quarta-feira, abril 11, 2012

Stéphane Mallarmé, Crise de Versos. Traduzido agora para português por Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras

Edição bilingue
(...)
Narrar, ensinar, mesmo descrever, tudo isso funciona; e embora para partilhar o pensamento humano talvez baste a cada um tirar ou pôr na mão de outrem uma moeda, em silêncio, o uso elementar do discurso serva bem a reportagem universal da qual, excepção feita à literatura, todos os géneros escritos contemporâneos participam.
(...)
Mallarmé, Deriva/ILC coleção Pulsar, Tradução de Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras

domingo, abril 08, 2012

A ler La Coca, de J. Rentes de Carvalho

Duvido que no panorama literário atual se retrate tão bem o Minho e a Galiza de hoje como o faz J. Rentes de Carvalho neste La Coca. Sim, de cocaína. Mas também de heroína, de haxixe, de carros de alta cilindrada, de palácios construídos em pouco tempo nas quintas arruinadas e compradas com o dinheiro do narcotráfico, de traineiras que depressa passaram às famosas voadoras, de jantares pantagruélicos entre os capos e amigos colombianos e panamanianos e sempre a rede corrupta entre as duas fronteiras que marcam indelevelmente funcionários, advogados, dirigentes de clubes, empresários. E fala-se também de Barcelos, de Viana, de Lanhelas que cruzam antigos favores com Baiona, Cambados, Arousa. Aqui se constrói uma geografia nova que La Coca nos mostra sem nostalgias inúteis ou moralismos. O que hoje é a Galiza e o Minho fizeram-nas os respetivos estados e, um dia, que queiramos voltar atrás será tarde demais. A cocaína não corrompe só quem a consome, mas toda uma sociedade que se faz cúmplice em torno do dinheiro fácil. São as novas «novelas do Minho». Mas estas deixam um trago amargo na boca, acreditem.

sexta-feira, abril 06, 2012

A Coleção Cassiopeia. ILC/Deriva

Os dois livros editados em parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP e pela Deriva Editores. Pedidos à editora e à distribuidora (Companhia das Artes)

A Coleção Pulsar. ILC/Deriva

Obras editadas em parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa da FLUP e a Deriva Editores
Pedidos à Deriva e à distribuidora (Companhia das Artes)

A ler A Arte de Morrer Longe, de Mário de Carvalho


Mário de Carvalho é um excelente retratista e um contador de histórias. Mostra-nos um país ocupado em pequenas mezinhas de carácter, em pequenos empregos e ainda mais pequenas relações entre personagens que se dividem em revistas cor de rosa e nas pantalhas luminosas que desvendam o saber atual: a grande wickipedia! Os portugueses são ases no saber sugado pela net. Os mais desenrascados de entre nós, sabem-no. Mas a veromilhança de A Arte de Morrer Longe constrói-se pela capacidade de Mário de Carvalho em apresentar-nos situações que só a realidade nos pode dar. O absurdo é tal que nos é difícil imaginar essas situações no campo literário. Só mesmo a realidade para percebermos a possibilidade de elas acontecerem. Que faz uma tartaruga num apartamento de Lisboa alimentada por um casal desavindo em vésperas de uma separação e loucamente à procura de umas luvas de látex? E os interrogatórios policiais que procuram saber desse afã pouco comum? E a mãe de Arnaldo, uma burguesa da Avenida de Roma que lhe aparece com um avental da Festa do Avante, convidando «Eu sou comunista. Porque não tu?». Aqui tudo se explica pela escrita muito própria de Mário de Carvalho que nos interpela diretamente, como leitores e cúmplices. De qualquer maneira, embora não seja dos melhores romances dele, é uma obra incontornável. Imperdível, na página 94, o retrato de Quintão Malpique um tipo muito português que a net descobriu e ampliou do que, antes dela, denunciava os outros à Câmara ou à polícia «só para chatear» e, agora na possibilidade infinita da net, se diverte sob anonimato a caluniar, a comentar, a insultar e a propagandear salazar. Para um muito português faduncho e fascistóide «Só para chatear»!

quinta-feira, abril 05, 2012

Adrienne Rich (1929-2012)


Livresque


There hangs a space between the man
and his words

like the space around a few snowflakes
just languidly beginning

space
where an oil rig has dissolved in fog

man in self-arrest
between word and act

writing agape, agape
with a silver fountain pen

The school among the ruins, 2002

3º Encontro de Literatura Infanto-juvenil da S.P.A. 14 de Abril, Porto

A História Social do Porto, de Bruno Monteiro, João Queirós, Ricardo Ruivo, Maria Inês Coelho, João Baía, Ana Sofia Ferreira e Cristina Nogueira

Autores: BRUNO MONTEIRO, JOÃO QUEIRÓS, RICARDO RUIVO, MARIA INÊS COELHO, JOÃO BAÍA, ANA SOFIA FERREIRA E CRISTINA NOGUEIRA


Na Universidade Popular do Porto, ao longo de sensivelmente dois anos, praticamente todos os meses, as sessões das Oficinas do Pensável serviram para a apresentação de trabalhos de investigação realizados, sobretudo, no âmbito das ciências sociais. Ambicionando o propósito de permitir, sem que isso significasse isentar-se de desideratos de rigor, a apresentação fora do espaço universitário de pesquisas recentemente realizadas, de maneira que muitas aí conheceram uma primeira apresentação pública, cada Oficina procurava constituir também uma oportunidade para o exercício da reflexão partilhada entre os dinamizadores da sessão e uma audiência que desejavelmente não se cingiria meramente a essa condição. Ao dispensar-se, outrossim, das fórmulas de conveniência académica e dos argumentos de autoridade magistral, era ensaiada, recorrentemente, a abertura de um espaço de diálogo, alheio a fins puramente polémicos, entre praticantes de diferentes “especialidades” científicas. Sessão após sessão, no meio a uma diversidade de temas e abordagens, foi-se revelando, inesperadamente, uma linha de questionamento compartida por vários investigadores: aquela sobre a história do Porto no período subsequente ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os contributos reunidos neste volume, que não foram inicialmente combinados entre si, mostraram poder reconstruir, quais faces de um mesmo poliedro, a realidade complexa da cidade nessa fase do Estado Novo.

Em breve: Observações sobre 'o ramo dourado' de Frazer, de Ludwig Wittgenstein

No ano de 2011, cumpriram-se os 60 anos da morte de Ludwig Wittgenstein, filósofo austríaco, nascido em Viena a 26 de Abril de 1889. São agora publicadas em livro, pela primeira vez em Portugal, as “Observações sobre «O Ramo Dourado» de Frazer”, “Bemerkungen über Frazers Golden Bough”, trabalho proeminente na obra de Wittgenstein e cuja relevância para a actual reflexão filosófica pode facilmente ser constatada pela extensíssima bibliografia que tem motivado.
Traduzida directamente do alemão por João José de Almeida, filósofo, esta edição tem, em especial, a particularidade de ter recorrido directamente aos manuscritos e dactiloscritos editados pelo Arquivo Wittgenstein na Universidade de Bergen, compondo um texto que é, em múltiplos sentidos, a versão que mais próxima fica de oferecer uma visão integral do material original existente no espólio, e que permanece ignorado pela imensa maioria da comunidade internacional wittgensteiniana. Até mesmo para o leitor de uma língua que não a portuguesa, o texto tem a vantagem de restituir a mais completa e detalhada versão em alemão alguma vez realizada desta obra. A introdução escrita por Nuno Venturinha, que reviu também o texto da tradução, filósofo da Universidade Nova de Lisboa e reputado especialista, a nível internacional, no Nachlass wittgensteiniano, constitui um contributo notável para tornar esta edição ainda mais apelativa.

quarta-feira, abril 04, 2012

Dimitri Christoulas: um suicídio na Praça Sintagma

Um dia. Foi necessário um dia de quase silêncio para saber qual o nome do cidadão grego que fez terminar abruptamente a sua vida junto a uma árvore da Praça Sintagma, em Atenas. Poucos foram os jornais ou agências noticiosas que o disseram. Tratava-se, para estes, quase sempre de «um homem», «provavelmente desempregado» um «idoso». Portanto, bastariam umas linhas e segue-se o Benfica vs. Chelsea e o primeiro-ministro que provavelmente mentiu sobre os subsídios e o «chefe» da oposição que está indignado perante aquilo a que chama de «ataque vil e miserável» feito por um comentador de uma tv privada. O homem que se suicidou, tinha família, filhos e netos. Teve igualmente uma farmácia que fechou. Era um reformado. Estava farto e deixou um bilhete a dizer que o governo da Grécia era um governo de traição. Deu um tiro na cabeça à frente de todos e adivinha-se o grau de asco a que foi submetido para o fazer. É, queiramos ou não, um acto político que nos fere a todos. Chamem-lhe niilista ou o que quiserem, mas é um acto público de negação. Deixa-nos incomodados. Apetece-nos dizer que foram os governos e a troika que o fizeram, apontando-lhes o dedo da culpa. O seu nome? O nome do homem que se matou hoje? Registem para memória futura: Dimitri Christoulas, e uma bala acabou com ele às nove horas da manhã de hoje. Na Praça Sintagma, lugar de todas as resistências.

Goethe and the Metamorphosis of Plants, André Masson, 1940. Em Serralves

Em Serralves encontrei este quadro de André Masson titulado Goethe and the Metamorphosis of Plants, pertencendo a uma coleção privada de arte Dadá e Surrealista.
Para a Catarina Nunes de Almeida e para o seu livro, editado pela Deriva, A Metamorfose das Plantas dos Pés (em baixo).

A ler A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão


Como coabitar com discursos políticos aparentemente panfletários com uma magnífica história de amor tendo, como pano de fundo, a cidade de Lisboa e o abandono a que está votada? Teolinda Gersão consegue-o de uma maneira magistral, prendende-nos através de uma narrativa solta e com personagens muito bem construídas a nível psicológico. Essas pessoas, Rui, Cecília, Sara, são pessoas que sentem, que comem, que se cansam, que entristecem, que amam. Que estão vivas. Elas não estão sozinhas e convivem com a cidade (nem sempre de uma forma saudável) esburacada, pouco cuidada, guiada por gente sem escrúpulos, políticos de algibeira que fingem gostar dela para serem eleitos. Portugal também é assim, a braços com uma crise profunda, que não é só económica, mas que navega à vista da corrupção e da vigarice. Lembramo-nos da História de Portugal e de Lisboa e a autora atira-nos com ela à cara ao ponto de sentirmos algum incómodo. As personagens continuam a viver e a tentar sobreviver, envoltos numa culpa nem sempre assumida. Com quem amam e com o país, a que tentam sempre fugir. Derivam para Londres, Estocolmo, Berlim, mas os encontros definitivos dão-se cá. Em Lisboa. Nas últimas páginas de A Cidade de Ulisses, Rui, a personagem central organiza uma exposição no CAM que vai partilhar, com esse mesmo nome, com Cecília que já não se encontra entre nós. Provavelmente à espera da decisão de uma qualquer Penélope. Muito bom, este livro.

terça-feira, abril 03, 2012

Dalí em Serralves.

Lilith e a dupla vitória de Samotrácia, Salvador Dali, homenagem a Raymond Roussel
Serralves, 2 de Abril de 2012

Observações sobre 'O Ramo Dourado' de Frazer, de Ludwig Wittgenstein, em breve nas livrarias


TÍTULO - OBSERVAÇÕES SOBRE “O RAMO DOURADO DE FRAZER”

AUTOR - LUDWIG WITTGENSTEIN

COORDENAÇÃO - BRUNO MONTEIRO

EDIÇÃO, TRADUÇÃO E NOTAS - JOÃO JOSÉ DE ALMEIDA

INTRODUÇÃO E REVISÃO DA TRADUÇÃO - NUNO VENTURINHA

FOTO DA CAPA - FOTOGRAFIA DE LUDWIG WITTGENSTEIN EM FRENTE A UM MURO, EM SWANSEA, TIRADA POR BEN RICHARDS NO ANO DE 1947.

© THE CAMBRIDGE WITTGENSTEIN ARCHIVE #0403

CONSELHO EDITORIAL

JOSÉ MADUREIRA PINTO
MANUEL LOFF
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As Rolas de Bakunine, de Antón Riveiro Coello


Capa da edição galega da Galaxia e foto do autor
 As Rolas de Bakunine é um livro que retrata uma família galega de imigrantes anarquistas que, depois da guerra civil de Espanha, se refugiam na América do Sul. Uns retornam, outros não. Mas convém lembrar que na Galiza, nesses anos entre 1936 e 39 não houve propriamente guerra aberta entre duas frentes. Houve sim as tristemente célebres «passeatas» em que os republicanos, comunistas e anarquistas eram levados de suas casas e empregos e fuzilados em «paseos». Os corpos, invariavelmente, eram posteriormente recolhidos por familiares e amigos. É neste ambiente que o romance de Antón Riveiro Coello se desenvolve e ganha mais força. Mas é também na imigração e na descoberta forçada de um mundo novo que igualmente se vai buscar o interesse do romance que ganhou o Prémio García Barros de Novela em 2000. Trata-se de um retrato fiel do anarquismo e da busca de utopia no início do século XX.
O romace foi editado em 2006 e teve a capa de Gémeo Luís. A tradução foi de Dina Almeida. Pedidos à editora ou distribuidora (Companhia das Artes). Encomendas para o domicílio.

Capa de Gémeo Luís na Deriva Editores (2006)

segunda-feira, abril 02, 2012

No Dia Mundial do Livro Infantil, quatro sugestões da Deriva recomendadas pelo PNL




Quatro sugestões da Deriva para o Dia Mundial do Livro Infantil: o eterno Aquário de João Pedro Mésseder e de Gémeo Luís, no êxito da sua 4ª edição e procurado por muitos professores do 1º e 2º ciclos para atividades várias nas aulas, Vozes do Alfabeto do mesmo autor e do ilustrador e designer João Maio Pinto, o Conto da Travessa das Musas de João Pedro Mésseder e Manuela São Simão e, finalmente, Com Quatro Pedras na Mão, uma coletânea de poesia sobre o Porto com poemas musicados pelo Bando dos Gambozinos/Suzana Ralha e ilustrados por Emílio Remelhe. Destaco, neste último livro, os poetas José Mário Branco, Filipa Leal, Jorge Sousa Braga, Joaquim Castro Caldas, Rui Pereira, Matilde Rosa Araújo, Luísa Ducla Soares, Luís Nogueira e o «nosso» Mésseder.

A ler Primo Levi, Se Isto é um Homem

 
Numa época em que prolifera a «marca» hitler e se banaliza o mal, a leitura ou releitura de Se isto é um Homem é importante. Para lá da abjeção que nos provoca a vivência quotidiana em Auschwitz e Birkenau (lá perto, de onde se via o fumo negro da sua chaminé!) que reduz a humanidade a uma sobrevivência infame e a uma relação de poder violenta entre os próprios homens-escravos, condição que o campo de concentração os obrigou a assumir, impele-me a pensar que a sociedade em que vivemos não é mais do que a projeção extrema da ideologia por detrás da construção do campo. Ou seja, levada na sua lógica de dominação e exploração até às últimas consequências. Talvez esteja aqui a chave da submissão e do medo da revolta e da descoberta do novo. Só três dias depois do abandono das SS de Auschwitz, perante o avanço russo, é que Primo Levi e os seus companheiros tiveram coragem de sair do arame farpado e tentar iniciar a vida que foi brutalmente interrompida, sem que essa tentativa não impedisse novas mortes. O cinismo de «O Trabalho liberta» aí está com toda a sua força, neste pequeno livro datado exatamente de 1945 e escrito ainda sob a influência da vida no campo e da posterior libertação. Ainda bem que Primo Levi não teve o impulso de o rever mais tarde. A não esquecer, mas não estou assim tão certo disso.

sexta-feira, março 30, 2012

Observações sobre 'O Ramo Dourado' de Frazer, de Ludwig Wittgenstein. Em breve nas livrarias

de LUDWIG WITTGENSTEIN


COORDENAÇÃO
BRUNO MONTEIRO

EDIÇÃO, TRADUÇÃO E NOTAS
JOÃO JOSÉ DE ALMEIDA

INTRODUÇÃO E REVISÃO DA TRADUÇÃO
NUNO VENTURINHA

A ler Ernestina, de J. Rentes de Carvalho

«Deus criou o Mundo em Vila Nova de Gaia, numa tarde quente de Maio em 1930». Assim começa Ernestina um livro de J. Rentes de Carvalho, editado em 1998 pela Quetzal e que devemos ler com urgência. Conhecia-o, ao autor, mal e sabia-o a viver em Amesterdão tendo lido algumas entrevistas dele. O seu discurso aberto e franco deixou-me de sobreaviso e agora consegui iniciar a leitura da sua obra. Francamente entusiasmou-me e as longas descrições do Porto dos anos 30 e 40, em vez de poderem ser cansativas, são de uma grande beleza. Sentimos o cheiro da Ribeira, do peixe e do carvão, vemos os miúdos ao banho, o Douro com pouca água no verão, o pôr do sol e as calçadas de Gaia que desciam até Afurada. A própria descrição da escola e do liceu levam-nos a um universo de hipocrisia e também das primeiras resistências após 1945, quando Salazar prometeu uma eleiçõs «tão livres quanto à livre Inglaterra». Mas o autor diz-nos francamente que não é de resistências e embora sempre optando pela liberdade, nem que não fosse pela memória de seu avô José Maria republicano e avesso ao padres «quando republicano queria dizer socialista», cedo viu que o portugalinho dos velhos e bons costumes lá continuaria com Salazar. Opta, antes, pelo cinema e pelas leituras de Balzac e Zola, seus companheiros das noites. Pensa-se no Porto do cinema Batalha, do café Palladium, dos bilhares e dos alfarrabistas. Goza-se a descrição da aldeia de Trás-os-Montes para onde ia nos agostos quentes e nos afetos das avós e do Ti Serafim seu avô adotivo. E a descoberta de Ernestina que, com o nome da mãe, o leva a descobrir o amor. Acho importante ser dado nas escolas, mas isso seria outra conversa.

Esta Cidade é um Vício - Concurso de Fotografia da Poetria

Esta Cidade é um Vício - Concurso de fotografia da Poetria

quarta-feira, março 28, 2012

Paulo Kellerman lança novo ebook. A 31 de Março, 22:00, Bar Alinhavar, em Leiria


Bar Alinhavar, Leiria, 31 de Março, 22:00


Livraria Poesia Incompleta de Mário Guerra. Umas notas


País de poetas? Nunca fui nessa, mas conheço e gosto de poesia e de poetas que mereceriam um lugar como a Poesia Incompleta, de Mário Guerra. Tínhamos lá os nossos autores e muitos deles passaram por lá. Desta livraria lisboeta conhecíamos a generosidade e o profissionalismo que lhe era emprestado pelo proprietário. E também da sua seriedade. Num país com uma política cultural, no mínimo, esquisita, a Poesia Incompleta ganhou o estatuto de utilidade pública e um local de debate e procura. Quando se há-de perceber que ler poesia (eventualmente escrevê-la) é uma forma de conhecer a linguagem e de exercer uma comunicação que se pode tornar uma fonte de prazer, muito maior se partilhada com outros? Quando se perceberá, enfim, que para que a poesia subsista é necessário que se adquiram livros de poesia porque esta se tem de ler devagar? Que não basta lê-la «na net» ou na fnac, arrumando-a em seguida nas estantes cada vez mais minguadas dos grandes espaços livreiros? Que não basta a alguém escrever «poesia» para se ser poeta? Que um editor não deve fazer-se pagar para editar, o que vulgarmente se chama de «poesia», por aí? Quando fecha um espaço destes nunca ficamos descansados, porque sabemos que outros parecidos se seguirão. É este o destino de um país de poetas?

Lágrimas de Chuva, de Rosa Montero


Livro que foi uma desilusão, em contraponto com a enorme promoção que Rosa Montero tem tido em Portugal. Nada tinha lido dela, mas aventurei-me à leitura este Lágrimas de Chuva, uma eventual continuação de Blade Runner de Ridley Sott, adaptação ao cinema do livro de Do Androids Dream of Electric Sheep? de Philip K. Dick. De continuação da saga nada existe, a não ser uma contínua passagem mais ou menos rápida e muito ligeira de algumas referência avulsas a Blade Runner e de personagens muito mal construídas. Bruna Husky é uma androide que não chegamos a conhecer bem por preguiça da autora que não nos dá uma personalidade sólida com que nos identifiquemos e conheçamos os seus desejos, nem sequer nas suas «memórias» falsas, dadas por um memorista que seriam os novos escritores contratados por empresas. Que vendem essas mesmas memórias adulteradas. O recurso ao mantra de Bruna, quando se lembra do desconto dos dias da sua vida limitada também é uma forma extremamente cansativa de nos relembrar que a andróide tem quatro anos de vida. A sua relação com Paul Lizard fica muito aquém do que se poderia esperar, em recursos literários, entre um humano criado por uma androide e por Bruna, uma robô criada por humanos. As descrições da cidade de Madrid em 2109 poderiam ser mais ricas e mais imaginativas, assim como a trama política completamente falha em verosimilhança.

terça-feira, março 27, 2012

No Dia Mundial de Teatro, duas referências da Deriva: Pascal Quignard e Pedro Eiras

Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos, de Pascal Quignard, traduzido por Pedro Eiras, foi editado em parceria com o ILC Margarida Losa e é um estudo fundamental sobre o Teatro 

Um Punhado de Terra é uma peça de teatro em monólogo escrita por Pedro Eiras e já apresentada no Porto. Trata-se de uma peça sobre os descobrimentos, ou melhor, achamento de África pelos portugueses e a violência exercida por estes aos povos africanos

segunda-feira, março 26, 2012

Tempos de Fuga, de Ramón Caride


Capa de Gémeo Luís

Ramón Caride vive hoje em Cambados, na Galiza, onde é professor de Biologia. Gosta do campo e da leitura. Antifranquista, contou-me que estava em Valência, na tropa, quando se deu o 23 de fevereiro de Tejero Molina contra a transição democrática espanhola, o que lhe valeu um grande susto. Galeguista, fala na sua língua, ao contrário da maioria dos seus jovens alunos, que escolhem o castelhano para se expressarem quotidianamente, segundo ele por influência cultural dos media espanhóis. Conheci-o através de Manuel Bragado, diretor da Xerais de Vigo que mo apresentou. Também edita poesia e literatura infantil, mas o que me fez conhecê-lo foi Tempos de Fuga, uma obra de ficção científica ganhadora do Prémio Vicente Risco de Literatura Fantástica espanhola. A Deriva, nessa ocasião, escreveu esta pequena apresentação ao livro cuja capa foi feita por Gémeo Luís:
«Numa cidade desconhecida, um escritor atormenta-se com o desaparecimento da mulher. Em Nova Iorque, uma hospedeira trafica estranhas pedras e, em Vivier-Sur-Mer, Bretanha, outra mulher terá um inesperado encontro que mudará a sua vida. Os caminhos destas personagens vão confluir de um modo impensável através dos efeitos desses cristais, os "oders".» A tradução foi efetuada por Dina Almeida.
 
Pensando nos dias de hoje, passados oito anos da sua edição portuguesa e depois de serem publicadas ficções deste género literário em várias editoras portuguesas, Tempos de Fuga continua uma obra de grande qualidade e com a densidade psicológica necessária para nos encontrarmos com as personagens envoltas numa trama exemplarmente contada.
Ramón Caride veio a publicar ainda Perigo Vegetal na Deriva, e que está na sua 2ª edição, com ilustrações magníficas de Miguelanxo Prado. A saga desta coleção de literatura juvenil irá continuar com Ameaça na Antártida e Futuro Roubado, com apoio da Xunta da Galiza e continuando com a colaboração de Miguelanxo. Todas estas obras têm tradução de Paula Cruz.
Ramón Caride Ogando continua nosso amigo de sempre.

As obras do autor estão disponíveis na editora e podem ser encomendadas nos grandes espaços livreiros ou na distribuidora da Deriva: a Companhia das Artes.

domingo, março 25, 2012

Antonio Tabucchi (1943-2012)



A Mulher de Porto Pim foi dos livros mais belos que li e que merece uma referência no dia da morte de Antonio Tabucchi, embora sem a preocupação de um epitáfio que soaria sempre mal. Mas o que ficou desse livrinho de 1986, foi o ambiente (se quiserem, mágico) dos Açores, dos baleeiros e principalmente a presença constante de Antero que o autor tão bem carateriza. Sim, ele era um conhecedor profundo de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos, mas justificou igualmente uma relação sólida com um dos nomes mais respeitados da literatura portuguesa. Vamos sentir a falta de Antonio Tabucchi.

sábado, março 24, 2012

Wireless, num sem-abrigo perto de si!


Dois factos recentes no reino das tecnologias fizeram sobressaltar-me, não sei se com razão ou não. O primeiro tem a ver com tatuagens que são telemóveis e que vibram com sinais distintos e identificadores de quem faz a chamada para a pessoa tatuada (http://expresso.sapo.pt/tatuagens-que-vibram-quando-o-telemovel-toca=f713456). Imagino, num futuro já não tão distante assim, o que as pulseiras eletrónicas poderão ser e «fazer» sobre o arguido. Um bom trabalhador, daquele para quem o patrão tem sempre razão, tatuar-se de imediato para que se possa proceder com eficácia ao controlo de produção e os castigos infligidos a jovens «associais» no domínio da educação e da assistência social. Porque uma leitura mais atenta, permite-nos ligar a tatuagem ao domínio sensível com todas as possibilidades infinitas de intromissão do Estado sobre as pessoas indesejáveis, ou não. Basta, para isso, tornar obrigatória a aplicação dessa tatuagem ferromagnética em qualquer loja do cidadão.
Outro facto, é socialmente mais abjeto: trata-se de uma informação veiculada por uma crónica de Fernando Alves na TSF titulada «Homeless, Wireless» (http://www.tsf.pt/Programas/programa.aspxcontent_id=903681&audio_id=2357935). Aí, a ficção torna-se numa má experiência da realidade próxima. Um empresa inventou uma t-shirt para vagabundos e sem-abrigo que avisam ser portadores de wireless para que toda a gente tenha na rua acesso à internet facilmente. Horrível, como se pode insensibilizar as pessoas ao ponto de aceitar-se um procedimento destes com seres humanos que, por muitos motivos dos quais provavelmente nem foram os causadores, por acaso caíram nas malhas da indigência e da infelicidade. Mesmo que se propale ser simples caridade.

Hoje, encontro-me a ler um livro de Rosa Montero, Lágrimas de Chuva (até nem muito bom, por sinal, mas queria conhecer a autora tão falada e tão promovida por aí) baseado numa eventual continuação de Blade Runner, de Ridley Scott, filme que tive o prazer de ver inúmeras vezes e tendo lido igualmente o livro que lhe deu origem. Em Lágrimas de Chuva, também existem, em 2109, seres humanos indigentes que deambulam nas ruas de Madrid com t-shirts/anúncio televisionados e que são muitas vezes alvo de violência social e racista dos novos supremacistas em alta na política. Seria bom que a História não fosse por aí.

quarta-feira, março 21, 2012

PARA QUE SERVE A POESIA HOJE?, de Jean-Claude Pinson, por Henrique Fialho

A Deriva tem dado à estampa, numa colecção intitulada Pulsar, dirigida e coordenada por Ana Luísa Amaral, Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo, alguns pequenos textos que visam reflectir o lugar e a função da palavra escrita no mundo actual. Assim, depois de Para que serve a Literatura? (Julho de 2010), de Antoine Compagnon (n. 1950), saiu Para que serve a Poesia Hoje? ( Junho de 2011), de Jean-Claude Pinson (n. 1947). Pinson nasceu em Nantes, estudou Letras na Sorbonne, acabando por formar-se em Filosofia sem nunca ter abandonado a inclinação literária, nomeadamente através da prática dos versos. O pequeno livro que agora nos chega com tradução de José Domingues de Almeida está dividido em duas partes. Uma primeira parte mais teórica, composta pelo texto de uma conferência proferida a 12 de Janeiro de 1999, e uma segunda parte mais dialogante, com uma síntese do debate suscitado pela dita conferência. As teses de Pinson, erigidas sobre o terreno fértil da obra de Henri Michaux, enfermam de um vício ao qual raramente escapam obras do género, o de começarem por reflectir um assunto pressupondo a necessidade dessa reflexão. À pergunta Para Que Serve a Poesia Hoje? Nós podemos, desde logo, juntar uma outra: para que servem hoje conferências e debates sobre a utilidade da poesia? E mais esta: servirá hoje a poesia para alguma coisa que não tenha já servido no passado? Estes problemas são tão mais urgentes quanto se torna necessário entender se, de facto, a poesia alguma vez serviu para alguma coisa ou se tem mesmo de servir para alguma coisa. Um pouco à semelhança da presunção de um sentido para a vida, buscado, cavado, semeado, colhido no absurdo da existência, também a utilidade de toda e qualquer actividade humana deverá ser pensada em função do paradoxo suscitado pela prática do impraticável. Na realidade, nada na vida pede sentido senão a própria perdição dos homens. Assim como a vida não tem que ter sentido algum, também a poesia não tem que servir para o que quer que seja. Não se trata de pretender fugir a uma questão entusiasmante de um ponto de vista meramente académico e teórico, até porque o texto de Pinson é assaz objectivo e procura sempre focar-se no essencial. No entanto, resvala com frequência nos tiques academistas com que estas questões são geralmente abordadas. Presume-se que a poesia não esteja na moda, algo que a realidade actual desmente ao constatarmos a proliferação de sítios dedicados ou atafulhados de poesia. Em certos circuitos de afirmação intelectual a poesia chega a dar cartas, até porque, como Pinson sugere, é uma arte aparentemente fácil e acessível. As limitações do público da poesia também já não são um dado adquirido. Convém esclarecer quem é esse dito público, até porque poesia há de vários tipos, modos e géneros, alguns tão populares e correntes que deixariam os académicos de gabinete estupefactos. Recentemente, em Portugal, um grande grupo editorial passou a distribuir uma das mais emblemáticas editoras de poesia portuguesas. Isto aconteceu pouco depois do principal responsável por esse grande grupo editorial ter decretado em entrevista pública a morte da edição de poesia. Ora, não me parece que um homem de negócios pretenda pegar num defunto só para ter o gozo de ser ele a enterrá-lo. Como é óbvio, a suposta utilidade de uma arte não se afirma pelo interesse que suscita nas massas. Há artes que nasceram para serem mediáticas, outras há que nunca almejaram senão aquilo a que hoje se chamam fidelíssimos nichos de mercado. É verdade que há mais poetas do que leitores de poesia, mas tenho alguma dificuldade em lamentar essa realidade. A poesia terá uma dimensão terapêutica que não esgota as suas funções, mas que de algum modo sublinha o carácter utilitário da sua não-utilidade. Duvido que cure ou dê prazer, pelo menos não tanto quanto um bom vinho ou a masturbação. Muitos dos melhores poetas suicidaram-se, levaram vidas errantes, foram indigentes e execráveis, o que deixa dúvidas quanto às dimensões curativas e saudáveis da poesia. Sem dúvida que desincha poderes, alarga horizontes na exacta medida em que amplifica a linguagem, proporciona um mundo melhor ou pior a quem com ela conviva no desleixo de si próprio e do mundo. Não obstante, parece-me que ainda está para chegar o intelectual que diga, sem parangonas, que a grande utilidade da poesia não diverge, no essencial, da utilidade da Playstation, ou seja, ajuda a passar o tempo proporcionando bons fogachos de tempo. Que também Pinson insista na balela castradora e exclusivista da verdadeira poesia, como se a falsa pudesse sê-lo, só peca a favor de um texto estimulante que nos agrada, sobretudo, pela sua intrínseca inutilidade.
 
Henrique Fialho, 26 de setembro de 2011

Ainda é possível a poesia, hoje?


João Pedro Mésseder, Filipa Leal, Joaquim Castro Caldas, Pedro Eiras, Catarina Nunes de Almeida, Marilar Aleixandre, José Ricardo Nunes, Luís Maffei, Maria Sofia Magalhães
Alberto Pimenta acalentava a esperança de ser possível a poesia depois de Auschwitz. Mas, hoje, ainda há a esperança da poesia e da magia da palavra em pessoas como estas que a Deriva editou e continuará a editar. Mesmo num tempo de guerra espetacular, dos media ensurdecedores, da brutalidade do trabalho rotineiro, das paisagens mortas, das cidades violentas, de governos corruptos e da ascensão do dinheiro, ainda há espaço para a leitura de uma palavra que se acende em nós através deles. Se eles resistem é sinal de que pode haver ainda o triunfo do homem.