terça-feira, março 20, 2012

Odeio as Manhãs, de Jean-Marc Rouillan. O Título poderá enganar.


Não me deixaram contatar com Jean-Marc Rouillan, na ocasião, a cumprir uma pena de prisão perpétua em Lannemezan, por participação em atentados, nos anos 80, reivindicados pela Action Directe. Mas o caso de Rouillan e de outros prisioneiros políticos chamou-me a atenção, quer pela violência com que estavam a ser tratados ultrapassando claramente (pelo menos na minha opinião) a violência dos crimes que cometeram, quer as leis do estado de direito. Muitos deles encontravam-se gravemente doentes e a prova que alguma coisa estava mal no campo do Direito é que hoje encontram-se todos em liberdade e não veio daí grande mal ao mundo. Na altura, falei com Isabel do Carmo para fazer o prefácio do livro de Rouillan e mostrou-se disponível, não sem que me avisasse que nunca concordou com os métodos da AD. Mas faria um apelo à amnistia por causas humanitárias. Sinceramente era igualmente a minha opinião e gostei de a ouvir pela boca de alguém que teve a sua quota parte da révanche do Estado na sua procura da normalização democrática.
O título do livro  pode enganar: as manhãs de que fala o autor são o início dos dias intermináveis das prisões francesas que se seguem às noites laranjas das luzes internas e externas das celas.

(Odeio as Manhãs-5 euros, mais portes de envio)

sábado, março 17, 2012

Futuro Primitivo, de John Zerzan

O livro com capa de Gémeo Luís
 Um dos livros que me deu mais prazer editar, não só pelos contatos com o autor que, por pouco, não veio a Lisboa e ao Porto apresentá-lo, mas também pelo trabalho de tradução e conceção gráfica, com colagens da Arte Cavernícola. A tradução afastou-se claramente da brasileira, baseando-nos no original inglês de expressão americana e corrigindo alguns erros daquela edição. Gémeo Luís fez a capa. A ideia forte do livro é a desmontagem que Zerzan faz das teorias da Pré-História que atribuem à evolução do Homem a base da violência. Para o autor, a seleção feminina dos machos não violentos, isto é, capazes de ajuda e cooperação na partilha de alimentos, é que produz a evolução humana como se pode verificar pelo recuo dos caninos humanos. Uma nota: Zerzan é um dos organizadores das manifestações de Seattle e um dos seus principais teóricos contra o capitalismo. O livro lê-se numa noite e fica-nos na memória. O facto de o livro não ter direitos de autor, não impediu o êxito da procura da obra principal de Zerzan e continua a ser pedido para o Brasil.
Colagem de Arte Cavernícola

quinta-feira, março 15, 2012

Marca Salazar: Ecce Homo

É ele: João Lourenço, eleito pelo PSD, já em 2010, como se pode ler na mensagem deste presidente da Câmara de Santa Comba Dão, alertava (ou ameaçava?) o povo que iria avançar com a Marca Salazar, porque as novas gerações não lhe perdoariam se o não fizesse. Ficamos a saber que iniciou a demanda com os vinhos, cujas garrafas ostentarão, nos seus rótulos, a imagem do distinto concidadão falecido em 1968. Mas outros produtos se seguirão nesta senda. Só não sabemos se com o nome de Salazar, ou com outras instituições criadas por ele e não menos insignes. Teríamos então os chouriços Legião, bolachas Saudades de África, passas Império, rebuçados União Nacional, cinzeiros PIDE. No fundo, tudo aquilo que projetasse os produtos santacombadenses no caminho das exportações. Tudo isto sem subsídios, claro. Miguel Relvas: ecce homo!

terça-feira, março 13, 2012

Henrique Fialho sobre Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson


A pouco e pouco, a editora Deriva tem vindo a edificar um catálogo na área das ciências sociais e humanas que importa sublinhar. Livros como O Espírito Nómada, de Kenneth White, A Formação da Mentalidade Submissa e A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano, e este Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson (n. 1945) são exemplos de uma atitude editorial concentrada em algo mais do que a vulgaridade pululante nos escaparates das livrarias portuguesas. Poucos saberão que Peter Lamborn Wilson é o verdadeiro nome de Hakim Bey, «anarquista ontológico» com um percurso nómada e errante, autor de uma obra que se esforça por encontrar pontos de encontro entre a doutrina sufista e o anarquismo. Viveu em países tais como a Índia, o Paquistão, o Irão e o Afeganistão. Em 2000 a editora Frenesi publicou-lhe em Portugal uma breve recolha de textos intitulada Zona Autónoma Temporária, chamando a atenção para uma das suas teses centrais: a fundamentação das TAZ enquanto zonas governadas unicamente pela liberdade e pela autonomia, independentes das regras e das normas de Estado que submetem os indivíduos a ditames contrários à sua natureza livre. Alguns exemplos históricos: a Ordem dos Assassinos, fundada no século XI por Hassan ibn Sabbah (o velho da montanha), assim como os piratas e corsários do século XVIII.

Nas Utopias Piratas (Fevereiro de 2009) Peter Lamborn Wilson ocupa-se precisamente dessas experiências remotas de resistência à ditadura da normalidade, transportando o leitor para uma época que não pode senão ser visitada com um certo romantismo fantasioso e exótico. Os dados históricos são muito escassos. Mais do que uma reconstituição histórica, o que se pretende é uma interrogação, uma reflexão, acerca de uma rede de vivências concentradas em pequenas zonas, micro-sociedades, que escapavam, resistiam e, de algum modo, combatiam as pragas morais colonizadoras com origem na Europa. O especial interesse dedicado aos renegados, ou seja, os «traidores» da Europa cristã convertidos ao islão, explica-se por quase todos eles se terem tornado corsários dedicando-se ao «ataque e ao saque dos navios europeus». «A história dos corsários não é um “affaire de estrangeiros” mas parte da história do Magrebe, o FarWest do islão, e da então emergente nação marroquina» (p. 13), daí que este ensaio se situe geograficamente na região da Berbéria, o actual Magrebe, entre Marrocos e a Argélia. O autor tenta reconstituir o modus operandi e vivendi dos piratas, fornece exemplos, explorando alguns casos, nunca perdendo de vista que «a pirataria deverá ser estudada como uma forma de resistência social» (p. 21).

Argel e Salé são regiões revisitadas com especial entusiasmo, em confronto permanente com as ideias feitas de historiadores que, segundo Lamborn Wilson, estão mais empenhados em justificar a barbárie colonialista e imperialista europeia do que em compreender as reais motivações de homens geralmente caracterizados como terríveis vilões, mercenários, «apóstatas à deriva», unicamente interessados no lucro material das suas acções. Neste ensaio a história da Berbéria constrói-se antes a partir de uma tentativa de investigação das políticas de resistência levadas a cabo por comunidades não letradas. Falar de uma «ideologia pirata» — «algo como uma atitude anarquista proto-individualista, não filosófica» (p. 43) — talvez seja demasiado forçado, mas a verdade é que há exemplos que não podem ser esquecidos. Em dez capítulos somos lembrados de homens cujos nomes ganham um novo lugar na história da resistência, é-nos traçado um mapa de costumes e vivências libertárias geralmente remetidos para a obscuridade das utopias, são-nos oferecidos exemplos de «consciência política e de fervor revolucionário» (p. 79) que transcendem a caricatura de um imaginário da pirataria construído pela História oficial. As «práticas clandestinas» encontram neste livro uma legitimação que faz todo o sentido.

O que são ou foram, então, as utopias piratas? «A república do Bou Regreg não era uma utopia pirata pura, mas um Estado fundado sobre os princípios da pirataria» (p. 112), «Salé não era nem tão anarquista nem tão comunista quanto “Libertália” ou outras utopias piratas reais ou irreais» (p. 114), «no século XVII e princípios do século XVIII, numerosas “utopias piratas” independentes vêem a luz do dia em várias partes do globo. A mais famosa entre estas foi Hispaniola, onde os bucaneiros criaram a sua própria sociedade anárquica de curta duração; a Libertália, em Madagáscar; a Baía dos Ranters, também em Madagáscar; e Nassau, nas Bahamas» (p. 148). Eis o mapa das zonas autónomas temporárias que ficaram para a história enquanto focos de resistência à autoridade colonialista, autênticas colónias anarquistas afastadas dos «poderes europeus» e concentradas na liberdade individual dos seus habitantes, numa poética da insubordinação, mesmo quando essa liberdade implicava o exercício da violência. Se o olhar que hoje é lançado sobre estes exemplos está contaminado pela subjectividade romântica de uma ambição, de um desejo, enfim de uma utopia, não podem os factos ser negligenciados e o sonho cerceado à partida. Os exemplos servem de exemplo, sejam eles fruto da imaginação ou da ciência dos factos. Talvez resultem sempre um pouco de ambas as forças. Afinal, nenhuma História se faz sem imaginação.

Henrique Fialho

domingo, março 11, 2012

Viver com a Parque Escolar. Prefiro Thomas Hirschhorn.


Há uns anos passou, pelo Porto, nomeadamente em Serralves, uma exposição de Thomas Hirschhorn denominada Anschool que permitia experimentar o ambiente concentracionário de uma escola moderna. Serralves foi, então, com a ajuda de equipas voluntárias das Belas Artes do Porto, submergida em papel de cenário e objetos comuns do chamado «ensino-aprendizagem». O terror no seu melhor.
Ora acontece que a Parque Escolar vive hoje a crítica de todos os agentes democráticos, a ação do IGF, a demissão dos seus dirigentes imposta por Crato, sem que o essencial seja debatido. Ouve-se falar da derrapagem de 400% dos seus investimentos iniciais na «recuperação» de escolas do Estado Novo e dos anos 70, mas não se toca no essencial que é a vivência claustrofóbica que se vive nas salas «recuperadas». A tortura está instalada nas nossas escolas com a assunção diária do ar ventilado por tubos enormes a que os alunos chamam de «churrascaria», o ar insuportavelmente quente passados dois minutos com a porta fechada e com 25 alunos lá dentro com o professor, as salas mais pequenas com o teto falso descido e com paredes de contraplacado duvidoso, a impossibilidade de abrir janelas quando o tempo melhora, o reflexo do sol que impede a visão dos projetores, a proibição de cortinas, o material que se desgasta a uma velocidade vertiginosa, etc, etc. Bastava a um jornalista pedir a medição da qualidade do ar numa sala «recuperada» no final da manhã ou da tarde. Bastava saber que «negócios» da Parque Escolar impõem o preço das fotocópias mais caro do que fora da escola, para perceber o que anda no ar.
Ainda assim prefiro a Anschool de Hirschhorn. Ou menos essa não enganava.

terça-feira, março 06, 2012

Millenium, de Stieg Larson

Acabei de ler toda a saga Millenium, de Stieg Larson. Devo dizer, também, que vi o filme e a série de Tv sueca. Os livros são francamente bons. Muito bem escritos e com uma trama política e policial bem conseguida. À maneira sueca, acredito que Stieg Larson fosse social-democrata, um tipo de esquerda na senda de um Tony Judt e personalizado pelo jornalista Michael Blomkvist. Mas por que raio Lisbeth Salander, uma hacker punk-anarca, que passa a vida a violar computadores do Estado, se haveria de transformar numa bem sucedida corretora financeira depois de dar o golpe informático a uma firma sem escrúpulos? Não sei se foi a costela protestante e individualista do autor a finalizar assim a saga, mas o final mereceria melhor. Está bem que Lisbeth Salander é ela própria uma vítima do estado sueco e que fez aquilo que nunca qualquer indeminização lhe daria, mas mesmo assim é questionável. De qualquer maneira Stieg Larson não procura uma base moralista. E isso é bom. Grandes livros, estes.

sábado, março 03, 2012

Hulk! Hulk! Hulk!

Não sei onde Miguel Relvas tirou a licenciatura e nem quero pôr a hipótese de existir mais qualquer dúvida socrática sobre este tema que se tornou tão político nos últimos tempos. Mas o que tem isto a ver com o Manchester City, o FCP e o Hulk? Ora, o clube inglês processou, na UEFA, o Porto por insultos racistas a dois seus jogadores de origem africana quando jogou no Dragão. Não bastava a figurinha de Hulk a argumentar que os urros que se ouviam no estádio quando Balotelli pegava na bola eram da massa associativa do Porto a gritar o nome dele «Hulk! Hulk! Hulk!», como agora vem Miguel Relvas, concentradíssimo, indignadíssimo, afirmar que não recebemos lições de ninguém de racismo, visto que o povo português foi dos que deram lições de miscigenação e boa convivência entre diferentes povos. Ora, um estudante do 12º ano, que tenha estudado História, sabe que esta era a tese de Gilberto Freire que nos anos 30 defendia o lusotropicalismo e que levou ao isolamento posterior de Portugal perante o mundo e a uma guerra de 13 anos «orgulhosamente sós» levando-nos a crer da especificidade da nossa presença nas colónias. Foi preciso existir um Miguel Relvas para nos lembrar a tese. Mais um pouco e acabamos a citar António Sardinha!

A insustentável leveza de Francisco José Viegas

Não sei se é pela sua aparente bonomia ou por ser secretário de uma área desprezada e substituível em Portugal como é a da cultura, mas já não há grande paciência para aturar as suas asneiras repetidas. Foi o caso lamentável de António Mega Ferreira que depois de prometida a sua recondução no CCB se viu confrontado com o nome de Vasco Graça Moura para o mesmo lugar; foi a Tobis vendida a uma empresa de capitais angolanos (com nome alemão) sem que se saiba qual o seu currículo ou os seus objetivos. O Estado não o deveria fazer. Seguiram-se as tristes declarações sobre a revisão do Acordo Ortográfico que nunca poderia ter feito: não tinha competência para o fazer, ou então desconhecia que já o assinámos. O Brasil pasmou. Agora trata-se da coleção Berardo e a sua «autorização» para que se a possa vender. Não pode. Assinou-se há dez anos um acordo com o Estado e o dono não está para aí virado. Cada tiro cada melro.

segunda-feira, fevereiro 20, 2012

Crise ou fuga para a frente?






Na época da unidade capital / poder a crise era simplesmente um  elo fraco da cadeia, que o proletariado podia aproveitar. De outro  modo, a crise significaria um momento positivo na recomposição do capital. Na época global e com a co-pertença capital / poder, o próprio conceito de crise entra directamente em crise. Em grego, a palavra crise significa: corte, luta, decisão inclusivamente. De origem médica, a sua aplicação estender-se-á aos campos mais diversos. Apesar de todas as suas migrações, o significado médico  de «passagem para…» (entendendo-se por isso uma melhoria ou uma pioria) manter-se-á. Hoje, esta ideia de crise como «passagem para…» já não nos serve. É uma ideia demasiado devedora à modernidade. Não foi em vão que a própria modernidade se olhou a si mesma como crise — contingência, conflitualidade, excepção —, devido ao cataclismo da ordem tradicional. Na época global em que nos encontramos, já não é adequado falar de crise. Na actualidade, não existe propriamente uma crise, mas sim uma constante «fuga para a frente» que adopta a forma de uma crise permanente, ou de guerra. «Fuga para a frente» significa, em primeiro lugar que as alternativas foram deixadas para trás, em especial a ideia moderna  de revolução. «Fuga para a frente» significa, em segundo lugar, que não há futuro. A busca ansiosa de futuro, inerente ao extravasamento  do capital comporta o paradoxo de uma radical ausência de futuro. Neste sentido, a «fuga para a frente» contém toda a fenomenologia do extravasamento  do capital. in
 Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra, Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira), Deriva.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012

Leituras que fazem cada vez mais sentido, antes que seja demasiado tarde.



"Só a rejeição total da realidade no-la pode mostrar na sua verdade. Só a rejeição total do mundo nos diz a verdade do mundo. Mas esse gesto radical de rejeição já não é o gesto moderno que, depois da destruição anunciava e preparava um novo começo. Não há começo absoluto porque a «tabula rasa» não nos deixa diante de nenhuma verdade absoluta. A rejeição total da realidade apenas nos oferece «uma» verdade da realidade. Esta é a nossa verdade."
Santiago López-Petit in A Mobilização Global A Mobilização Global seguido de O Estado-Guerra e Outros Textos, de Santiago López-Petit. Tradução e Comentários de Rui Pereira Deriva Editores, 2010







[...]uns poucos detêm o poder de definir a realidade para a maioria de todos os outros, de dizer-lhes o que se passa, o que é bom e o que é mau, o que se deve ou não fazer e como fazê-lo, etc. Este poder de fixar o programa social de qualquer comunidade é a chave do controlo social. Lorde Nordcliffe, dono de um dos mais poderosos consórcios jornalísticos dos princípios do século XX, explicava-o muito directamente e sem muito gaguejar: "Deus ensinou os homens a ler para que eu possa dizer-lhes quem devem amar, quem devem odiar e o que devem pensar".
Vicente Romano, A Formação da Mentalidade Submissa, Tradução e Comentários de Rui Pereira,Deriva Editores.
"Hoje em dia, a maior parte da comunicação é realizada através dos chamados meios de massas que, tal como o termo 'comunicação de massas', não deixa de ser um eufemismo. Como é sabido, nem as massas comunicam entre si através destes meios, nem eles são das massas, mas sim de uns poucos que produzem massivamente para as massas."
Vicente Romano, Intoxicação Linguística.Tradução e Comentários de Rui Pereira Deriva Editores

terça-feira, fevereiro 07, 2012

domingo, fevereiro 05, 2012

Fernando Canedo (1946-2012)




A propósito de uma das últimas MEALIBRA, escrevia Benjamim Moreira:

"Sendo uma referência incontornável no mundo das revistas culturais publicadas no nosso país, a qualidade intrínseca dos textos que a MEALIBRA tem publicado não pode deixar de ser associada à autoridade dos colaboradores que nela participam. A pergunta que se coloca é, inevitavelmente: como é possível, numa cidade com uma débil actividade de pesquisa [Viana do Castelo], de debate de ideias e de criação existir e manter-se uma publicação com estas duas características?
A resposta é porém muito simples: a MEALIBRA tem um Director e um Projecto. Dir-se-ia que há redundância na resposta já que forma e conteúdo se associam: a  direcção é definida pelo próprio projecto cuja realização se antecipa."

 Fernando Canedo, responsável pela revista MEALIBRA, faleceu no passado mês de janeiro. 

sábado, fevereiro 04, 2012

Alfabeto Adiado, José Ricardo Nunes


FILHO, IRMÃO, PAI

O tempo vai sorvendo a imagem do meu pai (às colherzinhas, sem madalena). Custa cada vez mais reconhecê-lo. De ano para ano aumenta a dificuldade e o esforço. Reduz-se progressivamente o tempo de exposição à memória. Aproximo-me dele para o perder – uma orelha, a sombra do olhar, o queixo, para já não falar dos gestos que se desenvolvem no ar, atrás da janela fechada.
Envelheço. Em breve terei a sua idade e poderei trocar com ele algumas impressões acerca da experiência. Talvez me peça para lhe contar como são os meus dias, que desejos e que interrupções. A imperfeita precisão da imagem serve para a figura do irmão. Um pai tem mais exigências.
Filho virá a ser na mais intensa desagregação. Os contornos esbatidos podem ser usados na construção pelo futuro. Meu pai e meu filho.
Foi há dois meses, ainda a praia nos estendia a sua aberta superfície. Ferida – ovo, um texto. Antes de eu nascer era assim. Podia ser um pouco do meu pai e dar-lhe mais um dia, viver com ele numas poucas de frases. A minha acção transformada em mais um dia de vida do meu pai, um dia que fosse.
Agora estas palavras todas. Ele terminou-se, mas eu continuo a juntar palavras como se lhe fosse dar um rosto. Ele transparece no vidro, cada vez mais indistinto. Procuro o sentido que a carne reclama na sua inconstância difusa e depois espalha. A carne, sem regra. Perdulária. Diz-me que devo ocupar o seu lugar – porque não compreendeu e não sabe onde já estive.
A história das parecenças é macabra. Muita lembrança e um bule de chá. Duas fotografias, lado a lado. Alguns anos de diferença não prejudicam. A mesma coluna vertebral. Apenas uma, a sombra ampliada que recobre os corpos, bem autonomizados mas com espaços comuns. Idêntico o olhar, dizem. E bebem. Finalmente a desembaraçada mão apaga-nos do vidro.

José Ricardo Nunes, in Alfabeto Adiado



sexta-feira, fevereiro 03, 2012

O Homem que via passar as estrelas – Luís Mourão

O Homem que via passar as estrelas – Luís Mourão





Um texto para um espetáculo de Teatro para a Infância e Juventude onde se conta, na brevidade de uma noite de insónia ou de sonhos turbulentos, o encontro inesperado de Isaac Newton com os planetas do Sistema Solar…
É de noite. E, porque é de noite, o Sol não está. 
Newton recebe no seu quarto-laboratório-cenário estranhas visitas por engano.
Os planetas vêm ver o Sol, discutir com ele, expor-lhe os seus múltiplos problemas e, à falta de melhor, vão deixando recado. O homem se encarregará de os entregar depois, mais tarde, quando nascer o dia.  


Mas não falam só de problemas. Apresentam-se, saltam, sujam-se, rodopiam e brincam. A noite ainda não acabou…


Prefácio de Máximo Ferreira | Guia de Atividades de Astronomia na Escola de Paulo Simões | Ilustrações de Sandie Mourão 


INCLUÍDO NO PLANO NACIONAL DE LEITURA - para apoio a projetos relacionados com TEMAS CIENTÍFICOS para o 3º,4º, 5º e 6º ano de escolaridade

sexta-feira, janeiro 27, 2012

Bailias, Catarina Nunes de Almeida [não é tarde]



"Se bem tenho notado, a poesia teve enorme destaque nos balanços que os jornais fizeram dos melhores livros do ano passado: o destaque da ausência. Ora, isto é um desmesurado favor que se faz à prosa, sobretudo a portuguesa. A verdade é que em 2011 pelo menos dois livros de poemas estiveram perfeitamente à altura dos melhores acontecimentos literários e, se a um deles ("Bailias", de Catarina Nunes de Almeida, que saiu na Deriva) já é tarde para dar aqui o espaço merecido, vamos muito a tempo de conceder toda a atenção ao mais recente, que é esta inesperada "Observação do Verão", de Gastão Cruz." (Gustavo Rubim, Ipsilon, 27.1.12)

sábado, janeiro 21, 2012

Estranhas Criaturas





MEDUSA

   Há muitas coisas belas. Medusa é uma delas.
   Um penteado de pecados fica bem ao mortal, um olhar petrificante tudo o que pode almejar quem anda pela vida mais que por ódio, amar.
   No olhar de Medusa, vejo Rosa Parks sentada para que outros pudessem levantar-se, vejo os punhos erguidos e as luvas negras de Tommie Smith e John Carlos nas olimpíadas da sonsice que é o adiamento das guerras na paz podre das medalhas, vejo Mahatma Gandhi fiando a fome de justiça e liberdade que nenhuma boca cheia de alheamento poderá compreender, vejo o julgamento de Sócrates, a cicuta bebida de um trago como uma lição perdida na história da nossa incomensurável apatia, vejo Galileu Galilei, Joana d'Arc e até Jesus Cristo eu vejo, como tantos outros que como estes vivem hoje nos bolsos de uma juventude reles que julga ser possível apagar grandes fogos sem fogos.
   Vejo lições de entrega, vejo quem ousou dar-se por si próprio e pelos outros sabendo que entregar-se era descobrir-se e que descobrir-se nada mais é do que lançar-se no abismo da dúvida, da incerteza, no desconforto de uma missão que apenas reivindica alguma limpeza neste mundo de auto-justificado nepotismo, vejo o homem revoltado como cabelos venenosos, despenteado pela noção clara de que desprezar é consentir e consentir é ser cúmplice da porcaria em que chafurda quem mais não sabe do que adormecer em berço de ouro a palha de que se alimenta.
   Há muitas coisas belas. Medusa é uma delas.
   Da sua cabeça decepada hão-de nascer cavalos alados. E nem depois de morta deixará de petrificar quem fite nos seus olhos a verdade que nos aponta: de pedra somos feitos, se desapaixonados e indiferentes. (Henrique Manuel Bento Fialho, Estranhas Criaturas, Deriva)



segunda-feira, janeiro 02, 2012

Conto da Travessa das Musas, Vozes do Alfabeto e O Aquário

  
Conto da Travessa das Musas, Vozes do Alfabeto, O Aquário são três livros infantis que  têm muito  para ensinar. Um mesmo autor - João Pedro Mésseder - e três ilustradores diferentes: Manuela São Simão, João Maio Pinto  e Gémeo Luís.
 
O Conto da Travessa das Musas, o mais recente título, é uma viagem por um tempo antigo - uma história que se passou no Porto há muitos anos.

Uma história de um menino sem tempo para ficar quieto. Uma história que fala de mercearias, de lojas de miudezas, de carrinhos de linhas e fivelas, de José Gomes Ferreira, de um polícia gordo e pachorrento, de carrinhos de madeira e de flocos de neve (os rebuçados...). 


Uma história de um tempo em que os meninos brincavam na rua. Uma história que se passa no Porto, no centro do Porto com o João. 
 Uma história que vale bem a pena o desafio de procurar a Travessa das Musas.



«Álbum poético de dimensões reduzidas, Vozes do Alfabeto é mais um exemplo da criatividade associada à exploração das potencialidades da língua portuguesa, das suas grafias e dos seus sons. As letras do alfabeto são o mote para um conjunto de poemas muito divertidos, onde os efeitos sonoros são constantes. Herdeiros das rimas infantis, em particular das lengalengas, dos trava-línguas e de outros géneros e formas da tradição oral, os textos exploram uma dimensão lúdica da literatura ao mesmo tempo que, implicitamente, promovem o desenvolvimento de competências fonológicas, linguísticas e literárias. As ilustrações, muito coloridas, ocupam as páginas ímpares da publicação e partem do texto que acompanham, ligando a letra aos objectos e/ou personagens. Funcionando quase como um jogo, o pequeno álbum revela-se particularmente adequado para os primeiros leitores.»
Ana Margarida Ramos in Casa da Leitura


O Aquário
Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor.

O Aquário  tem evidente recursos para a leitura orientada na sala de aula. Aprovado e recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 3º ano, tem uma amplitude muito maior de intervenção nas escolas como comprovam as experiências descritas aqui aqui aqui e aqui

Crise de versos, Stéphane Mallarmé

Crise de versos, Stéphane Mallarmé
Elíptico, extremamente condensado, interrogando tudo quanto poderia distinguir a poesia dos usos comuns da linguagem, o texto de Crise de Versos é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e uma profecia. Por um lado, procura surpreender a dissolução de versos tradicionais, em particular do alexandrino (o verso oficial por excelência), ao longo da segunda metade do século XIX e sobretudo após a morte de Victor Hugo. Diagnóstico difícil de uma experimentação formal então ainda em curso: o que nos surge hoje como conquista definitiva e já distante (em termos de livre invenção de metros, cesuras, formas gráficas) era no tempo de Mallarmé um acontecimento recente, plural, a necessitar com urgência de teorização. Por outro lado, Crise de Versos antecipa as poéticas dos modernismos e das primeiras vanguardas, ao enfatizar a produtividade da tensão entre a busca de um princípio construtivo, que asseguraria a impessoalidade, e a dissolução das formas canónicas.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Conto da Travessa das Musas, de JOÃO PEDRO MÉSSEDER e MANUELA SÃO SIMÃO


A história que vou contar-te passou-se há muitos anos, na cidade do Porto. Ora escuta. Era uma vez um menino sem tempo para ficar quieto. Quando se cansava de ler ou de brincar sozinho, uma névoa toldava-lhe os grandes olhos castanhos. Sabia que apenas o deixavam sair se fosse para ir à escola, ou a recados à mercearia do senhor Carvalho ou à «loja das miudezas», como a mãe chamava a uma locanda onde uma doce senhora de olhos vesgos vendia carrinhos de linhas, botões, colchetes, fivelas e elásticos. Por isso, o João – era este o nome do menino passava horas sem fim à janela.

É assim que começa o Conto da Travessa das Musas, uma história de encantar e um desfiar de memórias e outras histórias. Um livro para pais, avós e netos .....


JOÃO PEDRO MÉSSEDER nasceu em 1957, no Porto, onde completou os seus estudos universitários e exerce funções docentes no Ensino Superior. Publicou mais de três dezenas de livros para a infância, além de diversos títulos de poesia. É autor de Abrasivas, Meridionais e dos livros infantis O Aquário e Vozes do Alfabeto, todos eles editados pela Deriva.

MANUELA SÃO SIMÃO nasceu em São Paulo, Brasil, em 1980. Veio com cinco anos para Portugal onde se licenciou em Artes Plásticas – Pintura, na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Tem desenvolvido projectos multidisciplinares que cruzam áreas como a performance, a instalação, o som, a rádio-arte, procurando em todos eles um lado relacional pelo trabalho de equipa. Orienta workshops de expressão plástica para crianças de diversas idades.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

O Homem que via passar as estrelas – Luís Mourão Prefácio de Máximo Ferreira Guia de Atividades de Astronomia na Escola de Paulo Simões Ilustrações de Sandie Mourão

O Homem que via passar as estrelas – Luís Mourão





Um texto para um espetáculo de Teatro para a Infância e Juventude onde se conta, na brevidade de uma noite de insónia ou de sonhos turbulentos, o encontro inesperado de Isaac Newton com os planetas do Sistema Solar…
É de noite. E, porque é de noite, o Sol não está. 
Newton recebe no seu quarto-laboratório-cenário estranhas visitas por engano.
Os planetas vêm ver o Sol, discutir com ele, expor-lhe os seus múltiplos problemas e, à falta de melhor, vão deixando recado. O homem se encarregará de os entregar depois, mais tarde, quando nascer o dia.  


Mas não falam só de problemas. Apresentam-se, saltam, sujam-se, rodopiam e brincam. A noite ainda não acabou…


Prefácio de Máximo Ferreira | Guia de Atividades de Astronomia na Escola de Paulo Simões | Ilustrações de Sandie Mourão 


INCLUÍDO NO PLANO NACIONAL DE LEITURA - para apoio a projetos relacionados com TEMAS CIENTÍFICOS para o 3º,4º, 5º e 6º ano de escolaridade

terça-feira, dezembro 13, 2011

Ler à deriva.... [coleção narrativa]


...porque os livros e as leituras ficam... 
....porque vale a pena ler à DERIVA...


Bebendo o Mar, Xavier Queipo


Francis, tradutor galego, radicado na Califórnia conhece Rose, informática e irlandesa. Martin, seu editor norte-americano pede-lhe para traduzir para o inglês a sua obra do momento: trata-se de um tal Saramago que, nesse ano, vai ser de certeza um Prémio Nobel. A obra deste ainda desconhecido escritor português chama-se "Ensaio sobre a Cegueira". 


Odeio as Manhãs, Jean-Marc Rouillan


Jean-Marc Rouillan está preso desde 1987, desde o desmantelamento da Action Directe, cumprindo uma pena de prisão perpétua. Esta crónica foi escrita em 2001 na central de Lannemezan e conta o quotidiano da sua vida prisional sob um regime ultra-severo. Denuncia também a ligação muito discutível entre a medicina e a prisão.


Tempos de Fuga, Ramón Caride


Numa cidade desconhecida, um escritor atormenta-se com o desaparecimento da mulher. Em Nova Iorque, uma hospedeira trafica estranhas pedras e, em Vivier-Sur-Mer, Bretanha, outra mulher terá um inesperado encontro que mudará a sua vida. Os caminhos destas personagens vão confluir de um modo impensável através dos efeitos desses cristais, os "oders".
Prémio Risco de Literatura Fantástica Espanhola




Armai-vos uns aos Outros,Sérgio Almeida


Composto por dois maxi-contos (ou duas mini-novelas, consoante a perspectiva e/ou tara), "Armai-vos uns aos outros" apresenta-nos uma galeria dos espelhos e das deformidades, dos tiques e dos clichés da irrelevância humana. 


A Estranha Estrela, Xabier López López


Tempos de Fuga<br><i>Ramón Caride</i>Romance de aventuras onde Emílio Amarante, o protagonista, está submetido a encontros extraordinários onde as leis naturais não ocupam grande lugar. Filósofos, corsários, navegantes de todos os feitos arrastam o leitor para o prazer puro da liberdade e da fruição da narrativa. Um romance onde se cruza o estilo oitocentista e o pós-moderno.


Ser ou Não, Xurxo Borrazás


A extrema fluidez com que se lê Ser ou Não liga-se fundamentalmente com a estrutura narrativa directa e, por vezes, cruel com que Xurxo Borrazás trata as emoções e os desejos. A história centra-se na realização da própria obra literária numa aldeia perdida no interior da Galiza e onde duas personagens, o autor e uma velha aldeã, se encontram de uma forma estranha e intensa. A atribuição de um prémio literário acompanha paralelamente o desenrolar da história. A ironia encontra-se sempre presente numa obra já marcante da nova literatura galega.


As Rolas de Bakunine, Antón Riveiro Coello


Ser ou Não<br><i>Xurxo Borrazás</i>As Rolas de Bakunine de Antón Riveiro Coello não é só a construção literária do anarquismo galego durante os anos da Guerra Civil de Espanha. É, também, uma ex-celente narrativa tendo por base a vida de Camilo Doldque pouco têm a perder a não ser a dignidade de homens verdadeiramente livres. Um retrato real dos que deram a vida por uma utopia estampada nas páginas desta excelente obra na nova literatura galega a quem foi atribuído o Prémio García Barros. 


Ex, Patrick Raynal


De Lorient a Dublin, de Nice a Bamako, Jo Randa, a personagem deste romance, faz remontar o tempo. Inventário das trajectórias e derivas pessoais, regresso aos anos de chumbo, morte das utopias, término das ilusões políticas, um destino de um homem emerge das sombras do passado. 

Patrick Raynal, nascido em 1946, é autor de numerosos romances, entre os quais Fenêtre sur Femmes (prémio Mystére da Crítica francesa), Arrêt d'urgence, Né de fils inconnu e En Cherchant Sam. 

PROMOÇÃO A Estranha Estrela / Tempos de Fuga

Morto com Defeito, Vítor Pinto Basto


Existe, neste livro de Vítor Pinto Basto, uma estranha deriva que nos leva facilmente do Porto, revisto nas nossas memórias, para a Rússia oligarca dos dias de hoje. Só uma boa ficção pode ligar naturalmente Pusckin a Camões, faz sentar esse anti-herói de nome Carlos Palhal, a personagem principal, no Bar Surrealista em Moscovo, ou obriga a perscrutar o olhar de Irina pelas enormes telas de Vasily Perov ou tenta voar pela densidade psicológica das persona-gens de Dostoievski. Só uma ficção plenamente conseguida nos transporta do Portugal «moderno», esquecido de si, para a Rússia dos Czares, de um país que resistia como podia, para a União Soviética das grandes manifestações de massas, do Portugal bombista e revolucionário para a Rússia a preço de mercado.
Uma obra resoluta, sem concessões, de leitura urgente para quem quer perceber de como são feitas as pessoas iguais a nós. De sentimentos caóticos e desencontrados, da solidão que pesa à alegria esfusiante, de raiva e de amor.



Erros e Tanatos, Gonzalo Navaza

Colectânea de pequenos contos de uma ironia extremamente cáustica, escritos com um rigor assinalável e com finais inesperados
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terça-feira, dezembro 06, 2011

O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão - TEATRO para a Infância e Juventude

Quarto de Isaac Newton. Roupas, vidros, lunetas, máquinas desmontadas,livros, restos de comida em pratos, copos, tabuleiros,duas cadeiras, rolos de papel de todos os tamanhos, mapas, um telescópio. Tudo a um canto. No centro, um escadote.

1. Entrada



Próspero
(Paciente. Em cima do escadote. Newton, de pé, mãos atrás dascostas, cá em baixo) Repete lá, devagar.

Newton
(Recita) Newton. Isaac Newton. Nasceu em 1642 e morreu em 1727. Quando nasceu a Terra era redonda, quando morreu era achatada nos pólos. Quando nasceu o peso da Lua pressionava o mar e fazia-o subir e descer, quando morreu são o Sol e a Lua quem atrai as águas provocando as marés. Quando nasceu…

Próspero
Já chega. Como é que acaba?



Newton
Acaba assim. “Não sei como o Mundo me verá mas, a mim, parece-me que fui sempre um rapazinho a brincar na praia que por diversão encontrou de vez em quando uma pedra mais redonda ou uma concha mais bonita do que as outras, enquanto o grande Oceano da verdade continuava ali, à minha frente, todo por descobrir.”

Próspero
Quem disse?

Newton
Newton. Isaac Newton. Bonito, hã? (Escuro. Próspero acende uma lanterna. Som do mar, talvez também o canto das baleias. Próspero perscruta o Mar de cima do escadote. Chuva. Newton, senta-se. Próspero, desce do escadote e afasta-se. Toda a luz em Newton. Chuva. Mais forte. Entra a mãe. Fecha o chapéu de chuva e pousa-o)

Mãe
(A Próspero) Boa noite, que chuva horrível. (A Newton) Estás pronto? Estás nervoso? (Não há resposta. Ao público) Este é o meu filho… vem fazer teatro. (Justifica-se) É a primeira vez que vem fazer teatro e por isso ninguém leva a mal com certeza que eu venha com ele... para fazer companhia. Afinal de contas
ele sempre é meu filho. E eu sou a mãe dele, claro… (Exagera) Já sei o que me vão dizer: “Oh, ela é tão nova e já com um filho daquele tamanho”. (Suspiro) Já estou habituada. (Suspiro desmedido) Ele, o meu filho, tem a mania que é o Isaac Newton. Já lhe disse centenas de vezes que não era mas, ele não acredita.



Newton
Sou, sou.
[Para continuar a ler, comprar o livro aqui]

sábado, novembro 26, 2011

O Aquário, de João Pedro Mésseder












O Aquário, de João Pedro Mésseder, recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 3,º ano, é já um clássico.Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações de Gémeo Luís ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor.

Multiplicam-se em as propostas de trabalho em redor deste livro. Deixamos aqui mais uma sugestão, desta feita da autoria do Oceanodaspalavras4.

quarta-feira, novembro 23, 2011

A MOBILIZAÇÃO GLOBAL, de SANTIAGO LOPÉZ-PETIT Tradução de RUI PEREIRA

Nota ao leitor

Esta nota não é um prólogo. O texto que aqui se apresenta, na medida em que propõe um conceito de realidade absoluta — a realidade tornada una com o capitalismo já não tem afora e pretende-se, para além disso, atemporal — não comporta um texto prévio. Ou, se o tivesse, ele não seria mais do que um simples comentário exterior. A nota é, bem mais, uma advertência. A escrita aqui adoptada permite enquadrar os mais diversos fenómenos num discurso unitário e total. Esse discurso é uma ficção, mas toda a ficção produz efeitos de realidade e, se ainda tivesse sentido falar em termos de cientificidade, a operação filosófica e política aqui empreendida reclamaria para si a cientificidade que lhe pode ser conferida pela coerência interna. Em virtude dessa necessidade interna, e uma vez conquistada, à partida, uma legitimidade a partir da qual falar, a realidade apresenta-se na sua processualidade. Queremos acreditar que aquilo que se ganha é suficiente para que a aposta valha a pena. Este texto tem a aspiração de explicar tudo. Decerto, sabemos que no mais essencial existe sempre uma pobreza e um esquematismo que lhe são inerentes. Por essa razão tem tanto de verdade o dizer-se que este texto é um croquis para que nos orientemos na realidade e contra ela. Trata-se de um croquis que outros podem ampliar ou concretizar, ou simplesmente, apagar para inventar outro. Vivamente desejamos que isso aconteça." SANTIAGO LOPÉZ-PETIT

quinta-feira, novembro 17, 2011

A propósito de "Perigo Vegetal", de Ramon Caride

 

Said e Sheila vivem, no ano 2075, no interior da Galiza, mas estão ligados em comunicação ao mundo global do passado. Uma gigantesca companhia transnacional, a C.U.B., tenta apoderar-se de todas as sementes de cereais existentes como parte de um plano para dominar toda a agricultura do planeta. 

A luta das "sementes livres" contra a indústria passou pela horta da Graça Por Alexandra Prado Coelho


Jude e Michel Fanton, dos Seed Savers australianos, surpreenderam-se com a variedade de sementes que encontraram em Portugal. Mas que pode estar em perigo, avisam.
Lembra-se ainda do dia em que comeu a primeira salada de tomate que lhe soube realmente bem. Foi em Portugal, o ano era 1966, e Michel Fanton visitava o país pela primeira vez. Agora, acompanhado por Jude Fanton, regressou. Portugal é um dos países da tournée dos dois Seed Savers, "salvadores de sementes", australianos. E estão encantados com o que viram: "No Algarve mostraram-nos 53 variedades de figos, e vinte e tal de tomates". 
Em Lisboa, o encontro é na Horta do Monte, a horta comunitária da Graça. Às 11h, um grupo de cerca de 30 pessoas, sobretudo jovens, junta-se, abrigando-se debaixo dos chapéus-de-chuva, para ouvir Jude. Quase todos têm conhecimentos básicos de agricultura biológica, mas Jude lança-lhes um desafio: descer pela horta e identificar diferentes tipos de sementes. 
Não é fácil. Primeiro é preciso não escorregar na terra já ensopada, e depois as sementes não são fáceis de encontrar. "Tem que se ter uma flor antes de ter a semente", vai lembrando Jude. "E só se apanham as sementes quando estão maduras", diz enquanto mostra como se retiram as sementes. 
Parece básico, mas encontrar as sementes está a revelar-se uma tarefa mais difícil do que parecia. Assim como distinguir as flores que se podem comer, ou as plantas de folha persistente e de folha caduca. "Os camponeses são muito bons observadores porque a sobrevivência deles depende disso", revela Jude. 
Daí a pouco, o grupo segue para um local mais seco, na Escola Voz do Operário, para aprender a separar as sementes. As da couve-galega, por exemplo, são bolinhas pretas muito pequenas. Jude e Michel aconselham a usar uma folha de papel e deixá-las rolar até caírem dentro do envelope, que será depois fechado e identificado. No final trocam-se sementes, e cada participante leva um envelope. 

Ilegal?

Uma actividade como esta arrisca-se a tornar-se ilegal, explica ao P2 Lanka Horstink, coordenadora da Campanha pelas Sementes Livres, em Portugal. O objectivo de Lanka é o mesmo de Jude e Michel: proteger a biodiversidade, garantir que continua a haver o maior número possível de sementes tradicionais, e que os agricultores possam continuar a trocá-las entre eles. 
Os Seed Savers, conta Michel, já andam nisto há 25 anos, recolhendo e guardando sementes de variedades tradicionais por toda a Austrália; e mantendo-as vivas, replantando-as nas suas hortas e trocando-as entre hortelões. 
Lanka observa a troca de sementes na sala da Voz do Operário enquanto fala: o que preocupa o grupo por detrás da campanha é que a Comissão Europeia esteja a preparar uma "lei das sementes" que, diz a coordenadora, vai tornar ilegais todas as variedades de sementes que não estejam registadas. Ou seja, cada camponês que possua sementes terá que registar cada espécie (pagando pelo registo), sem o que não poderá nem sequer trocá-las com o vizinho do lado. 

Mudanças na legislação

Desde 2008 que a Comissão Europeia tem estado a introduzir mudanças na legislação, prossegue Lanka. Mas aquilo que até agora eram apenas directivas poderá em breve ser lei. A campanha pelas Sementes Livres explica ainda que, para serem registadas, as sementes terão que respeitar uma série de normas ligadas à "homogeneidade e estabilidade" e ao "valor agronómico e de utilização" - requisitos "que as variedades tradicionais dificilmente conseguirão cumprir".
Primeiro porque "não têm uma dimensão de produção" suficiente e, segundo, porque é precisamente "a sua elevada variabilidade" que lhes dá uma capacidade de adaptação às mudanças no solo e no clima. O que significa que várias sementes nas mãos de agricultores podem, de repente, tornar-se ilegais. 
Esta é uma luta entre agricultura biológica e a grande indústria agrícola, que usa pesticidas e fertilizantes, continua a coordenadora da Campanha pelas Sementes Livres. Lanka diz que a legislação que está a ser preparada protege a indústria de sementes (que já detém mais de metade do mercado mundial de sementes comerciais). Se um agricultor não pode guardar sementes, é obrigado a comprar novas, todos os anos. Tudo isto, sublinha, está a contribuir para a redução drástica da biodiversidade (de vários milhares de variedades para uma dúzia de espécies de plantas que são consumidas actualmente). 
Dentro do quadro europeu, os portugueses são dos que mais conseguiram preservar variedades de sementes tradicionais. Por isso, diz Lanka, Portugal "ainda goza de um património vegetal genético invejável" comparado com outros países europeus. O importante é não o perder, apela.
(Público, 17.11.11)

sexta-feira, novembro 11, 2011

Esquisita crise, Gustavo Rubim


  • Crítica Ípsilon por:

    Gustavo Rubim




  • Crise de Versos
  • Autoria: Stéphane Mallarmé


Crise” também significa (em Grego) resultado ou desenlace e, assim, o que sai de uma crise de verso é outro verso. Soa esquisito, mas “exquise” é a palavra francesa que qualifica a “crise” como preciosa



Livros pequenos, poucos exemplares, circulação discreta, às vezes até despercebida: não é essa, hoje, a situação de quase toda a poesia?

Aqueles para quem a poesia não seja, simplesmente, uma coisa do passado ou uma irrelevante inexistência, terão a tentação de falar em “crise”, mas ninguém dará a isso grande importância. Perante outras crises, ubíquas, assustadoras, uma “crise de versos” pesa pouco, quase nada. Nem era disso, aliás, que falava Stéphane Mallarmé quando em 1897 publicou, no volume “Divagações”, esta “Crise de Versos” escrita em prosa fragmentada. Um dos textos mais lentos que alguma vez se escreveu: dez anos para compor (em boa parte, com passagens doutros escritos) as catorze pequenas páginas aqui duplicadas pela decisão de acompanhar a tradução com o texto original.
Não diminui, aumenta com isso a importância do trabalho de Rosa Maria Martelo e de Pedro Eiras, os tradutores. O Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, do Porto, em que ambos trabalham e que dirige a colecção Pulsar (de que este nº 5 é o ponto alto), mostra como também no âmbito literário vale a lição de Mies van der Rohe: “Menos é mais.” Que é aqui uma lição de leitura, pois levar este livrinho para casa e decidir-se a lê-lo é apostar em tudo menos no consumo rápido: a prosa de Mallarmé, nisso indistinta da poesia, é para ler mesmo devagar, saboreando a deliciosa dificuldade dos “seus sobressaltos e inversões”, verificando como uma crise de versos é afinal “crise também da prosa - que se expõe e se assume”, conforme ensinam os co-autores deste genuíno acontecimento nas nossas letras.
Mas crise, em Mallarmé, é praticamente uma palavra feliz. Ela designa, como sempre desde o Grego antigo, o instante decisivo, a separação, o próprio acto de escolher. Num dos parágrafos finais do texto, Mallarmé descreve um desejo moderno da poesia que é, precisamente, um desejo crítico: “Um inegável desejo do meu tempo é separar, para destinos diferentes, o duplo estado da palavra, ora bruto ou imediato, ora essencial.” Esse desejo, que instala ou abre uma crise, uma divisão na linguagem, não é por isso menos afirmativo nem menos capaz de fundar a convicção da poesia. Isto é, em plena crise, a confiança no poder do verso: “O verso, que de vários vocábulos refaz uma palavra total, nova, estrangeira à língua e como que encantatória, completa esse isolamento da palavra (...)”.
Não será fácil hoje aceitar esta celebração do isolamento da palavra pelo verso, a não ser, como já várias vezes sucedeu, trocando o entendimento por ressentimento e acusando Mallarmé (e outros) de isolar a poesia, de a mergulhar no ininteligível, de a afastar da fruição universal, etc. Mas não se faz essa troca sem sacrificar a poesia àquilo a que Mallarmé chama “a universal reportagem”, o que vem a dar no mesmo que liquidá-la. Boa parte da grandeza inegável de Mallarmé, à distância de um século, é ter percebido que para a poesia moderna tudo se joga crucialmente na relação com a linguagem, porque “moderno” é o mundo onde todo o poder se traduz em forma e força de discurso.
Daí que a sua “Crise de Versos” seja a crise, ínfima, mas “preciosa, fundamental”, como se lê no início, da relação da poesia com o seu traço mais tradicional e constitutivo: o verso mesmo, claro. É uma nova liberdade do verso que Mallarmé anota e intensifica, traçando o seu acontecimento local (em França, após a morte de Victor Hugo) e limitado, como se o verso se rompesse sem rotura: “sei que se explora mais um jogo, sedutor, com os fragmentos do antigo verso (...) do que qualquer súbito achado, completamente inédito.” O verso livre, nesse sentido, é ainda um resultado do verso disciplinado, que nunca desaparece deste cenário crítico. Colhe-se aí a singularidade do pensamento de Mallarmé: “crise” também significa (em Grego) resultado ou desenlace e, assim, o que sai de uma crise de verso é outro verso. Soa um pouco esquisito, mas “exquise” é exactamente a palavra francesa que qualifica a “crise” como preciosa. E talvez a poesia não seja outra coisa senão o domínio em que só o esquisito é fundamental. (daqui)

OUTROS LIVROS DA COLEÇÃO: 

quinta-feira, novembro 03, 2011

O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão (texto), Sandie Mourão (figurinos/ilustração)



A propósito do lançamento  de O Homem que Via Passar as Estrelas, um texto de teatro para a infância e juventude de Luís Mourão (texto), Sandie Mourão (figurinos/ilustração); manual de exploração pedagógica  de Paulo Simões e prefácio de Máximo Ferreira recuperámos um artigo de  Ana Paula Couceiro Figueira  publicado  originalmente na revista Psychologica e posteriormente aqui.

O Palco da Vida: A expressão dramática enquanto instrumento operatório do desenvolvimento das competências sociais  | Ana Paula Couceiro Figueira

    [...] Ajudar os alunos a serem sujeitos independentes/autónomos, criativos, expressivos, auto-afirmativos, assertivos, desinibidos, comunicativos, capazes de tomar decisões, a saberem resolver problemas, em suma, a serem auto-regulados e autocontrolados, deverá ser a maior prioridade educacional, hoje.
    Julgamos que todos os membros da equipa educativa deverão envidar esforços no sentido de, simultaneamente à preocupação sobre os conteúdos estritamente escolares, formais, e dos meios que facilitam a sua aquisição, enquadrar nos seus programas, projectos ou acções, temáticas relacionadas com as condições que propiciam a aprendizagem (motivação, controlo das emoções e estados de humor, percepção de competência e de capacidade, expectativas, aspirações, atitude positiva face à escola, estabelecimento de objectivos de aprendizagem, percepção da instrumentalidade dos conteúdos, métodos e condições de estudo, aptidões sociais, …). No mesmo sentido, consideramos que, igualmente, uma forma possível de poder realizar este princípio, poderia ser ou existir, não a título facultativo, mas com cariz curricular , a disciplina de Expressão Dramática, desde a Educação de Infância ao Ensino Superior.    [...]
 A Expressão Dramática entendida, não na sua vertente terapêutica (ex. Psicodrama), de remediação ou recuperação, nem como mera estratégia para veicular mensagens formais, antes, no seu vector preventivo/profiláctico, como instrumento de aprendizagem e de desenvolvimento, propiciador de experiências relacionais/sociais.
Em rigor, a Expressão Dramática    [...]  parece cumprir, julgamos, os objectivos de desenvolvimento social. [...] De facto, a Expressão Dramática, tendo em consideração os aspectos afectivo/sociais, cognitivo/linguísticos e psicomotores de desenvolvimento, perspectiva-se como um instrumento de actualização e potenciação das aptidões sociais. Tendo em conta, igualmente, comportamentos verbais e não verbais, encerra os componentes fundamentais das competências sociais. É uma prática que põe em acção a totalidade da pessoa, favorecendo, através de actividades lúdicas, o desenvolvimento e uma aprendizagem global (cognitiva, afectiva, sensorial, motora, estética). Neste sentido, ela partilha das intenções da finalidade geral da educação que é o desenvolvimento global da personalidade (Landier & Barret, 1994).
    Consideramos que todas as outras disciplinas curriculares podem potenciar ou fomentar as capacidades sociais dos indivíduos. Todavia, para além de serem esses os seus objectivos mais específicos e prioritários, são os professores de Expressão Dramática aqueles que, por “não terem preocupações de conteúdos estritos escolares”, estão em melhor posição, teoricamente, têm mais disponibilidade para o desenvolvimento holístico do indivíduo. [...]


É que,
A expressividade da pessoa humana implica o corpo como
condição da tradução dessa expressividade; implica o
enquadramento ambiental como possibilidade de diálogo
existencial na personalidade estruturada e amadurecida e
na personalidade em estruturação e amadurecimento
progressivo (…)
Miranda Santos, 1972, pp. 314-315.
e
É tão importante o contributo do corpo para as expressões
humanas que se poderia falar duma colaboração
indispensável do mesmo para essas expressões ou até
duma “intencionalidade corporal”.
Miranda Santos, 1972, p. 317.



  LER NA ÍNTEGRA AQUI.