sexta-feira, outubro 14, 2011
O Homem que via passar as estrelas, amanhã, em Leiria
Sábado, dia 15, apresentação de O Homem que via passar as estrelas, em Leiria, no Solar dos Ataídes, 18h,
quarta-feira, outubro 12, 2011
Sábado, dia 15, apresentação de O Homem que via passar as estrelas em Leiria, no Solar dos Ataídes, 18h
domingo, outubro 09, 2011
Crise de Versos, Stéphane Mallarmé [PULSAR]
Tradução e nota de leitura: Pedro Eiras e Rosa Maria Martelo
Elíptico, extremamente condensado, interrogando tudo quanto poderia
distinguir a poesia dos usos comuns da linguagem, o texto de Crise de
Versos é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e uma profecia. Por um lado,
procura surpreender a dissolução de versos tradicionais, em particular
do alexandrino (o verso oficial por excelência), ao longo da segunda
metade do século XIX e sobretudo após a morte de Victor Hugo.
Diagnóstico difícil de uma experimentação formal então ainda em curso: o
que nos surge hoje como conquista definitiva e já distante (em termos
de livre invenção de metros, cesuras, formas gráficas) era no tempo de
Mallarmé um acontecimento recente, plural, a necessitar com urgência de
teorização. Por outro lado, Crise de Versos antecipa as poéticas dos
modernismos e das primeiras vanguardas, ao enfatizar a produtividade da
tensão entre a busca de um princípio construtivo, que asseguraria a
impessoalidade, e a dissolução das formas canónicas.
quarta-feira, outubro 05, 2011
Austeridade republicana
O senhor Cavaco Silva deve ser um saloio. Um saloio português e republicano. E austero, também. Pouco me importa quantos carapaus come ao almoço para que se prove consistentemente a sua «austeridade republicana», mas devo dizer que me chateia desde já que o homem ande a repetir a necessidade de sacrifícios contínuos à populaça que sempre cumpriu minimamente com o que se lhe pediu. Lembramo-nos todos que trabalhámos o que se pediu, pagámos o que se pediu, descontámos o que se pediu, aceitámos candidamente o que os governos nos roubaram na inflação, pagámos o IRS e o IRC, as mais-valias, as casas e os aumentos dos spreads, o aumento sucessivos do IVA, a publicidade enganosa dos bancos, o imposto automóvel, as Scuts, o aumento dos transportes públicos abusivos, as propinas, os descontos nos ordenados que todos os anos, há muitos anos, se vão minguando, os congelamentos, os despedimentos porque os patrões podem agora despedir se acordarem com o cu virado para a lua. Agora pede-nos o saloíissimo presidente que acreditemos que estamos perante o fim das ilusões. Claro que sim e bastava para isso ter assistido às manifestações do 12 de Março e das últimas dos sindicatos. O senhor Cavaco Silva como saloio que é, pede-nos que acreditemos que ele acredita nisso, ele que chefiou um governo que vendeu ilusões, alcatrão e empréstimos a rodos e desmantelou a economia produtiva só para se ser bom aluno da Europa. O que ele quer é dizer que nos avisou a tempo, mas que ninguém o ouviu. Como um bom saloio que é!
sábado, outubro 01, 2011
POESIA, APESAR DE TUDO. António Guerreiro [Expresso Atual]
POESIA, APESAR DE TUDO
Ao mesmo tempo que parece definhar sob a ameaça da falta de leitores e das regras editoriais, a poesia insiste e resiste,
alheia às circunstâncias pragmáticas
"Para que serve a poesia hoje?”: a pergunta é formulada no título de um
pequeno livro de um ensaísta e poeta francês, Jean-Claude Pinson, publicado em
1999, recentemente traduzido em português (Deriva Editores, 2011, trad. José
Domingues de Almeida, 66 págs.).
Trata-se de uma conferência, seguida de discussão com o público, que o autor proferiu em Nantes. O tema ressuscita um tópico antigo, com origem na elegia de Hölderlin “Pão e Vinho”, em que o poeta alemão pergunta na sétima estrofe: “Para quê poetas num tempo de indigência?”. Desde então, o “wozu Dichter” — o “para quê poetas” — nunca mais deixou de ecoar como uma interrogação que a poesia moderna lança a si própria e se tornou obsessiva. Convém perceber que o ‘Dichter’ hölderliniano, num contexto em que a literatura se reflete e se interroga si própria, é mais do que aquele que escreve nesse género literário que se chama poesia: é o escritor enquanto figura de um absoluto literário que toma a poesia como o ideal a que aspiram todos os géneros e mesmo todas as artes. Mas, no nosso tempo, o verso de Hölderlin, embora constantemente evocado, ganhou outras ressonâncias: o que escutamos nele já não é a perda de um mundo desencantado, de onde os deuses se retiraram, mas algo muito mais pragmático: a condição desfavorecida e minoritária da poesia relativamente ao romance e a todas as formas literárias narrativas; a falta de leitores de poesia; a suspeita de que é uma arte anacrónica, num mundo dominado por uma racionalidade económica e por uma cultura do entretenimento a que ela não se adequa, de tal modo que soa a pedantismo dizer “eu sou poeta”.
Traduzida nestes termos contemporâneos, a questão hölderliniana tem sido insistentemente ressuscitada e reativada, dando muitas vezes a impressão de que a morte da poesia é uma iminência, e que a sua vida está reduzida a uma precária sobrevivência. Daí a necessidade de a defender. E foi assim que o discurso de defesa e celebração da poesia se tornou uma espécie de oração — a oração crepuscular do literato —, ora declamada em chave fúnebre ora entoada com devoção pietista. O resultado é a autocomplacência e a exaltação de si própria como mito e verdade suprema — inclinações funestas que a empurram para uma morte bastante menos gloriosa do que aquela que lhe é infligida, segundo se diz, por fatores externos.
Trata-se de uma conferência, seguida de discussão com o público, que o autor proferiu em Nantes. O tema ressuscita um tópico antigo, com origem na elegia de Hölderlin “Pão e Vinho”, em que o poeta alemão pergunta na sétima estrofe: “Para quê poetas num tempo de indigência?”. Desde então, o “wozu Dichter” — o “para quê poetas” — nunca mais deixou de ecoar como uma interrogação que a poesia moderna lança a si própria e se tornou obsessiva. Convém perceber que o ‘Dichter’ hölderliniano, num contexto em que a literatura se reflete e se interroga si própria, é mais do que aquele que escreve nesse género literário que se chama poesia: é o escritor enquanto figura de um absoluto literário que toma a poesia como o ideal a que aspiram todos os géneros e mesmo todas as artes. Mas, no nosso tempo, o verso de Hölderlin, embora constantemente evocado, ganhou outras ressonâncias: o que escutamos nele já não é a perda de um mundo desencantado, de onde os deuses se retiraram, mas algo muito mais pragmático: a condição desfavorecida e minoritária da poesia relativamente ao romance e a todas as formas literárias narrativas; a falta de leitores de poesia; a suspeita de que é uma arte anacrónica, num mundo dominado por uma racionalidade económica e por uma cultura do entretenimento a que ela não se adequa, de tal modo que soa a pedantismo dizer “eu sou poeta”.
Traduzida nestes termos contemporâneos, a questão hölderliniana tem sido insistentemente ressuscitada e reativada, dando muitas vezes a impressão de que a morte da poesia é uma iminência, e que a sua vida está reduzida a uma precária sobrevivência. Daí a necessidade de a defender. E foi assim que o discurso de defesa e celebração da poesia se tornou uma espécie de oração — a oração crepuscular do literato —, ora declamada em chave fúnebre ora entoada com devoção pietista. O resultado é a autocomplacência e a exaltação de si própria como mito e verdade suprema — inclinações funestas que a empurram para uma morte bastante menos gloriosa do que aquela que lhe é infligida, segundo se diz, por fatores externos.
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| "Le poète allongé" (1915), Marc Chagall |
Quando
se fala do lugar reduzido a que a poesia está confinada, temos de falar das
contingências editoriais, da regra que expulsa os livros de “rotação lenta” dos
escaparates, em nome da rentabilidade por centímetro quadrado das livrarias.
Essa vida pública cheia de dificuldades começa por uma lei irrevogável que o
poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger formulou assim: a poesia é o
único produto da atividade intelectual do homem que está imunizado contra a
tentativa de exploração comercial. Ela não se adequa às regras do mercado e
não alimenta nenhuma indústria. Que, nestas circunstâncias, ela persista, eis
o que leva Enzensberger a considerar que se trata de um milagre e de um
anacronismo, para concluir a seguir que esse seu carácter invendável é o seu
misterioso privilégio.
Reside aqui o paradoxo da poesia: anacrónica. mas sempre atual: condenada a desaparecer por imposições sociais, económicas e culturais, mas persistente e obstinada. De tal modo que Enzensberger, com uma ironia demolidara, observa esta caracterísstica bizarra: "Há mais poemas a serem escritos do que a serem lidos, a poesia é o único medium de massa em que o número de produtores ultrapassa o dos consumidores"_ E, formulando uma lei do carácter imutável deste público limitado (a que chama com humor - constante de Enzensberger-), determina-o empiricamente de maneira precisa: mais ou menos 1354 leitores, para todas as culturas e comunidades linguísticas tenhas elas 250.00 leitores ou 250 milhões. Estas afirmações datam de 1985, mas podemos perceber o que elas significam em função dos desenvolvimentos da indústria editorial.
Reside aqui o paradoxo da poesia: anacrónica. mas sempre atual: condenada a desaparecer por imposições sociais, económicas e culturais, mas persistente e obstinada. De tal modo que Enzensberger, com uma ironia demolidara, observa esta caracterísstica bizarra: "Há mais poemas a serem escritos do que a serem lidos, a poesia é o único medium de massa em que o número de produtores ultrapassa o dos consumidores"_ E, formulando uma lei do carácter imutável deste público limitado (a que chama com humor - constante de Enzensberger-), determina-o empiricamente de maneira precisa: mais ou menos 1354 leitores, para todas as culturas e comunidades linguísticas tenhas elas 250.00 leitores ou 250 milhões. Estas afirmações datam de 1985, mas podemos perceber o que elas significam em função dos desenvolvimentos da indústria editorial.
Em
França, dados recentes dizem que a poesia tem um peso de 0,2% do volume de
negócios anual do sector do livro e isso corresponde a 0,31% do total de livros
vendidos. Uma insignificância, portanto, contrariada pela Espanha, pelo menos
de acordo com a situação descrita pelo "EI País"', em 2003 (já passou
quase uma década. os dados alteraram-se, certamente. mas a presença forte das
coleções ele poesia nas livrarias espanholas é um facto notável), onde se
falava de uma proliferação de editores de poesia e de tiragens que, em casos
excecionais, podiam ir até 10.000 exemplares. Números que não são suficientes
para criar best-sellers, mas temos de
pensar que o padrão é que uma primeira edição de um livro de poesia não
ultrapasse a ordem das centenas. Foi assim com Baudelaire, foi assim com
Mallarmé, e assim continua a ser com os poetas contemporâneos. Portanto, nada
de muito grave aconteceu entretanto, a não ser uma ilusão de ótica criada pela
lógica da indústria editorial e dos seus postos avançados.
Em Portugal, houve nos últimos anos um recuo considerável da poesia tanto nas livratrias como no espaço público mediático. Há um raciocínio, responsável por um círculo vicioso, que fez escola em muitos domínios da cultura: parte-se do preconceito de que as pessoas só gostam de x ou y, o que justifica a decisão de só lhes oferecer isso e lhes retirar o acesso a tudo o resto. O círculo vicioso cumpre-se então desta maneira: dada a convicção de que só uma pequena minoria ociosa e nada rentável lê poesia, tudo será feito para que nem essa pequena minoria possa satisfazer os seus hábitos. E o pequeno tornar-se-á ínfimo, graças a uma profecia que se autorrealiza. Mas, se passarmos para a esfera muito mais complexa da consagração, as coisas passam-se de outra maneira. Aí, por razão que a nossa história literária do último século e meio explica, a poesia adquire uma enorme importância e é o romance que passa a um estatuto de menoridade. Foi assim ao longo de todo o século XX e pouco nesse domínio, se alterou. A literatura portuguesa mais recente, com poucas exceções, continua a ser dominada por alguma poesia: é ela que alimenta alguma discussão literária; é ela que dialoga com a tradição literária; é ela Que nos faz aceder, como um sismógrafo, ao registo dos abalos do tempo. Ela ri-se - e nós com ela - dos jogos florais a que está reduzido o débito regular, minuciosamente calendalizado, da produção romanesca. António Guerreiro, Expresso Atual, pg. 34-36, 1.10.11
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