segunda-feira, junho 15, 2020

«O Grande Sol de Reil», poema inédito de António Pocinho


António Pocinho, anos 80. Foto de autoria desconhecida

Recebi este manuscrito (a grafia é de António Pocinho) no dia 27 de junho de 1980, entre copos infinitos de cerveja no «Café Califa» e outras substâncias já prescritas, na Rua das Matemáticas em Coimbra e creio que seguiu para a «Fenda - Magazine Frenética». Não confirmo a sua publicação. Diz, por debaixo da assinatura do António com quem privei no triângulo maldito de Coimbra – Tomar - Lisboa, isto: «Poema gravado em Coimbra, nos estúdios do ‘’Bota-Abaixo’’, entre 6 e 27 de junho de 1980. Som, mistura e arranjos de António Manuel Pocinho e Vasco Santos». Tenho comigo o original. Se o Vasco o quiser eu terei todo o gosto em dar-lho. É assim o poema:



O GRANDE SOL DE REIL

O que está escrito, está escrito na vida
e aí tudo tem a sua alquimia.
Descobrir o início das coisas,
percorrer-se o caminho ao longo das pessoas,
ficar-se perplexo com o verbo,
vibrar-se com a acção
é já de si uma prodigiosa armadilha,
uma procura exaustiva da intimidade.

Tudo o que permanece no domínio
dos lugares escondidos da linguagem,
da luta de classes e do poder
está envolvido por uma misteriosa literatura.
O que nos resta da ligação entre o sagrado e o profano
e que conduz a escrita a um jogo demasiado difícil para ela
contém em si a génese neurótica da ficção.

«Há uma linguagem na neurose
que se assemelha ao código da escrita»
- anunciaram os jornais
onde se falava dos polícias de dentro e de fora,
das emissões em línguas estrangeiras,
das manhãs muito cheias de luminosidade,
muito voltadas para dentro do seu próprio amor.

Escreve-se por uma questão alveolar,
por onde uma necessária respiração das células
onde uma espécie de transporte activo das palavras,
à semelhança do que acontece na bomba de sódio
seria um elemento fundamental
na combustão da energia poética associada à vida.

Comove-nos este espaço: a noite, o candeeiro aceso,
a escrita, os autores, alguém dormindo ao lado.
Dormir na ausência para acordar na memória.
Onde a magia, a eternidade,
a infância dos nossos actos, a revolução?
Há algo de abusivo na verdade,
no pousar os olhos sobre o texto,
no beber mais uma cerveja no «Califa»,
no descansar do dia-a-dia da vertigem.
Dói-nos este rock, esta droga
até ao ponto em que nos iniciamos na imagem,
na álgebra superior e mortalmente branca.

Recusamos esta dança, os filósofos
…a hipotética imaginação da luz…

Perseguir a palavra: virtude do corpo ou maldição do espírito.
E foi subornada esta paisagem por um milagre antigo.
Terra benzida nos «sex and drugs and rock’n rol»
porquê o poeta, os computadores, a bomba de neutrões?
Armando a estrada e os anjos de revólver?

Vítimas do crime no acto em que nascemos,
aceitamos a chantagem da vida
ao olhar sobre a misteriosa moralidade destes campos,
pisados por mulheres descalças em busca de uma linguagem para o sexo.
Caminho eterno para a aprendizagem da placenta.
Nas águas – o código amniótico.

Prostituímo-nos na memória, no cio da palavra, no espaço e no tempo deste corpo.

Rosto pintado de anjo no cinema: é rigorosamente inútil o poema.

António Manuel Pocinho
Coimbra, entre 6 e 27 de junho de 1980