sexta-feira, setembro 30, 2011

Bailias

(foto daqui)



Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada».





Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

domingo, setembro 25, 2011

Na cal, João Pedro Mésseder


                                           
                                            Na cal

       Na cal se desenha a tentação da água. Na cal o verde das folhas reacende-se. A cal deseja a solidão do breu. A cal veste as casas de espelhos e de sangue. A cal conserva a pulsação da noite. Na cal bate um coração aberto. Sob a cal se consuma a lenta incineração. Na cal desliza a mão azul de deus.
                                                 João Pedro Mésseder, in Meridionais

sábado, setembro 24, 2011

Crise de Versos, de Stéphane Mallarmé (trad. Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras), ed. bilingue

Elíptico, extremamente condensado, interrogando tudo quanto poderia distinguir a poesia dos usos comuns da linguagem, o texto de Crise de Versos é, ao mesmo tempo, um diagnóstico e uma profecia. Por um lado, procura surpreender a dissolução de versos tradicionais, em particular do alexandrino (o verso oficial por excelência), ao longo da segunda metade do século XIX e sobretudo após a morte de Victor Hugo. Diagnóstico difícil de uma experimentação formal então ainda em curso: o que nos surge hoje como conquista definitiva e já distante (em termos de livre invenção de metros, cesuras, formas gráficas) era no tempo de Mallarmé um acontecimento recente, plural, a necessitar com urgência de teorização. Por outro lado, Crise de Versos antecipa as poéticas dos modernismos e das primeiras vanguardas, ao enfatizar a produtividade da tensão entre a busca de um princípio construtivo, que asseguraria a impessoalidade, e a dissolução das formas canónicas. [aqui]


 

As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura. Na  Pulsar, foram já editados Jean-Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos),Antoine Compagnon (com Para que serve a Literatura?), Jean-Claude Pinson (Para que serve a poesia hoje).

domingo, setembro 18, 2011

Teatro Art'Imagem apresenta "Um punhado de terra", de Pedro Eiras


Depois da estreia em Mindelo, Cabo Verde, o Teatro Art'Imagem apresenta de 22 de Setembro de 2011 a  2 de Outubro de 2011, na Sala Estúdio Latino, Porto,  Um punhado de terra, de Pedro Eiras
“Além do equador tudo é permitido” - (provérbio português da época dos descobrimentos)

Pântano. Em todo o palco, vinte centímetros de terra barrenta. Vem, do horizonte à boca de cena, um homem negro. Os pés mergulham na lama. O homem coxeia da perna direita. O homem vem, devagar. Chega à boca de cena. E diz: Toma o meu corpo senhor do fogo! Vem e devasta esta terra estrangeira! Este homem negro é um escravo trazido à força de África para uma terra de que nunca ouvira falar – Portugal. Ele nos dirá, num português ainda mal apreendido, mas de imagens poderosas e numa linguagem poética singular, à moda de um contador de histórias de tradição oral africanas, como um dia chegaram à sua aldeia os homens brancos “feios, com cabeças de metal e pele de ferro, por sobre a pele cor de leite velho estragado”. De como lhe mataram a mulher, os filhos e os amigos, de como destruíram a sua aldeia e aniquilaram o seu povo.De como foram levados, sobre as ordens de uma tal “o infante”, num grande barco maior que “montanhas de madeira” para estas terras de desterro.É tal a sua solidão e a sua tristeza que o homem negro, despojado do seu punhado de terra evocará e pedirá aos seus deuses a morte e a maldição dos estrangeiros e seus descendentes, responsáveis pela sua desdita e a destruição do seu povo. E, é ainda com a terra estrangeira que o homem negro se despede da vida e da sua terra.“O homem negro apanha terra do chão e come. / Volta a apanhar terra. Come. / O homem negro come terra. / Come, come...”Alguns caminhos da encenação: A procura de um espaço não convencional para a apresentação do espectáculo; Um palco quase vazio, em que as luzes e as sombras se conjugam como elemento cénico decisivo. Talvez terra, talvez barro, ou, a tradução teatral desses elementos. Um trabalho centrado na voz, no corpo e no movimento do actor.
José Leitão (encenador)
imagem de Pedro Ferreira
Sobre “Um Punhado de Terra”: É muito tarde, tarde de mais, mas ainda podemos ouvir estes pés negros que chegam da escuridão, tacteiam a terra, a medo, esta voz que chama pelo seu deus e tem uma história a contar e um pedido a fazer, ainda vamos a tempo de - pelo menos - contar outra vez a história que nunca foi contada, que foi sempre transformada em marcha militar, datas, mapa, quando muito desculpas tingidas de má-fé, contar, ouvir.
Essa voz, ouço-a há muito tempo. Um dia, escrevi o que ela dizia. Por palavras minhas. Era um punhado de terra amarga, que eu devia comer. É tarde, tarde de mais, mas ainda podemos ouvir, ainda é cedo.
Pedro Eiras (autor)


ficha artística e técnica


» Texto Pedro Eiras » Encenação José Leitão » Interpretação Flávio Hamilton » 
Espaço Cénico » José Leitão e José Lopes » Desenho de Luz » Leunam Ordep  

» Produção Teatro Art'Imagem
» Direcção Artística José Leitão » Direcção Técnica Pedro Carvalho » Direcção de Produção Jorge Mendo

99ª Criação do Teatro Art' Imagem - 2011

Classificação Etária: M/12
Bilhetes: €5 ou €3 (cartão jovem, sénior, estudante, profissionais do espectáculo ou grupos organizados).




Mais informações aqui.

sábado, setembro 17, 2011

Consultório, de Paulo Kellerman

De Paulo Kellerman, autor de Gastar Palavras (2006), Os Mundos Separados que Partilhamos (2007), Silêncios entre Nós (2008, ) Chega de Fado (2010), todos publicados na Deriva,  chega-nos agora, o  e-book Consultório, que reúne seis contos originais e seis pinturas de Joana Lucas.


quinta-feira, setembro 15, 2011

Sugestão: Um punhado de terra, de Pedro Eiras

Um punhado de terra, de Pedro Eiras

Um monólogo baseado em  factos verídicos. Um monólogo sobre  construído a partir do ponto de vista do outro. Os descobrimentoso o lado de lá. Uma excelente sugestão para uma leitura / dramatização / leitura encenada no 9.º ano [intertextualidade com Os Lusíadas] ou no ensino secundário.

Teatro. Um monólogo. Um homem negro vem, exangue, a coxear. Como se chama, a que terra pertence? Ele dirá como um dia chegaram homens brancos e lhe mataram a família e o levaram num grande barco, sob ordens de alguém chamado "o Infante". E o homem negro pedirá ao seu deus a morte e a maldição.




Assim entrámos nos batéis Batéis se foram de terra
tranquila quente de fim de dia
Praia ficou longe manchas de sangue desapareceram todas
mas mar não lavou
não pode lavar
Fumo de casas queimadas era preto
dançavam ao sol labaredas
Mesmo quando não houver fumo
haverá labareda
não apagará
Vimos terra desaparecer para sempre

ficar pequena como pedrinha
Vimos montes onde milho crescia e pássaros voavam
Vimos e vimos
última vez
Agora
como teremos notícias de quem fugiu
de quem morreu?
Como saberemos novas de nossos mortos?
Nunca mais beberemos água do poço
não dançaremos a bater pés na terra
como saberemos novas de nossos mortos?
Nunca mais caçaremos gazela atenta
ó criador
nunca mais ouviremos leão antes de atacar
como saberemos novas
ó cheio de cólera
como saberemos novas de nossos mortos?

in Um Punhado de Terra, de Pedro Eiras

Nota do autor


Praticamente todos os factos que descrevo neste monólogo são verídicos; junto-os, mesmo se não aconteceram todos no mesmo século. Encontrei-os em diversos lugares – em Gomes Eanes de Zurara, Bartolomeu de las Casas, no International Slavery Museum of Liverpool – mas um livro corajoso, organizado por Ana Barradas, serviu-me de fonte principal: Ministros da Noite. Livro negro da expansão portuguesa (Antígona, 1992).

Um monólogo pede um trabalho de ritmos, tessituras, um fluxo de ideias e imagens. Sem sacrificar essas regras, e sem esquecer a exigência ética que em primeiro lugar me levou a escrever, procurei que este texto fosse o mais possível próximo dos factos registados. Apresentar os ecos que sobreviveram até nós e ser o menos possível – ou mesmo nada – enquanto dramaturgo.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Leitura com História: Notícias das Guerras Napoleónicas


Notícias das Guerras Napoleónicas: Dietário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro 1807-1816, (prefácio de Luís Oliveira Ramos e transcrição, atualização ortográfica, notas e índices de Maria Isabel Pereira Coutinho)




Da introdução de Maria Isabel Pereira Coutinho a Notícias das Guerras Napoleónicas, Dietário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro 1807-1816.

«O autor tem esse dom: faz-nos mergulhar na História. História que é também a dum povo - o português- que sem Rei, chefes militares, dinheiro ou armas, munido a princípio apenas dos instrumentos do seu ofício - foices, piques, paus e pedras, além de algumas raras caçadeiras e de muito engenho e coragem - se lançou  na aventura sem igual, (apesar do desnorte e da "anarquia" em que por vezes caíram esses "corpos sem cabeça", como se lhes refere o autor do Dietário), de expulsar da sua Pátria aqueles que tão traiçoeiramente aí tinham entrado e intentavam permanecer. E que mais tarde, integrado já em exércitos regulares, Anglo-lusos e por vezes espanhóis, os perseguia pela Espanha e França dentro, quantas vezes deixando aí o seu sangue e a sua vida.» 



Isabel Pereira Coutinho nasceu em Lisboa, tendo-se licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica da Universidade de Lisboa. Foi Conservadora do Museu Calouste Gulbenkian, onde trabalhou desde 1967. Além de inúmeras exposições em que participou/comissariou, em Portugal e em diversos países da Europa e nos Estados Unidos, é autora de várias publicações no âmbito da História da Arte, a título individual ou em colaboração, algumas traduzidas ou editadas no estrangeiro. Como membro do ICOM (International Council of Museums – UNESCO) participou em numerosos Congressos e Colóquios em Portugal e no estrangeiro, onde apresentou diversas comunicações. É ainda membro do Grupo Internacional Researches on courtly life – Royal and princely tables. Reformada desde 2003, tem-se dedicado ao estudo e investigação no campo da História Contemporânea de Portugal.

quinta-feira, setembro 08, 2011

O Aquário, de João Pedro Mésseder e as escolas.... #1

No blogue da Biblioteca Escolar da Escola Básica 1,2 Mouzinho de Albuquerque da Batalha, encontramos algumas atividades muito interessantes desenvolvidas em redor de O Aquário. Vale a pena espreitar o Quebra Cabeças, o jogo do Enforcado e a ficha de leitura. Tudo aqui.  


Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor.

quarta-feira, setembro 07, 2011

Jornadas da História Oral - Os usos da história oral nos estudos sobre as classes populares

Jornadas da História Oral 
- Os usos da história oral nos estudos sobre as classes populares


Sábado, 17 de setembro de 2011
Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto

Inscrição gratuita por email em historia@upp.pt. |
Organização: Universidade Popular do Porto | Apoio: FPCEUP

[clicar nas imagens]


O Homem que Via Passar as Estrelas: a chegar às livrarias!

Luís Mourão em discurso direto sobre O Homem que Via Passar as Estrelas, uma peça de teatro para a infância e juventude, recomendada pelo PNL.

terça-feira, agosto 30, 2011

Uma não-efeméride de Castro Caldas:«-Fazes cá falta, Joaquim!»


Foto de António Pedro Ribeiro

Não sou dado a saudosismos. Evito sempre a efeméride e a lembrança da pequena data. Há, no entanto,a de hoje que não me sai da cabeça e que me diz que o Castro Caldas se foi há 3 anos. Comprei-lhe o Português Suave, em 1977, no Tropical em Coimbra. Bebíamos cervejas ininterruptamente e falávamos dos sonhos de quem tinha 20 e poucos anos, poesia sempre incluída. A ele acrescentava-se o teatro. Perdi-lhe o rasto durante anos e vim a encontrá-lo no Porto, já doente mas sem queixas e com um sentido de humor que não tinha perdido. Ria com os títulos dos novos «romances». ria com a «nova» poesia, daquela que recusava a declamação, a rua ou o vão dos bares. É disso que me lembro do Caldas: da vontade de viver e da realidade contraposta que os médicos impunham nas visitas que fazia ao Santo António. Nunca deu de si. Lembrava-me, nos cafés das Antas onde queimavamos tempo como só ele sabia fazer com a qualidade necessária de quem tinha todo o tempo do mundo, algumas cenas passadas com a Juliette Greco, com Leo Ferré (que o viu a declamar em Paris o Avec le Temps, na rua) ou com Ary dos Santos. O Joaquim faz-me falta e à Deriva. Numa época onde a poesia é cada vez mais esquecida ao ponto de a termos suspendido este ano que passa, o Castro Caldas faz falta. Para dar alento. Para nos fazer acreditar que a poesia tem de ser sobretudo vivida todos os dias. De qualquer maneira, o Mágoa das Pedras aí está editado por ambos e com a alegria de quem escolheu os poemas, como este:

Espero que haja música
no espaço mítico da morte
a água não corre na fonte
a erva não cresce no monte
não cheira a pó de Alexandria
nem áspero nem seda
os sentidos não circulam
como o sangue e a seiva
a liberdade é uma varejeira
os poemas são peidos
a citar arrotos velhos
e querem que os putos comam
a carne seca dos navios?
aprendam a vida sexual
dos abutres à mercê dos cânticos?
a intervenção mais juvenil
é o boicote à criação arrumada
só tu és o mestre da tua vontade
só tu és o aluno da tua árvore
espero que entre o bem e o mal
a tua amada musa dance dance

Poesia, in Mágoa das Pedras, Deriva, 2008

sexta-feira, agosto 26, 2011

Ler é, ainda, o melhor remédio: duas sugestões da Argentina.

Ler ainda é o melhor remédio... Aqui na Deriva, propomos-lhe que vá umas horas até um Magic Resort ou então que escape para Nenhum Lugar. Vale a pena evadir-se, lendo.



Ele adorava andar por diferentes lugares. A vida sedentária era algo que tinha abandonado há muito tempo, e ter de dar explicações parecia-lhe deplorável. As suas viagens duravam um mês, e no princípio contar com esse tempo de solidão resultava-me agradável e produtivo. Estavam a encarregar-me boas traduções e trabalhava com prazer. Tomava o pequeno-almoço no escritório, saia a passear durante a tarde, e voltava a traduzir até de madrugada. Além disso, parecia-me excitante esperar o reencontro e deixar que me sequestrasse de férias quando chegava.
 Um ano depois, tinha a impressão que os meus dias eram mais solitários do que tinha desejado. Comentei um par de vezes a Marcia o meu descontentamento, e conseguiu convencer-me a começar uma terapia. Escolhi um psicanalista que me disse para ir duas vezes por semana. Nunca me senti cómoda no divã. Costumava perder-me num rosário de anedotas infrutíferas, ou então cansava-me do silêncio e adormecia. Uma vez acordei sobressaltada, vociferando que me afundava num lugar que não desejava. Vá-se lá saber o que interpretou, mas foi a sua melhor intervenção. Descruzou as pernas e disse-me: “Compre um caderno e escreva o que quiser. Trabalharemos com esse material. [Magic Resort, Florencia Abbate]


- Chamo-me Mauricio e tenho vinte e sete anos, e amanhã vou rir-me disto tudo, que me chamo Mauricio e tenho vinte e sete anos.

Antes de acabar a frase Mauricio percebeu que tentar tranquilizar-se falando não tinha sido uma boa ideia. No silêncio da noite escutou a sua voz, e foi-lhe tão estranha, tão alheia, que a custo pode controlar o impulso de abrir a porta e afastar-se a correr do carro. Num segundo conseguiu pensar, “não devo correr, não devo correr”, e com a mão na fechadura viu-se fugindo com grandes passadas, sem correr, caminhando a alta velocidade, o corpo duro e torpe tentando acelerar o passo sem desatar a correr. Ainda com a mão na fechadura, foi invadido por um ataque de riso. Riu-se durante vários minutos e, quando pode por fim controlar-se, descobriu-se cansado e sem medo. Talvez agora pudesse voltar a dormir, pensou, enquanto fechava a janela porque começava a sentir o frio." [Nenhum Lugar, Ricardo Romero]

segunda-feira, agosto 22, 2011

É o Estado, estúpido!



Existe uma mentalidade medieval, fruto ou não do protestantismo anglo-saxónico, na decisão de dar quatro anos de prisão a dois adolescentes ingleses que nem sequer estiveram presentes nos motins de agosto. Antes, somente, tinham «incitado» no Facebook à destruição da sua cidade o que nunca veio a acontecer, diga-se. Já um outro adolescente tinha levado com seis meses de prisão por ter sido encontrado pela polícia com dez garrafas de água roubadas... Não é este o espaço para grandes debates sobre o fenómeno. Mas não deixa de ser curioso o silêncio da maioria dos escritores sobre isto: então «escreve-se» que a sua cidade deve ser destruída e é-se condenado? Então até que ponto a liberdade de expressão é consagrada por lei? Se disser que Coimbra, ou outra qualquer cidade, deve ser implodida depois da efectiva destruição que esta sofreu após a intervenção de presidentes das câmaras e de empreiteiros sem escrúpulos e em eventuais motins se vier a verificar explosões sucessivas, sou condenado por incitar ao ódio? Por outro lado, olhando para estes adolescentes que espero tenham um advogado à altura, e de qualidade, como tiveram os deputados ingleses apanhados este ano a gastarem e a abusarem de cartões de crédito em grandes e pequenas despesas dá-me a impressão que não se tratam de penas para mostrar a inflexibilidade do estado perante simples malfeitores, mas antes o ponto final de quem tem liberdade ou não para poder fazer as coisas, todas as coisas, que vierem à sua cabeça seja roubar ou não, porque aí a generalidade dos políticos o pode fazer sem qualquer pena acessória. Espero que os adolescentes ingleses tenham percebido quem têm pela frente. É o Estado, estúpido!!

Kafka – Um livro sempre aberto [Colecção Cassiopeia]



[…] a identidade ficcionalizada que Kafka constrói para si constitui, ela própria, um eco de múltiplos modelos de masculinidade epocais, que ele projecta nas suas vivências, como se de um espelho se tratasse. Além disso, com os seus comentários autobiográficos, induz no leitor uma interpretação para os textos, numa mistura entre realidade e ficção, de fronteiras também elas difusas e movediças. A situação pessoal de Kafka adequa-se realmente a essa indefinição e oscilação. Falante de alemão numa cidade de língua maioritariamente checa; filho de um judeu parvenu numa escola e numa sociedade elitistas; dividido entre o Judaísmo assimilado e o fascínio da ortodoxia judaica e da linguagem cabalística; herdeiro das tendências artísticas da família da mãe numa casa dominada por um pai autoritário e orientado para a vida prática, a sua situação é a um tempo real e produto de uma encenação.

Recordem-se, como prova dessa ficcionalização, as referências intertextuais e as influências inspiradoras de textos literários e de comportamentos culturais da sua época e meio sobre as masculinidades que encena como suas e das suas personagens. De facto, a figura do amigo, o destino de Gregor Samsa e o comportamento de Karl Rossmann parecem ser uma ilustração do homem judeu tal como o descreve Otto Weinrich em Charakter und Geschlecht (1903), com sinais de perversão e efeminização, tendencialmente homossexual. Todavia, e pesem embora tratados epocais, a homossexualidade não era na época vista apenas como apanágio dos judeus. No final do século XIX, O homoerotismo era conhecido como "le vice allemand': e o escândalo da "Harden-Eulenburg-Affaire" fez cair a suspeita do homoerotismo até mesmo sobre a figura do jovem Imperador Wilhelm II. A este propósito, Christine Kanz refere que também os escritos do filósofo e escritor Karl Blüher, comprometido com a fundação do movimento dos "Wandervõgel': tratam a homossexualidade como uma constante nas formas de relacionamento masculino em círculos como os do exército, e terão marcado Kafka, nomeadamente no que se refere à ligação intrínseca entre raça, doença e masculinidade (cf. Kanz 2003: 158¬159). Todavia, as propostas de Sacher-Masoch, que atrás referi já como autor da Venus de Peles e que faz a apologia do homem judeu e da família judaica como família ideal, não parecem ter colhido maior simpatia do autor. Estranho poderá parecer, por isso, que na Carta ao Pai, Kafka se queixe de não lhe terem sido transmitidas convicções religiosas firmes, pois afigura-se-lhe que a ortodoxia judaica, que nem ele nem o pai professam, poderia ter constituído uma base de entendimento entre ambos (cf. Kafka 2007: 46-53). Também o homem atlético, o desportista, que integra o imaginário da masculinidade do início do século XX e que inspira a figura do fogueiro e a desenvoltura de Karl Rossmann, em O Fogueiro, as acrobacias que o insecto faz no tecto e que o farão estatelar-se no chão, em A Metamorfose, e as que acompanham o suicídio de Georg em A Sentença, é alvo da desconstrução generalizada a que Kafka submete os modelos de masculinidade (cf. Boa 1996: 109). […] Teresa Martins de Oliveira, «“Os Filhos” de Kafka: Construções de Masculinidades em “A Sentença”, “ A Metamorfose” e “ O Fogueiro”», in Kafka – Um livro sempre aberto.

O Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e o Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto levaram a cabo em 5-12-2008 uma jornada dedicada a Franz Kafka, com a qual se pretendeu assinalar o 125º aniversário do nascimento do escritor.Os seis estudos que se publicam neste volume constituem as respostas de outros tantos autores, atentos ao desafio que representa a obra de Kafka, livro sempre aberto a um novo “virar de página”.


ÍNDICE

- Introdução
- Tradução e Edição – A Propósito de Recentes Traduções de Kafka | Teresa Seruya
-  Kafka -  Uma Habilidade Necessária | Nuno Amado
-  “Os Filhos” de Kafka: Construções de Masculinidades em “A Sentença”, “ A Metamorfose” e “ O Fogueiro” | Teresa Martins de Oliveira
- Kafka -  Os Paradoxos de “O Novo Advogado” | Gonçalo Vilas-Boas
 - Fantasias de Fragmentação em Conrad, Kafka e Pessoa | Gerald Bär
- À Conversa com Manuela Bacelar
- Anexos Ilustrações de Manuela Bacelar – “Kafkas para que vos quero”

sábado, agosto 20, 2011

Pulsar e Cassiopeia, parceria Deriva Editores com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa


As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura. Na  Pulsar, foram já editados Jean-Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos) e Antoine Compagnon (com Para que serve a Literatura?), Jean-Claude Pinson (com Para que serve a Poesia hoje?).
A Cassiopeia acolheu  um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão e Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, organizado por Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.

quarta-feira, agosto 17, 2011

A chegar:O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão - TEATRO para a Infância e Juventude


O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão, é uma viagem ao centro dos planetas do Sistema Solar, guiada pelo grande astrónomo da Humanidade, Sir Isaac Newton.
O descontentamento dos planetas é geral, e um de cada vez, procuram Sua Majestade, o Sol, cada um com o seu protesto. Em vão. É noite e Sua Majestade não recebe visitas. Newton é acordado com a chegada repentina destes planetas que afirmam que dali não saem sem serem ouvidos.

terça-feira, agosto 16, 2011

Conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)

Ver aqui.






[...] Da janela, observava aquela travessa de pessoas humildes, onde a sua família era a única de «gente remediada» - assim dizia a mãe - e por onde, ao fim da tarde, circulava um polícia gordo e pachorrento, com cara de tractor amolgado, a quem a garotada chamava «o Bigodes». Era também na rua, quase sem trânsito, que brincava e jogava à bola, com grande alarido, a miudagem das casas pobres. [...]  in O conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)



O Aquário, João Pedro Mésseder e Gémeo Luís

Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor.






Vozes do Alfabeto, de João Pedro Mésseder, reúne cerca de três dezenas de poemas. São versos preferencialmente destinados a crianças em fases iniciais de aprendizagem da leitura e da escrita, ou seja, em idade de frequentar o 1º ciclo do Ensino Básico. A cada letra corresponde um texto, por vezes dois. Se aqui o poema se assemelha a uma micro-história em verso, acolá encena um pequeno episódio burlesco; e outros há que se mantêm num registo lírico. Organizados de acordo com a ordem das letras no alfabeto (primeiro o poema centrado no A, depois no B, depois no C, e assim sucessivamente), inspiram-se no trava-línguas da tradição oral. Deste modo, a simplicidade da linguagem, ao alcance da capacidade de compreensão da criança, vê-se literariamente compensada pelo recurso à aliteração, à assonância, à anáfora, ao jogo linguístico e a outros elementos expressivos. Rimados e ritmados, facilmente memorizáveis, os textos permitem, se lidos em voz alta, activar a atenção auditiva e concorrem para o desenvolvimento da consciência fonológica, sem nunca abdicarem da dimensão lúdica e do humor que são traços distintivos deste livro, profusamente ilustrado com imagens de assinalável qualidade. [texto daqui]


domingo, agosto 14, 2011

Para que serve a poesia hoje?, Jean-Claude Pinson (tradução José Domingues de Almeida)



A segunda parte de Para que serve a poesia hoje? é constituída por uma série de perguntas/respostas que se seguiram à conferência proferida por Pinson, a 12 de Janeiro de 1999 em Nantes.

Jean-Claude Pinson
 [...]A pergunta que lhe queria colocar é a seguinte: será que a concepção que expôs não passa, ao fim e ao cabo, de uma concepção histórica, transitória, passageira, muito actual desde a queda das ilusões do surrealismo? Hoje em dia, estaríamos neste ponto, i.e. numa espécie de dúvida de si, mantida pelos jornais, pela televisão porque, no fundo, se teme o poder subversivo da poesia – pois se a filosofia ajuda a pensar com rigor, a poesia ajuda a pensar de forma diferente. Assim, não estaremos nós numa fase transitória desde há 20 anos, e poderemos nós imaginar, conceber transformações que renovem coisas mais antigas sob formas novas?
É-me muito difícil fazer prognósticos quanto ao que será a poesia de amanhã. Posso, claro, desejar uma situação em que lhe fosse dado melhor acolhimento e em que contasse mais na sociedade. Mas não estou certo de perceber bem hoje os sinais desse futuro risonho.O que observo, no entanto, é que a questão da poesia – e, julgo, será uma das questões mais vivas hoje nos debates em torno da literatura – permanece muito presente e de novo muito aberta. A poesia não é um objecto indiferente; ela continua a suscitar fortes interrogações e tomadas de posição apaixonadas, mesmo se tal diz apenas respeito a um número restrito de pessoas. Como se a poesia continuasse, apesar de tudo (mesmo quando tem pouca visibilidade social), a ser uma dimensão essencial, fundamental da nossa presença na linguagem e no mundo.Quanto aos poderes que a poesia teria, quando não de suscitar, pelo menos de anunciar transformações mais fundamentais, estou de certa forma perplexo. Não podendo «mudar a vida», a poesia estaria em condições de preservar a possibilidade de outro futuro do homem na terra, de indicar às nossas existências outra medida, outro ritmo para além do imposto, hoje em dia, pelo domínio da técnica e do mercantilismo. É uma posição que se pode encontrar num poeta como Yves Bonnefoy. Este último mantém nos seus escritos com carácter teórico a ideia de que a poesia seria portadora de uma esperança. Hoje, há uma espécie de monocultura que se foi impondo em toda a superfície do planeta, de forma cada vez mais pesada, mas na sombra, afirma sumariamente Bonnefoy, a poesia vai ficando de guarda. Talvez anuncie – há que sermos muito prudentes neste tipo de prognóstico – uma outra era da humanidade. É a velha ideia, presente já nos primeiros românticos alemães, de um «deus vindouro». Encontramo-la também em Hölderlin. Os deuses fugiram: já não há nem cosmos harmonioso, nem deus transcendente para dar sentido e fundamento à nossa existência. Tudo isso se desmoronou com o século das Luzes, mas, em segredo, a poesia trabalha na preservação da possibilidade de outro entendimento da linguagem (do logos) – um entendimento capaz de ajudar, um dia, a sair do túnel da época. Ela conserva a esperança de um novo sagrado – de um mundo em que nem tudo estaria submetido ao reinado da mercadoria.Quanto ao resto, estou bem consciente de que tudo quanto disse esta noite depende inevitavelmente de um ponto de vista e de uma história. Como escapar à própria época? Como «saltar por cima da própria sombra»? Falo a partir do que conheço: a poesia contemporânea. Quando analiso a sua paisagem, esforço-me por ser objectivo. Mas o meu ponto de vista, como qualquer outro, está situado. Tenho, como cada qual, uma história. Por exemplo, descobri com verdadeiro deleite, nos anos sessenta, no contexto do que chama de «terrorismo estruturalista», um autor como Denis Roche. Na altura, achei nele uma grande frescura, um grande vigor, em ruptura com o «ronrom» poético de então. Quando, vinte anos mais tarde, retomei os seus textos, o meu sentimento já não foi o mesmo.Tudo isto para dizer que, afinal de contas, o importante não está nos propósitos teóricos, nos manifestos ou nas proclamações de intenção. Os propósitos teóricos podem apenas contribuir para um trabalho de limpeza, de desengorduramento, das várias formas pesadas da poesia. O que importa verdadeiramente, em último recurso, são as próprias obras, a sua pertinência, o seu vigor, mas também o seu poder de permanecerem substanciais para além da emoção da novidade que suscita o seu aparecimento. [mais aqui]

sábado, agosto 13, 2011

Notícias das Guerras Napoleónicas, Dietário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro 1807-1816.


Da introdução de Maria Isabel Pereira Coutinho a Notícias das Guerras Napoleónicas, Dietário do Mosteiro de Santa Maria do Pombeiro 1807-1816.

«O autor tem esse dom: faz-nos mergulhar na História. História que é também a dum povo - o português- que sem Rei, chefes militares, dinheiro ou armas, munido a princípio apenas dos instrumentos do seu ofício - foices, piques, paus e pedras, além de algumas raras caçadeiras e de muito engenho e coragem - se lançou  na aventura sem igual, (apesar do desnorte e da "anarquia" em que por vezes caíram esses "corpos sem cabeça", como se lhes refere o autor do Dietário), de expulsar da sua Pátria aqueles que tão traiçoeiramente aí tinham entrado e intentavam permanecer. E que mais tarde, integrado já em exércitos regulares, Anglo-lusos e por vezes espanhóis, os perseguia pela Espanha e França dentro, quantas vezes deixando aí o seu sangue e a sua vida.» 

quinta-feira, agosto 11, 2011

A Inexistência de Eva, de Filipa Leal ou a recusa do pânico

«Um livro sobre a voz que nos faz ficar», Filipa Leal sobre A Inexistência de Eva

Filipa Leal sobre A Inexistência de Eva no programa Autores de 29.7.11. Aqui.

quarta-feira, agosto 10, 2011

Uma mensagem do Futuro: Perigo Vegetal

Enquanto a Ameaça na Antártida não chega, lê (ou relê) o primeiro livro da trilogia, Perigo Vegetal.


Said e Sheila vivem, no ano 2075, no interior da Galiza, mas estão ligados em comunicação ao mundo global do passado. Uma gigantesca companhia transnacional, a C.U.B., tenta apoderar-se de todas as sementes de cereais existentes como parte de um plano para dominar toda a agricultura do planeta.


O Perigo Vegetal é apenas a primeira aventura destes dois corajosos irmãos.Ramón Caride escreveu e Miguelanxo Prado ilustrou.
 “Depois da colheita da planta, as raízes que ficam na terra sofrem uma mutação e originam esta planta destruidora. […] a única forma de a eliminar é arar muito fundo, a vários metros de profundidade, para eliminar todas as raízes e poder voltar a semear. Mas o processo é muito complexo, basta que fique uma raiz, por pequena que seja e regenera-se a praga.” in Perigo Vegetal



Perigo Vegetal  aborda, de uma forma simples, as consequências nefastas da monocultura e da manipulação genética, sem controlo e sem escrúpulos.
O comportamento das plantas geneticamente modificadas é diferente em laboratório e em vastas áreas. Se as plantas geneticamente modificadas tiverem um elevado poder de propagação elevado, as plantas convencionais podem vir a ser exterminadas. A biodiversidade fica em perigo. Com menor diversidade de espécies a vida na Terra torna-se mais sujeita a alterações ambientais. Pelo contrário, quanto mais rica é a diversidade biológica, maior é a oportunidade para descobertas no âmbito da medicina, da alimentação, do desenvolvimento económico, e de serem encontradas respostas adaptativas a essas alterações ambientais.



Plano Nacional de Leitura 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.


 Críticas

"Uma aventura para miúdos com dez anos ou mais, cujos protagonistas vivem na Galiza, no ano de 2075. Perigo Vegetal conta-nos como experiências com um super-cereal estão a pôr em perigo o planeta. Sheila e Said são dois irmãos que, do futuro, lançam alertas ecológicos para o passado. Uma espécie de diário a quatro mãos, que não deixa de transparecer as embirrações próprias dos manos adolescentes. Vindo da banda desenhada, o ilustrador Miguelanxo Prado cria um ambiente que se adequa bem à natureza do texto. Um tema pertinente." Rita Pimenta, Milfolhas, Público, 20.Dez.03


"Uma obra bem contada, divertida, actual, das que se lêem de uma só vez e fazem novos leitores para as aventuras que se seguem." Helena Pérez, Julho de 2002

domingo, julho 31, 2011

Kafka – Um livro sempre aberto [Colecção Cassiopeia]

ilustração de Manuela Bacelar in Kafka – Um livro sempre aberto    
"Quero ir-me embora, quero subir escadas, se necessário às cambalhotas."

O Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa e o Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto levaram a cabo em 5-12-2008 uma jornada dedicada a Franz Kafka, com a qual se pretendeu assinalar o 125º aniversário do nascimento do escritor.Os seis estudos que se publicam neste volume constituem as respostas de outros tantos autores, atentos ao desafio que representa a obra de Kafka, livro sempre aberto a um novo “virar de página”.


ÍNDICE

- Introdução
- Tradução e Edição – A Propósito de Recentes Traduções de Kafka | Teresa Seruya
-  Kafka -  Uma Habilidade Necessária | Nuno Amado
-  “Os Filhos” de Kafka: Construções de Masculinidades em “A Sentença”, “ A Metamorfose” e “ O Fogueiro” | Teresa Martins de Oliveira
- Kafka -  Os Paradoxos de “O Novo Advogado” | Gonçalo Vilas-Boas
 - Fantasias de Fragmentação em Conrad, Kafka e Pessoa | Gerald Bär
- À Conversa com Manuela Bacelar
- Anexos Ilustrações de Manuela Bacelar – “Kafkas para que vos quero”

quinta-feira, julho 28, 2011

Cabem num bolso: Magic Resort (Florencia Abbate) e Nenhum Lugar (Ricardo Romero)

 Nenhum Lugar, de Ricardo Romero e Magic Resort, de Florencia Abbate já chegaram.
Para sua comodidade peça-os aqui.
Excerto de  Nenhum Lugar, de Ricardo Romero
«Acordou ao ouvir o silêncio. Entreabriu os olhos, depois abriu-os completamente, mas a claridade continuava sem aparecer. Primeiro avistou as casas, e só ao vê-las soube que tinham parado. As casas estavam aí, feitas de uma quietude negra, do outro lado da rua, demasiado próximas. A ausência do barulho do motor provocava-lhe uma certa angústia, mais ainda que a que lhe podia provocar a ausência do taxista. Por instinto procurou a mochila. Estava aí, continuava pousava perto dos seus pés. Abriu-a e comprovou que não lhe faltava nada. Voltou a olhar para as casas e sentiu-se intimidado. Não se atrevia a sair do táxi. Ainda era de noite e isso não lhe agradava, não lhe podia agradar. Por alguma razão, a noite era ainda mais escura agora, embora a Mauricio não lhe parecesse que houvesse menos estrelas. Mas podia sequer ter a certeza de que era a mesma noite? Procurou a la e não a encontrou. Quis saber que horas eram, mas não conseguiu ver nada no seu relógio de pulso. Em toda a rua só um candeeiro estava aceso, a mais de dois quarteirões de distância.»
 Excerto de  Magic Resort, de Florencia Abbate
«Uma enfermeira jovem contou-me que tinha estado em coma. Olhou-me, boquiaberta, quando lhe disse que me sentia incrivelmente bem, sem nenhuma ressaca, forte, como nunca…
Os médicos não me deram nenhuma esperança. E os meus pais por pouco não desmaiaram porque entraram e me viram a procurar a mochila. O meu pai conseguiu que me dessem alta ao meio-dia. A minha mãe lacrimejou de alegria ao constatar que conseguia descer as escadas do hospital sem ajuda. Eu estava morto de fome e propus um restaurante. Levaram-me a almoçar a esse lugar e fizeram-me as vontades o tempo todo. Até chegarmos a casa mantivemos conversas graciosas e calorosas. Depois, a alegria provocada pela bela surpresa da minha ressurreição foi relegada para segundo plano. O que mais lhes importava era averiguar o motivo da minha tentativa de suicídio.»

quarta-feira, julho 27, 2011

Nenhum Lugar, de Ricardo Romero [trad. Patrícia Louro]



Começa assim Nenhum Lugar, de Ricardo Romero [trad. Patrícia Louro]
Já disponível nas livrarias e aqui.

"Deitado no assento traseiro do táxi, sentido o suave tremor do carro nas costas, Mauricio olha o teto e escuta. Dormiu, dorme, está quase a dormir. Na rádio ouve-se, débil, com dificuldade, uma canção melancólica e ligeira.
“Roxanne, you don’t have to put on the red light
those days are over
you don’t have to sell your body to the night
Roxanne ...”
Onde estava? Ou devia perguntar-se, onde ia? A música dava-lhe voltas à cabeça, aprisionando-o num suave refúgio de sonolência e dilação. Doíam-lhe as costas e as pernas, mas não chegava a pensar nisso. No teto dançavam sombras, figuras evanescentes e sem sentido, de uma realidade ameaçadora e vazia. Pela janela, pelo contrário, via-se um troço de céu estrelado, simultaneamente escuro e resplandecente. Respirou fundo. Fechou os olhos, sentia-se confuso, e desejou não pensar nessas coisas. Em que coisas? Em que é que estava a pensar? Voltou a abrir os olhos, pestanejou duas ou três vezes. Demorou algum tempo a compreender que estava acordado e que nesse carro havia demasiadas coisas que ele não sabia identificar. Uma delas era a canção, mas certamente não era a mais importante. Como sabia que estava num táxi? E porque é que não devia sabê-lo? Além disso, porque lhe parecia tão urgente acordar de todo?

Na penumbra do táxi e da noite, Mauricio viu por fim a nuca do taxista, examinou o desenho negro e largo do seu dorso, perguntou-se porque dizia dorso e não costas, seguiu o recorte preciso e revolto da sua cabeça, e ao endireitar-se no banco avistou o balançar impercetível das suas mãos sobre o volante. Estava num táxi e sabia-o, isso já parecia ser alguma coisa. Olhou à sua volta através das janelas e viu a noite, e na noite, o deserto esbranquiçado na distância. Procurou a lua, e não a encontrando sentiu-se inibido. O carro avançava em linha reta e o taxista não parecia ter-se dado conta que o passageiro tinha acordado. Mauricio olhou a estrada à sua frente, o asfalto iluminado pelas luzes do carro, talvez também um pouco mais além, sobre o cinzento claro e apagado que se estendia, interminável, debaixo do fulgor pálido do céu noturno. As riscas brancas seguiam-se uma após outra debaixo do feixe de luz e desapareciam debaixo do táxi. Mauricio teria preferido não as ter visto, mas já parecia ser demasiado tarde. Disse para si que era possível não lhes prestar atenção, olhando então para a estrada sem a ver, apenas por hábito, escutando a rádio que cada vez se ouvia pior. O desconforto que lhe provocavam essas riscas não se desprendia delas, estava ali, sem origem, e não valia a pena tentar persegui-la. Para as deixar de lado pousou o olhar nos postes torcidos de arame dos dois lados da estrada, mas também eles tinham a sua própria sucessão de melancolias sem nome, que se desfaziam uma e outra vez em sombras fugazes e caladas.

Sem saber muito bem o que fazer, aproximou-se da janela e perscrutou a paisagem para lá da estrada. A noite era clara e ele podia ver uma grande extensão de arbustos baixos e pastagens ralas sacudidas pelo vento. Era uma paisagem plana, onde só se destacavam umas elevações escuras que pouco se diferenciavam do céu na linha do horizonte. Perto ou longe só crescia o vento, o resto parecia limitado a uma resignação vazia e imensa. Mauricio, ao observar tudo isto, sentiu a vã necessidade de dizer-se o seu nome em voz baixa, de o recordar.

“rrr...roxanne...rrrrrr...”

A estática da rádio, pouco a pouco, ia deixando atrás a música, que parecia perder-se na obscuridade da estrada que iam percorrendo. Com o olhar perdido na imensidão plana da paisagem Mauricio perguntou-se pela primeira, ou talvez pela segunda vez, para onde estavam a ir. Olhando através da janela, sentindo agora o cansaço das pernas de tanto estar sentado, acabou por perceber a sua confusão. Deviam levar bastante tempo a viajar. Isso era bom ou mau? Não sabia, e a única coisa que parecia preocupá-lo nesse momento era que a música não desaparecesse, que não o deixasse sozinho com o taxista e com a estática. Porque era isso tão importante para ele? E que havia de mau em que fosse tão importante?

Acomodou-se no banco para confrontar o taxista, mas ao fazê-lo tropeçou com uma mochila que estava a seus pés. Era uma mochila preta com o fecho estragado, e antes de a abrir Mauricio já sabia o que continha. Dois pares de meias, dois pares de boxers, duas t-shirts, uma camisa, um pulôver cinzento com decote redondo, uma escova de dentes recém-comprada, papel higiénico, um isqueiro vermelho, uma edição maltratada de Macbeth e uma lanterna. Abriu-a, revistou-a. Não se tinha enganado, e a sua exatidão incomodou-o. Para que queria uma lanterna? Guardou o isqueiro num bolso das calças porque esse é o lugar que pertence aos isqueiros. Tirou o livro, segurou-o entre as mãos, amarelado, certamente roubado, unido apenas por pedaços de fita-cola preta. Na obscuridade do táxi não era possível ler, mas de todas as formas ele sabia das mulheres feias e disformes que falavam de um bosque em movimento que era portador da morte. A morte, isso não era algo em que ele pensasse muitas vezes. Pela janela voltou a contemplar a noite, o deserto, e aceitou vagamente que o que se movia era ele, entre extensões de vento e areia. Devolveu o livro à mochila, dizendo-se que tudo era possível e não pensou mais nisso."



segunda-feira, julho 25, 2011

Conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)

Ver aqui.



[...] Da janela, observava aquela travessa de pessoas humildes, onde a sua família era a única de «gente remediada» - assim dizia a mãe - e por onde, ao fim da tarde, circulava um polícia gordo e pachorrento, com cara de tractor amolgado, a quem a garotada chamava «o Bigodes». Era também na rua, quase sem trânsito, que brincava e jogava à bola, com grande alarido, a miudagem das casas pobres. [...] in O conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)

domingo, julho 24, 2011

Perigo Vegetal, Ramón Caride (texto) e Miguelanxo Prado (ilustração)

Enquanto a Ameaça na Antártida não chega, Perigo Vegetal.

Said e Sheila vivem, no ano 2075, no interior da Galiza, mas estão ligados em comunicação ao mundo global do passado. Uma gigantesca companhia transnacional, a C.U.B., tenta apoderar-se de todas as sementes de cereais existentes como parte de um plano para dominar toda a agricultura do planeta.

O Perigo Vegetal é apenas a primeira aventura destes dois corajosos irmãos.Ramón Caride escreveu e Miguelanxo Prado ilustrou.
 “Depois da colheita da planta, as raízes que ficam na terra sofrem uma mutação e originam esta planta destruidora. […] a única forma de a eliminar é arar muito fundo, a vários metros de profundidade, para eliminar todas as raízes e poder voltar a semear. Mas o processo é muito complexo, basta que fique uma raiz, por pequena que seja e regenera-se a praga.” in Perigo Vegetal


Perigo Vegetal  aborda, de uma forma simples, as consequências nefastas da monocultura e da manipulação genética, sem controlo e sem escrúpulos.
O comportamento das plantas geneticamente modificadas é diferente em laboratório e em vastas áreas. Se as plantas geneticamente modificadas tiverem um elevado poder de propagação elevado, as plantas convencionais podem vir a ser exterminadas. A biodiversidade fica em perigo. Com menor diversidade de espécies a vida na Terra torna-se mais sujeita a alterações ambientais. Pelo contrário, quanto mais rica é a diversidade biológica, maior é a oportunidade para descobertas no âmbito da medicina, da alimentação, do desenvolvimento económico, e de serem encontradas respostas adaptativas a essas alterações ambientais.

 
Plano Nacional de Leitura 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

No blogue As aventuras de Sheila e Said são disponibilizados alguns recursos didácticos para auxiliar na exploração do texto.

Críticas

"Uma aventura para miúdos com dez anos ou mais, cujos protagonistas vivem na Galiza, no ano de 2075. Perigo Vegetal conta-nos como experiências com um super-cereal estão a pôr em perigo o planeta. Sheila e Said são dois irmãos que, do futuro, lançam alertas ecológicos para o passado. Uma espécie de diário a quatro mãos, que não deixa de transparecer as embirrações próprias dos manos adolescentes. Vindo da banda desenhada, o ilustrador Miguelanxo Prado cria um ambiente que se adequa bem à natureza do texto. Um tema pertinente." Rita Pimenta, Milfolhas, Público, 20.Dez.03

"Uma obra bem contada, divertida, actual, das que se lêem de uma só vez e fazem novos leitores para as aventuras que se seguem." Helena Pérez, Julho de 2002

sexta-feira, julho 22, 2011

O Aquário, de João Pedro Mésseder

Sugestão de leitura




Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor. 


Saber mais aqui.

quarta-feira, julho 20, 2011

A saga vai continuar...

O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão - TEATRO para a Infância e Juventude




Quarto de Isaac Newton. Roupas, vidros, lunetas, máquinas desmontadas,livros, restos de comida em pratos, copos, tabuleiros,duas cadeiras, rolos de papel de todos os tamanhos, mapas, um telescópio. Tudo a um canto. No centro, um escadote.

1. Entrada


Próspero
(Paciente. Em cima do escadote. Newton, de pé, mãos atrás dascostas, cá em baixo) Repete lá, devagar.

Newton
(Recita) Newton. Isaac Newton. Nasceu em 1642 e morreu em 1727. Quando nasceu a Terra era redonda, quando morreu era achatada nos pólos. Quando nasceu o peso da Lua pressionava o mar e fazia-o subir e descer, quando morreu são o Sol e a Lua quem atrai as águas provocando as marés. Quando nasceu…

Próspero
Já chega. Como é que acaba?


Newton
Acaba assim. “Não sei como o Mundo me verá mas, a mim, parece-me que fui sempre um rapazinho a brincar na praia que por diversão encontrou de vez em quando uma pedra mais redonda ou uma concha mais bonita do que as outras, enquanto o grande Oceano da verdade continuava ali, à minha frente, todo por descobrir.”

Próspero
Quem disse?

Newton
Newton. Isaac Newton. Bonito, hã? (Escuro. Próspero acende uma lanterna. Som do mar, talvez também o canto das baleias. Próspero perscruta o Mar de cima do escadote. Chuva. Newton, senta-se. Próspero, desce do escadote e afasta-se. Toda a luz em Newton. Chuva. Mais forte. Entra a mãe. Fecha o chapéu de chuva e pousa-o)

Mãe
(A Próspero) Boa noite, que chuva horrível. (A Newton) Estás pronto? Estás nervoso? (Não há resposta. Ao público) Este é o meu filho… vem fazer teatro. (Justifica-se) É a primeira vez que vem fazer teatro e por isso ninguém leva a mal com certeza que eu venha com ele... para fazer companhia. Afinal de contas
ele sempre é meu filho. E eu sou a mãe dele, claro… (Exagera) Já sei o que me vão dizer: “Oh, ela é tão nova e já com um filho daquele tamanho”. (Suspiro) Já estou habituada. (Suspiro desmedido) Ele, o meu filho, tem a mania que é o Isaac Newton. Já lhe disse centenas de vezes que não era mas, ele não acredita.


Newton
Sou, sou.
[Para continuar a ler, comprar o livro aqui]