sábado, março 28, 2026

"Jerónimo e Eulália", Graça Pina de Morais

 

Antígona [Primeira edição, 1969], 2000.
Que livro notável! Não conhecia Graça Pina de Morais, mas é daqueles acasos fortuitos, uma entrevista a Luís Oliveira, editor da Antígona, já não sei onde, foi o que me levou a conhecê-la e a ler este romance passados largos anos. Dizia então Luís Oliveira que «Jerónimo e Eulália» lhe «tinha dado a volta à cabeça» e que «não mais se tinha esquecido dele quando o leu pela primeira vez» razão, julgo eu, para ter publicado grande parte da obra da autora na sua Antígona. Eu sigo-lhe os passos e pretendo dar nota de outros livros dela tornando-me talvez mais um leitor a alimentar o pequeno círculo à volta dos seus livros, formando um verdadeiro culto, este no bom sentido. Mas antes de ir ao livro fixemo-nos na autora: nasce no Porto em 1927 e faz Medicina em 1951, tornando-se professora na FMUP, caso raro para uma mulher na altura. Antes, a participação do pai na tentativa falhada do golpe de 1927 para acabar com a novíssima ditadura militar, levou-a para França onde passa grande parte da sua infância. Inicia a sua carreira literária em 1955 com a publicação de «Origem» e passa algumas temporadas na sua casa no Douro e em Mesão-Frio. Este «Jerónimo e Eulália» é publicado em 1969 (ano de todas as esperanças) e com ele é premiada como sendo o melhor livro do ano, coisa pouca para um livro, como já disse, notável, embora seja estranhamente o seu último livro publicado. Afasta-se irremediavelmente da cena literária portuguesa, diz-se que talvez por orgulho, talvez por não a aguentar muito tempo a sua vacuidade, ou por ser mulher e secundarizada por isso, embora fosse amiga de Agustina, Urbano, Bernardo Santareno, Herberto Helder ou Alberto Pimenta. Morre em 1992 e gostaria de vos dar a conhecer mais dela se o soubesse. Infelizmente, os jornais que a entrevistaram, como o Público ou o Expresso, exigem a assinatura para conhecermos melhor o seu pensamento e o que a levou a afastar-se.

«Jerónimo e Eulália», tal como o foi expressado por Luís Oliveira, não se esquece facilmente. Permanece em nós passado tempos após a sua leitura e a personagem de Jerónimo marca todo o romance. Tal como Eulália embora de um modo tão forte, como fugaz. A narrativa tem um período temporal de 20 anos de 1945 a 1965 e inicia-se com a proclamada paz mundial, facto aparentemente irrelevante para a narrativa, mas que catapulta uma série de acontecimentos pessoais em Jerónimo bem longe de uma plenitude que só uma certa contemplação permite. Se o mundo consegue a paz, as personagens estão longe de a atingir. Duas pessoas em procura de si mesmas, sem terem a veleidade de incomodar quem se aproxima delas, quase indiferentes perante tudo. Mesmo que depois essa plenitude se venha a produzir no final da uma depressão e fuga não assumida, Jerónimo não ultrapassa a sua recordação de uma mulher fantástica que é Eulália, mais velha que ele vinte anos. A sua relação não é física, mas o amor existe, em páginas inesquecíveis de uma grande profundidade e análise psicológicas. Aliás, essas descrições são uma constante em Graça Pina de Morais, não fosse ela igualmente uma psicóloga, com curso tirado em Genève, quando em Portugal ainda não existia ou era olhado de soslaio. Tal como era apartado tudo o que cheirasse a modernidade num país triste, tão acabrunhado como acabrunhadas eram as famílias burguesas de que a escritora deu conta no seu romance. Tudo se passava de um modo irremediável, de factos construídos por uma moral destruidora dos desejos individuais, em que o casamento e as relações surgiam como se fossem peças teatrais encenadas pela igreja e pelo estado. Um país pobre, de nevoeiros intensos à beira-mar e um frio terrível que assola as personagens que nascem no romance. Não por acaso (nada é por acaso neste romance) a primeira longa conversa entre as duas figuras principais é realizada numa noite de invernia, nevada, em que a única fonte de calor é a de uma salamandra, numa sala caótica numa aldeia perdida. Aí, nesse diálogo, é dito por Eulália uma frase repetida no final do romance: «Como são duras as pessoas felizes!» De resto, a continuidade da vida de toda a panóplia de personagens que percorrem a narrativa nada tem de esperado, antes pelo contrário: todas elas têm, apesar da modorra de uma vida desenhada desde o início, um percurso estranho e até inesperado em que a ironia de que a vida é feita não está de todo afastada. Graça Pina de Morais dá uma força impressiva a esse inesperado, tornando a leitura inadiável, contínua. 

De qualquer modo, Graça Pina de Morais parece-me única no panorama da literatura em Portugal. Há um halo de liberdade naquelas palavras que não se vislumbra facilmente noutras experiências literárias. Tal como a liberdade, existe igualmente uma ironia fina, não condizente com os lugares-comuns que nos impingiram e que ainda perduram neste país e nos meios ditos cultos, como a falsa adversidade face à brutalidade dentro das famílias, com a ignorância ou com a inutilidade de um pensamento repetido mil vezes para se tornar uma verdade inquestionável. Diz Eulália: «Pertenço a uma geração diferente, antiga e palavrosa, com mania de tudo exprimir através das palavras.» (pág.191) Em Graça Pina de Morais é necessário prescrutar fora das palavras escritas, sentir uma ética própria que a autora nos propõe conduzir, sem estarmos preparados totalmente, até ela. É o segredo da boa literatura: tornar possível uma vivência que nos envolve para além das palavras impressas.

alc

quarta-feira, março 25, 2026

"Vénus em Chamas", Pedro Vieira

 

Penguin. Fevereiro de 2026.
«E Deus instrumentalizou a mulher» é o subtítulo do livro «Vénus em Chamas», de Pedro Vieira. Compõe-se de sete histórias de mulheres que, na sua maior parte, já conhecemos relativamente bem como Maria, Madalena, Joana d'Arc ou a vidente e prisioneira portuguesa mais conhecida como foi a pobre Lúcia. Algumas nem tanto, como Teodora, Fillide ou Harriet. O que é novo neste livro é a forma extremamente atractiva da escrita junto com uma observação cuidada, sob múltiplos aspectos, de cada personagem feminina  que nos dá a conhecer o autor. São mulheres inesquecíveis na sua impotência perante o rumo da vida, na sua força indómita, nos céus que lhe caíram em cima sem que tivessem para isso feito alguma coisa, cruéis e empoderadas, hereges e castigadas, inteligentes e lutadoras sem entraves de qualquer espécie. O sério aviso que nos dá Pedro Vieira no seu epílogo verifica-se em cada capítulo dedicado a uma destas personagens: «Na grande galeria dos estadistas, guerreiros, génios, filósofos e evangelistas, narradores e líderes, heróis e atletas, os homens brilham. As mulheres são, sobretudo sombras. Há cisnes negros entre algumas delas, clarões. Quando lhes é permitida luz, esta alumia o que é vantajoso para quem tem as rédeas na mão.» (pág.219) E é evidente que quem tem as rédeas das narrativas são os homens a quem se lhes dá o poder de contar à sua maneira o modo como pressentem e manipulam as acções femininas que foram determinantes na história da humanidade (esta, sem género, evidentemente). 

Pedro Vieira dá-nos a possibilidade de ver como Maria, sim a «nossa» Nossa Senhora, de múltiplos nomes como se fossem emprestados por deusas greco-romanas e que, ainda no século XXI, é alvo de diferentes e opostos dogmas papais, cujos fins são, invariavelmente, a sua menorização ou reposição do seu secundário lugar numa igreja masculina. Por ser mulher, tal como Madalena, ela própria, o anátema mais escandaloso, mas nem por isso impossível de a esconder como fizeram os quatro evangelistas, homens portanto, que pouco ou nada a nomearam; só João o fez (o discípulo muito amado de Jesus) e, mesmo assim, de modo exemplarmente fugaz. Quanto a Paulo, o construtor do edifício cristão, será melhor nem falar no triste papel com que presenteou a mulher: a luz da estrada de Damasco trouxe-lhe a cegueira da condição feminina. De resto, viajamos neste livro incontornável por Constantinopla, pela Galileia, pela Itália, pela França da Guerra dos Cem Anos, pela repressão violentíssima da heresia cátara, pela Guerra Civil Americana ou na companhia do irrequieto e violento Caravaggio, pintor de quem Pedro Vieira mostra evidente admiração até pela sua ligação íntima às mulheres pecadoras que santificou, até aos finais dos tempos, nas telas. 

Um livro que se lê com interesse crescente, que se lê num fôlego e que nos põe a pensar ou a urdir inter-relações, uma simultaneidade difícil de observar nos dias de hoje.

alc

terça-feira, março 24, 2026

"A Morte de Virgílio", Hermann Broch

 

Relógio D'Água, 2014. Tradução de Maria Adélia Silva Melo 
Segundo Hermann Broch, Virgílio esteve por um fio para destruir a «Eneida» no final da sua vida, momentos que são descritos pelo autor entre o desespero e a incompreensão de toda a experiência humana, seja ela a mais simples baseada num gesto quotidiano ou a complexidade de um pensamento filosófico. Virgílio está profundamente agastado com o imperador Augusto que se serve dele para aumentar o seu prestígio, quando a poesia podia dar-se ao luxo de emprestar tal vantagem ao ganho do poder político. Virgílio pouco se importa com este desígnio, entregando-se à decadência física do seu corpo e observando na Natureza o que ainda lhe pode oferecer de belo. A «Eneida» está ao seu lado, numa arca, ao sabor da vontade do poeta que, por fim, a salva até aos dias de hoje, como sabemos. 
Hermann Broch, austríaco, preso pela Gestapo em 1938 e dos poucos que conseguiu sair das suas masmorras por pressão internacional, exilou-se logo depois nos EUA tornando-se cidadão americano. Morre em 1951 não retornando à Europa. Dele, li «Os Sonâmbulos», já aqui referido. Mas este «A Morte de Virgílio» é mais do que a vida e morte do poeta romano; escrito o romance em 1945, no final da II Guerra, do consequente massacre de 60 milhões de vidas e a destruição completa da Alemanha e a rendição da Áustria, é com profunda dor que o autor revela aqui o seu sentimento de perda mais premente. Por mim, não consegui lê-lo completamente, o que é raro. Quando inicio uma leitura, por mais que me custe, tento sempre finalizá-la o que me tem dado algumas agradáveis surpresas, mas com Hermann Broch pressente-se a desilusão, a enorme incomodidade, a incongruência das acções humanas, a toada depressiva da escrita. Transmite o fim da decência moral e do valor e beleza da vida após 1945 o que lembra a fórmula de Adorno que afirma, peremptório, que a poesia é impossível depois de Auschwitz. Como diz Corto perante a «Utopia» de More, talvez um dia acabe de o ler mas, por qualquer motivo ainda desconhecido, volto a ele e leio duas a três páginas sem compromisso.

alc

domingo, março 15, 2026

"Nada", Carmen Laforet

 

Cavalo de Ferro, 2024. Tradução de Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu.
Só a ficção permite este facto singular: sem falar abertamente de política, um romance pode dar-nos o retrato fiel de um país, Espanha, mergulhado numa espiral de paranóia e violência após a guerra civil de 1936-39. «Nada», de Carmen Laforet, descreve-nos uma Barcelona exausta, faminta, castigada como poucas cidades foram após a vitória de Franco e dos fascistas. E com ela toda a Catalunha. Estamos em 1945, data da publicação e descoberta literária de Carmen Laforet a quem é atribuído o Prémio Nadal. Não é só Barcelona, das Ramblas e do mar, que é descrita com os seus odores, o seu frio e canícula do verão, as suas casas gradeadas nas janelas e as suas árvores frondosas. Com estas imagens sobrevive uma família da classe média estrangulada pela violência intrínseca, pela fome, pela depressão e pela ruína, onde o catolicismo coexiste com o pior que o ser humano pode oferecer de cupidez, de violência e de medo. Um medo que se sente em cada linha, como se se abatesse naquela família todo o peso de uma desgraça que se pode declarar a cada instante e sob diversas formas. Não admira, pois, que o fim seja inesperado, tal como inesperado parece ser o futuro que se guarda para a jovem universitária Andrea, a protagonista solitária deste romance e onde, paradoxalmente, as outras personagens se arrastam num verdadeiro quotidiano de um remanso preguiçoso e tóxico. Ela tenta remar contra a maré negra que a invade na sua casa de família entregando-se ao estudo, a uma amizade real com Ena e a uma boémia artística que lhe pode granjear algum bem-estar, mas a sociedade espanhola é demasiado fechada para se atingir um grau de liberdade que essa mesma boémia lhe poderia permitir atingir. Não será por acaso que são os jovens ricos que se entregam à fuga pela arte, como bem nota subtilmente a autora. 

Carmen Laforet merece ser conhecida não só como autora de referência, mas também pela sua vertente existencialista. Nasce em 1921 em Barcelona, publica pela primeira vez em 1945 e o seu último romance, «A Insolação» data de 1963. A partir daí, conta com alguns textos dispersos e abandona o meio literário. Morre em 2004 com Alzheimer, contando com um romance póstumo. A edição portuguesa conta com um prefácio de Mario Vargas Llosa e, na badana, uma nota inócua de Ana Cristina Leonardo; mesmo assim não desmerece a leitura de «Nada». Antes pelo contrário.

alc 

segunda-feira, março 09, 2026

João Pinto Ângelo (02/07/1957 - 3/03/2026)

 

25 de Abril de 2025

Recordo-me particularmente dos anos lectivos de 1972/73 e de 73/74. Tínhamos entre 15 e 16 anos e a formação política veio depressa e a ferros. Sabíamos principalmente o que não queríamos, mais do que construir utopias, para nós ainda demasiado complexas. Queríamos que a ditadura se fosse, a guerra terminasse de uma vez por todas e as coisas terríveis que nos eram contadas por quem lá esteve. A turma, lembro-me, dividia-se entre aqueles que ficavam e os que queriam partir para uma Europa arejada e democrática, ao contrário de um país de gente pobre, enfadonho, manietado e repressivo que era o Portugal de então.

João Pinto Ângelo contribuiu como estudante liceal, sem tergiversar, para o derrube da ditadura fascista. No ano de 1973, esteve presente em várias acções contra a ditadura principalmente após as «eleições» em que apoiou a CDE. As acções baseavam-se, principalmente, em colagens de cartazes do MDP/CDE, «A Força do Povo» e de autocolantes com carimbos artesanais contra a guerra colonial e contra a carestia de vida despoletada pela crise petrolífera de 1973 (por vezes de dia, quando saíamos das aulas, no D. João III!) e distribuição de comunicados do movimento. A sua coragem física via-se claramente quando confrontava a polícia, quer no último 1º de Maio em ditadura, quer na importante acção nos transportes públicos em Coimbra contra o pagamento de bilhetes quando o governo os veio a aumentar, quer ainda na carga policial que se assistiu no início da peça de teatro do TEUC, «O Asno», em plena avenida Sá da Bandeira. Foi também em 1973 que aderiu à CDEC (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra), saída das «eleições» já referidas e CPAEL (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais) em rede com as suas congéneres de Lisboa e Porto. Foi nesse âmbito que, até Abril de 1974, desenvolveu uma política organizada de agitação e propaganda contra a ditadura, com colagens, intervenções e distribuição de comunicados em RGA's-relâmpago, presença em reuniões políticas e de âmbito cultural com projecção de filmes nas repúblicas, leitura de livros, etc. entre estudantes do ensino universitário e liceal. Muitas vezes o contacto entre os estudantes universitários mais experientes na Clepsidra, e nas repúblicas contíguas a este espaço, como o Ay-ó-Linda e Fantasmas, foi determinante para uma crescente politização dos liceus contra a ditadura em que se destacam, entre muitos, os nomes de Lizardo e de Pena dos Reis, que pertenciam à UEC desde 1972, data da sua formação. O núcleo dirigente da CDEC e da CPAEL no D. João III contava com a sua acção determinante. A luta contra a ditadura nesta escola foi constante e nunca esmoreceu, contando igualmente com outras organizações como os Núcleos Sindicais, ligados à FEML em que se destacava o Sérgio Soares. A nossa relação era afastada, mas não abertamente hostil como o foi após o 25 de Abril.

No dia 25 de Abril de 1974, em que nos preparávamos para distribuir comunicados da CDEC de mobilização estudantil liceal para o 1º de Maio, foi com muita apreensão que vimos os soldados armados que subiam a Lourenço de Azevedo pensando que seriam comandados por Kaúlza de Arriaga o que nos fez escondê-los sob arbustos do Jardim da Sereia (o 11 de Setembro de 73, no Chile, estava muito fresco). Foi nessa tarde, do 25 de Abril, já participando na revolução, que o João Pinto Ângelo, o Sarmento, o Brito Moura e eu, entrámos pelo gabinete do reitor Vieira e lhe comunicámos que iria ter lugar uma Assembleia Magna da Escola no dia seguinte e que, por nós, pela CPAEL, ele não ficaria como reitor, o que lhe provocou um acesso de raiva e procedeu a uma ameaça de consequências graves. Foi a sua última ameaça. Tínhamos então 16 anos. A 26 de Abril de 1974, nos jardins da AAC e antes da grande Assembleia Magna desse dia de apoio à revolução, adere à UEC pela mão de Lizardo. Torna-se evidente que a experiência de João Pinto Ângelo no movimento associativo estudantil abriu-lhe portas, mais tarde, para o seu trabalho unitário e abrangente na UNEP, na actividade sindical na Função Pública e, mais tarde, no trabalho exemplarmente reconhecido e exigente na Assembleia Municipal de Coimbra como deputado eleito.

alc

domingo, março 08, 2026

"Geada", Thomas Bernhard

 

Dois Dias edições, 2023. Tradução de Bruno C. Duarte. Posfácio de Marcos Foz. 
O primeiro romance de Thomas Bernhard, editado em 1963. Hesito em afirmar que «Geada» talvez seja o mais complexo que li dele, o mais profundo, pela densidade dos pensamentos expostos em que as relações sociais são afloradas com pleno desprendimento e genuinidade do autor. A geada é o frio, o gelo, com que é determinada a interacção entre o pintor Strauch e as diversas pessoas que com ele se cruzam todos os dias numa estalagem que o repugna. Esta estalagem encontra-se numa terra estranha, imaginada, Weng, montanhosa e fria, hostil, como hostis são os que a habitam. Weng é a sociedade e tal como o sanatório de «A Montanha Mágica» de Mann, também aqui é atravessada por incompreensões e tensões que são trazidas para palavras e acontecimentos. Strauch sofre com a frigidez das relações entre a sua família e particularmente com o seu irmão, construindo uma rede cúmplice entre ele e o médico estagiário, tornado narrador (sem nome) do romance de Bernhard. Serão vinte e sete dias registados nos «relatórios» do médico estagiário que constituem o âmago de «Geada», mais umas quantas cartas ao irmão do pintor Strauch e alguns pensamentos aparentemente aleatórios. Na segunda carta, o narrador escreve uma afirmação daquele: «(...) É mesmo isso: tudo me dá que pensar, e o mesmo acontece neste caso em particular. Cores, cheiros, graus de frio - esta geada que avança, que avança em tudo e em todos e por toda a parte, com a sua inaudita possibilidade de ampliação dos conceitos, é da maior, e continua sempre a ser da maior importância.» (pág.304) É nessa geada que tudo cobre que se poderá antever o que de mais determinante é tido pelos pensamentos niilistas de Strauch, seguramente misantropo, anti-racional, e profundamente amoral no sentido em que ultrapassa as noções básicas do bem e do mal, mesmo que aponte essa imoralidade a toda a sociedade que o envolve nas figuras desconcertantes da estalajadeira, do esfolador, do engenheiro ou do médico-chefe, seu irmão odiado. É neste conjunto que emerge a figura do homem nietzschiano, sofredor e ausente de qualquer postulado social e que não o leve ao consenso social, para ele o seu fim. Pelo contrário, Strauch vê na sua acção o princípio da possibilidade suicida, ao deslocar-se na geada fria, na neve que o assola, no frio do seu quarto não aquecido propositadamente pela estalajadeira, pelas ravinas, pelos estreitos da montanha, e pelo perigo da queda iminente. A geada também pode ser a «queda de um império», diz ele.

Interessante é verificar a construção ideal do homem político para o pintor que, para o ser totalmente, terá que incluir a base do sonho: «Ora eu diria então que um homem que é em igual medida político e sonhador é aquele que podemos classificar como o que está mais perto da perfeição (...)» (pág.306) Tal como o seu pensamento em relação ao Estado: «É tudo uma pirosice bárbara. Sim. (...) O próprio Estado é imbecil, e o povo é patético. O nosso Estado é ridículo. E, ainda por cima, tudo isto finge ser altamente musical. Depravação pequeno-burguesa... para mim é demasiado repulsivo: a camada de gordura da classe alta e a estupidificação geral, desenfreada da população... estamos numa fase de abandono absoluto. O nosso Estado (...) é um hotel da ambivalência, o bordel da Europa, com uma excelente reputação além-mar.» (pág.270)

Strauch tinha sido um professor substituto, antes de se tornar pintor, e as suas elucubrações sobre a escola e a profissão não deixam de impressionar pela veemência com que são expostas, chegando a defender que a escola deveria ser substituída por matadouros para que os alunos tivessem acesso às maledicências próprias do mundo. Mas não só: «Os edifícios escolares são grandes edifícios de medo. Mesmo para mim, enquanto adulto, os edifícios escolares eram grandes edifícios de medo. O medo dos edifícios escolares, assim como o medo da escola em geral, é o medo mais terrível que existe. A maioria das pessoas morre disso. Se não em criança, então mais tarde. Até com sessenta anos se pode morrer de medo da escola.» (pág.177) «Em toda a minha vida nunca odiei nada como odeio os professores. Os professores que sempre me pareceram ser o cúmulo de toda a estupidez disciplinada até ficar 'em sentido' e até às cuecas. Uma ridicularia que é um perigo público e que ainda por cima tem grandes pretensões.» (pág.201)

A sua diatribe abarca igualmente os artistas e as gentes, em geral: «(...) Os artistas são os grandes indutores do vómito do nosso tempo, forma desde sempre os grandes, os maiores indutores do vómito... Os artistas, não serão eles um devastador exército do ridículo, da escumalha? (...) Os artistas são os gémeos idênticos da hipocrisia, os gémeos idênticos da baixeza, os gémeos idênticos da exploração protectorada, da maior exploração protectorada de todos os tempos. Os artistas, tal como os conheci, são todos insípidos e pedantes, nada mais que insípidos e pedantes, nada mais...» (pág.135), «Quando aparecem à minha frente, todas as pessoas que conheço parecem iguais. E mesmo o que está dentro delas parece sempre o mesmo, seja de quem for. Dentro de todos eles está uma e a mesma coisa. Enoja-me. Quando deixo que se afastem, quando digo 'retirem-se', fica no ar um cheiro que obscurece tudo.» (pág.82)

alc