terça-feira, dezembro 30, 2025

"O Ofício", Serguei Dovlatov

 

Antígona, 2018. Tradução do russo de Galina Mitrohovitch. Prefácio de Júlio Henriques.

Ao ler Dovlatov recordei-me, talvez de uma forma um pouco abusiva, de uma sessão de «Lágrimas e Suspiros», de Bergman, completamente truncada pela censura que fez com que o público do teatro Gil Vicente apupasse ruidosamente, não o filme em si que adivinhávamos ser uma obra de arte, mas a condição paupérrima e ridícula, sem nenhum sentido, com que foi apresentada tal exibição. Em 1973, as pessoas exasperavam-se perante o «exame» a que foi votado o filme pelo governo da «evolução na continuidade» de um país adiado. Pelo menos por mais um ano. Assim terá sido, provavelmente, a experiência de Dovlatov e de outros escritores que viam sistematicamente negada a publicação dos seus escritos na União Soviética de Brejnev e Andropov. Com uma ressalva: na grande maioria dos casos as recensões da União de Escritores eram mais do que satisfatórias sendo que, no último parágrafo vinha plasmada, com falsa tristeza, a impossibilidade de publicação. Dovlatov já procurava ler somente esse derradeiro parágrafo que se repetia por anos a fio até que, suponho que desesperadamente ousado, teve de se deslocar à sede da polícia política, na Lubianka, para que lhe devolvessem o manuscrito de um livro. Assim aconteceu, até ser preso por seis meses sem que lhe fosse dito a razão do seu encarceramento. O autor de «O Ofício» não era de direita. Não se vislumbra nos seus escritos quaisquer referências que habitualmente campeiam na grande família de dissidentes russos da era soviética, como o factor religioso, anticomunista e até pró-fascista.

A correspondência trocada entre o escritor e a censura é de provocar sorrisos condescendentes ou gargalhadas abertas, mas essencialmente o que fica é a estupidez de quem usa o poder para cancelar a  criatividade e a imaginação. A censura é essencialmente tacanha. E quem é censurado sabe que de qualquer modo o vão ouvir, ler, comentar por muito que lhe doa o facto de não ser considerado «oficial», um peão da cultura de Estado, seja ele o que for e de como é dirigida a proibição que, de outro modo, o permitia conhecer uma grande massa de leitores. Dovlatov, parte para o exílio nos EUA e aí vê-se perante outro tipo de censura: a do capitalismo e do lucro. Avisa os seus conterrâneos que o facto de serem censurados na URSS, não lhes dá a aura de génios incompreendidos; talvez, até, esse facto esconda as suas incongruências e fragilidades. Troça de Soljenítsin e da sua narrativa sobre o sistema prisional russo, ele que na sequência da expulsão de uma universidade de Leningrado se vê compelido, no exército, a ser guarda prisional durante três copiosos anos da sua juventude e que o leva a afirmar que «os presos especiais são iguaizinhos aos guardas» não vendo grandes diferenças de pensamento entre uns e outros. Grande bebedor de vodca e seguidor de jazz, morre precocemente aos 48 anos, na América que o recebe desconfiada, tal como os russos e judeus no exílio novaiorquino. 

alc

quinta-feira, dezembro 25, 2025

"Ódio à Civilização Moderna", William Morris

Cornuda Radiante, 2025. Tradução, selecção e notas de Júlio do Carmo Gomes
Não se pense que estamos unicamente perante um livro histórico, datado no tempo. «Ódio à Civilização Moderna» é uma edição recente da Cornuda Radiante, que nos remete para um autor singular no que à ideia de socialismo diz respeito. Trata-se de uma selecção de escritos, quase todos dos finais do século XIX, que se debruça sobre a construção de uma sociedade comunista e que bebe os seus pressupostos nas ideias de Marx, do socialismo e do anarquismo. O que é singular em Morris é o facto de encontrarmos nele um profundo amor pela Natureza e pela solidariedade comum dos homens que só se libertariam do capitalismo e do trabalho assalariado através da construção de uma ideia e prática comuns baseadas no trabalho livre e nas relações de entreajuda em comunidades verdadeiramente cooperativas. A síntese comunista é uma evidência em William Morris, mesmo que Engels o tenha desconsiderado, em correspondência privada, chamando-lhe um «burguês acomodado». Morris desanca a sociedade vitoriana e o capitalismo adivinhando-se já que este se desenvolveria de crise em crise, colocando em causa as relações humanas baseadas no domínio e subjugação dos mais fracos, os trabalhadores, e pelo extractivismo que anunciava uma Natureza exaurida. A fealdade das cidades e dos seus edifícios, o desarrumo dos campos, o fim do artesanato que criava coisas úteis e belas, foram a pedra de toque da denúncia de Morris de uma sociedade que criticou severamente. Perante o reformismo dos socialistas, preconizava a abstenção e a preparação de uma revolução que os ingleses teimavam em negar. Defendia um proselitismo activo das ideias socialistas na classe trabalhadora e invectivava as classes médias a afastarem-se das práticas capitalistas que apontavam à ruína e ao fim de uma humanidade em vias de deixar de ser pela existência de guerras permanentes a que se obrigava pela lógica dos lucros sem fim, da maquinaria industrial que exigia o fim do trabalho livre pela existência de um trabalho escravizado e do estertor da Natureza que se consumia pelo extractivismo. Talvez as melhores páginas desta selecção levada a cabo por Júlio do Carmo Gomes sejam as que se referem à construção pormenorizada de uma sociedade comunista: algumas delas claramente influenciadas pelo socialismo de Proudhon e pelo falanstério, mas igualmente pelas teses de Marx. William Morris não esconde o seu profundo conhecimento pela sociedade e economia feudais e colabora em clubes românticos, pré-rafaelitas, o que não deixa de ser sintomático sabendo nós a simpatia que Marx tinha para com poetas e pintores românticos muito pouco alinhados com a sociedade burguesa dessa época. 

Reside nessa síntese teórica a possibilidade de um caminho das ideias da Esquerda e do Socialismo nos miseráveis dias de hoje. Numa época em que a realidade já foi ultrapassada pelo espectáculo e em que a mentira é o artifício da tecnologia e de quem a dirige, este «Ódio à Civilização Moderna» não nos deixa de invectivar, de nos obrigar ao questionamento permanente de como outra sociedade é possível. É por isso que este livro é tão importante.

«É uma sociedade que não conhece o significado das palavras rico e pobre, nem o direito de propriedade, nem a lei e a legalidade, nem a nacionalidade: uma sociedade que não tem de viver com a assunção de ser governada; uma sociedade na qual a igualdade de condições é uma questão natural e na qual nenhum homem é recompensado por prestar serviços à comunidade pelo mero facto de dispor do poder de causar-lhe dano.
É uma sociedade ciente do desejo de preservar uma vida simples e de renunciar a uma parte do poder de domínio sobre a natureza, adquirido ao longo de eras passadas, com a finalidade de ser mais humana e menos mecânica, e disposta a fazer algum sacrifício para atingir esse fim. Estaria dividida em pequenas comunidades, muito diversas entre si dentro dos limites consentidos pela ética social respectiva, mas sem rivalidades e olhando com aversão para a ideia de um povo eleito.» (pág.156)

alc

segunda-feira, dezembro 22, 2025

2026

 

Talvez, num dia próximo, consiga ver em qualquer eleição, debate parlamentar, associativo ou mediático, defender que os trabalhadores necessitam, isso sim, de deixar de o ser; que o trabalho deixe de ser assalariado e os trabalhos inúteis sejam abolidos, substituídos por horas de trabalho útil, manual ou intelectual, livre do lucro e do desperdício que alimenta o lixo. Também gostaria de ver defendido o decrescimento económico, já que o crescimento tem motivado ondas de miséria, de guerra permanente e de fenecimento do planeta. Dou por garantido que os trabalhadores, conscientes de o serem, serão protagonistas de uma nova sociedade que tenha por base a igualdade com acesso livre à educação, à saúde, à habitação, ao trabalho digno, ao ócio e à paz. Não é pedir muito - é só uma revolução, certo?

sábado, dezembro 20, 2025

"L' Adversaire", Emmanuel Carrère


P. O. L., Folio, 2000
Emmanuel Carrère parte de um acontecimento baseado em factos reais, sórdido, o de um assassinato, em 1993, de uma família inteira perpetrado por um indivíduo que, além da mulher e dois filhos, mata igualmente os seus velhos pais reformados, para construir uma narrativa em que nada o que parece é. Há uma componente social importante que se estende para a análise psicológica de um assassino e de um enquadramento religioso muito caro a Emmanuel Carrère, autor de «O Reino» já aqui referido nestas páginas, tal como «L'Uchronie». 

O autor questiona-se sistematicamente no seu papel como escritor de um verdadeiro massacre, que destapa uma vida assente em mentiras forjadas num ambiente suburbano da classe média francesa. Revela-nos os quotidianos seráficos, as leituras, os hábitos pensados ao milímetro, as ansiedades sociais, as contrariedades, os gestos sopesados por pessoas para quem subir o elevador social é uma necessidade absoluta. Pede ao assassino autorização para privar com ele, saber o que o levou a um tal acto, não escondendo alguma empatia para Jean-Claude (assim se chama o assassino) e para com outros que se aproximam dele, numa tentativa de o regenerarem pelo cristianismo. Troca com ele cartas, visita-o na prisão, quer saber como se tentaria suicidar e se esse fim era o seu objectivo real. Assiste ao seu julgamento e fala com outros jornalistas, questiona os psiquiatras que o analisaram. Aborda o seu advogado e ouve os argumentos do ministério público perante o tribunal. 

Sabemos de outras experiências literárias que seguiram este caminho, nomeadamente as de Truman Capote, com evidente solidez e seriedade de propósitos não cedendo ao espectáculo muito comum dos tablóides e das tv's; Emmanuel Carrère vence na franqueza demonstrada em cada linha de «L'Adversaire», reparte connosco as suas dúvidas e incertezas perante, mesmo, o que é dito por ele ou o que lhe dizem num jogo de sombras e de zonas indefinidas. 

De qualquer maneira, este livro não será muito aconselhável para pessoas plenas de certezas.

alc

domingo, dezembro 14, 2025

"O Náufrago", Thomas Bernhard

 

Relógio D'Água, 2024. Tradução de Leopoldina Almeida 

Thomas Bernhard foi aluno de Horowitz, juntamente com Glenn Gould e Wertheimer, no Mozarteum de Salzburgo e no Conservatório de Música e Artes Dramáticas de Viena. Bernhard e Wertheimer sendo pianistas de grande talento, sucumbiram, no entanto, à arte de excelência, dificilmente igualável de Glenn Gould. E foi a partir desta impossibilidade que deixaram de pensar em voltar a tocar piano. É Gould que se encontra na capa deste livro e basta percorrer alguns filmes sobre ele «off the record» e «on the record», para sentir o que estamos a afirmar: dobra-se sobre o piano de uma forma quase animal, vocaliza as notas, ergue o corpo sobre a cauda do piano, ajusta-se, funde-se com o instrumento que o torna num só corpo. 
A partir de Glenn Gould, Thomas Bernhard cria uma narrativa torrencial, disruptiva, desafiando-nos a percorrer pensamentos sobre o suicídio, a decadência, a loucura e a doença, a tensa relação com os outros. E a relação com os outros, principalmente com a sociedade vienense e austríaca, é complexa. Já tínhamos lido «Betão» e «Derrubar Árvores» do mesmo autor e sentimos como essa tensão se abria à nossa frente, através das suas palavras quer irónicas, quer violentas, sobre a intelectualidade e a sociedade austríacas. Toda ela, aliás. Não é o único autor da Áustria que assim se comporta: temos outros exemplos de divórcios litigiosos com essa mesma sociedade a que chamam de hipócrita e decadente. Assim foi com Elfriede Jelinek, Georg Haas, Ingeborg Bachmann e outros. Talvez seja esta a prova que a Áustria ainda não se refez de alguns traumas que pretende esconder a todo o custo, o que não a impede de apresentar uma das melhores literaturas. E este livro é disso prova.

«Dia e noite escuto o lamento dos grandes pensadores que fechámos nas nossas bibliotecas, essas ridículas sumidades de espírito, como cabeças mirradas dentro de uma vitrina, assim dizia ele [Wertheimer], pensei. Toda essa gente profanou a natureza, dizia ele, cometeu crime maior contra o espírito, e por isso são punidos por nós e encerrados para sempre nas nossas bibliotecas. Porque morrem sufocados nas nossas bibliotecas, essa é que é a verdade. As nossas bibliotecas são como presídios em que encerrámos as nossa sumidades de espírito, o Kant numa cela de isolamento, como é natural, tal como Nietzsche, tal como Schopanhauer, como Pascal, como Voltaire, como Montaigne, as figuras mais insignes em celas isoladas, todos os outros em celas colectivas, mas todos ali metidos para todo o sempre, meu caro, para toda a eternidade até ao fim dos tempos, eis a grande verdade. (...)» (pág.57)

«Mas tudo o que dizemos é um absurdo, dizia ele, pensei, seja o que for que dissermos é tudo um absurdo, e toda a nossa vida é uma absurdidade total. Percebi isso muito cedo, mal comecei a ser capaz de pensar logo o percebi, só falamos em absurdos, tudo o que dizemos é absurdo, mas também tudo o que é dito pelos outros é um absurdo, tal como tudo é dito de uma maneira geral, neste mundo só se têm dito absurdos, até hoje, assim dizia ele, e, na realidade como é natural só se têm escrito absurdos, todas as obras escritas que possuímos mais não são do que absurdos porque só podem ser absurdos, e a história tem-no provado, dizia ele, pensei.» (pág.58)

alc

«Um Sonho», de August Strindberg

Que interpretações fantásticas de «Um Sonho», de August Strindberg. No Teatro da Cerca de S. Bernardo e encenado por António Augusto Barros. 
 

terça-feira, dezembro 09, 2025

"La Fôret de Flammes et d'Ombres", Akira Mizubayashi

 

Gallimard, 2025
Isto das leituras e dos livros tem o que se lhe diga. Acredito que existe uma rede completamente informal de leitores que interagem movidos pela empatia. Assim foi com este livro de Akira Mizubayashi, autor japonês que não conhecia: mão amiga apresentou-me este «La Fôret de Flammes et d'Ombres» e durante algum tempo vi-me envolvido numa escrita extremamente leve sem que a leveza tenha alguma coisa a ver com a facilidade. Nada disso. A leveza de que falo é uma espécie de levitação durante o processo de leitura devido à toada lírica imprimida pela escrita, pelo extraordinário bom gosto assente nas descrições da vida quotidiana, do amor existente nas personagens e mesmo até na descrição das cenas de guerra em que o Japão se viu envolvido pela obra e graça do imperador Hirohito e dos fascistas que o rodeavam. Aqui, neste extraordinário romance, não há ódio avulso. Há uma recusa silenciosa do totalitarismo em que a arte surge como escape, memória e alavanca para um mundo onde a liberdade tenha sentido. 

O triângulo existente entre as personagens Yuki, Ren e Bin dão à narrativa essa leveza de que falava atrás. São pessoas justas no seu entendimento do outro, compreendem-se totalmente, são imensamente livres porque não se batem em competições inúteis. Cada um tem a sua sensibilidade, a sua mundividência, uma maneira muito própria de ser e de se entreajudarem sem objectivos escondidos, sem que haja uma quebra na forte amizade que os uniu, mesmo nas piores condições de uma guerra terrível onde o Japão conheceu o apocalipse nuclear. O fim da guerra significou igualmente o fim de um regime e o começo de grandes viagens protagonizadas pelas personagens e pelos seus descendentes até aos dias de hoje. Procuram a completude o que acredito que tenham conseguido. A técnica narrativa utilizada por Mizubayashi é fulgurante, de uma síntese que nos espanta a nós leitores.

Não é só a técnica narrativa do autor que admiramos. Quando, no seguimento da leitura de «La Fôret de Flammes et d'Ombres», nos vimos «obrigados» a ouvir a Cavatina, op.130, de Beethoven ou a Nº2, op.13, de Mendelssohn e tentamos visionar as obras pictóricas de Iri e Toshi Maruki é porque o livro e o seu autor cumpriram realmente o seu papel. Perceberão porquê ao ler o livro se assim o entenderem. E mais óbvio ainda é que imaginamos os quadros de Ren tal como nos são descritos enquanto os quartetos de cordas nos dão a conhecer uma música que adivinhamos tão suave, como suaves são os diálogos entre as personagens.

Deixo-vos com um extracto de um diário de uma das personagens, escrita magistralmente por Akira Mizubayashi: «(...) A Arte - tanto a música como a pintura - reúne as almas, abre-as umas a seguir às outras, porque revela e revive nelas este poder de empatia, esta força de identificação singular com o ser sofredor, com o morto, o mais sofredor de todos os sofredores. A Arte exacerba esta faculdade fundamental do homem, empurra-a para o seu paroxismo. É assim, creio, que resiste à morte. (...)» (pág.264)

alc

segunda-feira, dezembro 08, 2025

"Um Saco de Ossos", Maria Lis

 
Língua Morta, 2025

Maria Lis não deixa de nos surpreender com este seu terceiro livro de poesia. Revisitando Georgia O'Keeffe, leva-nos por extensas caminhadas em espaços improváveis no Novo México, no Texas ou ainda em Nova Iorque, deixando-nos uma quadrícula onde pontificam cores, pedras, águas, plantas. A cor está sempre presente dum modo quase obsessivo «...perguntas-me pela música vou respondendo por cores / as palavras não levam a melhor...» e a matéria e a forma de tudo o que nos rodeia, inertes ou vivas, atravessam os poemas «...por ora pinto flores / já que a realidade não precisa de ajuda / posso dedicar-me por inteiro à forma / é que a cor, o âmago, o cheiro / vêm com cada coisa de jeitos torcidos e grotescos...», deixando-nos embrenhados numa mundividência singular protagonizada por O'Keeffe e assenhoreada poeticamente por Maria Lis. Essa osmose, essa junção, é realizada por uma comunicação epistolar baseada provavelmente (soubemo-lo, mais tarde, pelo posfácio) pela correspondência com uma amiga e que a poeta adquiriu num alfarrabista de Santa Fé. 

É um livro de poesia que não nos deixa indiferentes, tal como o seu posfácio: violentamente, Maria Lis atropela-nos com a nossa derrota muitas vezes não assumida, na impossibilidade de questionamento político, na eterna fénix capitalista que se ergue sempre vitorioso, retirando-nos a possibilidade de uma vida própria. Resta-nos a fuga ou a poesia dos sentidos. Como este livro.

alc.

sábado, dezembro 06, 2025

"Oráculo Portátil e Arte da Prudência", Baltazar Gracián

 

VS. Editor, 2021. Tradução de Miguel Meruje
«Oráculo Portátil e Arte da Prudência» é um livro que se deve ler devagar. Baltasar Gracián oferece-nos um conjunto de conselhos em forma de aforismos que nos leva a pensar sobre a arte de viver num mundo intemporal onde vinga a ignorância, a culpa, a maledicência ou, entre muitas outras iniquidades, a cupidez e o embuste. A estupidez e a ousadia dos incompetentes também têm um lugar destacado, mas, ainda assim, sobressaem os remédios para as esconjurar.

Gracián sabe do que fala. Jesuíta, com evidências claras para a escrita e literatura, foi obrigado a vergar-se à disciplina férrea e militar da Companhia fundada por Loyola. Desde a proibição dos seus escritos pela Inquisição até à tortura a pão e água, aconteceu de tudo um pouco: censuras, privação de leituras de livros, prisão, proibição de uso de papel e plumas, não bastaram para a desistência deste homem luminoso. Ele sabia onde doía na sua luta contra a hierarquia e poderosos. Este livro destinava-se aos comuns, aos que labutavam pela sobrevivência num mundo «às avessas», não eram conselhos para príncipes que já tinham a sua maquia com Maquiavel, fosse este irónico ou subserviente. 

Talvez por isso foi lido e seguido, desde meados do século XVII. Assim o fizeram Voltaire, Schopenhauer, Nietzsche, Lacan, Phillipe Sollers ou Debord. Desenvolvido numa estrutura literária barroca, contemporâneo de António Vieira e Quevedo, soube aliar uma crítica política a um pensamento prático da vida comum, alicerçado em paradoxos, aforismos ou puro jogo de palavras rodeadas de brilho. Numa época em que as palavras são amiúde esvaziadas de sentido, não deixa de ser necessário voltar aos séculos de ouro da literatura. Baltasar Gracián é um desses expoentes.

alc

sexta-feira, novembro 28, 2025

«A Morte é um Acto Solitário», Ray Bradbury

 

Cavalo de Ferro, 2019. Tradução de Maria João Freire de Andrade

Se a morte é um acto solitário, neste livro ela é acompanhada por uma multidão de cadáveres. Um autor que escreveu os interessantíssimos «Fahreneit 451» e «Crónicas Marcianas», vê-se agora enredado numa escrita pouco escorreita, num ambiente sufocante de uma Venice em decadência, num policial pouco conseguido. Talvez, até, presunçoso pela quantidade de referências a escritores, realizadores e actores e actrizes que calcorrearam os plateaux cinematográficos. O mistério que envolve esta história é saber quando ou se encontramos o seu fim, mais se assemelhando a um guião de um filme de Hollywood, tudo a bem de construir algo de verossimilhante e com interesse para o leitor. Recomendo-o pouco, mesmo aos que gostam da modalidade.

alc

«Umbria: por fim, o Sul.», António Alves Martins

 

Artes Breves Edições, 2025. António Alves Martins

A beleza de «Umbria: por fim, o Sul» leva-nos numa viagem imaginária rumo ao Sul, proposto por António Alves Martins e que acompanhamos com gosto imenso. Sendo o sexto livro das Artes Breves Edições, de uma série cuja presença marcante do autor não deixa ninguém indiferente, quer pela qualidade da sua obra fotográfica, quer pelo seu grafismo, juntamente com outras formas de arte que se interligam e cruzam, como o desenho e a escrita.

Com a sua nota introdutória poderemos já adivinhar o que se seguirá ou o que contamos nesta viagem e, paradoxalmente, a surpresa que nos acompanha em cada página que voltamos. Surpreende-nos o rigor colocado nas suas fotografias e no grafismo que se observa na consistência formal de todo o livro, enquanto que nos deixamos maravilhar pela poética das imagens que nos são oferecidas. O conceito de Sul é aqui muito abrangente. O Sul, em «Umbria», é a Ideia, como nos diz Mallarmé: «A omnipresente Linha espaçada de qualquer ponto a qualquer ponto para instituir a Ideia (1)», mas é também uma viagem pelas formas, pelas texturas, por imagens que se nos apresentam com as suas nuances e sombras, pelos brancos que nos ofuscam, ou por névoas que nos envolvem. Ou, nos antípodas, pelos negros baços em que adivinhamos movimentos escusos. 

As linhas que assomam nestas múltiplas formas constituem essa liberdade que António Alves Martins nos propõe. Os dois espaços em branco que esmagam a linha  constituem, através do traço, uma afirmação  pessoal de um pensamento que aponta para um destino em que a partida se confunde com a meta. Aqui, em «Umbria» não há fixação, existe uma proposta de uma itinerância contínua, um nomadismo desassombrado, criativo.

O surpreendente em «Umbria» é a necessidade de uma comunicação sufocada com o espectador, o que vê as fotografias e as colagens apresentadas. Surgem pictogramas, signos, letras, linhas que se cruzam em redes, nos muros, em janelas e em fechaduras de portas. Na própria paisagem, as árvores que tentam falar através do rendilhado das folhas, nos arbustos e nas planícies que adivinhamos ondulantes do sul. Nestas imagens sentimos a comunicação da ruína, as «espirais de oiro e azul» que Alves Martins cria num sentido heraclitiano em que nada se repete, nada se toca, mas tudo rasa num movimento de uma mola helicoidal, onde os acontecimentos fluem em utopias marcadas pelo tempo já descritas em «Cidades Materiais». 

Há, em «Umbria», uma necessidade de sobreposição, de intersecção de linhas, de justaposição de formas que assume o objectivo de nos envolver em situação de questionamento constante por parte de quem se reconhece nas imagens oferecidas neste livro. Nesse jogo, que aceitamos em cada página que folheamos, transparece a dúvida, a suspeita, o cepticismo perante o que não compreendemos desde logo, mas compensado pelo maravilhoso, pela luz e contraluz que emanam de cada ideia ou metáfora da imagem. Nesse sentido, em «Umbria» há uma subversão clara baseada no traço, na linha, nas formas, como forma de atingir um imaginário plenamente livre.


ps: «Umbria» é um livro conseguido no que esta palavra tem de totalidade, de um todo coerente, consistente. A sua tiragem foi apenas de 47 livros, 5 são extra-série, o que equivale a afirmar que rapidamente será colocado fora da possibilidade de aquisição directa. No entanto, aconselho a quem queira ficar com ele, a contactarem o autor ou a editora Artes Breves.

alc
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(1) «La Musique et les Lettres». apud em Jean-Luc Nancy, «O Prazer no Desenho»

segunda-feira, novembro 24, 2025

25

 

Do 25 de Novembro é esta uma das imagens que resta. O fim de todas as utopias possíveis, o lastro de "normalidade" de uma democracia cinzenta, afastada das vontades populares de uma outra vida que valesse a pena ser vivida em conjunto. O 25 de Abril continua a ser aquele dia inteiro e limpo.

"Spartakus, Simbologia da Revolta", Furio Jesi

 

VS. Editor. 2022. Tradução de João Coles

Furio Jesi faleceu em 1980, precocemente aos 39 anos deixando-nos, contudo, uma obra ensaística significativa principalmente na questão do conceito de mito. «Spartakus, Simbologia da Revolta» debruça-se sobre os mitos da esquerda, os que sempre acompanharam a construção utópica de sociedades livres em que a esquerda se viu envolvida, mesmo com erros inerentes à aplicação prática numa dada realidade social em ebulição. Furio Jesi parte da revolução espartaquista, entre Dezembro de 1918 e Janeiro de 1919, para notar que o mito já existe no próprio nome da Liga Espartaquista que vai ser o gérmen do KPD e que lembra a revolta dos escravos liderada por Espártaco contra o Império Romano. Reside aqui o mito que guiou Rosa Luxemburgo e Karl Liebneckt a participar numa revolta que, paradoxalmente, não acreditavam poder ganhar mas que serviu de estímulo para a construção de uma sociedade livre. Para além do sacrifício, talvez desnecessário (por uma análise incorrecta da correlação de forças em campo)  dos revoltosos alemães, perpetrado pela social-democracia de Ebert, Furio Jesi expande as suas considerações sobre o que distingue uma revolta de uma revolução. Enquanto que, na primeira, existe uma suspensão do tempo histórico, na revolução há uma apropriação desse mesmo tempo. Uma destrói, a outra constrói e é nessa destruição que existe a suspensão, pela violência e pela identificação próxima com o  outro, de uma realidade que se quer outra. A revolução retoma o tempo normal, sob outras formas, é certo, mas a construção de um tempo é um dos objectivos não escondidos de qualquer revolução. Assim foi em 1789 e em 1917. 

A esquerda actual vive igualmente de mitos. O mito da comuna de 1871, dos conselhos de 1918/19, da Guerra Civil de Espanha de 36/39, do Maio de 68, da guerrilha de Che, mas não deixa de ser sintomático que essa identificação do mito persista nos derrotados e não nas revoluções vitoriosas, como a de 1917. Compreende-se que o sangue derramado dos heróis, construa uma identificação psicológica forte quando a derrota foi o culminar das suas utopias. 

A esquerda, não por acaso, deixou de ser subversiva, dispensando a propaganda como coisa de nazis e fascistas, não compreendendo que ela foi uma das razões que uniu (e ganhou) camadas de gerações revolucionárias em torno de uma ideia comum. Hoje acantonou-se no parlamentarismo deixando para outros a construção de uma sociedade mais livre. A subversão deixou de fazer sentido para largos estratos da esquerda, receosa de perder votos afirmando-se como uma espécie de corpo bem-comportado em debates que julga fracturantes, mas que não são mais do que o caminho óbvio da evolução das liberdades. O tempo aqui não será suspenso, porque não há revolta que lhe valha com estes pressupostos. 

De Furio Jesi:
«Podemos amar uma cidade, podemos reconhecer as suas casas e ruas nas nossas mais remotas ou mais caras memórias, mas só na hora da revolta sentimos verdadeiramente a cidade como nossa: nossa, por ser do eu e aos mesmo tempo dos ''outros''; nossa, por ser campo de uma batalha que se escolheu e que a colectividade escolheu; nossa, por ser espaço circunscrito no qual o tempo histórico está suspenso e no qual cada acto vale por si só, nas suas consequências absolutamente imediatas. Apropriamo-nos de uma cidade fugindo ou avançando na alternância das investidas, muito mais do que brincando, quando crianças, nas suas ruas, ou passeando por elas mais tarde com uma rapariga. Na hora da revolta já não estamos sozinhos na cidade.» (pág.77)

alc

"Jacob's Room", Virginia Woolf

Oxford University Press, 1992

A edição inglesa é de bolso, muito cuidada, capa bonita e já com páginas amareladas. Fiquei com ele numa feira de trocas de livros promovida pela biblioteca municipal junto com outros em inglês. De 58 livros que levei trouxe 7, com o fim de arranjar mais espaço nas estantes já de si a pedirem renovação urgente. Quando me despeço de livros fico sempre com aquela sensação de perda que me leva alguns dias a desaparecer. Esta aquisição completamente gratuita compensou o facto de ter ficado sem alguns e, por ser na língua inglesa, reforçou a possibilidade de a entender melhor em narrativa. Se tenho alguma facilidade de ler em inglês nos trabalhos de ensaio e técnicos, já no romance, e logo em Virgina Woolf, sinto grandes dificuldades. A descrição pormenorizada da natureza, do tempo e das coisas e as frases idiomáticas esbarram numa ignorância consolidada no tempo em que me escusei a ler, com alguma continuidade, romances na língua inglesa, na obra original de autor. Fiquei-me pelas quatro páginas diárias sabendo que o dicionário está ali ao meu lado, amigo. Uma trabalheira que compensar-me-á na procura do original, do genuíno.

alc

domingo, novembro 16, 2025

«In girum imus nocte et consumimur igni», Guy Debord

 

Antígona, 2022. Tradução de Júlio Henriques

Edição sobre o filme homónimo de Guy Debord, é composta por uma introdução de Alice Becker-Ho, que aqui assina como Alice Debord, e seguida de uma nota crítica do autor, em Dezembro de 1977, que se debruça sobre as condições da sua época que despreza absolutamente. Para além da ficha técnica do filme de 1978, «in girum imus nocte et consumimur igni» (1) conta, igualmente, com instruções para a sonoplastia e montagem, assim como «Notas sobre a utilização dos filmes roubados» e uma «Lista das citações ou dos desvios no texto do filme ''in girum...''». Finaliza com um provocador e belíssimo texto de Debord e Gil Wolman «Modo de usar o desvio» publicado em  «Les Lèvres nues», nº8, escrito em Maio de 1956.

Avesso a toda a interpretação do seu pensamento teórico, Guy Debord não deixou de exprimir a sua revolta pelo sistema capitalista e da burocracia estalinista. Para ele, é suficientemente claro o que deixou escrito, plasmado na circunstância do tempo vivido por uma população alienada num espectáculo em que a produção e consumo infinitas de mercadorias é parte integrante dessa mesma alienação. O início do filme é disso um exemplo.

Este livro, traduzido, com rigor, por Júlio Henriques, não é só um guião do filme com o mesmo nome que pode ser acompanhado gratuitamente no YouTube (In Girum Imus Nocte Et Consumimur Igni (1978)) e sem qualquer anunciante a atrapalhar o seu visionamento, o que não deixa de ser irónico. É mais que um guião: são considerações importantes sobre o estado das coisas nos finais dos anos 70, já com a Internacional Situacionista, que ele fundou em 1956, dissolvida em 72. Aí, Guy Debord afirma:

«Mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo, e ter-me-ia irritado possuir outros méritos aos olhos de uma tal sociedade. Mas, segundo observei, foi ainda no cinema que provoquei a mais perfeita e a mais unânime indignação. Essa aversão foi mesmo levada ao ponto de me pilharem no cinema com muito menos frequência do que no resto, pelo menos até agora. A minha própria existência no cinema continua a ser uma hipótese que em geral é refutada. Vejo-me, pois, colocado acima de todas as leis do género. Por isso, como dizia Swift, ''não é para mim parco contento apresentar uma obra em tudo superior a qualquer crítica''.» Eis uma boa razão para não perder o filme ou os outros que estão à nossa disposição, embora vistos numa sala escurecida seja bem diferente que a luz difusa das casas. 

Não imagino um Debord nostálgico, muito longe disso, mas não deixa de ser motivo de atenção as observações que faz a uma Paris que foi destruída pelo urbanismo contemporâneo (palavra esta que chama todos os insultos a Debord) ou de uma Florença que ele amou, mas que o impediram de viver por supostas ligações às BV italianas, o que é, de todo, impossível no autor. Bastava para isso ler, mesmo em diagonal como é apanágio dos procuradores, as suas teses. Uma metáfora certeira para as cidades hoje destruídas pelo urbanismo oficial e pela gentrificação. Existe igualmente inscrita nesta obra a publicação referida atrás, de 1956, que vale a pena ler e que versa sobre um tema particularmente interessante nos situacionistas: a noção de «desvio», em francês «dètournement», em todos os campos da actividade humana e, principalmente, no que se chama de «cultura». Trata-se, simplificando, do que se pode chamar de «colagens» de obras ou frases que descontextualizando-as, serão utilizadas em novos contextos criados por quem faz, propositadamente, esse desvio. Para isso, já em 1956, Debord e Wolman, criam uma classificação e um «modo de usar o desvio» precocemente utilizado por Lautrèamont em «Cantos de Maldoror»: 

«(...) Tudo pode servir. É óbvio que podemos não só corrigir uma obra ou integrar diversos fragmentos de obras caducas numa obra nova, mas também mudar o sentido destes fragmentos e alterar, de todas as formas que se julguem adequadas, aquilo que os imbecis se obstinam a chamar citações.» (pág.73)

«Uma palavra de ordem como ''o plágio é necessário, o progresso implica-o'' é ainda tão mal compreendida, e pelas mesmas razões, como a frase famosa sobre a poesia que ''deve ser feita por todos''.» (pág.74)

«A barateza [do desvio] dos seus produtos é a artilharia pesada com a qual se abatem todas as muralhas da China da inteligência. Estamos perante um meio efectivo de ensino artístico proletário, o primeiro esboço de um comunismo literário.» (pág.77)
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(1). Se repararem trata-se de um palíndromo, ou seja, pode ler-se da normalmente da esquerda para a direita, como da direita para a esquerda. Traduz-se por «Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo».

alc

sábado, novembro 15, 2025

«Peregrinação em Tinker Creek», Annie Dillard

 

Antígona, 2025. Tradução de Inês Dias

Escrito em 1972, quando Annie Dillard contava com 27 anos, «Peregrinação em Tinker Creek» é um livro singular que conta uma experiência pessoal de observação profunda da Natureza, na Pensilvânia e no Maine, EUA. Editado em 1974, é muito difícil classificá-lo. Pelo menos, sabemos que a autora recusa ser considerada ensaísta, o que nos ajuda a entendê-lo um pouco melhor. Sendo igualmente poeta, Annie Dillard convoca-nos para uma leitura encantadora em torno do Natural, uma experiência quase mística, recusando o antropocentrismo e abraçando os inúmeros actores que fazem do mundo aquilo que é, não o que desejaríamos que fosse. E essa experiência torna-se aterradora se virarmos as costas ao Humano e nos embrenharmos na selva de sobrevivência que é este livro e cujo título chama por uma montanha que reparte o nome com um rio: Tinker Creek. É nas suas margens, nas colinas, nas rochas e nas árvores que encontramos uma variedade infindável de fauna e flora e nos deparamos com a conclusão de que todos os seres vivem essencialmente para parasitar outros animais e vegetais e finalmente morrer. Essa profusão e descrição pormenorizada de plantas, de animais, de pequenos e grandes insectos, de fenómenos naturais extremos ou de simples evolução das estações do ano, obrigaram-me a uma demora na leitura que não me é habitual. Muitas vezes tinha de regressar ao parágrafo anterior e, pasme-se, investigar nomes que pela primeira vez li e que desconhecia totalmente o que eram, fossem eles árvores, insectos, plantas, animais ou células microscópicas.

O misticismo que antevemos em Annie Dillard, muito ilustrado por citações da Bíblia é enganador. Por muito paradoxal que seja, identifico a sua escrita e pensamento mais com Nietzsche e com um animismo moderno do que os editores que, na apresentação da autora, lembram Thoreau. A sobrevivência é uma maquinação deste planeta, sejamos presas ou predadores. E qual a sua mensagem essencial? Vivemos com as cicatrizes que temos, todos nós, e não será por acaso que Annie Dillard nos demonstra, com exemplos excruciantes da vida natural, lembrando-nos as marcas no corpo das baleias, tubarões, ursos, etc. ou a morte de uma rã pela sucção das suas entranhas por uma barata-de-água deixando a sua pele incólume; já as cicatrizes dos humanos são maioritariamente escondidas, ausência essa que é descrita como um planeta onde os seres passam a sua vida a praticarem isso mesmo: a esconderem-se uns dos outros. 

Por outro lado, Annie Dillard, ao contrário de Thoreau, não vive isolada. Tem vizinhos, também come carne, anda de automóvel, fuma cigarros, convive nas cidades, não é uma anacoreta ou uma pregadora do deserto, embora os refira em passos do livro. Não é uma moralista da vida natural, mesmo que adivinhemos um amor infinito pela Natureza que descreve como ninguém, pelo menos que eu conheça. Limita-se a observar, a ver, coisa que o capitalismo ainda não proibiu ou que exija pagamento. E é talvez aí que se encontra o segredo da adesão a este livro por parte dos leitores: a franqueza, a verosimilhança e a genuinidade. Acreditamos nela e seguimo-la nas suas experiências.

«Em tudo na vida há sempre a tentação de perder tempo, fazendo amigos, refeições e viagens comezinhas durante anos comezinhos a fio. É tão consciente, parece tão moral, afastarmo-nos simplesmente das brechas onde os rios e os ventos se precipitam, dizendo ''nunca mereci esta graça'', o que até é verdade, e depois amuarmos até ao fim da vida, sempre no limiar da raiva. Recuso-me. O mundo é mais feroz do que isso em todas as direcções, mais perigoso e amargo, mais extravagante e luminoso. Estamos a fazer a faina, quando devíamos erguer Caim ou Lázaro.» (pág.303)

alc

segunda-feira, novembro 03, 2025

«A Vegetariana», Han Kang

D. Quixote, 6ª ed. 2024 (1ªed. 2016). Tradução do inglês de Maria do Carmo Figueira

Tanto me falaram deste livro de Han Kang, esta coreana que foi nobelizada no ano passado, que tive de ler «A Vegetariana». Iniciei-o no Dia de Finados e acabei-o hoje não como dever cumprido, mas com agrado. Inquestionável que é uma boa escritora o que deixa em claro a pergunta irónica repetida de um amigo meu que vos transmito: «Um Nobel da literatura e, ainda por cima, bom escritor?».

Seja como for e não cedendo à tentação de vos contar a narrativa de «A Vegetariana» fiquei apreensivo ao terminá-la. Não por qualquer causa de índole literária ou da história em si, mas pelo tema quase constante das obras vindas da Ásia, mais abrangentemente, de quase todo o Oriente. A ligação íntima das palavras, dos temas literários e das personagens que as compõem com a  Natureza vegetal, com a flora. Desde sempre e com quase todos os autores japoneses, chineses, coreanos, vietnamitas... há florestas frondosas, folhas multicolores, charcos com vida, uma paleta autêntica da flora mitificada em cada palavra ou «florestas ondulantes que cobrem os continentes como um mar impiedoso» que lhe «envolvem o corpo e elevam-na», como escreve Han Kang. O Ocidente nada tem de parecido na literatura contemporânea: é feita de cimento e ladrilhos e quando existe a chamada Natureza ou está ser destruída, ou aboletada como utilitária para as actividades humanas. No Ocidente, o respeito pelo som do vento nas árvores, pelo silêncio, pela escuridão e mistério das florestas são humanizadas violentamente com o arborismo, pistas de bicicletas, casas para observação de pássaros, gravilhas, desbastes, cortes por instituições ditas «amigas do ambiente». 

Lembro-me de páginas inesquecíveis sobre a flora de Mishima, poemas de Bashô ou de Shiki, Kenzaburõ Õe, Murakami, Kawabata, Jung Chang, Can Chue, Yuo Hua, ou Rithy Panh. Isto para ficarmos somente pelos japoneses, chineses ou vietnamitas. No Ocidente, as flores não têm o carácter místico que adquirem no Oriente. As flores politizam-se facilmente como a papoila ligando-a aos mortos da I Guerra Mundial na Grã-Bretanha, a flor de lis para indicar o nacionalismo francês, o cravo para a Revolução portuguesa de 74, ou o cipreste para localizar cemitérios... seja como for a flor, no Ocidente, vulgarizou-se ao ponto de as não vermos e muito menos no parco ambiente selvagem que ainda existe pela Europa. Não pensem observar muitas «florestas ondulantes» por cá.

A história de «A Vegetariana» desenrola-se num ambiente sufocante de uma grande cidade, paradoxalmente. Mas o desejo dos grandes espaços, a esquizofrenia latente, cujas causas se encontram numa educação violenta ou numa vida submissa para além do suportável, na personagem principal, a tentativa de se «esconder» na terra, a quem ironicamente chamamos «mãe». 

«Teria ela confundido o chão, de cimento do hospital com a terra da floresta? Ter-se-ia o seu corpo metamorfoseado num tronco robusto, com raízes esbranquiçadas a nascerem-lhe das mãos e a agarrarem-se à terra escura? Seria possível que as suas pernas se esticassem no ar, ao mesmo tempo que os seus braços se enterravam em direcção ao centro da terra, com as costas rígidas e direitas de forma a permitirem que os seus membros crescessem? Enquanto os raios de sol inundavam o corpo de Yeong-hye, teria a água que saturava a terra sido absorvida pelas suas células, acabando por brotar flores da sua púbis? Seria possível que, quando Yeong-hye se equilibrara de pernas para o ar e alongara cada fibra do seu corpo, todas essas coisas tivessem despertado na sua alma?» (pág.177)

alc

quarta-feira, outubro 29, 2025

«Idade da Perda», Daniel Jonas

 

Assírio & Alvim, 2025
Sigo Daniel Jonas com a exacta regularidade com que publica. Na poesia portuguesa contemporânea são poucos que acompanho, mas quando o faço é sem qualquer entrave. Não folheio o livro para ver se o levo ou não. Aqui, com este poeta, com Jorge Sousa Braga, Rosa Oliveira, Golgona Anghel, Maria Lis, Ricardo Gil Soeiro, José Ricardo Nunes ou Miguel Manso não há cá ademanes. É novo livro? Levo-os e pronto. Há outros que os levo igualmente, mas depois de manejados com mão destra e olhos atentos. 

Com «Idade da Perda» o que me chamou a atenção foi a sonoridade, a cadência do poema. Não só as aliterações muitas vezes utilizadas, mas a métrica atenta que seduz o leitor na toada do soneto camoniano ou na ironia da cantiga de maldizer ou de amor. Se quisermos igualmente a cantiga de amigo leia-se «Vai-se o meu colega segundanista» uma metáfora bem sucedida ao ambiente universitário. Mas «Idade da Perda» não se inicia assim, irónico e prazenteiro. Antes pelo contrário: Daniel Jonas convida-nos «(...) A casa junto ao lago, / consolo de quem a solo / junto ao mar de Tiberíades / pressente a paz da multidão de peixes.» (pág.11) Após o bíblico entra-se no nascimento, nas ligações físicas, no crescimento, em todo o momento em perda de vida, saboreando-a ou apartando-se dela. A vida em perda constante só sobreleva o conselho: «Guarda o teu sorriso, filho meu / e nele a espontaneidade da surpresa - / não digas que já nada te surpreende - / mas conserva a graça de te admirar / a sabedoria do novo, nem que seja do escândalo. (...) /Não deixes escapar pela raiz / esse mundo querendo crescer. / Assim serás para sempre o mais feliz dos homens / depois de mim.» (pág.19).

Em «Avalon» nasce-se como fruto. Como árvore através de uma queda vegetal: «Colher a promessa importa antes. / A suave abdução / O corte com a corda que o prende / À artéria vegetal da mãe / Em que se adia. / Prestar-se socorro ao suco / Desatarraxá-lo como uma lampa: / A luz dorme no fruto.» (pág.24) E o esquecimento como parte dessa vida aqui aflorada em «Caducos»: «Desprendem-se os amigos / como folhas de ramos. / Desaprendem-se os amigos / / com os anos // a figueira que deu fruto / nem sombra dá / para seu luto.» (pág.27) E em «Cinzas» o refazer o mundo pelo eterno vigor da transformação natural «Lança ao rio o pai que te resta.» (pág.30) ou pousar o momento melancólico em «Demasiado Mar»: «Quando nos fingimos de morto, a vida acredita.» (pág.50). 

Destaco o longo poema «Na Filipe Folque» (pág.67 a 73) em forma de auto-retrato irónico não sem que alguma raiva transborde para os espaços em branco com que descansamos a leitura deste extraordinário exercício: «(...) Irei assim eu morrer tantas vezes quanto mas permita / a vida, aqui na Filipe Folque como no mundo todo. / Não hei-de ser eu em vez de mim / nem me queira viver  quantas sombras de mim me some. / A não ser que me construa na grande luz / que de repente me escurecer e assim me suma. / Um auto-retrato é mais exacto quanto mais trair o portador.(...)»

alc

«O PREC e o Relógio das Revoluções», Aldo Casas e António Louçã

 

Parsifal, 2025
Não se trata de uma simples comparação entre quatro revoluções, até porque não estamos perante um modelo de análise simplista da História. Antes pelo contrário: há complexidades várias no decorrer do tempo político e social nessas mesmas revoluções. As particularidades revolucionárias da Comuna de Paris de 1871, não são as mesmas da Revolução russa de 17, dos Conselhos alemães de 18/19 ou da Revolução portuguesa de 74/75. Mas há, como não poderia deixar de ser, pontos comuns que António Louçã e Aldo Casas põem em relevo neste livro.

Desses pontos comuns realça-se sobretudo a apropriação dos meios de produção pelas massas populares, pelos pobres, que tentavam auto-organizar-se em conselhos autónomos livres. Muitas vezes de forma ingénua, hesitante, outras enraivecidos pela fome, pelo cerco ou pela miséria souberam usar a força para se apropriarem não só de fábricas, das instituições públicas, de casas devolutas, dos campos terratenentes, mas também expulsarem os possidentes das suas próprias vidas comuns criando a possibilidade de uma outra realidade que há muito desejavam para si baseada na liberdade e na autonomia. 

Paradoxalmente pormenorizada e sintética, os autores apresentam a História dessas revoluções de um modo crítico e visivelmente parcial, estando ao lado dos mais fracos na «conquista dos céus», mas que em nada prejudica a visão geral dos acontecimentos descritos. E assim deve ser a História. Desconfie-se de todos aqueles que chamam a neutralidade para «analisar» factos históricos: ao fazerem-no listam a história anedótica ou falseiam-na propositadamente. Não é o caso deste «O PREC e o Relógio das Revoluções».

Sobre o PREC português, acrónimo pejorativo tardio, que serviu durante décadas para o menorizar ou ridicularizar os dois anos do processo revolucionário, logo após o 25 de Abril e a queda do fascismo e o final da guerra colonial, os factos descritos não constituem novidade, mas as suas consequências são fruto de observações claras, honestas, para além de uma visão crítica já referida. Analisam-se a formação de Comissões de Moradores, por acaso ou talvez não, as primeiras movimentações populares de ocupação de casas devolutas logo três dias após o 25 de Abril, a reconstrução e legalização de infraestruturas dos bairros de lata através de arquitectos ligados ao SAAL, a ocupação de terras a sul (perto de 1,5 milhão de hectares em UCP ou cooperativas agrícolas), a democratização e/ou desmantelamento das estruturas militares repressivas, a ocupação de fábricas cujos donos eram agentes activos na sabotagem económica ou que não atendiam às reivindicações básicas dos trabalhadores, a formação de imensas Comissões de Trabalhadores em todo o país e nas empresas, a movimentação de estudantes liceais e universitários na gestão democrática e pedagógica das escolas, enfim, um turbilhão de desejos e de vontades expressas por uma democracia directa, pelo poder popular.

Se este poder popular no PREC não foi transformado em conselhos revolucionários efectivos como o tentaram em Paris, Petrogrado ou Munique foi pela mesma razão: a sabotagem política de quem se dizia com a revolução, mas que tão rápida quanto eficazmente lutou contra ela, e caso destas últimas revoluções referidas, não hesitando em derramar sangue, prisões ou torturas. Histórias que contam com centenas de milhares de mortos, massacres autênticos que não impedia que se utilizassem até, exércitos estrangeiros para sufocarem os levantamentos populares. 

E se não houve derramamento de sangue em Portugal que possa ser comparável às outras três experiências revolucionárias, não foi por causa dos chamados «brandos costumes» portugueses, como lembram os autores. Os brandos costumes não existiram nos 500 anos de colonialismo selvagem, na brutalidade da Inquisição, nos castigos bárbaros que o «povo» exercia sobre soldados franceses nas invasões, na Guerra Civil de 1832-34, nos mortos do Tarrafal e da PIDE, ou no terror de direita e da igreja no «verão quente» de 75. O que impediu a Guerra Civil em 1974 foi Novembro e a negociação que se lhe seguiu ou que lhe esteve na base. O papel dos «moderados» e dos militares ditos moderados é disso exemplo: não necessitavam de um massacre à «comuna de Lisboa» como lhe chamava a direita e a sua extrema, porque a esquerda perdeu o rumo, tendo força e armas, não saberia para que fim usá-las. Os que fizeram Novembro só eram moderados até perderem essa moderação se necessário fosse. Utilizariam as armas sem qualquer problema de consciência. O regime que hoje temos é de uma Constituição que já nada diz e que a esquerda teimosamente afirma conter «conquistas irreversíveis» que mais não é do que sobras de um Estado Providência depauperado e um item indispensável para a social-democracia. No entanto, após 50 anos, as classes possidentes em Portugal já não necessitam da democracia. Querem uma outra coisa que não tardará a conhecermos. Contudo, o que fica daqueles anos inesquecíveis de 74/75 foi a enorme energia de quem nada tinha a perder e tudo a ganhar. As coisas eram diferentes, tornaram-se outras, o entusiasmo e alegria invadiram as ruas, as assembleias, os cafés, os clubes, as empresas, os campos e as casas. A raiva que eles ainda demonstram possuir é directamente proporcional a esta alegria inscrita na genética revolucionária que ainda existe em nós e muito bem expressa neste livro.

alc

segunda-feira, outubro 20, 2025

«A Consciência de Zeno», Italo Svevo

 

Penguin, 2022. Introdução de Gonçalo M. Tavares. Tradução de Ana Cláudia Santos

Um dos motivos que me levam ao modernismo (e tão depressa não sairei dele, embora de uma forma intermitente, é certo) é o seu gosto pelo inconsequente, pela ruptura com a normalidade, embora hoje nos pareça um pouco ingénua, tal a forma abrupta como as sociedades e as mentalidades se transformaram. Nada hoje importa. Svevo escreveu este romance em 1923, entre as duas guerras e está subjacente a derrocada dos valores burgueses: o casamento como mentira, a mulher como objecto que se pode usar e abusar porque efectivamente é explorada pelo trabalho ou pelo género, o comércio como obtenção especulativa do lucro e da usura (aproximava-se 1929 e a crise capitalista que levou milhões à miséria e ao desemprego), a mentira como alfa e ómega de toda a relação, o individualismo exacerbado e explicativo de todas as atitudes sejam elas danosas ou não para os outros, e, principalmente, a anomia social, característico da época a que se deu o nome de modernismo que abarca, ele próprio, outras modalidades e expressões literárias e artísticas. O Outro não existe e essa indiferença só é ultrapassada quando a consciência se obriga a actos pusilânimes, teatrais, algo burlescos, até beneméritos mas desde logo, repentinamente esquecidos e até lamentados pela atracção de fazer o bem.

Italo Svevo tem uma particularidade que admiro num romancista: é íntegro. No meio da tempestade que foram o anos 20, os chamados «roaring twenties» dos Fitzgerald e companhias, ele consegue ver o essencial: a queda. Não que os jovens ricos não a pressentissem, mas esses, na sua maior parte escolheram a guerra e o autoritarismo. Svevo presume o que aí vem, não augura nada de bom e tem razão: a queda dos valores mais sólidos dão lugar à festa terrífica da ditadura, do totalitarismo onde tudo é possível dentro da orgia dos possidentes. A psicanálise, a sua eventual doença, o acaso como um fim que tudo justifica porque já não decide nada é a forma que procura para uma salvação que nunca virá. Digamos que ele será aquilo que Shaw chamou de um «socialista insociável».

Zeno não se enquadra na época, se bem que aqui e ali tergiverse e se encontre com ela. É essencialmente um tipo bom, que aceita e, simultaneamente, recusa a psicanálise e o positivismo, nessa altura em plena expansão. Escreve por ordem de um médico suíço que odeia, mas que cumpre, com este mesmo livro, o que ele lhe exige. Embora longe de um mero diário ou literatura epistolar, coloca-se como um observador na primeira pessoa. Que experimenta, que age e analisa os resultados da sua acção. A parte final do livro é comovedora pela incompreensão da guerra que se lhe atravessa em 1915, em Trieste. E ser triestino é mais que do um mero nacional, é estar num limbo entre ser austro-húngaro (o nome verdadeiro de Italo Svevo é Aron Hector Schmitz) e italiano. Não escolhe um ou outro. É como ser alsaciano, bascos ou catalães franceses. É nascer em Trier, na Alsácia, como Marx, e ser-lhe dito que afinal a cidade é Trèves. Já velho, custa-lhe não conseguir beber o seu café com leite porque uma brigada alemã marcou-lhe a fronteira da sua terra: «zurük!», palavra espúria que se recusa a aceitar. A guerra, em 1915, coincide igualmente com a sua decadência física. Quantas vezes me lembrei, nessa tristeza entranhada de um velho, a «Morte em Veneza»: 

«Naquele momento, lembrei-me de que entre as muitas mentiras que eu impingira àquele observador penetrante que era o doutor S., estava também a de que eu não voltara a trair a minha mulher depois da partida de Ada. Também a respeito desta mentira fabricou as suas teorias. Mas ali, à beira daquele rio, de repente e com espanto, recordei que era verdade que há alguns dias, talvez desde que abandonara o tratamento, eu não tinha procurado a companhia de outras mulheres. Estaria curado, como defendia o doutor S.? Velho como sou, há algum tempo que as mulheres já não olham para mim. Se eu deixo de olhar para elas, ficam cortadas todas as relações entre nós.» (pág.420)

E sobrevoando um futuro da Humanidade:

«Talvez através de uma catástrofe inaudita, produzida pelos instrumentos, voltemos à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem como todos os outros, no segredo de um quarto deste mundo, inventará um explosivo incomparável, em relação ao qual os explosivos atualmente existentes serão considerados brinquedos inofensivos. E um outro homem, também como todos os outros, mas um pouco mais doente do que os outros, roubará esse explosivo e irá ao centro da Terra para o pôr no sítio onde o seu efeito possa ser maior. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, restituída à forma nebulosa, errará nos céus livre de parasitas e de doenças.» (pág.438)

Italo Svevo morre em 1928 num desastre de automóvel, aos 66 anos. Sendo judeu, vivendo em Trieste, é possível que o mundo lhe tenha poupado ao horror que se seguiu em nova guerra.

A tradução de Ana Cláudia Santos é límpida, o mínimo que posso dizer. 

alc

quinta-feira, outubro 09, 2025

«Livres de Obedecer», Johann Chapoutot


Antígona, 2023.Tradução de Miguel Serras Pereira
«A gestão, do nazismo aos dias de hoje» é subtítulo de «Livres de Obedecer», de Johann Chapoutot. Sobre a «recuperação» dos nazis após 1945 na RFA, creio que já todos temos uma ideia aproximada. Perto de 200 mil de altos quadros do III Reich e das SS, que se mantiveram quietinhos no seu próprio país recusando a fuga que se lhes ofereceu, foram aproveitados para as novas tarefas administrativas que o «milagre alemão» fez surgir em contraponto ao «comunismo» de leste e em particular à RDA. Mesmo aqueles a quem eram imputados graves crimes de guerra e que tiveram penas pesadíssimas, seriam libertados 2 ou 3 anos depois. A «desnazificação» não saiu dos papéis dos Aliados. Mas, quanto a mim, não é esse o tema principal do livro, até porque, repete-se, já sabemos muito dessa triste história.

O que fez Johann Chapoutot de extraordinário, i.e., de verdadeiramente inovador, neste pequeno livro da Antígona? Principalmente, em dois factores: em primeiro lugar a análise da «filosofia» do nazismo, sustentada na trilogia «Ein Volk, ein Reich, ein Führer» onde observamos a estranha ausência de «ein Staat», numa Alemanha, pós-1933, que construiu aquilo que nos compêndios escolares ainda é definido como um «Estado totalitário». Não que não o fosse, mas o autor chama a atenção para a edificação de um estado completamente descentralizado, com várias «agências» e instituições em permanente emulação e até colidindo entre si, radicalizando-se ao ponto do absurdo e do paranóico para agradar e seguir o que eles entendiam ser a ideologia certa do chefe. Era a chamada «feudalidade administrativa» onde não se sabia bem quem mandava e de onde surgiam as ordens, quer no aspecto económico, funcional, da repressão política e racial, de gestão do seu «espaço vital a leste», ou mesmo da guerra. Não estamos perante um estado nazi centralizado, antes pelo contrário, sendo esta a inovação teórica de Chapoutot. O poder foi entregue à «comunidade racial» dos «bons alemães» que se comportavam com cidadãos obedientes em volta do seu führer e capazes de todos os sacrifícios... e atitudes repulsivas contra quem não fosse da «comunidade». Lembremos que a Alemanha de 1933-45 não teve uma Constituição escrita (nunca foi revogada a de Weimar) e a lei era a vontade de Hitler a quem os alemães juraram obediência.

E aqui entra o segundo factor interessante que deduz, exemplificando, o que acabámos de escrever: o acompanhamento da vida de um general das SS e doutorado em Direito: Reinhard Höhn, aluno de Carl Schmit, embora mais tarde este o repudiasse como jurista emérito. No entanto, isso não impediu Höhn de subir na difícil, quanto perigosa, escada hierárquica do nazismo através da protecção de Himmler e Heydrich dois tipos «exemplares» que não sobreviveram a 45, como sabemos. Mas sobreviveu Reinhard Höhn, sem que tivesse tentado a fuga e tendo permanecido sempre na Alemanha apenas mudando o nome durante dois anos. Retomou a sua actividade pondo em prática as suas ideias de administração nazi, agora para as empresas. Tendo claramente a ideia que os tempos mudaram, mas não ao ponto de encararem a descentralização administrativa como um mal, aplica os temas mais caros do nazismo agora para as empresas, cheias de vitalidade e dinheiro com o Plano Marshall. Fundou a Bad Harzburg, uma escola de gestão, onde impôs às centenas de milhares de novos e ávidos aprendizes da democracia, as suas ideias: «gestão por objectivos» , «flexibilidade», «liberalização e diálogo» (!!!), «delegação de responsabilidades», «autonomia», etc... ou seja, todo um programa liberal, mas completamente assente nos pressupostos do estado nazi e na sua teoria militar de «cumprir objectivos» e responsabilização e coacção de quem não o conseguir. Claro que premiar o mérito, era igualmente um importante pressuposto, tal como recusar qualquer «luta de classes» dentro das empresas e substituir o termo «trabalhador» por «colaborador». Um visionário, portanto.

Hhön morreu em 2000. Perto de 4 dezenas de obras sobre gestão foram editadas após 45, sendo muitas delas escritas durante o nazismo, revistas cuidadosamente, retirando os aspectos mais escabrosos da «comunidade racial» e de «espaço vital» que, paradoxalmente, o afastou de Carl Schmit que defendia uma «comunidade alemã» e um «grande espaço». Não é só semântica: ambos eram nazis empedernidos, mas talvez Schmit visse que o Direito, entre eles o Internacional, ainda era para seguir. Nunca esteve preso, mesmo que contra ele, o acusassem de preparar uma reunião em Berlim, em 1941, para «resolver o problema judaico» a leste. 

Valha uma última nota: este general nazi, teve ensejo de continuar, nos seus escritos em democracia a execrar o nome de Rousseau (em primeiro lugar), de Marx e de Proudhon. Ele saberia porquê.

alc

Reinhard Höhn, o general nazi que abraçou a gestão empresarial alemã pós-45