quinta-feira, maio 10, 2012

Pouco a pouco constrói-se a história de uma traição


Berlim 1918, Espanha 1936, França 1936, Hungria 1956, Praga, 1968, Paris, Maio de 68, Moscovo, 1991, algumas datas e registos de traições que ainda hoje magoam. Agora junta-se a Grécia e a impossibilidade de o Syrisa formar um governo de esquerda que retire ao povo grego a humilhação da austeridade e do desemprego. Não estou a exagerar. A Europa vai obrigar a Grécia a novas eleições até aceitarem a vergonha e a imposição alemã. Quem, desde logo, não aceitou a possibilidade de um governo baseado na escolha do povo deve felicitar-se interiormente pelo seu sucesso. Mas pagaremos todos muito caro por isso.

Feira do Livro de Lisboa: ir ao A44 ver os livros de Paulo Kellerman



domingo, maio 06, 2012

Édipo, de Sófocles, no Teatro do Bolhão



Édipo, de Sófocles, foi encenado por Kuniaki Ida e teve interpretações
memoráveis de António Capelo e Pedro Lamares.
Tomem e embrulhem: no dia das eleições gregas (em França não importa e entre Hollande e Sarkozy venha o diabo e escolha), cá o indivíduo deu corda aos sapatos e foi, lesto, ver Édipo de Sófocles, encenação do Teatro do Bolhão e que nunca ganhou, a seu tempo, qualquer festival da Grécia antiga. Lá, como cá, os árbitros tinham os seus critérios e quedas súbitas por este ou por aquele. Sófocles é que provavelmente não era simpático ou não tinha acesso às mistoforias públicas. Mal um tipo se senta, ouve: «Salva esta cidade das ruínas, ó Édipo!» e quer se queira, ou não, pensamos que existe um paralelismo entre a nossa sociedade e a deles, dos gregos antigos. Só que Jocasta é a Democracia e Édipo, nós todos. Deixámos que nos privassem da sociedade, da economia, da ciência, da cultura e da solidariedade, para nos entregarem ao dinheiro e às finanças. Não sei como vai ser o fim desta tragédia, mas os gregos inventaram tudo e há quem diga que de uma maneira ou de outra pagaremos sempre os nossos erros. A cegueira como destino? É provável. Mas não gosto.

quarta-feira, maio 02, 2012

Sita Valles, um percurso de vida e de morte em Angola

Tinha 17 anos quando conheci Sita Valles, numa reunião na sede da UEC de Coimbra, em junho de 1974. Fez-se acompanhar por Zita Seabra e escuso-me a comentar o que pensei pessoalmente das duas. Pouco interessa para o que eu quero dizer, mas Sita Valles impressionou-me vivamente pela clareza e entusiasmo que imprimia às propostas de uma organização em evidente crescimento nos liceus e universidades. Nessa ocasião a UEC ganhou muitas associações estudantis e poucas férias tivemos em dois a três anos. Fomos de imediato para o movimento Alfa e, autênticos miúdos, apontámos para o campo alfabetizar e trabalhar com os camponeses. Creio que isso moldou-me como pessoa. E talvez por causa disso em 1977, quando do seu fuzilamento, após tortura e violação por agentes da DISA, em agosto desse ano, já não me encontrava na UEC. Em breve seria uma organização dissolvida pelo PC. Muitos desses militantes afastaram-se e nunca mais voltaram à política ativa. Outros continuaram a política de outras formas e noutros lugares.
Li o livro da jornalista Leonor Figueiredo sobre a vida de Sita que o comprei há uns tempos. Evitava lê-lo e sei-o porquê. É evidente que emociona, mesmo que algumas situações não estejam suficientemente explicadas e a escrita pudesse ser um pouco melhor. É necessário que se saiba a dimensão brutal do que aconteceu nos dias após 27 de maio de 1977, em Angola. Pensa-se em 20 a 30 mil mortos, para não falar de expulsões e torturas generalizadas numa autêntica orgia de sangue e violência que fez sossobrar a melhor juventude, aquela que tentou denunciar a corrupção nascente em Angola. O próprio modus operandi dos torturadores e dos carrascos lembra o Chile de Pinochet que quatro anos antes se tinha dado, com enterramentos e lançamentos de helicópteros de pessoas vivas. E há várias nebulosas ainda: conhecer o relatório de Eduardo dos Santos sobre o tal «fracionismo» de Nito Alves, José Van-Dunen e Sita Valles, nunca apresentado e que esclareceria o seu papel na repressão; o papel do «grande» escritor Pepetela continua a gerar incertezas; e a intervenção do PCP, ou a falta dela, não é ainda clara passados estes anos. Há silêncios que podem explicar tudo, mas a memória de Sita Valles, mesmo com a ingenuidade e o voluntarismo que lhe são atribuídos merecia melhor. E quer se queira, ou não, ela tornou-se um símbolo.

Feira do Livro de Lisboa: ir ao A44 Deriva/ História

Comprar livros da Deriva / História




Hoje, 17h, na FCSH, da Univ. Nova de Lisboa, apresentação de Observações sobre o Ramo Dourado de Frazer de Wittgenstein



domingo, abril 29, 2012

Feira de Lisboa: ir ao A44

Encontrar estes livros de Vicente Romano

Ir ao Palácio de Cristal comprar livros.


Não sei bem como se chama a iniciativa (mas hei-de saber). É no Palácio de Cristal e estão, até finais de maio, livros à venda por pouquíssimo dinheiro. Os livros da Deriva (alguns antigos de quase dez anos) podem ser adquiridos entre 3,50 e 5 euros e autores como Xavier Queipo (Bebendo o Mar e Ciclos de Bambu), Xurxo Borrazás (o excelente Ser ou Não), Xabier López López (A Estranha Estrela), Patrick Raynal (Ex), os livros de Vítor Pinto Basto (Morto com Defeito e Gente que Dói), Sérgio Almeida (Armai-vos Uns aos Outros), Ramón Caride (Tempos de Fuga), Antón Riveiro Coello (As Rolas de Bakunine), Jean-Marc Rouillan (Odeio as Manhãs), Pedro Teixeira Neves (O Sorriso de Mona Lisa), Vicente Romano (A Formação da Mentalidade Submissa), Santiago López-Petit (O Estado-Guerra) entre outros.

sábado, abril 28, 2012

Claúdia Sousa Dias sobre "A inexistência de Eva" de Filipa Leal




Filipa Leal, poeta, jornalista e, actualmente, colaboradora no programa “Câmara Clara”, dá-nos uma poesia minimalista mas na qual está contida uma densíssima massa de ingredientes emocionais. Trata-se de uma poética que fala do medo da perda, das palavras que ficam por dizer, submersas na brancura imaculada de um mundo onde só a perfeição tem lugar. As coisas importantes mas desestabilizadoras vindas do mundo “lá fora” estão cuidadosamente embutidas nas entrelinhas, apagadas pela aparente perfeição de um paraíso, belo, sem mácula mas fortemente murado. Como tal, o leitor vê-se compelido a descodificar as mensagens subliminares, cifradas, actividade que torna a leitura muito mais exigente e absorvente, permitindo demarcar a escrita desta jovem poeta da escrita banal.

Eva ou Lillith?

A obra A Inexistência de Eva, dá voz à alma de uma mulher aparentemente submissa mas dotada de uma inquietude interior, que poderá ter de pagar o preço da solidão e da incerteza para preservar a identidade.
Ligada a esta “Eva” de Filipa Leal, está também a simbologia da maçã, directamente relacionada com o livro do Génesis. A Maçã representa o Conhecimento. Conhecimento que é uma forma de Poder. E o desejo de conhecimento e poder para conquista da independência – e da liberdade – será talvez uma forma de rebeldia. Atitude que poderá ser interpretada como uma espécie de insubordinação pela insistência em abdicar da protecção daqueles que são os guardiões do seu mundo perfeito e em romper o véu da imaculada cegueira branca, vivida num Éden que é um sistema fechado. Um mundo onde a felicidade assenta numa asséptica ignorância.
(continua aqui)

quinta-feira, abril 26, 2012

Apresentação em Lisboa de O Ramo Dourado de Frazer, de Ludwig Wittgenstein, dia 2 Maio, 17h FCSH, Univ. Nova

Poesia


"Mas as histórias interessam-me tão pouco. Se algum dia escrevesse um romance, seria necessariamente um romance sem lugar, sem acção. Apenas o lugar do pensamento, apenas acção poética. A poesia, como pensamento que não se partilha, é a única coisa que não mente, que não se distrai nessa diplomacia tonta, nessa vontade de frases. A poesia não mente porque não promete dizer a verdade, porque é rigorosamente impartilhável."
 Filipa Leal in "Isabel", O prazer da leitura, Fnac, 2012.

sexta-feira, abril 20, 2012

Feira do Livro de Lisboa: a Deriva no Pavilhão A44, da Companhia das Artes

E aí está à porta mais uma edição da Feira do Livro de Lisboa. Desta vez, a Deriva estará no Pavilhão A44 com a Companhia das Artes, a nossa distribuidora.
A 82.ª edição da Feira do Livro de Lisboa terá lugar entre 24 de Abril e 13 de Maio de 2012, no Parque Eduardo VII em Lisboa. Aproveite a riqueza cultural da Feira do Livro de Lisboa, que possui uma grande oferta de espaços dedicados à literatura, esta será a 82ª edição da Feira do Livro de Lisboa.
De 24 de abril a 13 de maio de 2012
Inauguração da Feira: dia 24 de abril, pelas 17h00
Lisboa – Parque Eduardo VII

HORÁRIO
2.ª feira 12h30 23h00
3.ª feira 12h30 23h00
4.ª feira 12h30 23h00
5.ª feira 12h30 23h00
6.ª feira 12h30 24h00
sábado 11h00 24h00
domingo 11h00 23h00
feriados 11h00 23h00

quarta-feira, abril 18, 2012

Filipa Leal no Festival de Poesia de Berlim 2012

Este é o cartaz de 2011
Ainda é oficioso, mas sabe-se que Filipa Leal foi convidada para estar presente no Festival de Poesia de Berlim de 2012 que vai acontecer entre os dia 1 e 3 de junho. A poesia brasileira é a convidada deste ano. Vamos dar mais notícias, logo que as tivermos.

sábado, abril 14, 2012

As insónias e o recurso aos clássicos

Camilo por Vasco
Deve ser da idade. Pelo menos, o Vasco Pulido Valente queixava-se, ainda não há muito tempo, do mesmo. A falta de sono e as insónias que invariavelmente me obrigam a ler. Como os jornais estão como estão (todos iguais uns aos outros e com opiniões de alto coturno, ao nível da mesa de café) e a televisão se encontra insuportável, vejo-me na feliz contingência de me dedicar à releitura de alguns clássicos entre escritores mais ou menos contemporâneos, não vão acusar-me de arrogância. Veio-me às mãos (já o tinha lido em miúdo) A Queda dum Anjo e, palavra de honra, lembrei-me de algumas personagens atuais do nosso parlamento e da nossa opinião política. Aquele Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda não engana: gongórico, redondo, nunca recusando uma citação ilustrativa, é ele o provinciano astuto que se adapta facilmente à conjuntura. E a conjuntura no século XIX era, desgraçadamente, a mesma de hoje. Já o Eça de A Cidade e as Serras (que o Luís Nogueira meu professor de Português nos deu para ler aos 12 anos) mostra uma aparente desprezo por Paris diretamente proporcional ao exagerado amor por Portugal. Não brinques, ó Eça. «Uma maçada! Uma seca!» - não pára de dizer Jacinto para um Zé Fernandes sobre Paris. Não fosse a trigueira Joaninha não querer sair de Tormes e gostaria de adivinhar um outro final. Um final que obrigasse Zé Fernandes a dizer dela o que disse das madames de Jacinto: «- Parece que fala como as mulheres de Camilo! Oh, nunca leste Camilo? Ah o Camilo...» Mortífero. É o que dão as releituras. Obrigam-nos a uma outra forma de entender os livros. Deve ser a idade.

quarta-feira, abril 11, 2012

Guias Sonoras, de João Pedro Mésseder. Posfácio de Ana Margarida Ramos


«Devotara-se por inteiro à poesia, pelo que o seu ideal se tornara puramente estético. Jamais político - acreditava. Os deuses sorrriam com benevolência. E os homens de negócios, na sua filantrópica bonomia, aprovaram em silêncio essa tranquilizadora separação das águas.»
João Pedro Mésseder, Guias Sonoras, Deriva, página 22

«(...) A condensação e a força pedidas por empréstimo ao aforismo, o humor fino e penetrante, tomado da greguería, e a contemplação estóica a que se segue, quase de imediato, o choque da sensação fulminante provocado por uma aparição súbita, que define o haiku, combinam-se na construção de textos que, soba a égide do fragmento, apostam na leitura enquanto experiência limite, fricção mais ou menos abrasiva entre o leitor e o texto, capaz de suscitar, de igual modo, deslumbramento e sobressalto, agindo e agitando, através de uma certa vibração poética, a sensibilidade e, por que não, a consciência.»
Ana Margarida Ramos, do Posfácio a Guias Sonoras

Stéphane Mallarmé, Crise de Versos. Traduzido agora para português por Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras

Edição bilingue
(...)
Narrar, ensinar, mesmo descrever, tudo isso funciona; e embora para partilhar o pensamento humano talvez baste a cada um tirar ou pôr na mão de outrem uma moeda, em silêncio, o uso elementar do discurso serva bem a reportagem universal da qual, excepção feita à literatura, todos os géneros escritos contemporâneos participam.
(...)
Mallarmé, Deriva/ILC coleção Pulsar, Tradução de Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras

domingo, abril 08, 2012

A ler La Coca, de J. Rentes de Carvalho

Duvido que no panorama literário atual se retrate tão bem o Minho e a Galiza de hoje como o faz J. Rentes de Carvalho neste La Coca. Sim, de cocaína. Mas também de heroína, de haxixe, de carros de alta cilindrada, de palácios construídos em pouco tempo nas quintas arruinadas e compradas com o dinheiro do narcotráfico, de traineiras que depressa passaram às famosas voadoras, de jantares pantagruélicos entre os capos e amigos colombianos e panamanianos e sempre a rede corrupta entre as duas fronteiras que marcam indelevelmente funcionários, advogados, dirigentes de clubes, empresários. E fala-se também de Barcelos, de Viana, de Lanhelas que cruzam antigos favores com Baiona, Cambados, Arousa. Aqui se constrói uma geografia nova que La Coca nos mostra sem nostalgias inúteis ou moralismos. O que hoje é a Galiza e o Minho fizeram-nas os respetivos estados e, um dia, que queiramos voltar atrás será tarde demais. A cocaína não corrompe só quem a consome, mas toda uma sociedade que se faz cúmplice em torno do dinheiro fácil. São as novas «novelas do Minho». Mas estas deixam um trago amargo na boca, acreditem.

sexta-feira, abril 06, 2012

A Coleção Cassiopeia. ILC/Deriva

Os dois livros editados em parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP e pela Deriva Editores. Pedidos à editora e à distribuidora (Companhia das Artes)

A Coleção Pulsar. ILC/Deriva

Obras editadas em parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP e a Deriva Editores
Pedidos à Deriva e à distribuidora (Companhia das Artes)

A ler A Arte de Morrer Longe, de Mário de Carvalho


Mário de Carvalho é um excelente retratista e um contador de histórias. Mostra-nos um país ocupado em pequenas mezinhas de carácter, em pequenos empregos e ainda mais pequenas relações entre personagens que se dividem em revistas cor de rosa e nas pantalhas luminosas que desvendam o saber atual: a grande wickipedia! Os portugueses são ases no saber sugado pela net. Os mais desenrascados de entre nós, sabem-no. Mas a veromilhança de A Arte de Morrer Longe constrói-se pela capacidade de Mário de Carvalho em apresentar-nos situações que só a realidade nos pode dar. O absurdo é tal que nos é difícil imaginar essas situações no campo literário. Só mesmo a realidade para percebermos a possibilidade de elas acontecerem. Que faz uma tartaruga num apartamento de Lisboa alimentada por um casal desavindo em vésperas de uma separação e loucamente à procura de umas luvas de látex? E os interrogatórios policiais que procuram saber desse afã pouco comum? E a mãe de Arnaldo, uma burguesa da Avenida de Roma que lhe aparece com um avental da Festa do Avante, convidando «Eu sou comunista. Porque não tu?». Aqui tudo se explica pela escrita muito própria de Mário de Carvalho que nos interpela diretamente, como leitores e cúmplices. De qualquer maneira, embora não seja dos melhores romances dele, é uma obra incontornável. Imperdível, na página 94, o retrato de Quintão Malpique um tipo muito português que a net descobriu e ampliou do que, antes dela, denunciava os outros à Câmara ou à polícia «só para chatear» e, agora na possibilidade infinita da net, se diverte sob anonimato a caluniar, a comentar, a insultar e a propagandear salazar. Para um muito português faduncho e fascistóide «Só para chatear»!

quinta-feira, abril 05, 2012

Adrienne Rich (1929-2012)


Livresque


There hangs a space between the man
and his words

like the space around a few snowflakes
just languidly beginning

space
where an oil rig has dissolved in fog

man in self-arrest
between word and act

writing agape, agape
with a silver fountain pen

The school among the ruins, 2002

3º Encontro de Literatura Infanto-juvenil da S.P.A. 14 de Abril, Porto