sábado, outubro 01, 2011

POESIA, APESAR DE TUDO. António Guerreiro [Expresso Atual]



POESIA, APESAR DE TUDO
Ao mesmo tempo que parece definhar sob a ameaça da falta de leitores e das regras editoriais, a poesia insiste e resiste, alheia às circunstâncias pragmáticas

"Para que serve a poesia hoje?”: a pergunta é formulada no título de um pequeno livro de um ensaísta e poeta francês, Jean-Claude Pinson, publicado em 1999, recentemente traduzido em português (Deriva Editores, 2011, trad. José Domingues de Almeida, 66 págs.)

Trata-se de uma conferência, seguida de discussão com o público, que o autor proferiu em Nantes. O tema ressuscita um tópico antigo, com origem na elegia de Hölderlin “Pão e Vinho”, em que o poeta alemão pergunta na sétima estrofe: “Para quê poetas num tempo de indigência?”. Desde então, o “wozu Dichter” — o “para quê poetas” — nunca mais deixou de ecoar como uma interrogação que a poesia moderna lança a si própria e se tornou obsessiva. Convém perceber que o ‘Dichter’ hölderliniano, num contexto em que a literatura se reflete e se interroga si própria, é mais do que aquele que escreve nesse género literário que se chama poesia: é o escritor enquanto figura de um absoluto literário que toma a poesia como o ideal a que aspiram todos os géneros e mesmo todas as artes. Mas, no nosso tempo, o verso de Hölderlin, embora constantemente evocado, ganhou outras ressonâncias: o que escutamos nele já não é a perda de um mundo desencantado, de onde os deuses se retiraram, mas algo muito mais pragmático: a condição desfavorecida e minoritária da poesia relativamente ao romance e a todas as formas literárias narrativas; a falta de leitores de poesia; a suspeita de que é uma arte anacrónica, num mundo dominado por uma racionalidade económica e por uma cultura do entretenimento a que ela não se adequa, de tal modo que soa a pedantismo dizer “eu sou poeta”. 

Traduzida nestes termos contemporâneos, a questão hölderliniana tem sido insistentemente ressuscitada e reativada, dando muitas vezes a impressão de que a morte da poesia é uma iminência, e que a sua vida está reduzida a uma precária sobrevivência. Daí a necessidade de a defender. E foi assim que o discurso de defesa e celebração da poesia se tornou uma espécie de oração — a oração crepuscular do literato —, ora declamada em chave fúnebre ora entoada com devoção pietista. O resultado é a autocomplacência e a exaltação de si própria como mito e verdade suprema — inclinações funestas que a empurram para uma morte bastante menos gloriosa do que aquela que lhe é infligida, segundo se diz, por fatores externos.
"Le poète allongé" (1915), Marc Chagall
Uma contrarreação, também tipicamente moderna, a esse amor de si própria e a todas as concessões a que ele conduz marcam esta era da suspeita. Desde que, em 1945, Roger Caillois publicou “Les impostures de la poésie”, a “situação da poesia” (era o título de uma das partes desse texto) tornou-se objeto de uma reflexão recorrente. Caillois começava esse capítulo com esta confissão: “Sempre me senti mais disposto a combater a poesia do que a entregar-me a ela”. Quase ao mesmo tempo, Bataille proclamava o ódio da poesia (“la haine de la poésie”) e, em meados dos anos 50, Gombrowicz publicou um volume intitulado “Contra os Poetas”, que abria com o texto de uma conferência homónima, proferida em Buenos Aires, em 1947, onde o escritor polaco declarava guerra à grandiloquência da “poesia pura”, à monotonia dos versos fascinados pela sua elevação enfática.
Embora sem evocar estas lições iconoclastas, Jean-Claude Pinson também entende que a ideia de uma nobilidade tradicional da poesia é o que menos falta lhe faz e constitui, até, o seu mais poderoso inimigo. Recordemos que, no meio literário português, estas questões foram suscitadas com alguma polémica por uma antologia organizada por Manuel de Freitas, em 2002, que se chamava “Poetas sem Qualidades”. O pequeno livro de Jean-Claude Pinson insere-se, portanto, num tópico que um conjunto de fatores de vária ordem tornaram recorrente. O seu ponto de partida é a verificação de que é caduca e nada pertinente a velha questão da utilidade da poesia. E, a certa altura da sua conferência, evocando uma proposição de Paul Klee que teve em Deleuze uma repercussão importantíssima, Pinson afirma que o poeta “escreve para ‘um povo que falta’, um povo desconhecido”. Prolongando esta consideração, podemos talvez acrescentar que nos cálculos dos poetas nunca esteve, nem pode estar, um público preciso, definido como alvo, ao contrário do que acontece com as formas literárias que foram submetidas aos ditames da indústria cultural e editorial. Enquadrando este pequeno livro numa já longa história, recordemos que o tema que ele desenvolve teve uma emergência importante num número da revista “Action Poétique” (nº 133, de 1993), onde se perguntava a uma série de poetas: “La forme poésie va-t-elle, peut-elle, doit-elle disparaître?”. Mas devemos lembrar também a pergunta do poeta Henri Michaux: “Où va la poésie” (retomada, aliás, exatamente da mesma maneira, por um poeta chamado Benard Noël); e referir um outro pequeno livro, de outro poeta e ensaísta francês, Christian Prigent, que também declinava no título — “À quoi bon encore des poètes?” (1996) — o célebre verso de Hölderlin. Como é fácil perceber por esta breve enumeração, o tema tem sido longamente glosado.
Quando se fala do lugar reduzido a que a poesia está confinada, temos de falar das contingências editoriais, da regra que expulsa os livros de “rotação lenta” dos escaparates, em nome da rentabilidade por centímetro quadrado das livrarias. Essa vida pública cheia de dificuldades começa por uma lei irrevogável que o poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger formulou assim: a poesia é o único produto da atividade intelectual do homem que está imunizado contra a tentativa de exploração comercial. Ela não se adequa às re­gras do mercado e não alimenta nenhuma indús­tria. Que, nestas circunstâncias, ela persista, eis o que leva Enzensberger a considerar que se trata de um milagre e de um anacronismo, para con­cluir a seguir que esse seu carácter invendável é o seu misterioso privilégio.

Reside aqui o paradoxo da poesia: anacrónica. mas sempre atual: condena­da a desaparecer por imposições sociais, económi­cas e culturais, mas persistente e obstinada. De tal modo que Enzensberger, com uma ironia demoli­dara,  observa esta caracterísstica bizarra: "Há mais poemas a serem escritos do que a serem lidos, a poesia é o único medium de massa em que o núme­ro de produtores ultrapassa o dos consumidores"_ E, formulando uma lei do carácter imutável deste público limitado (a que chama com humor - cons­tante de Enzensberger-), determina-o empirica­mente de maneira precisa: mais ou menos 1354 leitores, para todas as culturas e comunidades lin­guísticas tenhas elas 250.00 leitores ou 250 milhões. Estas afirmações datam de  1985, mas podemos perceber o que elas significam em função dos desenvolvimentos da indústria editorial.


O romance, cuja morte também foi amplamente anunciada durante quase todo o século xx, acabou por se tornar hegemónico (colonizando, em termos de circulação pública, quase todo o espaço da litera tura) e ganhar um estatuto comercial importantíssi­mo. Mas a morte do romance nunca foi anunciada da mesma maneira que a morte da poesia: o roman­ce estava condenado à morte - dizia-se - porque se tinha esgotado a fórmula narrativa que o engendrou e tinha sido destruída a razão de onde ele provinha e tinha terninado a sua história (tratava-se, portamo, de uma morte por causas endógenas); já a poesia, enquanto género, nunca se sentiu definhar por ra­zões internas (mesmo o "para quê poetas”, de Hölderlin, não é um apelo à desistência e um incitamen­to à morte) e o seu lugar no intetior do sistema lite­rário nunca sofreu vacilações.  O grande sucesso do romance, no nosso tempo, teve ao mesmo tempo o efeito da sua perda de autonomia: ele perdeu o po­der e o privilégio de criar "um povo que falta'" para se dirigir exclusivamente ao público produzido pelas regras do consumo. Neste sentido, ele tornou·se mais do que um género literário, um género edito­rial, consagrado, aliás num uso ad hoc, instrumen­tal, das categorias ficção/não·ficção. Estamo-nos a referir, evidentemente, a uma literatura narrativa de entretenimento, que constitui um filão importante da atividade editorial e que absorve a maior parte daquilo que, uos modos de difusão e circulação, pas­sa por literatura. Se falarmos do romance que res­ponde a outra exigência que não a de fabricar narrativas segundo códigos e gostos que só têm a ver com um novo género de literatura universal - feita no alheamemo da língua a da tradição, como instru­mento de uma mentira generalizada, para poder atravessar fronteiras - o mais provável é descobrir­mos que ele contempla, do alto-mar, o continente firme e próspero, e entoa com a poesia esta certeza:"Estamos no mesmo barco”.
Em França, dados recentes dizem que a poesia tem um peso de 0,2% do volume de negócios anual do sector do livro e isso corresponde a 0,31% do total de livros vendidos. Uma insignificância, portanto, contrariada pela Espanha, pelo menos de acordo com a situação descrita pelo "EI País"', em 2003 (já passou quase uma década. os dados altera­ram-se, certamente. mas a presença forte das cole­ções ele poesia nas livrarias espanholas é um facto notável), onde se falava de uma proliferação de editores de poesia e de tiragens que, em casos excecio­nais, podiam ir até 10.000 exemplares. Números que não são suficientes para criar best-sellers, mas temos de pensar que o padrão é que uma primeira edição de um livro de poesia não ultrapasse a ordem das centenas. Foi assim com Baudelaire, foi assim com Mallarmé, e assim continua a ser com os poe­tas contemporâneos. Portanto, nada de muito grave aconteceu entretanto, a não ser uma ilusão de ótica criada pela lógica da indústria editorial e dos seus postos avançados. 

Em Portugal, houve nos últimos anos um re­cuo considerável da poesia tanto nas livratrias como no espaço público mediático. Há um raciocí­nio, responsável por um círculo vicioso, que fez escola em muitos domínios da cultura: parte-se do preconceito de que as pessoas só gostam de x ou y, o que justifica a decisão de só lhes oferecer isso e lhes retirar o acesso a tudo o resto. O círculo vicioso cumpre-se então desta maneira: dada a convic­ção de que só uma pequena minoria ociosa e nada rentável lê poesia, tudo será feito para que nem essa pequena minoria possa satisfazer os seus hábitos. E o pequeno tornar-se-á ínfimo, graças a uma profecia que se autorrealiza. Mas, se passarmos para a esfera muito mais complexa da consagração, as coisas passam-se de outra maneira. Aí, por razão que a nossa história literária do último século e meio explica, a poesia adquire uma enor­me importância e é o romance que passa a um estatuto de menoridade. Foi assim ao longo de todo o século XX e pouco nesse domínio, se alterou. A literatura portuguesa mais recente, com poucas exceções, continua a ser dominada por alguma poesia: é ela que alimenta alguma discussão literária; é ela que dialoga com a tradição literá­ria; é ela Que nos faz aceder, como um sismógrafo, ao registo dos abalos do tempo. Ela ri-se - e nós com ela - dos jogos florais a que está reduzido o débito regular, minuciosamente calendalizado, da produção romanesca.  António Guerreiro, Expresso Atual, pg. 34-36, 1.10.11

sexta-feira, setembro 30, 2011

Bailias

(foto daqui)



Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada».





Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

domingo, setembro 25, 2011

Na cal, João Pedro Mésseder


                                           
                                            Na cal

       Na cal se desenha a tentação da água. Na cal o verde das folhas reacende-se. A cal deseja a solidão do breu. A cal veste as casas de espelhos e de sangue. A cal conserva a pulsação da noite. Na cal bate um coração aberto. Sob a cal se consuma a lenta incineração. Na cal desliza a mão azul de deus.
                                                 João Pedro Mésseder, in Meridionais

sábado, setembro 24, 2011

Crise de Versos, de Stéphane Mallarmé (trad. Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras), ed. bilingue

Elíptico, extremamente condensado, interrogando tudo quanto poderia distinguir a poesia dos usos comuns da linguagem, o texto de Crise de Versos é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e uma profecia. Por um lado, procura surpreender a dissolução de versos tradicionais, em particular do alexandrino (o verso oficial por excelência), ao longo da segunda metade do século XIX e sobretudo após a morte de Victor Hugo. Diagnóstico difícil de uma experimentação formal então ainda em curso: o que nos surge hoje como conquista definitiva e já distante (em termos de livre invenção de metros, cesuras, formas gráficas) era no tempo de Mallarmé um acontecimento recente, plural, a necessitar com urgência de teorização. Por outro lado, Crise de Versos antecipa as poéticas dos modernismos e das primeiras vanguardas, ao enfatizar a produtividade da tensão entre a busca de um princípio construtivo, que asseguraria a impessoalidade, e a dissolução das formas canónicas. [aqui]


 

As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura. Na  Pulsar, foram já editados Jean-Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos),Antoine Compagnon (com Para que serve a Literatura?), Jean-Claude Pinson (Para que serve a poesia hoje).

domingo, setembro 18, 2011

Teatro Art'Imagem apresenta "Um punhado de terra", de Pedro Eiras


Depois da estreia em Mindelo, Cabo Verde, o Teatro Art'Imagem apresenta de 22 de Setembro de 2011 a  2 de Outubro de 2011, na Sala Estúdio Latino, Porto,  Um punhado de terra, de Pedro Eiras
“Além do equador tudo é permitido” - (provérbio português da época dos descobrimentos)

Pântano. Em todo o palco, vinte centímetros de terra barrenta. Vem, do horizonte à boca de cena, um homem negro. Os pés mergulham na lama. O homem coxeia da perna direita. O homem vem, devagar. Chega à boca de cena. E diz: Toma o meu corpo senhor do fogo! Vem e devasta esta terra estrangeira! Este homem negro é um escravo trazido à força de África para uma terra de que nunca ouvira falar – Portugal. Ele nos dirá, num português ainda mal apreendido, mas de imagens poderosas e numa linguagem poética singular, à moda de um contador de histórias de tradição oral africanas, como um dia chegaram à sua aldeia os homens brancos “feios, com cabeças de metal e pele de ferro, por sobre a pele cor de leite velho estragado”. De como lhe mataram a mulher, os filhos e os amigos, de como destruíram a sua aldeia e aniquilaram o seu povo.De como foram levados, sobre as ordens de uma tal “o infante”, num grande barco maior que “montanhas de madeira” para estas terras de desterro.É tal a sua solidão e a sua tristeza que o homem negro, despojado do seu punhado de terra evocará e pedirá aos seus deuses a morte e a maldição dos estrangeiros e seus descendentes, responsáveis pela sua desdita e a destruição do seu povo. E, é ainda com a terra estrangeira que o homem negro se despede da vida e da sua terra.“O homem negro apanha terra do chão e come. / Volta a apanhar terra. Come. / O homem negro come terra. / Come, come...”Alguns caminhos da encenação: A procura de um espaço não convencional para a apresentação do espectáculo; Um palco quase vazio, em que as luzes e as sombras se conjugam como elemento cénico decisivo. Talvez terra, talvez barro, ou, a tradução teatral desses elementos. Um trabalho centrado na voz, no corpo e no movimento do actor.
José Leitão (encenador)
imagem de Pedro Ferreira
Sobre “Um Punhado de Terra”: É muito tarde, tarde de mais, mas ainda podemos ouvir estes pés negros que chegam da escuridão, tacteiam a terra, a medo, esta voz que chama pelo seu deus e tem uma história a contar e um pedido a fazer, ainda vamos a tempo de - pelo menos - contar outra vez a história que nunca foi contada, que foi sempre transformada em marcha militar, datas, mapa, quando muito desculpas tingidas de má-fé, contar, ouvir.
Essa voz, ouço-a há muito tempo. Um dia, escrevi o que ela dizia. Por palavras minhas. Era um punhado de terra amarga, que eu devia comer. É tarde, tarde de mais, mas ainda podemos ouvir, ainda é cedo.
Pedro Eiras (autor)


ficha artística e técnica


» Texto Pedro Eiras » Encenação José Leitão » Interpretação Flávio Hamilton » 
Espaço Cénico » José Leitão e José Lopes » Desenho de Luz » Leunam Ordep  

» Produção Teatro Art'Imagem
» Direcção Artística José Leitão » Direcção Técnica Pedro Carvalho » Direcção de Produção Jorge Mendo

99ª Criação do Teatro Art' Imagem - 2011

Classificação Etária: M/12
Bilhetes: €5 ou €3 (cartão jovem, sénior, estudante, profissionais do espectáculo ou grupos organizados).




Mais informações aqui.

sábado, setembro 17, 2011

Consultório, de Paulo Kellerman

De Paulo Kellerman, autor de Gastar Palavras (2006), Os Mundos Separados que Partilhamos (2007), Silêncios entre Nós (2008, ) Chega de Fado (2010), todos publicados na Deriva,  chega-nos agora, o  e-book Consultório, que reúne seis contos originais e seis pinturas de Joana Lucas.


quinta-feira, setembro 15, 2011

Sugestão: Um punhado de terra, de Pedro Eiras

Um punhado de terra, de Pedro Eiras

Um monólogo baseado em  factos verídicos. Um monólogo sobre  construído a partir do ponto de vista do outro. Os descobrimentoso o lado de lá. Uma excelente sugestão para uma leitura / dramatização / leitura encenada no 9.º ano [intertextualidade com Os Lusíadas] ou no ensino secundário.

Teatro. Um monólogo. Um homem negro vem, exangue, a coxear. Como se chama, a que terra pertence? Ele dirá como um dia chegaram homens brancos e lhe mataram a família e o levaram num grande barco, sob ordens de alguém chamado "o Infante". E o homem negro pedirá ao seu deus a morte e a maldição.




Assim entrámos nos batéis Batéis se foram de terra
tranquila quente de fim de dia
Praia ficou longe manchas de sangue desapareceram todas
mas mar não lavou
não pode lavar
Fumo de casas queimadas era preto
dançavam ao sol labaredas
Mesmo quando não houver fumo
haverá labareda
não apagará
Vimos terra desaparecer para sempre

ficar pequena como pedrinha
Vimos montes onde milho crescia e pássaros voavam
Vimos e vimos
última vez
Agora
como teremos notícias de quem fugiu
de quem morreu?
Como saberemos novas de nossos mortos?
Nunca mais beberemos água do poço
não dançaremos a bater pés na terra
como saberemos novas de nossos mortos?
Nunca mais caçaremos gazela atenta
ó criador
nunca mais ouviremos leão antes de atacar
como saberemos novas
ó cheio de cólera
como saberemos novas de nossos mortos?

in Um Punhado de Terra, de Pedro Eiras

Nota do autor


Praticamente todos os factos que descrevo neste monólogo são verídicos; junto-os, mesmo se não aconteceram todos no mesmo século. Encontrei-os em diversos lugares – em Gomes Eanes de Zurara, Bartolomeu de las Casas, no International Slavery Museum of Liverpool – mas um livro corajoso, organizado por Ana Barradas, serviu-me de fonte principal: Ministros da Noite. Livro negro da expansão portuguesa (Antígona, 1992).

Um monólogo pede um trabalho de ritmos, tessituras, um fluxo de ideias e imagens. Sem sacrificar essas regras, e sem esquecer a exigência ética que em primeiro lugar me levou a escrever, procurei que este texto fosse o mais possível próximo dos factos registados. Apresentar os ecos que sobreviveram até nós e ser o menos possível – ou mesmo nada – enquanto dramaturgo.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Leitura com História: Notícias das Guerras Napoleónicas


Notícias das Guerras Napoleónicas: Dietário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro 1807-1816, (prefácio de Luís Oliveira Ramos e transcrição, atualização ortográfica, notas e índices de Maria Isabel Pereira Coutinho)




Da introdução de Maria Isabel Pereira Coutinho a Notícias das Guerras Napoleónicas, Dietário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro 1807-1816.

«O autor tem esse dom: faz-nos mergulhar na História. História que é também a dum povo - o português- que sem Rei, chefes militares, dinheiro ou armas, munido a princípio apenas dos instrumentos do seu ofício - foices, piques, paus e pedras, além de algumas raras caçadeiras e de muito engenho e coragem - se lançou  na aventura sem igual, (apesar do desnorte e da "anarquia" em que por vezes caíram esses "corpos sem cabeça", como se lhes refere o autor do Dietário), de expulsar da sua Pátria aqueles que tão traiçoeiramente aí tinham entrado e intentavam permanecer. E que mais tarde, integrado já em exércitos regulares, Anglo-lusos e por vezes espanhóis, os perseguia pela Espanha e França dentro, quantas vezes deixando aí o seu sangue e a sua vida.» 



Isabel Pereira Coutinho nasceu em Lisboa, tendo-se licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica da Universidade de Lisboa. Foi Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian, onde trabalhou desde 1967. Além de inúmeras exposições em que participou/comissariou, em Portugal e em diversos países da Europa e nos Estados Unidos, é autora de várias publicações no âmbito da História da Arte, a título individual ou em colaboração, algumas traduzidas ou editadas no estrangeiro. Como membro do ICOM (International Council of Museums – UNESCO) participou em numerosos Congressos e Colóquios em Portugal e no estrangeiro, onde apresentou diversas comunicações. É ainda membro do Grupo Internacional Researches on courtly life – Royal and princely tables. Reformada desde 2003, tem-se dedicado ao estudo e investigação no campo da História Contemporânea de Portugal.