Cavalo de Ferro, 2026 (1ªed.1985, Antígona). Tradução de Ernesto Rodrigues
Este tango poderia ser transformado numa peça do absurdo, do grotesco. «O Tango de Satanás» é, sem dúvida, um grande obra do húngaro László Krasznahorkai, embora difícil de ler principalmente quando iniciamos o primeiro contacto. Finalmente, quando entramos na cadência da sua leitura, as imagens, diálogos e situações sucedem-se a um ritmo vertiginoso, quase sempre com consequências inesperadas ou até pela ausência de qualquer resultado após uma acção descrita. As situações surgem desgarradas, sem ligações óbvias entre si. É inegável a existência de uma sociedade estagnada, desesperançada, onde se arrasta um quotidiano miserável, em que as personagens se agridem, se convocam e aproximam como um exercício de quem quer provar que estão efectivamente vivas. Não conseguimos ver um objectivo claro, a não ser a da pura sobrevivência numa existência tornada ferozmente individualista, mesmo se a ordem social seja imposta por uma espécie de «cooperativa» em que nada funciona, ou melhor, o que ainda se move com todo o seu cortejo de absurdos e despautérios é a sempre presente burocracia. Se há um vislumbre de revolta, ela é inconsequente, contraditória, sem qualquer lampejo de substituição porque as personagens que a iniciam são desprovidas de vigor humano, estão exaustas. Essa revolta é protagonizada por uma personagem estranha, Irimiás, cujo nome lembra a sonoridade de um profeta do Antigo Testamento, mas é igualmente um misto de aldrabão, de burlão, de um violento trapaceiro que vende simultaneamente liberdade, armas e empregos. Ele é um «homem das situações desesperadas e pastor de homens sem esperança» (pág.154) que aparece e desaparece, que está prestes a resolver todos os problemas ou se afasta deles impetuosamente, castigando ou favorecendo sem que se perceba a sua lógica. Essa ausência de esperança nas personagens que povoam a história é singularmente exposta no capítulo VI, «O Trabalho da Aranha II - Seios diabólicos, Tango de Satanás» na pág. 136. Dou-vos em extracto:
«Futaki estava convencido de que os fracassos, semana após semana, mês após mês, os projectos cada vez mais confusos, logo abortados, essa dolorosa sede de liberdade, não representavam uma ameaça real; eram, sim, o que os mantinha unidos, porque, entre má sorte e a aniquilação, a estrada era longa, mas aqui, no fim do caminho, já se não podia sucumbir. A verdadeira ameaça parecia ser subterrânea, mas a sua fonte era incerta: irrompia, de súbito, um silêncio assustador, e não nos mexemos mais, enrolamo-nos num canto, à espera de protecção, mastigar é uma tortura, salivar, um sofrimento, e ninguém se apercebe já que o tempo desacelera, que o espaço se estreita ao redor de si mesmo, e neste dobrar-se é que ocorre a coisa mais terrível: a inércia.» (pág.138)
Segue-se, neste mesmo capítulo, uma das mais poderosas descrições de uma orgia burlesca, numa taberna soturna e miserável, desses desesperançados. Só por si, justifica a leitura atenta deste livro.
