sábado, agosto 15, 2026

"As Confissões. Primeira parte", Jean-Jacques Rousseau

 

E-Primatur, 2025. Tradução de Manuel de Freitas. 

Numa época em que dificilmente se encontra qualquer identificação pessoal, em que o miserabilismo cultural é uma realidade, em que qualquer asno se não coíbe de se considerar como um pensador, quando o caminho que a sociedade escolheu, com o beneplácito de imbecis encartados, é o da sua própria sobrevivência, não deixa de ser reconfortante iniciar a leitura de «As Confissões», de Jean-Jacques Rousseau. 

Talvez esta primeira leitura nos obrigue a conhecê-lo melhor e compreender algumas das suas escolhas e explanações filosóficas que mudou substancialmente o rumo da sociedade feudal e aristocrática, dando início a uma das maiores revoluções que a História conheceu: a Revolução Francesa de 1789, mesmo que ele se mostrasse avesso a qualquer acto de violência e tivesse falecido muito antes do seu eclodir. Mas não deixa de ser sintomático o que disse quando assistiu aos «confrontos» de Genebra em 1737: «Esse espectáculo horrível causou-me uma impressão tão intensa que jurei nunca participar em qualquer guerra civil e nunca procurar defender a liberdade pelas armas (...)» (pág.260). Assim era Rousseau, um tipo inquieto, procurando através dos livros, que lia em catadupa desde criança e sem método, uma síntese que o pudesse levar a um pensamento lógico e estruturado. Não se vê ainda aqui neste volume, visto que Rousseau é ainda um jovem entre os onze e vinte e cinco anos, mas já se nota o seu interesse por imitar a escrita de Voltaire, que admira, e citar antes do seu tempo, Diderot, a quem propôs uma volta a Itália a pé, desde os Alpes suíços. Diderot, embora aceitando, foi colocando educadamente a hipótese, meia louca, em banho-maria. Na sua juventude, como conta neste primeiro livro, para além dos já citados livros de todo o tipo que devorava impulsivamente, dedicou-se igualmente à composição musical que levou até bastante longe na sua idade e ao desenho e geometria. Vendeu, para sobreviver, os seus livros de geometria e queimou várias composições e óperas da sua autoria. 

De resto, vemos Rousseau na sua juventude envolto em liberdades amorosas, principalmente com a senhora de Warrens, a quem chama de «mamã» (a sua morreu o seu nascimento) e que por vezes acontece tornar-se parte de um dos vértices de triângulos de desejos incontidos. Preceptor de jovens de famílias ricas, consegue reconhecer os seus erros e atitudes menos correctas apontando já para a tema de «Émile» e de «Heloïse», assim como as suas constantes viagens a pé ou de liteira, o apontam para o «Pensamentos de um Caminhante Solitário». O que nos faz ler este volume num ápice é o facto de Rousseau se mostrar completamente despido diante de nós, de ser honesto em extremo, coisa que não é habitual em autobiografias. A sua relação com a religião não é esquecida e o facto de ser católico e mais tarde ter-se convertido ao deísmo, se assim se pode utilizar o verbo «converter» quando se fala em deísmo, mas nota-se já o seu profundo desprezo para com a igreja e claramente adepto da convivência entre todas as religiões do mundo. 

Não se revê na França do século XVIII e muito menos em Paris. Embora suíço de nascimento, genebrino, e cidadão do cantão de Vaud, Paris foi para ele uma grande desilusão motivada pelas enormes desigualdades sociais a que assiste em jovem. Mostra o desdém do dinheiro e do que ele pode dar, recusa a servidão a que este obriga as pessoas que o perseguem com obsessão. Usa-o, gasta-o, não sem dificuldades várias, guarda-o na medida certa: «O dinheiro que se possui é o instrumento da liberdade, aquele que se persegue é o instrumento da servidão. É por isso que o junto com cuidado e que não cobiço nada.» (pág.50). Parece-me que o deve e o haver com a filosofia e com os seus contemporâneos vai ter vasta descrição no segunda parte da autobiografia.

Rousseau ainda é hoje execrado por vastos sectores da direita e da extrema-direita. Em pleno século XXI, tal como Marx e outros igualitários, é objecto de torções ideológicos que deixam um rastro de ódio, mentiras e meias-verdades, mesmo até por alguns sectores de esquerda. Convém lê-lo em «As Confissões» e talvez entendamos melhor ao que veio e o que publicou. Afirmá-lo como um «inimigo da liberdade» tal como o fez Isaiah Berlin e muitos que o seguem nas universidades actuais é. no mínimo, qualquer coisa de infame e intelectualmente desonesto. 

Nota pouco importante, mas intrigante: lembram-se, certamente, da rábula do pão e dos brioches a que atribuímos a Maria Antonieta. Há quem diga que nunca o disse, visto que o boato era uma forma de desinformação constante nos dias anteriores à Revolução Francesa, mas serviu como metáfora maldita para a jovem rainha. Ora, neste livro, na página 323, ele dá esse exemplo como fosse dito por uma «princesa», mas não a identifica. Rousseau morre em 1772, muito antes da data de 1789. Maria Antonieta é morta em 1793, tendo-se casado. com Luís XVI, em 1770, com catorze anos. Penso que nunca poderia ser ela a autora da frase que lhe é atribuída, ou, se o fez, era extremamente nova. Então a quem?

alc