Deriva das Palavras

quinta-feira, abril 23, 2026

"Les Vies Secrétes ds Vladimir Maiakovski", Yoann Iacono

 

Edições "J'ai Lu", 2025.
Dizia Boris Pasternak, que conviveu com Maiakovski nos seus tempos de grande boémia moscovita logo após a revolução de 1917, que havia tantas versões da vida do poeta quanto havia de russos. Provavelmente até poderá ter um fundo de verdade, salve o evidente exagero e ironia, mas talvez instigada pelo próprio Maiakovski muito pouco atreito a divulgar traços da sua vida privada, mesmo depois de se tornar uma lenda viva até à sua morte e que esta se tenha igualmente transformado numa questão política por gerações.

Não deixa de ser interessante verificar que um livro comprado à pressa numa livraria de aeroporto, de um «jovem» autor desconhecido e que continuará a sê-lo porque não me seduziu, se tenha focado na vida de Maiakovski, um futurista revolucionário de quem nunca me separei nos anos setenta e de que guardo os seus livros de poemas até hoje. A vida deste poeta daria sempre pano para mangas e assim se meteu à obra o autor do livro, não sem algumas contrariedades evidentes: não me parece que o manifesto futurista italiano de Marinetti, afirmando que um automóvel «era mais belo que a Vitória de Samotrácia», tenha ver com o futurismo russo, claramente construtivista e socialista, ou sequer que tenha havido contactos entre eles, mas enfim... igualmente para a vertente antimilitarista e antiguerra do futurismo russo bem diferente do do italiano que via no combate fascista um renascer do culto guerreiro. Nos antípodas políticos dos russos, bem-entendido. Mas a honestidade do autor está a salvo: ele avisa-nos, em nota inicial, que tudo é fruto da sua imaginação, embora no final seja publicada uma bibliografia utilizada na «pesquisa». Ficamos confusos, mas como é coisa para duas horas de leitura, siga viagem!

A receita é simples e é seguida por múltiplos «novos» autores: juntam-se dados biográficos a rodos, aumentam-se dados picarescos, inventam-se outros, deduz-se sem entraves, desde que seja referido o carácter ditatorial e sangrento de uma revolução que levou à potencial loucura de Maiakovski, já possuído por uma aura depressiva e até anti-social desde a infância; e que se reflectiu, logicamente, na posterior purga silenciosa exercida por Estaline e pelos bolcheviques que só o esconjuraram porque Lenine já teria apontado esse caminho aos futuristas russos - prisão, suicídio, assassínio, esquecimento e, se tivessem sorte, exílio. O resto é o costume para vender: sangue revolucionário aos borbotões, prisões arbitrárias em catadupa, sexo livre imposto pelos comunistas como forma de destruir a família burguesa, amores incompreendidos e um título (não esquecer o título chamativo) que aponta para vícios «secretos» nunca antes divulgados. 

É o que está a dar na literatura aeroportuária.

alc