Deriva das Palavras

domingo, abril 05, 2026

"Confissões de um Opiómano Inglês", Thomas de Quincey

 

Contexto, 1989. Tradução de Manuel João Gomes 
Nos tempos que correm voltar a este título é uma benção laica. Nas «Confissões preliminares» Thomas de Quincey avisa-nos, logo de início, que «se um homem ''que só sabe falar de bois'' se tornar opiómano - e não for tão bronco que seja incapaz de sonhar - o mais provável é que passe a sonhar com bois; no presente caso, o leitor há-de ver que o opiómano se ufana de ser filósofo e que, por consequência, a fantasmagoria dos seus sonhos (desperto ou dormindo, de dia ou de noite) é a de alguém que ''humani nihil a se alienum putat'' [não considera estranho nada do que seja humano]» (pág.16). Apoiado nesta frase do latino Terêncio desenvolve a partir desta ideia, repescada por Marx mais tarde, aspectos da sua vida que foi preenchida quase totalmente pela dependência do ópio. Droga essa que era de venda livre nas boticas londrinas quer em forma de pequenos grãos ou em frascos de láudano, sendo o único entrave o seu alto preço, quase proibitivo para a magra bolsa do poeta e gentleman. Essa foi igualmente a razão de ele ter escrito estas «Confissões» editadas em pequenos episódios num jornal inglês. Mesmo que Thomas de Quincey esteja muito longe de pensar somente em bois é plausível que por vezes, até mesmo esses, pudessem aparecer-lhe nos sonhos que lhe afloravam em estado de alucinação e de profunda plenitude que lhe durava entre oito a dez horas. Acredito que os que pensam essencialmente em bois têm crescido exponencialmente na nossa triste época em que as drogas são alvo de perseguição contínua, sem que as mais perigosas como a televisão, os meios de comunicação social, os discursos evangélicos ou os identitários, sejam alvo de qualquer repressão. Essas drogas são de venda livre e recomendados por verdadeiros traficantes na pele de comentadores televisivos. Desses, ainda não constam em Thomas de Quincey, mas para nosso contentamento e esperança de que as coisas foram sempre assim e alimentando a nossa boa consciência, ele apontou outros, nomeadamente médicos e professores universitários, demasiado rápidos a culparem o ópio do mal da sociedade inglesa do século XIX. 

Há, no entanto, neste livro um trecho a que volto quase sempre. Trata-se de uma sequência da vida de Thomas de Quincey que ele nos conta: procurando obcecadamente uma rapariga de quem gostava muito, Ann de seu nome, e envolto nos eflúvios do ópio durante dias seguidos, ele encontra uma Londres desconhecida. Essa autêntica deriva experimentada pelo poeta veio a ser referida e replicada por Guy Debord e pelos situacionistas, logo no primeiro número da revista da IS em 1959, quase 100 anos após a publicação das «Confissões», publicada em 1856. Nascia a «Teoria da Deriva». Esteve igualmente na base do nome escolhido para a Deriva Editores em 2003. Vale a pena colocar aqui esse trecho que se encontra nesta edição da Contexto, na página 83:
«Algumas daquelas minhas andanças levaram-me muito longe, até porque todo o opiómano rejubila quando vê o tempo a fugir. E, muitas vezes, ao tentar regressar a casa, de olhos postos na estrela polar, como ensinam as leis náuticas, procurando ambiciosamente a passagem do Noroeste, evitando dobrar de novo todos os cabos e promontórios já por mim descobertos numa primeira vez, via-me de repente perdido em vielas labirínticas, becos enigmáticos, esfíngicas ruas sem saída, feitas (parecia-me) para pôr à prova a audácia dos carregadores e confundir a inteligência dos cocheiros. Mais de uma vez me convenci de que era eu o descobridor de algumas daquelas terrae incognitae e duvidava que elas estivessem assinaladas nas modernas plantas de Londres.»

No final do livro, as últimas impressões de Quincey tornam-se extremamente humanas. Em «Os Tormentos do Ópio» escreve que um leitor atento deve centrar os pensamentos explanados não no opiómano, mas sim no ópio que se transforma no verdadeiro herói da história. Sabe por que razão pára de se drogar: «...vi então que morreria se continuasse a tomar ópio; decidi por isso que, se necessário, morreria, mas só depois de me livrar dele.» (pág.133)

alc