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segunda-feira, março 09, 2026

João Pinto Ângelo (02/07/1957 - 3/03/2026)

 

25 de Abril de 2025

Recordo-me particularmente dos anos lectivos de 1972/73 e de 73/74. Tínhamos entre 15 e 16 anos e a formação política veio depressa e a ferros. Sabíamos principalmente o que não queríamos, mais do que construir utopias, para nós demasiado complexas. Queríamos que a ditadura se fosse e a guerra parasse de uma vez por todas e as coisas terríveis que nos eram contadas pelos mais velhos. A turma, lembro-me, dividia-se entre aqueles que ficavam e os que queriam partir para uma Europa arejada e democrática, ao contrário de um país pobre, enfadonho, cinzento e repressivo que era o Portugal de então.

João Pinto Ângelo contribuiu como estudante liceal, sem tergiversar, para o derrube da ditadura fascista. No ano de 1973, esteve presente em várias acções contra a ditadura principalmente após as «eleições» em que apoiou a CDE. Colagem de cartazes do MDP/CDE, «A Força do Povo», colagem de autocolantes contra a guerra colonial e contra a carestia de vida despoletada pela crise petrolífera de 1973 (por vezes de dia, quando saíamos das aulas, no D. João III). A sua coragem física via-se claramente quando confrontava a polícia quer no último 1º de Maio em ditadura, quer na importante acção nos transportes públicos em Coimbra contra o pagamento de bilhetes quando o governo os veio a aumentar, quer ainda na carga policial que se assistiu no final da peça de teatro do TEUC, «O Asno», em plena avenida Sá da Bandeira. Foi também em 1973 que aderiu à CDEC (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra), saída das «eleições» já referidas e CPAEL (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais) em rede com as suas congéneres de Lisboa e Porto. Foi nesse âmbito que, até Abril de 1974, desenvolveu uma política organizada de agitação e propaganda (hoje este último termo caiu em desuso) contra a ditadura, com colagens, distribuição de comunicados em RGA's, presença em reuniões políticas e de âmbito cultural com projecção de filmes (O Couraçado Potemkin era um deles), leitura de livros, etc. entre estudantes do ensino liceal. Muitas vezes o contacto entre os estudantes universitários mais experientes na Clepsidra, e nas repúblicas contíguas a este espaço, como o Ay-ó-Linda e Fantasmas, foi determinante para uma crescente politização dos liceus contra a ditadura em que se destacam, entre muitos, os nomes de Lizardo e de Pena dos Reis, que pertenciam à UEC. O núcleo dirigente da CDEC e da CPAEL no D. João III era formado essencialmente pelo João Pinto Ângelo, Miguel Sansão, Brito Moura, Sarmento e por mim próprio. A luta contra a ditadura nesta escola foi constante e nunca esmoreceu, contando igualmente com outras organizações como os Núcleos Sindicais, ligados à FEML em que se destacava o Sérgio Soares.

No dia 25 de Abril de 1974, em que nos preparávamos para distribuir comunicados da CDEC de mobilização estudantil liceal para o 1º de Maio, apanhámos um grande susto pensando que os soldados que víamos a subir a Lourenço de Azevedo seriam comandados por Kaúlza de Arriaga o que nos fez escondê-los sob arbustos do Jardim da Sereia. Foi nessa tarde, do 25 de Abril, já participando na revolução, que o João Pinto Ângelo, o Sarmento, o Brito Moura e eu, entrámos pelo gabinete do reitor Vieira e lhe comunicámos que iria ter lugar uma Assembleia Magna da Escola no dia seguinte e que, por nós, pela CPAEL, ele não ficaria como reitor, o que lhe provocou um acesso de raiva e procedeu a uma ameaça de consequências graves. Foi a sua última ameaça. Tínhamos então 16 anos.