Edições "J'ai Lu", 2025.
Dizia Boris Pasternak, que conviveu com Maiakovski nos seus tempos de grande boémia moscovita logo após a revolução de 1917, que havia tantas versões da vida do poeta quanto havia de russos. Provavelmente até poderá ter um fundo de verdade, salve o evidente exagero e ironia, mas talvez instigada pelo próprio Maiakovski muito pouco atreito a divulgar traços da sua vida privada, mesmo depois de se tornar uma lenda viva até à sua morte e que esta se tenha igualmente transformado numa questão política por gerações.
Não deixa de ser interessante verificar que um livro comprado à pressa numa livraria de aeroporto, de um «jovem» autor desconhecido e que continuará a sê-lo porque não me seduziu, se tenha focado na vida de Maiakovski, um futurista revolucionário de quem nunca me separei nos anos setenta e de que guardo os seus livros de poemas até hoje. A vida deste poeta daria sempre pano para mangas e assim se meteu à obra o autor do livro, não sem algumas contrariedades evidentes: não me parece que o manifesto futurista italiano de Marinetti, afirmando que um automóvel «era mais belo que a Vitória de Samotrácia», tenha ver com o futurismo russo, claramente construtivista e socialista, ou sequer que tenha havido contactos entre eles, mas enfim... igualmente para a vertente antimilitarista e antiguerra do futurismo russo bem diferente do do italiano que via no combate fascista um renascer do culto guerreiro. Nos antípodas políticos dos russos, bem-entendido. Mas a honestidade do autor está a salvo: ele avisa-nos, em nota inicial, que tudo é fruto da sua imaginação, embora no final seja publicada uma bibliografia utilizada na «pesquisa». Ficamos confusos, mas como é coisa para duas horas de leitura, siga viagem!
A receita é simples e é seguida por múltiplos «novos» autores: juntam-se dados biográficos a rodos, aumentam-se dados picarescos, inventam-se outros, deduz-se sem entraves, desde que seja referido o carácter ditatorial e sangrento de uma revolução que levou à potencial loucura de Maiakovski, já possuído por uma aura depressiva e até anti-social desde a infância; e que se reflectiu, logicamente, na posterior purga silenciosa exercida por Estaline e pelos bolcheviques que só o esconjuraram porque Lenine já teria apontado esse caminho aos futuristas russos - prisão, suicídio, assassínio, esquecimento e, se tivessem sorte, exílio. O resto é o costume para vender: sangue revolucionário aos borbotões, prisões arbitrárias em catadupa, sexo livre imposto pelos comunistas como forma de destruir a família burguesa, amores incompreendidos e um título (não esquecer o título chamativo) que aponta para vícios «secretos» nunca antes divulgados.
É o que está a dar na literatura aeroportuária.
alc
