segunda-feira, setembro 06, 2021

Penúltimo Outono (1)

Fotografia de Coimbra, Arregaça, 1922

Não sei o que me levou a guardar a fotografia, mesmo sabendo que a nostalgia não é propriamente o meu forte. Encontrei-a numa página do Facebook sobre Coimbra Antiga 2. A foto refere-se à construção, em 1922, da Fábrica de Porcelana da Arregaça. Estava quase acabada e servia de propaganda à evolução fabril de Coimbra. A minha casa de família (branca) encontra-se no lado direito logo acima do telhado do que viria a ser os escritórios, refeitório e o jardim infantil dos filhos das operárias e operários que lá trabalhavam e que chegaram a ser mil.

Passei vários anos naquela casa que o meu bisavô Francisco herdou juntamente com a Quinta de D. João (hoje uma chusma de prédios multicolores); mais tarde passou para o meu avô Manuel Francisco Catarino e para a minha avó Alice Amélia filha do meu bisavô que não cheguei a conhecer. Conheci a quinta de D. João com todo o tipo de animais, muitos espécies de cereais, oliveiras, hortas, pomar e muita água. 

Lembro-me vagamente de alguns natais que passei muito miúdo, mas marcou-me de uma maneira indelével a minha estadia mais permanente a partir do ano de 1972. A vida naquela casa era marcada por três momentos: o apito estridente da Cerâmica que marcava as interrupções do almoço, da entrada de manhãzinha dos operários e da saída da tarde em que se enchiam as tascas da ladeira que dava para a rua do Brasil; o apito do comboio da Beira que passava mesmo atrás da casa e o relógio da sala do meu avô encimado com a águia alemã. Aliás, esse relógio a quem o meu avô dava corda tão religiosamente como religiosamente se davam graças antes das refeições, tinha uma suavidade em cada batida que contrastava com a agressividade da águia cujo bico aberto procurava em vão uma vítima incauta. Esse relógio tinha uma história obscura de que ninguém falava: seria um presente de um piloto (nazi?) alemão que esteve lá em casa, lá para 45 ou 46, recomendado por Bissaya Barreto e que depois o mandou como prova de gratidão ao meu avô da América do Sul? Por mais que perguntasse a resposta era sempre «come, rapaz, come!»

Ao lado da capela da casa havia o Vitória Futebol Clube onde fui a alguns bailes. À frente do portão da casa na Rua do Brasil havia uma mercearia do Sr. Sotero, um republicano ateu que se tornou meu amigo, dono de alguns segredos com quem desabafava por causa da austeridade familiar. Até que a política vinha ao de cima e eram aulas inteiras de antifascismo e antisalazarismo, já que Caetano, para o Sr. Sotero nada dizia e era um cobardolas dos grandes. Era para cair de podre. E caiu, mas já com a minha ajuda e de camaradas do Liceu D. João III em que se destacava o meu amigo, até hoje e sempre, João Pinto Ângelo. Uma vez houve que o Sr. Sotero teve de esconder uns comunicados contra a carestia de vida, em 1973, após a crise do petróleo e em que cirandava um Ford Escort LH de matrícula e cor conhecida. «Tenha cuidado menino, tenha cuidado!» Nunca percebi se aquele cuidado era para eu ter da Pide se do meu avô! Um dia perguntei-lhe. A resposta foi: «Se o menino soubesse!». Isso já me tinha sido dito pelo barbeiro, o Sr. Tiago ali ao fundo das Alpenduradas. «Se o menino soubesse!».

Comecei a ficar irritado, primeiro, o tratamento de «menino». Já não era nenhum menino! Tinha 15 anos e uma namorada, caramba! A Guida, que lia Sttau Monteiro. Eu, já andava com as «As Três Fontes», edição da Centelha, de V. I. Lenine bem encapado, com estilo de rebeldia absoluta e irreversível. O «Manifesto» também fazia parte dos meus planos de leitura. Mas dava-me para ler «A Mãe» de Gorky, «O Don Tranquilo» de Simonov, «A Resistência Francesa», Roger Vailland, Urbano e Daniel Filipe que partilhava com a Guida, não tivesse ela também necessidade de um amor urgente. Não, não tinha. Paciência... ainda estávamos nos inícios dos anos 70.

Afinal soube depois, pelo Sr. Sotero, que a minha família não era impoluta ao nível da ética e da moral que todos os dias a austeridade obrigava. O «...se soubesse!» era a maneira como a minha avó, monárquica absoluta (daí o nome Amélia, coitada!) tratava os ranchos vindos da Beira para trabalharem na quinta (coisa a que já não assisti e ainda bem). Consta que batia nos camponeses e os castigava sem comer. Aquilo foi um choque muito grande para mim e até hoje. Os operários da Cerâmica com quem eu me dava nos bailes do Vitória, também se calavam quando a minha família vinha à baila. Só mais tarde o Rocha, companheiro de tasca e operário é que me contou que ali não havia gente que os gramasse. Já tinha contactos com o PC onde arranjava o Avante! e foi com ele que ouvi pela primeira vez o nome estranho de comunismo, mais complicado ainda o de «Partido Comunista». Embora não fosse militante a sua companhia ao meu lado fazia com que não houvesse o silêncio do costume quando entrava numa roda de amigos. Agora, falava-se abertamente contra o governo de Caetano o que me fazia tirar da minha bolsa «à soldado do vietname» com um símbolo hippie da paz, uns comunicados da Cdec e da Cpael, que para os operários nada diziam, mas sempre me encontrava ufano perante eles.

O Aviz era outro dos cafés que frequentava, embora tivéssemos cuidado com o dono. Vindo de Moçambique nunca se sabia do que ele era capaz em relação à política dos clientes, nem que informações poderia dar. Era lá que me encontrava com a Guida, isto por volta de 1972/73. Mas era a Clepsidra a nossa casa política. Quando entrámos na Cdec (Comissão Democrática de Estudantes de Coimbra) e na Cpael (Comissão Pró-Associação de Estudantes Liceais) o nosso «controleiro» era o Lizardo, hoje Juíz na Madeira e universitário já batido desde a crise de 69. Era ele que nos redigia e policopiava  os comunicados (já havia confiança para sermos nós a fazermos isso) e nós distribuíamos nos liceus e nas ruas. Havia também uns autocolantes contra a guerra colonial (mais perigoso o tema) a carimbo. Só que não eram bem autocolantes; eram mais selos grandes da largura da língua o que no-la deixava seca que nem cortiça. Colávamos nos postes de iluminação e nem a Pide era capaz de os arrancar. Mas era preciso muitos litros de saliva. Imaginem os sustos que apanhávamos porque eu, o Pinto Ângelo, o  Sarmento e o Brito Moura faziamos aquilo de dia à saída das aulas. Mas os litros de cuspo que gastávamos à fartazana na luta antifascista, faltavam para os beijos com a Guida. Nem as palavras saíam bem. Parecia que estávamos com uma enorme bebedeira e ler Daniel Filipe naquelas condições era um desastre, muito menos beijos na Guida, mesmo a emborcar copos de água, sobre copos de água o que me levava constantemente à casa de banho. Isto tinha futuro? Tanto como Caetano!

Muitos desses comunicados eram escondidos no celeiro da minha casa sem que ninguém o soubesse. Aliás, nunca perguntei por que razão transformaram uma antiga capela privada com altar e tudo, num celeiro. A uma família tão católica não caía bem o rol de favas, lentilhas, batatas e ervilhas com que era brindada a eventual ex-casa do Senhor. Mas junto às leguminosas e tubérculos lá estavam os comunicados.

O primeiro confronto que tivemos com a polícia de choque foi na Baixa e em outubro de 1973. Os bilhetes dos STCP tinham aumentado 50% devido à inflação provocada pela crise da guerra israelo-árabe e não foi muito difícil mobilizar estudantes dos liceus e das escolas técnicas de Coimbra. A ordem era de ocupar os elétricos (os tróleis não, porque tinham portas automáticas) e gritar «Aqui ninguém paga bilhete!» o que não dava muito jeito como estribilho, mas o que valia era a intenção. A coisa correu como devia e com a cumplicidade da população até que, chegando à portagem, quer o pica-bilhetes, quer o condutor, talvez combinados, agarraram-se com os dois braços à porta para não nos deixarem sair, a nós que ouvíamos já os «níveas» a virem a alta velocidade e em sentido contrário na portagem. Foi preciso um dos irmãos Póvoas dar um golpe de karaté improvisado no peito do condutor para sairmos todos a correr com um polícia anafado de pengalim atrás de nós. Subimos para o arco de Almedina e só parámos na universidade.

Ainda mais confrontos houve entre 1973/74. Eram quase diários, mas lembro-me um em que meteu cães e isso sim, assustámo-nos mesmo. Foi nas «eleições» de 1973 em que a oposição ligada ao MDP/CDE convidou o Teuc a apresentar uma peça «O Asno» (era Américo Tomaz, claro). Eu e a malta dos liceus fomos para o 1º Balcão para, quando começasse a peça, atirarmos cá para baixo comunicados contra a palhaçada das eleições. Fizémo-lo, mas perdemo-nos uns dos outros na confusão que se gerou com o chefe da polícia a vociferar as proibições que tínhamos de seguir para assegurar a «legalidade»: não podíamos falar da guerra colonial, nem falar do PR, nem do PM, nem, nem, nem...claro que a reação imediata foi «Abaixo a Guerra Colonial» e uma cena de porradaria em larga escala. Perdi a Guida, perdi um trólei que não abriu as portas para fugirmos, ia perdendo um sapato, e perdi a alma e a dignidade quando um polícia me agarra pelos colarinhos traseiros com o cassetete já bem levantado se recusa a dar-me uma bordoada. «Vai-te embora puto do c...que dou cabo de ti, vai para a tua mãe!». E, embora de cara imberbe, estou convencido que lhe lembrei alguém da prole! Perante o insulto de não me ter dado uma arrochada que ostentasse mais tarde as feridas da contenda aos meus companheiros, saí pela porta pequena, acabrunhado e a pensar na mãe salvadora e no polícia bom demais para ser verdade. Aliás, a meu favor, pensava que um chui que se recusasse a bater num estudante era, ele próprio, a metáfora do caetanismo. Em Lisboa, matavam estudantes. Ribeiro dos Santos foi morto a tiro e o Lamego alvejado numa perna. Aqui, batia-se à bruta, prendia-se, torturava-se, revistava-se, humilhava-se.

A casa aguentou ainda as mudanças brutais e necessárias de uma sociedade decadente pela Revolução de 1974. O 25 de Abril foi para mim inesquecível e estive três dias falho de sobriedade tal era a alegria e a possibilidade de construções várias o que se prolongou por dois anos do gloriosos Prec. Não voltei a ser o mesmo, nem o meu avô. Criou-se uma barreira fria entre mim e ele. A primeira expressão que me atirou foi um «Estás satisfeito»?». A minha resposta foi um enorme sorriso. Que ainda hoje perdura quando estou com amigos desse tempo ou quando me recordo desse dia «inteiro e limpo» como soe dizer-se por via da maior poeta, Sophia.

Esta casa a que me foi atribuído ser o último cabeça de casal, guarda ainda os cheiros a primavera do jardim que entravam na minha pequena janela do quarto, como o cheiro da terra das chuvas de verão e dos invernos frios onde passava noites a ler. Ao ver esta casa e a aproximar-me, hoje, dela vem-me à ideia ter sido o último cabeça de casal, repito. Há toda uma história para trás que me deixa inquieto por já estarem todos mortos e que nunca consegui decifrar, principalmente os silêncios. Do meu tio avô Luís que fugiu de um campo de retenção de estrangeiros na Áustria nazi, de um suicídio de um irmão do meu bisavô no mar da Figueira, diz-se que por ser da Maçonaria, do meu próprio bisavô e da sua estadia longa (mas não tão longa assim) no Brasil e que se meteu em trabalhos, do pensamento do meu avô que criou a Mocidade Portuguesa em Coimbra e que tinha assinado por Mussolini o seu «Testamento Político», mais a sua admiração por Salazar de que tinha sido aluno no Curso de Direito que abandonou, substituindo-o por Clássicas. Pergunto-me porque falava ele de Proudhon com admiração. Mais tarde soube de uma corrente fascista que enaltecia o filósofo, mas o meu avô remetia-se sempre ao silência da austeridade e da frugalidade. Eu não era como ele, decididamente. Tirando o amor que tinha pela minha tia, a minha melhor companheira daquela casa já vazia e sem alma nos seus últimos anos, não guardo afetividade. Embora olhe para ela da Rua do Brasil e sinta que eu poderia estar ainda lá. Talvez mais gordo, provavelmente sozinho, frio como gelo, rodeado de recordações e dando corda a um relógio cujas badaladas suaves me lembravam uma águia nazi.

António Luís Catarino