terça-feira, março 08, 2022

«Nó», de Daniel Jonas

 

Não consigo imaginar alguém que goste de poesia e não tenha lido ainda Daniel Jonas. Este livro de sonetos rigorosos feito e de um sarcasmo muito particular, também nos atinge pela surpresa e desconcerto que produz. Não sei que «nó» é este com que Daniel Jonas nos prende, nem ouso sequer aventar hipóteses. Nunca o faço em poesia, porque não quero arriscar-me. Só a leitura me interessa e as emoções que produzem em mim. Logo, prevejo um nó de marinheiro de várias pontas onde sobressaem ventos poderosos que se ouvem em flautas de juncos, com a morte e os jogos de espelhos da vida e do amor, com o clássico pagão e o bíblico onde o erotismo está sempre presente. Deus está presente de um modo raro, em que Jonas joga com Jonas e com a baleia, tal como adiante com Job e Jacob, ou o coxo Hefesto que martela o ferro na ausência de Afrodite ou com Maria e Cristo:

DO VENTRE DA BALEIA ERGUI MEU GRITO:
Senhor! (Dizer teu nome só é bom),
Em fé, em fé o digo, mesmo com
Um coração pesado e contrito
Que és de tudo verdade e não mito,
O coração do amor, de todo o dom,
Conquanto seja raro o bem e o bom
E toda a luz aqui me falhe, és grito
Que chama toda a chama de esperança
E acorda a luz que resta à réstia eterna,
Conquanto viva o mártir na espelunca
Da vida (quem espera amiúde alcança)...:
Possa o nazireu preso na cisterna
Sofrer de ser só tarde mas não nunca.
(pág.9)

E com a toada lírica camoniana, Daniel Jonas apresenta-nos este interessantíssimo poema, de uma ironia tão fina como tão efémero é o amor:

SE NÃO TE AMAREM FINGE QUE NÃO AMAS
E se te amassem outro amariam:
E só a si, se bem que fingiriam
Amar-te e dar-te a ti o que reclamas.
Pois mesmo que te amassem mentiriam.
E se amam outro a si outrossim amam
E noutrem só a si mesmo reclamam,
Que amante e coisa amada se diriam...
(...)
(pág.14)

E se todas as orações fossem assim, como a que Daniel Jonas o faz, não sem algum sentido de pessoa perdida, sem ânimo, ou assaltado por uma euforia louca, que a faz tentar voltar ao colo, a um útero materno:

DEIXA-ME ESTAR AO PÉ DE TI, MEU DEUS,
Sem que te diga nada, sem que fale,
Apenas acoitar-me, e nisso cale
Intercessões, louvores, os meus eus.
Ensina-me a encostar-me, estou cansado;
Raiz que arrancaram e sublevam,
Qual planta em que vivo enxertado.
Deixei o ferro em brasa de rapaz
E um horizonte extenso de poentes
Ardendo, avivando o sangue aos rentes
Cadáveres do que fui sem sê-lo, atrás.
Da queda de onde vim as mãos me doem;
A queda de menino é erguer-se em homem.
(pág.34)

Um livro inesquecível em sonetos feito.

António Luís Catarino