cidades. Entretanto, o PS, o PSD e o CDS, há décadas no poder, aceitaram, ou na melhor das hipóteses, esconderam a corrupção larvar, a boçalidade política de quem tem lugares assegurados e o compadrio político das jotas e do centrão. Percebem de onde vem a revolta?

Isto não tem nada a ver convosco, nem connosco, nem com os mais velhos e muito menos com as crianças deste país. A esquerda, que agora se apoda na comunicação social, de «extrema», sempre defendeu outras políticas. Sempre resistiu e esteve ao lado dos desfavorecidos, culpados por esta gente de direita de serem pobres. E já passámos bem pior, por muito pior no plano político. Os resultados, são resultados eleitorais. De nada valem se não tiverem continuidade na análise atenta do aproveitamento que o fascismo faz deste lindo trabalho de anos seguidos. A luta far-se-á por todo o lado e principalmente onde estudamos, onde aprendemos sempre, onde trabalhamos e na rua, associando-nos fortemente e levando mais a sério uma coisa que os gregos, avisados, inventaram: a política. E, já agora, o ostracismo para quem atentava contra a democracia. Abraço forte, mas a política não se faz aqui no facebook. Dá-nos, propositadamente e com um forte controlo das nossas vidas,, uma perspectiva completamente errada da realidade. Isso também se aprende depressa.

António Luís Catarino
25 de janeiro de 2021 (um dia após as eleições presidenciais que deu o 3º lugar a André Ventura, atrás de Ana Gomes e Marcelo Rebelo de Sousa e publicada no facebook)

sexta-feira, janeiro 22, 2021

Escritório em ponto de fuga (contínua)


O escritório onde trabalho, onde leio naquele sofá ao fundo, a minha escrivaninha que me acompanha desde miúdo e que não sei como sobreviveu às inúmeras mudanças da vida, onde ouço o meu jazz, a minha música clássica ou o Bowie e Springsteen quando me dá na gana. Os livros estão também comigo, são a minha companhia, se não for demasiado piegas dizê-lo aqui. Os meus desenhos igualmente em gavetas e armários, quase escondidos como alguns desenhos expostos e que ninguém os quis. O desenho foi fruto igualmente do mesmo curso online em que um professor sueco (isto não é para todos!), Mathias Adolfsson de seu nome e que nunca se ri, me ensinou e encomendou este trabalho sobre o ponto de fuga. Avaliou-o em «muito agradável e com ótima profundidade». Não era isso o que se queria com um ponto de fuga? Que ela, a fuga, fosse agradável e profunda?

Uma cidade numa perspectiva isométrica


Quando me inscrevi num curso de desenho online, foi também pelo primeiro confinamento em Março de 2020. Sempre desenhei, mas também fui sendo ciente das minhas limitações técnicas. Desenhar benzinho nunca foi um objectivo meu. Fiquei, portanto, admirado e agradavelmente surpreendido com o desenho de uma cidade isometricamente planificada, se é que se pode dizer assim. As coisas estavam todas no seu lugar, o caos deu lugar à ordem. O que me saía, saía, sem grandes motivos razoáveis ou de grandes arroubos explicativos. Uma casa e um símbolo religioso, um lápis com vida, uma equilibrista sem rumo (talvez um déjà-vu), uma cafeteira automobilizada, um cão que persegue alguém vestido de preto (um assaltante?), um autocarro de anda às voltas... é uma cidade. Minha. Mas de planificação isométrica, não vá o meu professor nórdico zangar-se.

terça-feira, janeiro 19, 2021

«Internacional Letrista, Potlatch nº5 - Que sentido dá à palavras poesia?»

 

Resposta a um inquérito do Grupo Surrealista Belga:

Que sentido dá à palavra poesia?

A poesia esgotou os seus últimos prestígios formais. Para além da estética, está inteiramente no poder dos homens sobre as sua aventuras. A poesia lê-se nos rostos. É por isso urgente criar novos rostos. A poesia está na forma das cidades. Por isso vamos construí-las transformadoras. A beleza nova será DE SITUAÇÃO, quer dizer provisória e vivida.

    As últimas variações artísticas interessam-nos apenas pela força influencial que nelas possamos pôr ou descobrir. A poesia para nós não significa senão a elaboração de comportamentos absolutamente novos e dos meios de nos apaixonarmos por eles.

Internacional Letrista (texto publicado no número especial

de 'La Carte d'après Nature', Bruxelas, Janeiro de 1954

POTLATCH, nº5, tradução de Leonel Moura. Edição portuguesa de Fenda Edições.

domingo, janeiro 17, 2021

«Negreiros-Dantas. Coimbra Manifesto 1925», de Rita Marnoto. Ou de como os «palermas de Coimbra» ousaram lutar contra a Santa Pasmaceira

 

«Negreiros- Dantas. Coimbra, Manifesto 1925», de Rita Marnoto. Capa: João Bicker. Fenda. 2009
Ou os «palermas» de Coimbra lutando na Santa Pasmaceira universitária!

Este livro de Rita Marnoto, editado na Fenda em 2009, levanta questões inauditas sobre o movimento futurista em Portugal. Sabemos que este movimento, cuja figura mais proeminente foi Almada, nunca foi muito homogéneo, mas torna-se mais interessante quando percebemos que em Coimbra se afirmou um fulgor de índole futurista que se opôs, em parte e pela mão do estudante Francisco Levita, contra Almada Negreiros. É Rita Marnoto que nos diz: «A desafiar Almada Negreiros houve muitos, mas a fazê-lo como futurista, Levita teria sido um dos poucos». Antes de apresentar-vos aqui algumas descrições do livro valerá a pena referir Petrus. Não fosse este editor ter arrolado, em enciclopédia, múltiplos manifestos, poemas soltos, livros, panfletos, volantes e papéis de todos os feitios dos movimentos modernistas e de vanguarda, teríamos perdido para sempre um espólio de grande riqueza que fará, certamente, retratar um país um pouco menos parolo e tão sonolentamente académico como o foi no século passado.

Fixemo-nos em Francisco Levita, estudante da Universidade de Coimbra em Direito, menino com posses, vindo de Portalegre, e dado à tão falada coboiada noctívaga da cidade. Também amante da «photographia». Dele, sabemos o que outros deixaram em memórias e está devidamente registado o escândalo no Hotel Palace do Bussaco em que exigiu uma ementa futurista de frango com chocolate e omelete de pêssegos, regado a champanhe o que os fez vomitar na volta da brincadeira, além de uma interrupção abrupta, na Sala dos Capelos, a um famoso lente, logo após a instauração da República que o futurista apoiava. Suicidou-se em 1924, um ano antes do manifesto futurista de Coimbra. Levita não era mau poeta e os seus poemas são claramente futuristas, com onomatopeias, monossílabos ou caracteres tipográficos identificadores da corrente. Aliás, a autora conseguiu resgatar, na biblioteca de Portalegre, outros livros dele que não o manifesto de 1916 que deu mais brado. Falamos do que se opôs a Almada Negreiros.

Não é de todo impossível que Levita tenha conhecido Almada Negreiros quando este último deambulava também por Coimbra, sendo expulso pelo senhorio que era amigo de seu pai. Talvez por se portar bem e ter reprovado por faltas... digo eu. O último verso do manifesto «Negreiros-Dantas» não clarifica se o conheceu ou  não «Este Sterico que eu já vi fazer de gaivota, bailando em noites de podridão, classificou-se agora, é o DANTAS nº2». Ora, noites de podridão, dá-me a ligeira ideia que se trata de Coimbra! Já bailar como uma gaivota, não conhecemos na dramaturgia ou conferências de Almada, tal feito. O que o leva Levita a atacar este? O Manifesto Anti-Dantas é de 1915, um ano antes de «Negreiros-Dantas» e produziu o baque conhecido, maioritariamente pelos saudosistas e naturalistas. Mas por um futurista de Coimbra? «(...) Os meus pensares confirmaram-se quando o pateta que se diz Futurista e Tudo, lançou praï um manifesto em prosa de algodão, tratando de um outro imbecil: o Sr. de Dantas!!,,, Ja é preciso ser Rasco em literatura pra se prender com tal banalidade!!! E' necessario serse idiota ou burro, tarado ou imbecil, ou Dantas, ou cretino ou Almada Negreiros!!!»

Já o Manifesto de 1925 levanta outras questões e a análise torna-se mais atenta porque se trata de um grupo coeso e literariamente mais estruturado. Por isso igualmente mais divulgado tanto no Diário de Lisboa como no Diário de Notícias. Nenhum era natural de Coimbra. Falamos de Mário Coutinho, das Caldas da Rainha, de Abel Almada, de Santana, Madeira, João Carlos, de Ílhavo e António de Navarro, de Nelas. Claramente perfilhados com Marinetti, que o conhecem e lhe leem os manifestos saídos em 1909, no Figaro e em 1912 o  Manifesto técnico da literatura futurista onde advoga «a abolição do advérbio e do adjectivo e o uso de pares de substantivos» como nos diz Rita Marnoto.

Na entrevista que Mário Coutinho dá ao Diário de Lisboa, num quarto da Alta, mais propriamente na Rua das Almas, afirma «Queremos mostrar que Coimbra não morreu, que ainda é um centro artístico, onde há vida, aspirações e gente que sabe o que quer, que tem um fim. Há dez anos, pouco mais ou menos, não sai de cá uma obra que fique, que marque. Nós pretendemos construir essa obra.» 

Mas é António de Navarro que parece ser o mais esclarecido, tendo levado esta gente a organizar-se em torno de duas revistas antes da publicação do Coimbra Manifesto de 1925 - a Bysancio e a Triptico. Esta última aliás recebe directamente de Marinetti os seus manifestos, poemas e opúsculos da Corso Venezia, 61, Milano, pelo que não nos admiramos de ter havido contactos directos entre os futuristas conimbricenses e o papa do Futurismo. O arrojo e a violência verbal (a física nunca foi afirmada pela corrente portuguesa) teve um episódio bem sugestivo: a 17 de Março de 1925, António de Navarro e os seus amigos, promovem um happening futurista no Teatro Sousa Bastos que acabou com uma agulheta de incêndio a encharcar o palco e os conferencistas que, mesmo assim, não paravam de invectivar o público estudantil e, a bem dizer, algo morcão.

Nesta onda, José Régio, que nunca foi um «convicto» do movimento, abordando-o contudo, afirma sobre o movimento futurista de Coimbra num manuscrito inédito e que Rita Marnoto nos apresenta: «Com a intenção de lhe arrancar informações sobre o movimento literário que presentemente arranha a Senhora Pasmaceira de Coimbra, trago até ao quarto andar em que moro o meu amigo António de Navarro» e num diálogo ao que se julga nesse mesmo quarto, onde via Coimbra «lá em baixo», transcreve um diálogo em que António de Navarro lhe confia: « - Ah, meu amigo! Coimbra tem vivido, ultimamente, num verdadeiro estagnamento. Nós pretendemos abrir brecha, despertando energias e desempoeirando o sentido da arte. Que cada um de nós conquiste a sua própria sensibilidade, desprezando os dogmas, as algemas, a galeria - tudo o que possa atirar poeira e nevoeiros aos nossos olhos - Nós queremos Sol e Ar Livre!»

Bom, foi Eduardo Lourenço que nos disse que toda esta energia acabou na Presença, uma moderação dos sentidos e de rupturas, mesmo que mais tarde se tivesse arrependido de o ter dito. O fascismo de 1926 não explica tudo, nem a Santa Pasmaceira de Coimbra. Chega a ser comovedor este livro publicado pela Rita Marnoto. Eis os ditos «palermas de Coimbra». Ou talvez não. Acabaram (quase) todos no esquecimento e no silêncio.

E a pasmaceira continua, agora que veio para ficar, digo, mais uma vez, eu! 

            Fac-simile de «Negreiros-Dantas», de Francisco Levita, de 1916, resgatado por Rita Marnoto

António Luís Catarino
Santa Pasmaceira, 17 de Janeiro de 2021


quarta-feira, janeiro 13, 2021

«As Cidades Invisíveis», de Italo Calvino

 


«(...)Uma a uma, as espécies inconciliáveis com a cidade tiveram de sucumbir e extinguiram-se. À força de dilacerar escamas e carapaças, de extirpar élitros e penas, os homens deram a Teodora a exclusiva imagem de cidade humana que ainda a distingue.
    Mas antes, durante longos anos, ficou incerto se a vitória final não seria da última espécie que resta a disputar aos homens a posse da cidade: os ratos. De cada geração de roedores que os homens conseguiam exterminar, os poucos sobreviventes davam à luz uma prole mais aguerrida, invulnerável às ratoeiras e refractária a todos os venenos. No decorrer de poucas semanas, os subterrâneos de Teodora repovoavam-se de hordas de ratos invasores. Finalmente, com uma extrema hecatombe, o engenho mortífero e versátil dos homens venceu as abusadoras atitudes vitais dos inimigos.(...).»

As Cidades Invisíveis, em As Cidades Ocultas.4. Italo Calvino

quinta-feira, janeiro 07, 2021

«Florinhas de Soror Nada», de Luísa Costa Gomes

 

Ou a vida de uma Não-Santa, como consta do subtítulo. Um guia completo de como se perde a fé quando esta se instala forte e precocemente numa alma inquieta e insubmissa como parece ser Teresa. Desconfio que aqui há qualquer coisa de autobiográfico, embora isso seja de pouca importância para o caso. Afirmo-o porque Luísa Costa Gomes dá a conhecer o processo lento e doloroso da perda de fé que equivale a encontrar-se com o vazio de um mundo estranho, esse que se faz sem Deus, mas igualmente pelo ambiente claustrofóbico e violento de um colégio interno, de uma fuga de casa ou da vivência muito particular de uma família portuguesa dos anos sessenta. A religião católica presente na educação de uma jovem, em que os sentidos e as dúvidas estão mais que nunca presentes e que nos queimam a carne e o espírito. Muita gente da idade da autora sentiu a solidão, e por vezes o desespero, que comporta esse processo. Não é tanto o medo que um(a) jovem pode sentir ao abandonar os predicados religiosos, mas a estranha sensação de estarmos perante o nada, o desconhecido, ou pior, a traição que cometemos quando nos confrontamos com a expulsão dos santos que julgamos mártires por nós. 

E a nossa fuga do mais mártir de todos, Jesus em Golgotá, ele próprio, que falou a Maria que já não era sua mãe. O enorme leque católico de santos e anjos, encontram-se ao lado de Teresa, a protagonista de «Florinhas de Soror Nada», glosa de outras santas florinhas: as de S. Francisco de Assis mais propriamente, mas também as de São João da Cruz, de Teresa de Ávila, de Santa Joana, do jejum de Simeão, da mártir Catarina de Siena e de Santa Clara. A intenção de dar tudo aos pobres, ao despojamento total, permite-nos ler uma das mais significativas (e desconcertantes) passagens do livro:

«(...) Mas dava-se aos pobres, para os pobrezinhos era a fartura. Acabava num ciciar cuspinhado que lhe deixava manchas aos cantos da boca. Teresa sofria em silêncio, ostensiva, e depunha dois ovos em cima do todo. Deveriam ser idealmente ovos de pomba, mas os pobres entendiam a alusão. A mãe dizia: «Que desordem, Teresa! Olha para essa confusão! É assim que fazes o trabalho do Senhor?» Ela desdobrava o pano bordado, engomado e teso e tapava a obra. Era dos três o cabaz mais reflectido, e logo aquele a merecer censura. Coberto, o estandarte do sagrado coração de Maria punha no cesto dela uma erecção obscena. A catequista avisava contra esta prevalência de objectos sobre o comprido, oblongos, cilíndricos, prismáticos, oblíquos, verticais, horizontais, que sugerissem excrescências. (...)»

E quando Teresa, seráfica e decidida, dá aos pobres nesse caminho de santidade não espera por compreensão, tal como os santos não esperavam, no seu martírio, a redenção pelos mortais: ««Trazes aí o quê?», perguntou um. E a mulher, sentada à soleira da porta com o infalível infante adormecido à mama: «É feijão de rabisco, que a gente chama feijão-de-peido, o que há-de ser?, e logo outra, rindo, mais bem treinada: «A menina desculpe, ela não diz por mal, a gente agradece à menina.» Teresa pestanejara à desconsideração, tinha sensibilidade à desconsideração. «Desculpe, sim, mas é que o feijão a mim...» «Dá caganeira.»»

De facto, não há quem aguente as sevícias produzidas pela fé profunda e Teresa, enquanto se recorda da hagiografia de Teresa de Ávila, ascende-se aos céus pelo baloiço libertador, nesta prosa que só Luísa Costa Gomes tem o condão de nos oferecer: 

«(...) Partilha da agonia do amor a ascensão de Teresa no baloiço; perdida e anulada a gravidade do pecado, o escrutínio dos exames de consciência, o cálculo das confissões, a inutilidade dos sacrifícios; na graça do voo em que se lança finalmente, do ponto mais alto das correntes, vai leve e renascida, ao desamparo do ar livre.» 

Ao ler este trecho de «Florinhas de Soror Nada» lembrei-me de alguma lírica de Camões, desses sonetos belíssimos a que a autora deu o ritmo certo em prosa; repita-se: «...na graça do voo em que se lança finalmente, do ponto mais alto das correntes, vai leve e renascida, ao desamparo do ar livre.» A obra de Luísa Costa Gomes surpreende-nos muitas vezes pelo desvio, pelos caminhos laterais da leitura. Por vezes numa cadência de uma falsa lentidão, para um arrebatamento poético de odes perfeitas. E subitamente me dou conta que foi autora igualmente de libretos para ópera e escrita para teatro. Não sei se isto está tudo ligado, como soe dizer-se, mas que existe qualquer coisa de notável e de óbvio na musicalidade da sua escrita que nos envolve de mansinho é uma constatação que se sente. Provavelmente muito minha, mas eu não sou crítico de coisa alguma.

O final do livro é comovedor, não porque puxe à lágrima fácil, mas pela violência marcada de uma vida toda. Afinal, Teresa cresceu como era natural. O que não esperamos são as  cicatrizes, literais ou intangíveis, que acompanham a personagem até ao seu final demente num lar, sem casa, porque vendida pelos filhos para pagar a clínica, com a alegria forçada das voluntárias de hospital e de palhaços de feira dos lares de velhos. Teresa foge do lar como antes, jovem, fugiu do colégio de freiras. Mas a fuga é sem sentido e tem sempre uma lógica: a permanência. A estabilidade de um namorado, ou o encontro de um casamento não propriamente feliz, mas sólido. A cena em que Teresa, já nos oitenta, afirma à neta que teve um encontro com a sua mãe é inesquecível. Apercebemo-nos, no final, que a Soror Nada somos todos. Isto é tudo demasiado frágil e a caminho alegremente do Nada. 

Não deixem a sós este livro. 

António Luís Catarino
7 de Janeiro de 2021