segunda-feira, maio 30, 2011
sexta-feira, maio 27, 2011
Os livros da Deriva no Stand A53 e A55, na Feira do Livro do Porto
Stand: A53 A55
Programa:
26 Maio
19h, Praça APEL
Concerto de Abertura.
TUNA ACADÉMICA DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
21h, Praça APEL
TUNA ACADÉMICA DA FACULDADE DE MEDICINA DENTÁRIA DA UNIVERSIDADE DO PORTO
27 Maio
21h, Praça APEL
BANDA INTERSOUND
21h30, Auditório
À CONVERSA COM
Teolinda Gersão, Mário Avelar
28 Maio
17h, Auditório
“A LITERATURA É A ILUSÃO MAIS VERDADEIRA QUE EXISTE”
Lídia Jorge, Rui Cardoso Martins
29 Maio
15h30, Auditório
18 DIAS QUE EMBALARAM O MUNDO – A REVOLUÇÃO NA PRAÇA TAHRIR
Alexandra Lucas Coelho
17h, Praça APEL
CARLOS SEMEDO (Guitarra Portuguesa)
17h30, Auditório
À CONVERSA COM
José Rentes de Carvalho, Francisco Duarte Mangas
Moderação: Álvaro Domingues
1 Junho
18h, Praça APEL
TUNA FEMININA DA FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DO PORTO
22h, Praça Gen Humberto Delgado
JOSÉ CARDOSO PIRES – DIÁRIO DE BORDO, um filme de Manuel Mozos
com a presença do realizador
2 Junho
18h, Praça APEL
LEITURA DE CONTOS por Rita Calatré
18h30, Auditório
“FALAR DE TI, CIDADE VELHA E SEMPRE NOVA”
Germano Silva, Rui Moreira
Moderação: Manuel Cabral
21h30, Auditório
“UMA GOZOSA IRONIA”. À CONVERSA COM
Eduardo Pitta, valter hugo mãe
Moderação: Helga Moreira
3 Junho
21h30, Auditório
À CONVERSA COM
Hélia Correia, Jaime Rocha
4 Junho
16h, Auditório
“A VOLÚVEL MATÉRIA DAS PALAVRAS”
Manuel António Pina, José Tolentino Mendonça
Leitura de poemas por Alberto Serra
17h30, Auditório
MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA EM DESTAQUE
Maria Helena Rocha Pereira, Delfim Leão, Frederico Lourenço, Hélia Correia
Leituras de “As Bacantes” e “Antígona” (excertos) por actores da Companhia de Teatro de Braga
5 Junho
18h15, Auditório
À CONVERSA COM
Luís Miguel Rocha, Miguel Miranda
Moderação: Tito Couto
18h, Praça APEL
HENRIQUE ALONSO (guitarra clássica)
6 Junho
18h, Praça APEL
ALEX MIRANDA (stand up comedy)
18h30, Auditório
LER A ARQUITECTURA (EM PÚBLICO)
Pedro Gadanho, Álvaro Domingues, Nuno Grande
7 Junho
22h, Praça Gen Humberto Delgado
TOMAI LÁ DO O’NEILL, um filme de Fernando Lopes
8 Junho
18h30, Auditório
NOVOS ENCONTROS COM KAFKA
Pedro Eiras, Gonçalo Vilas-Boas, Manuela Bacelar, António Luís Catarino
(a propósito do colóquio e da edição do livro “Kafka – Um Livro Sempre Aberto”
Org. em colaboração com Instituto Literatura Comparada Margarida Losa, da FLUP
9 Junho
18h, Praça APEL
FERNANDO OLIVEIRA (flauta de bisel)
22h, Praça Gen Humberto Delgado
O MANUSCRITO PERDIDO, um filme de José Barahona
com a presença do realizador
10 Junho
18h, Praça APEL
“OLHAR O PASSADO, VER O FUTURO”
D. Manuel Clemente, Prof. Doutor José Carlos Marques dos Santos
21h, Praça APEL
NOITE DE FADOS
21h30, Auditório
FICÇÃO PORTUGUESA. 4 DA NOVÍSSIMA VAGA
António Figueira, David Machado, Paulo Ferreira, Pedro Vieira
Moderação: Tito Couto
11 Junho
18h, Auditório
MAIS ESTIMULANTE QUE A SOLUÇÃO É O PROBLEMA – O FAZER DO ENSAIO
Rosa Maria Martelo, Manuel Gusmão
Org. em colaboração com Instituto Literatura Comparada Margarida Losa, da FLUP
21h30, Auditório
EM TRÂNSITO (CRÓNICAS > LIVRO)
Fernanda Câncio, José Eduardo Agualusa, Pedro Mexia
26 Maio a 12 Junho
14h>16h30
Bibliocarro Câmara Municipal do Porto
Bailias, de Catarina Nunes de Almeida
«Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada».
O único maremoto de que há memória
aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.
Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
a música não cabe na boca das aves
e nós, meninas, bailaremos i.
***
Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.
Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.
Catarina Nunes de Almeida, in Bailias
quinta-feira, maio 26, 2011
PNL recomenda para a Área de Música/Artes o Com Quatro Pedras na Mão de Suzana Ralha

A área escolhida pelo PNL é de Livros Recomendados para Projectos Relacionados com Música/Artes, para o 3º, 4º, 5º e 6º anos de escolaridade.
A Deriva fez o seu pleno no Plano Nacional de Leitura com a entrada de Com Quatro Pedras na Mão, de Suzana Ralha e do Bando dos Gambozinos. Assim, todos os livros infanto-juvenis da Deriva pertencem ao PNL o que muito nos orgulha, aos autores, ilustradores e, agora, músicos que estiveram em todos estes processos criativos e que encaram as crianças e os jovens com o respeito e consideração que merecem.
Hoje será fácil adoptar este livro: basta um professor mostrar disponibilidade e interesse para o adoptar e levá-lo-emos até si, junto com as possibilidades de exploração pedagógica e com as pautas das músicas do CD que o acompanha.
Lembremos que Com Quatro Pedras na Mão são poemas musicados por Suzana Ralha que versam sobre a cidade do Porto e são cantados pelo Bando dos Gambozinos. As ilustrações foram de Emílio Remelhe. Os poetas escolhidos foram José Mário Branco, João Pedro Mésseder, Filipa Leal, Joaquim Castro Caldas, Matilde Rosa Araújo, Jorge Sousa Braga, Luísa Ducla Soares, Rui Pereira e Luís Nogueira.
Poderemos igualmente combinar com os professores a ida à sua escola do ilustrador Emílio Remelhe e de um grupo de alunos do Bando dos Gambozinos, embora esta acção esteja dependente da disponibilidade de Suzana Ralha.
A apresentação foi memorável no Cinema Batalha perante 900 pessoas que foram ouvir pela primeira vez (a única?) o Bando dos Gambozinos a cantarem ao vivo o Com Quatro Pedras na Mão. Em breve editaremos as pautas das músicas.
domingo, maio 22, 2011
ILC: Pascal Quignard, Jean-Pierre Sarrazac, Antoine Compagnon
As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, dão a conhecer estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura. Na Pulsar, foram já editados Jean-Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos) e Antoine Compagnon (com Para que serve a Literatura?).
terça-feira, maio 17, 2011
Filipa Leal é a convidada do Ciclo “Porto de Partida”, sábado, 21 de Maio, na Almedina do Arrábida Shopping
“A Cidade Líquida e Outras Texturas”, “O Problema de Ser Norte” e a “Inexistência de Eva” são os livros que vão estar em debate, no próximo sábado, dia 21 de Maio, pelas 17 horas, pela mão da sua autora, Filipa Leal. Nesta sessão do ciclo “Porto de Partida”, na Almedina do Arrábida Shopping vai ser possível assistir, também, à leitura de poemas feita pela própria autora. A entrada é livre.
Filipa Leal encara o Porto como “mais do que um porto de partida” e sim “um porto de chegada.” A escritora explica que nunca partiu “verdadeiramente: escrevi um dia que somos uma espécie de aves com raízes, isto porque nunca partimos verdadeiramente de nós próprios. É aqui que regresso sempre, e também é aqui que regresso quando ando à procura de mim. Como escrevi n'«A Cidade Líquida e Outras Texturas», "Demoro-me/ No ventre desta cidade/ que nenhum navio abandonou/ porque lhe faltou a água para a partida".
Apesar de nenhum dos livros apresentados na sessão pretender ser um “retrato do Porto”, Filipa Leal confessa que “nele encontramos certamente as ruas de que sou feita quando ele me fez”. A também jornalista deixa um desafio a todos aqueles que queiram participar na sessão: ela servirá para mostrar “a poesia como lugar onde nos podemos reunir”.
O Ciclo "Porto de Partida" tem como objectivo “levar todos os presentes a outros temas e lugares”, explica o coordenador da iniciativa, Miguel Carvalho. Evento da III Série da Comunidade de Leitores Almedina Arrábida Shopping, o Ciclo é organizado pela Almedina e pela Ideias Concertadas, com a coordenação das sessões a cargo do jornalista Miguel Carvalho.
Sobre a autora
Filipa Leal (Porto, 1979) formou-se em Jornalismo na Universidade de Westminster, Londres, e concluiu o Mestrado em Literatura (Estudos Portugueses e Brasileiros) na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Fez uma passagem pela Rádio Nova, e foi editora do suplemento «Das Artes, Das Letras» no jornal O Primeiro de Janeiro. Actualmente, é jornalista no Diário Câmara Clara (RTP2) e colaboradora da Casa Fernando Pessoa. Depois de um ano de formação no Balleteatro do Porto, começou a participar, em 2003, em espectáculos de poesia no Teatro do Campo Alegre (Porto), ciclo Quintas de Leitura, e desde então tem feito leituras em diversos locais do país (Centro Cultural de Belém, Casa das Artes de Famalicão, Palácio de Belém, Fundação Eugénio de Andrade, entre outros). Publicou vários livros de poesia, de que se destaca «A Cidade Líquida e Outras Texturas» (publicado também em Espanha, pela editora Sequitur) e «A Inexistência de Eva» (Deriva editores). Está representada em antologias em Itália, Croácia, Colômbia e Galiza, e um dos seus poemas foi musicado pelo Bando dos Gambozinos para o álbum «Com Quatro Pedras na Mão». Foi finalista do Prémio Literário Casino da Póvoa (Correntes d’Escritas) em 2011, com o livro «A Inexistência de Eva».

Miguel Carvalho, 40 anos, é Grande Repórter da revista Visão. Jornalista há 21 anos, trabalhou no Diário de Notícias e no semanário O Independente. Tem o curso de Radiojornalismo do Centro de Formação de Jornalistas do Porto. Comentador da Revista de Imprensa da RTP-N, é autor dos livros Dentada em Orelha de Cão - Histórias do Mundo com Gente Dentro (Campo das Letras, 2004), Álvaro Cunhal - Íntimo e Pessoal (Campo das Letras, 2006) e Aqui na Terra (Deriva Editores, 2009). Tem textos jornalísticos e literários dispersos por várias publicações nacionais e estrangeiras. Venceu o Prémio Literário Orlando Gonçalves (Modalidade Jornalismo) da Câmara da Amadora (2008) e o Grande Prémio Gazeta, do Clube dos Jornalistas, em 2009.
O TEatroensaio apresenta “Damião das Chaves”
Uma visita original ao imaginário do Centro Comercial de Cedofeita
Datas: de 14 a 19 de Junho de 2011
Horário: de terça a Sábado – 21h30, Domingo-18h00
Local: Centro Comercial de Cedofeita (Rua de Cedofeita, nº 451 4050-181 Porto)
Ficha Técnica:
Texto: Ordep Serip
Concepção: Pedro Estorninho
Interpretação: Ivo Luz e Pedro Estorninho
Guarda-Roupa: Inês Leite
Produção TEatroensaio
Sinopse:
Todas as noites, Damião das Chaves deixa-se habitar por todos os fantasmas que já passaram por este centro comercial e as suas lojas, um espaço público de visitantes e privado de vivências.
Todas as noites o actor Pedro Estorninho deixar-se-á habitar por todas estas histórias, improvisando o texto.
Para todos os curiosos que conseguirem imaginar o espaço, recriar a cidade e habitar o quotidiano em que nos encontramos, em que nos fazemos mais pessoas, quase sem dar por isso.
sexta-feira, maio 13, 2011
Conto da Travessa das Musas e Guias Sonoras, na Letra Livre [Galeria ZDB]], 21 de Maio
O Conto da Travessa das Musas (texto de João Pedro Mésseder e ilustração de Manuela São Simão) e Guias Sonoras (João Pedro Mésseder) na Livraria Letra Livre [Galeria ZDB] .
Segue-se concerto por Genoveva Faísca (voz) e João Bengala (guitarra).Dia 21 de Maio, pelas 21:30.
Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos| Pascal Quignard
[...] Quignard, sobretudo conhecido pela adaptação do romance Todas as Manhãs do Mundo(1991) ao cinema, é um prosador admirável e, por isso, vale já esta leitura. Não transcende na apologia de Les Caractères como primeiríssimo livro composto de maneira sistemática sob forma fragmentária. Eleva o fragmento a forma «antipedente, anti-sistemática, antifilosófica antiteológica» que rejeita qualquer ordem ou género. Porque sustenta ele, nasce, com La Bruyère, como uma espécie de espasmo, convulsão, rasgão ou fractura não originários num qualquer todo, mas em nada, justificando-se por si mesmos. Os fragmentos, tal como Quignard os concebe, afirmam-se como partículas negativas sem filiação: é esse o seu carácter revolucionário e anárquico.[...] Filipa Melo, Revista Ler
As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de um, a parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, dão a conhecer estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.
Na Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos) e Antoine Compagnon (com Para Que Serve a Literatura?).
Na Cassiopeia, que já acolheu um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.
quinta-feira, maio 12, 2011
Últimas compras na Feira do Livro de Lisboa
Bom, parece que o calor veio para ficar e esperamos que isso não o impeça de ir dar uma volta até à Feira do Livro de Lisboa e mais propriamente até ao Pavilhão da Companhia das Artes (A40 e A42). Se aguentar bem o calor, calce uns bons sapatos, vá de garrafa de água na mão esperando que os joelhos aguentem, procurar o pavilhão onde a Deriva tem os seus livros. Depois, é só escolher os livros que temos para si. Se entretanto tiver fome confie no seu estoicismo e guarde-se para o Bairro Alto que, perto, há pouco por onde comer e fecha tudo muito cedo...até lá!
sábado, maio 07, 2011
Algumas medidas profilácticas contra a Troika

Quando vejo sempre os mesmos indivíduos na televisão chorar baba e ranho por causa da classe média «que vai sentir como ninguém» o nacional aperto, penso sempre, em vão, que a dita classe poderia ter uma resposta unida à crise. Mas uma resposta criativa como vi nas manifestações do 12 de Março, essas sim um primeiro sinal-forte-mas-que-o-deixou-de-ser-rapidamente, de uma classe cada vez mais empobrecida e espoliada, virada ao contrário e abanada até lhe cairem mais umas moeditas. Acho que a classe média deveria optar por cortar cerce na higiene pessoal em primeiro lugar. Nunca na cultura. Se cortasse na higiene o impacto de tal medida era logo reconhecido pela política e pela sociedade, em poucos dias. Primeiro começaria o impacto visual: sem champô os cabelos começariam a ser pastosos fazendo inveja a qualquer Jel. O sentido do olfacto tornar-se-ia mais activo nas repartições, nas escolas, nos ministérios, nos hospitais e nos escritórios visto que os desodorizantes e cremes hidratantes eram postos de lado, assim como a água que só seria servida para não nos desidratarmos de todo. Em poucos dias, penso concretamente em sete, seria impossível sair sequer à rua e a classe média daria uma nota picaresca de protesto inaudito. Contra a troika, cortar-se-ia na higiene. Com a aproximação do verão e das suas noites quentes, o protesto seria um verdadeiro sucesso europeu.
sexta-feira, maio 06, 2011
Cabem num bolso: Magic Resort (Florencia Abbate) e Nenhum Lugar (Ricardo Romero)
Nenhum Lugar, de Ricardo Romero e Magic Resort, de Florencia Abbate já chegaram.
Para sua comodidade peça-os aqui.Excerto de Nenhum Lugar, de Ricardo Romero
«Acordou ao ouvir o silêncio. Entreabriu os olhos, depois abriu-os completamente, mas a claridade continuava sem aparecer. Primeiro avistou as casas, e só ao vê-las soube que tinham parado. As casas estavam aí, feitas de uma quietude negra, do outro lado da rua, demasiado próximas. A ausência do barulho do motor provocava-lhe uma certa angústia, mais ainda que a que lhe podia provocar a ausência do taxista. Por instinto procurou a mochila. Estava aí, continuava pousava perto dos seus pés. Abriu-a e comprovou que não lhe faltava nada. Voltou a olhar para as casas e sentiu-se intimidado. Não se atrevia a sair do táxi. Ainda era de noite e isso não lhe agradava, não lhe podia agradar. Por alguma razão, a noite era ainda mais escura agora, embora a Mauricio não lhe parecesse que houvesse menos estrelas. Mas podia sequer ter a certeza de que era a mesma noite? Procurou a la e não a encontrou. Quis saber que horas eram, mas não conseguiu ver nada no seu relógio de pulso. Em toda a rua só um candeeiro estava aceso, a mais de dois quarteirões de distância.»
Excerto de Magic Resort, de Florencia Abbate
«Uma enfermeira jovem contou-me que tinha estado em coma. Olhou-me, boquiaberta, quando lhe disse que me sentia incrivelmente bem, sem nenhuma ressaca, forte, como nunca…Os médicos não me deram nenhuma esperança. E os meus pais por pouco não desmaiaram porque entraram e me viram a procurar a mochila. O meu pai conseguiu que me dessem alta ao meio-dia. A minha mãe lacrimejou de alegria ao constatar que conseguia descer as escadas do hospital sem ajuda. Eu estava morto de fome e propus um restaurante. Levaram-me a almoçar a esse lugar e fizeram-me as vontades o tempo todo. Até chegarmos a casa mantivemos conversas graciosas e calorosas. Depois, a alegria provocada pela bela surpresa da minha ressurreição foi relegada para segundo plano. O que mais lhes importava era averiguar o motivo da minha tentativa de suicídio.»
João Pedro Mésseder e Manuel São Simão no Museu Berardo em Lisboa
domingo, maio 01, 2011
terça-feira, abril 26, 2011
As aventuras de Said e Sheila continuam na Antártida...
Depois do Perigo Vegetal, agora em 2.ª ed, Ameaça na Antártida.
"Olá, jovens do passado! Sou eu, outra vez, Sheila, que vos escreve do futuro, mais precisamente, do ano 2077, escrevo-vos do vosso futuro que é o meu presente. Nos tempos em que vivo, a ciência avançou muito, mas mesmo assim ainda não é possível viajar no tempo para que nos possamos conhecer pessoalmente. Tenho de mesmo de me conformar e limitar, por agora, a contar-vos a minha vida, o que já não é pouco.
Já sabem que Said e eu somos órfãos. O meu irmão Said, a minha única família, está quase, quase a fazer catorze anos. Eu fiz, há pouco, doze. Said cresceu e – digo-vos isto, mas fica só entre nós, não lhe digam que eu disse , tornou-se um pouco repelente. Já não me liga como dantes e, desde que conheceu Irina, nem vos digo, nem vos conto. Passa dias inteirinhos a falar com ela, ou através da rede informática, ou através do videotelefone, como se não tivesse nada de melhor para fazer. Até se tem descuidado no trabalho, coisa muito estranha nele! Bem, a verdade é que não faço ideia do que possam de ter de tão interessante para contar um ao outro… cá para mim, são quase namorados, apesar de Said não gostar nada destas minhas insinuações e até ficar zangado comigo. Enfim, não vale a pena pôr a carroça à frente dos bois, o melhor, mesmo, é contar a história do princípio.
As aventuras têm-se sucedido, qual delas a mais pitoresca e perigosa. Para não ir mais longe, vou contar-vos uma coisa que nos aconteceu há uns meses atrás, quando conhecemos a Irina e o seu pai. Vou contar-vos, porque a coisa teve o seu quê, e não foi propriamente uma brincadeira. Vamos lá, então.
Tudo começou num dia normalíssimo, era maio e estava um tempo muito agradável. Os prados que ladeiam o nosso rio estavam repletos de flores de todas cores; borboletas e libelinhas batiam as asas para saudar a primavera. Said andava a fazer desenhos de novos tecidos no computador, pois essa é a nossa forma de ganhar a vida, já que, como somos órfãos, temos de nos sustentar a nós mesmos. Eu, que estivera até então a trabalhar, parei um pouco e fui até à janela olhar o rio, para descansar um pouco. Aqueles foram dias de muito trabalho, tivemos de preparar uma coleção nova de desenhos o que nos estafou imenso e nos fez levantar muito cedo durante aquela temporada. Por isso, fui até à janela espairecer, olhando o rio que passa mesmo por baixo do moinho onde moramos.
De repente, o coração saltou-me. Fiquei, estarrecida. Por quê? Perguntam vocês. Dúzias e dúzias de peixes, trutas, carpas, barbos, lúcios, enguias, e outros, passavam mortos. Centenas de peixes, que o nosso rio é abundante em água e em vida, boiavam na corrente, tesos e inchados, com a barriga para cima. Dava dó ver aquilo. O que se está a passar? Gritei por Said.
— Anda Said! Corre!
— Que se passa Sheila? Por que me interrompes? As ideias vão-me fugir!
— Olha o rio!
Said olhou e ficou tão impressionado como eu.
— Isto é incrível, Sheila. Nunca vi nada assim. Que mortandade!
— O que se terá passado?
— Não sei, Sheila. Talvez alguma epidemia. Ou qualquer coisa derramada acidentalmente, apesar de não imaginar sequer de onde possa vir. Temos de recolher alguns peixes, para examiná-los.
Nunca a expressão “arrepios na espinha” teve tanto sentido. Pressentia problemas e não me enganava. Para que entendam melhor, preciso que saibam que no nosso rio – nem em Loreda, nem mais acima – não há nenhuma indústria e, na nossa época, todas as atividades poluentes são estritamente proibidas e severamente castigadas. Ninguém ousa contaminar a água, o ar ou a terra. Ninguém pode fazer nada, a não ser que seja absolutamente inofensivo para o ambiente, as plantas e os animais. E ninguém desrespeita estas normas, pois sabe que, se o fizer, irá prejudicar toda a gente; nas nossas indústrias e nas nossas cidades reciclam-se todos os produtos, ou voltam a reutilizar-se, sem necessidade de fabricá-los de novo, assim evitamos a produção de resíduos inúteis. Sei, pelos textos de História, que na vossa época têm uma forma de tratar o ambiente que nos horroriza. Estou a referir-me, concretamente, a esse vosso hábito de “usar e deitar fora”. Vocês são uns irresponsáveis…
Desculpem lá, comecei a divagar. Mas, voltando ao nosso assunto, o aparecimento de tanto peixe morto junto ao nosso moinho foi um grande susto. Aquilo não fazia nenhum sentido, algo muito estranho estava a acontecer. Antes de comunicarmos a notícia, às autoridades, decidimos investigar, por nossa conta e risco, o que se estava a passar. Said procurou uma rede e, com a ela, apanhou vários peixes. E eu recolhi amostras de água. Já no nosso laboratório, Said começou por fazer a autópsia aos peixes e, depois, analisámos a água. A mim, se querem que vos diga, ver Said a remexer as tripas daqueles pobres animais, fez-me muita impressão, apesar de perceber que aquilo tinha mesmo de ser feito. Não havia outra forma de saber como morreram. Said estava estupefacto. Verificava uma e outra vez os resultados, consultava o computador, conferia novamente os dados, incrédulo, suspirava.
— Que se passa, Said?
— Não compreendo, Sheila, estes peixes não apresentam sinais de terem morrido por contaminação de nenhum produto químico. Nem sequer por nenhuma infeção. As águas estão limpas e bem oxigenadas, têm todos os nutrientes necessários. A temperatura da água é normal. Não consigo perceber a causa desta catástrofe.
— Tens a certeza do que dizes, Said?
— Absoluta, verifiquei uma e outra vez os resultados. Todos os dados estão normais. Estes peixes deviam estar a nadar à vontade pelo rio abaixo, mas é evidente que aconteceu alguma coisa. A não ser que — interrompeu-se — É incrível! Espera, tenho de comprová-lo! Agora mesmo!
Said abandonou tudo o que tinha entre mãos e saiu a correr pelo quarto fora. Eu, surpreendida, fui atrás dele.
— Que fazes? Oh! Deves ter endoidecido?
— Deixa-me, Sheila, já te explico. Agora, não tenho tempo a perder.
O meu irmão já corria pelas escadas acima, para o sótão. Aí, começou a remexer num monte de alfaias e de quinquilharia. Falava sozinho.
— O avô tinha um, tenho a certeza. Onde estará agora?
— Said, mas o que é que procuras? Cuidado!
Um monte de trastes poeirentos estava quase a cair em cima de meu irmão, ameaçando esmagá-lo. E tudo porque ele tirou uma maquineta enferrujada daquele monte de coisas. Livrou-se da derrocada por um triz e, com a mesma convicção com que subiu as escadas, voltou a descê-las e foi, a correr, para o laboratório.
— Aqui está! Até que enfim que o encontrei. – repetia.
— Said, de uma vez por todas, queres explicar-me o que é que se passa?
Ignorou-me, estava frenético, com aquela maquineta. Eu nunca tinha visto nenhuma igual, e mesmo que a tivesse encontrado, nem que fosse numa exposição de antiguidades, tê-la-ia ignorado. Era uma caixa quadrada de lata, uma espécie de maleta com uma asa, ao abri-la apareceram vários botões giratórios, interruptores e indicadores parecidos com relógios antigos. Uma grande esfera de vidro ocupava quase metade da caixa, com uma agulha indicadora, vermelha. Um cabo saia daquela caixa e acabava num sensor grosso e negro, parecido com um antigo microfone." Ramon Cáride / Miguelanxo Prado
segunda-feira, abril 25, 2011
O Aquário, de João Pedro Mésseder
Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor. AQUI.
domingo, abril 24, 2011
Cântico das Nervuras | Catarina Nunes de Almeida
para a concisão de um corpo.
Tão escuro o soriso que as pernas abren
ao mundoe no entanto animal que passe
aloira-se nas águas e geme
de uma alegria que tem flores e frutos.
Catarina Nunes de Almeida, in Bailias
sábado, abril 23, 2011
23 de Abril: Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor
Ler, ler, ler, ler...
"A literatura, enquanto instrumento de justiça e de tolerância, e a leitura, enquanto experiência da autonomia, contribuem para a liberdade e para a responsabilidade do indivíduo."
Antoine Compagnon, in "Para que serve a literatura?"
domingo, abril 17, 2011
Workshop de Escrita para Teatro por Pedro Eiras
Escrita para Teatro
Formador: Pedro Eiras
Calendarização:30 de Abril a 7 e 14 de Maio
Horário: 10h00 – 13h00
Duração: 8 horas
Vagas: 12 participantes
Investimento: 100,00 €
Local: Praça Carlos Alberto, 123, Sala 23. Porto.
Uma oficina de escrita criativa para o teatro deve ser experimental, imprevisível. Cada texto escrito é um texto em debate, laboratório, em forma de interrogação. Que cada autor possa escrever um breve texto - e também ler, comentar outros textos, encontrar o inesperado. No fim, quem sabe? Algumas páginas de teatro, decerto, e muitas questões novas, novos desafios.
1ª Feira do Livro Infantil - foyer do Museu Berardo - actividades para crianças - 23 a 25 Abril
Marcadores:
Joao Pedro Mésseder,
Manuela São Simão,
notas
quarta-feira, abril 13, 2011
Deriva no LEV: José Ricardo Nunes, Miguel Carvalho, Filipa Leal, Henrique Fialho
16 de Abril
17,00h - 1ª Mesa: “Viajo para educar o raciocínio” | João Lopes Marques; José Ricardo Nunes; Marcelo Ferroni (Brasil); Rui Zink; Miguel Carvalho. Moderador: Paulo Ferreira
17 de Abril
17,30h - 4ª Mesa: “Da Ficção à Realidade” | Filipa Leal; João Tordo; Laurent Binet; Luis Sepúlveda (Chile); Miguel Miranda Moderador: Carlos Veiga Ferreira
19 de Abril
15,00h - 7ª Mesa: “O futuro é uma viagem da memória” António Jorge Gonçalves; CSRichardson (Canadá); Henrique Fialho; Richard Zimler (EUA); Teresa Lopes Vieira. Moderador: Alberto Serra
ENTRADA LIVRE E GRATUITA.
Mais aqui.
domingo, abril 10, 2011
A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano
Cada vez vale mais a pena ler A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano.
[…]Pela sua própria natureza, a informação é selectiva. Devido às limitações espácio-temporais, aos condicionamentos profissionais, ideológicos, culturais, etc., os jornalistas vêem-se sempre obrigados a seleccionar.
Quase nunca dispõem do tempo, do espaço e da autodeterminação suficientes para dizer o que gostariam. Daí que possa afirmar-se que um domínio superior da língua, o seu uso consciente e competente, seja uma das qualidades fundamentais do jornalista. Entre os jornalistas, embora sejam raros, podem existir casos de ingenuidade profissional, mas em informação nada há que seja inócuo.
Em vez de chamar as coisas pelo nome, esta retórica apresenta a guerra através da metáfora de um jogo. Assim é quando se compara a guerra com partidas de póquer ou de xadrez, ou quando se fala de “teatro de operações” excluindo-se, sempre, as suas consequências mortais para a população. As metáforas da natureza aparecem em terminologias como “guerra relâmpago” (um termo predilecto dos nazis – Blitzkrieg), “ondas de bombardeamentos”, “tempestade do deserto”, etc. Provoca-se, assim, a adesão da ideia das guerras à ideia das catástrofes naturais contra as quais nada há a fazer que as possa evitar. As vítimas reais perdem a sua condição de pessoas. Perdem-se tanques ou aviões, destroem-se instalações militares, etc., mas omite-se o destino dos pilotos ou das vítimas civis desses ataques. Os objectos adquirem, pela mesma via, uma condição humana: trata-se de armas e bombas “inteligentes”.
Outro dos recursos utilizados na desorientação ou, o que é sinónimo, na desinformação, é o emprego de neologismos que ocultam a barbárie das acções bélicas. Os civis mortos, as casas, escolas, hospitais, barragens, campos, colheitas, etc. destruídos são apresentados como “danos colaterais”. Os indicadores de distanciação reduzem, por seu lado, a credibilidade do inimigo. Começa-se com “segundo fontes…” ou “o citado…”, para se prosseguir com a valorização dicotómica entre bem e mal, na qual os bons “confirmam”, “advertem”, enquanto os maus “enganam”, “ameaçam”. Os bons têm “governo”, os maus, “regime”.O uso correcto da língua contribui para a eficácia da comunicação, para o aumento do conhecimento, quer dizer, para que a ignorância se reduza e para a ampliação da liberdade humana. Por isso há que cuidar e dominar a língua, os recursos expressivos para a transmissão de informações. Em tempos de guerra, de incerteza e de angústia social como os actuais, é fácil recorrer ao sensacionalismo, à manipulação orientada da emocionalidade. Sim, os profissionais da informação não podem renunciar à sua sensibilidade ante a dor e a exploração dos seres humanos. As suas reportagens e as suas palavras reflectem a sua posição perante os factos, mesmo quando tentam ocultá-los. Mas não se pode esquecer que estes profissionais são observadores, não actores. E, ainda que a verdade possua muitas caras e seja difícil obtê-la por inteiro, podem, sim, aproximar-se dela. in A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano.
sexta-feira, abril 08, 2011
Literatura Castelhana
A revista OS MEUS LIVROS de Abril tem como tema de capa "Literatura Castelhana", controverso rótulo.
Porém, como se sublinha no artigo, de Sara Figueiredo Costa, existe "vida" «para além do castelhano».
Xavier Queipo é o autor da Deriva destacado, mas galegos temos muito mais: Rámon Cáride, Xavier López López, Xurxo Borrazás, Antón Riveiro Coello e Gonzalo Navaza.
Do País Basco, a Deriva deu a conhecer Dorregarai, A Casa-Torre, de Anjel Rekalde. E do outro lado do Atlântico, passe a metáfora repetida, dos Ricardo Romero (Nenhum Lugar) e Florencia Abbate (Magic Resort).
Porém, como se sublinha no artigo, de Sara Figueiredo Costa, existe "vida" «para além do castelhano».
Xavier Queipo é o autor da Deriva destacado, mas galegos temos muito mais: Rámon Cáride, Xavier López López, Xurxo Borrazás, Antón Riveiro Coello e Gonzalo Navaza.
Do País Basco, a Deriva deu a conhecer Dorregarai, A Casa-Torre, de Anjel Rekalde. E do outro lado do Atlântico, passe a metáfora repetida, dos Ricardo Romero (Nenhum Lugar) e Florencia Abbate (Magic Resort).
Palavras para que vos quero: 2º Encontro de Literatura Infanto-juvenil da SPA
Programa do 2º Encontro de Literatura Infanto-juvenil da SPA que terá lugar na Biblioteca Almeida Garrett nos próximos dias 15 e 16 de Abril.
quarta-feira, abril 06, 2011
terça-feira, abril 05, 2011
Do desconcerto do mundo, Guias Sonoras em "Os Meus Livros", por Andreia Brites
Do desconcerto do mundo: GUIAS SONORAS, de João Pedro Mésseder
Aforismos, pequenas reflexões, micro-contos ou sentenças (afirma Ana Margarida Ramos no posfácio): o volume começa aí, pela forma, a desviar-se da aparência tradicional da poesia. Mas, à imagem dos haikus, o limite ou a fronteira dialoga obrigatoriamente com o sistema poético. Esta observação não seria relevante, não fora o caso da elaboração sintáctica e semântica assentar numa desconstrução do literal e até dos lugares comuns era tomo de metáforas, ironias, sinestesias, oximoros que provocam tensões ideológicas. («Existe lixa macia como seda / - isto lhe garantiu o fabricante./ Foi essa a que escolheu para amaciar o seu próprio coraçãd’ (pág. 35). Os motivos temáticos vão-se sucedendo, encadeando quase automaticamente: Vida, Democracia, Guerra, Tempo, Morte, Sono, Sonho, Silêncio... servem para questionar a passividade do ser humano, os seus comportamentos e um certo estado interior que está oculto pelos limites das “Guias Sonoras” e é preciso mostrar, limando a realidade superficial. Mésseder escancara as contradições existenciais, implicando as suas palavras nessas mesmas contradições, não ftigndo da melancolia, apesar do sentido crítico. “No Inverno, as árvores envelhecem. Calvas, esqueléticas, sinistrass. Na Primavera, reconquistam a juventude. E todos acham natural esta inversão da lógica do tempo”(pág. 25). ANDREIA BRITES
domingo, abril 03, 2011
Nos 35 ANOS DO HOMICÍDIO DE MAXIMINO SOUSA, a.k.a. Padre Max
Nos 35 ANOS DO HOMICÍDIO DE MAXIMINO SOUSA, a.k.a. Padre Max
Padre Max, O Pecador, por Miguel Oliveira, in Aqui na Terra.
O pecador
O automóvel arrancou.
Carlos esticou as pernas, batendo com os pés num volume debaixo do banco de Maria de Lurdes. «O que é isto que vai aqui?», perguntou. «Sei lá», respondeu o padre. Duzentos metros à frente, parou em casa do amigo para recolher um dos dois garrafões de vinho de cinco litros que lá havia deixado. À saída do carro, Carlos viu uma luva de cabedal de cor castanha, forrada a lã, esquecida no assento. «De quem é esta luva?», questionou-se, intrigado. «Essa luva é tua, pá, não me gozes», atirou-lhe Max, apressado.
Lurdes disse que lhe parecia de rapariga. «Não é, olhem para esta manápula», observou o padre, pegando-lhe. Carlos foi buscar o garrafão enquanto o cunhado ficou breves minutos à conversa com o sacerdote. Despediram-se.
Carlos entrava em casa quando o estrondo se deu e o chão tremeu. Um clarão enorme iluminava o breu.
«Mataram o padre Max!», gritava a irmã.
Padre Max, O Pecador, por Miguel Oliveira, in Aqui na Terra.
O pecador
A 2 de Abril de 1976 a noite estava escura, a iluminação pública desligada e chovia.
Na Casa da Cultura da Cumieira, a sete quilómetros de Vila Real, o padre Maximino de Sousa ensinava Português e Francês a trabalhadores-estudantes. Não era ainda meia-noite quando perguntou as horas.
Doía-lhe a garganta, estava exausto e febril. «Já dei muitas aulas hoje, vamos embora.»
Antes de se dirigir para o seu Simca 1000, de cor amarela, estacionado junto ao fontanário, deteve-se à conversa com alunos a propósito de uns emblemas da UDP que lhes prometera. Ele seria, dali a semanas, o candidato daquele partido de esquerda nas primeiras eleições livres. E era influente entre os jovens. Já no carro, cuja porta direita de trás não trancava, o padre Max – assim era chamado – buzinou para que Carlos, director da Casa da Cultura, se apressasse. À boleia, ia também Maria de Lurdes, de 18 anos, estudante e sua protegida.
Na Casa da Cultura da Cumieira, a sete quilómetros de Vila Real, o padre Maximino de Sousa ensinava Português e Francês a trabalhadores-estudantes. Não era ainda meia-noite quando perguntou as horas.
Doía-lhe a garganta, estava exausto e febril. «Já dei muitas aulas hoje, vamos embora.»
Antes de se dirigir para o seu Simca 1000, de cor amarela, estacionado junto ao fontanário, deteve-se à conversa com alunos a propósito de uns emblemas da UDP que lhes prometera. Ele seria, dali a semanas, o candidato daquele partido de esquerda nas primeiras eleições livres. E era influente entre os jovens. Já no carro, cuja porta direita de trás não trancava, o padre Max – assim era chamado – buzinou para que Carlos, director da Casa da Cultura, se apressasse. À boleia, ia também Maria de Lurdes, de 18 anos, estudante e sua protegida.
O automóvel arrancou.Carlos esticou as pernas, batendo com os pés num volume debaixo do banco de Maria de Lurdes. «O que é isto que vai aqui?», perguntou. «Sei lá», respondeu o padre. Duzentos metros à frente, parou em casa do amigo para recolher um dos dois garrafões de vinho de cinco litros que lá havia deixado. À saída do carro, Carlos viu uma luva de cabedal de cor castanha, forrada a lã, esquecida no assento. «De quem é esta luva?», questionou-se, intrigado. «Essa luva é tua, pá, não me gozes», atirou-lhe Max, apressado.
Lurdes disse que lhe parecia de rapariga. «Não é, olhem para esta manápula», observou o padre, pegando-lhe. Carlos foi buscar o garrafão enquanto o cunhado ficou breves minutos à conversa com o sacerdote. Despediram-se.
Carlos entrava em casa quando o estrondo se deu e o chão tremeu. Um clarão enorme iluminava o breu.
«Mataram o padre Max!», gritava a irmã.
Lurdes jazia no meio da estrada, ao quilómetro 71.
Ainda disse «que desgraça!» ou «socorre-me!», algo assim.
Max estava caído junto da valeta, à esquerda.
«Ó pá, que desgraça!», disse, a custo.
O Simca era uma amostra.
Ela foi transportada ao hospital num jeep que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.
Maria de Lurdes chegou já sem vida ao hospital. Vestia três camisolas leves de várias cores.
Max entrou com grande dificuldade em falar.
Perguntaram-lhe o que se passara.
«Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa.»
De seguida, entrou em coma. Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de Abril de 1976. Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.
Ainda disse «que desgraça!» ou «socorre-me!», algo assim.
Max estava caído junto da valeta, à esquerda.
«Ó pá, que desgraça!», disse, a custo.
O Simca era uma amostra.
Ela foi transportada ao hospital num jeep que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.
Maria de Lurdes chegou já sem vida ao hospital. Vestia três camisolas leves de várias cores.
Max entrou com grande dificuldade em falar.
Perguntaram-lhe o que se passara.
«Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa.»
De seguida, entrou em coma. Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de Abril de 1976. Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.
Nascido na Choupica, Ribeira de Pena, um dos filhos de pais emigrados em França e fugidos aos nazis, Maximino passou parte da infância e adolescência em Almendra, no concelho duriense de Foz Côa. Ali, as mulheres lamentavam que um rapaz «tão bonito» se inclinasse para o sacerdócio.
Ele, porém, não iria ser apenas mais um. O «baptismo revolucionário» deu-se em França, nos tempos sobressaltados de 1968. Trabalhou na Acção Católica em 1971 e foi professor em Lisboa e Setúbal.
Optou depois por Vila Real por sentir que aí morava a sua vocação e destino. Para o bem e para o mal, não se enganou.
Max foi para a capital transmontana ocupar a sala do primeiro andar na moradia da travessa de D. Dinis, número dois, alugada por mil escudos aos pais de Maria de Lurdes, também emigrados em França.
A jovem vivia com a avó e a irmã. E o padre assumiu o papel de encarregado de educação das raparigas.
Maria das Dores, 72 anos, a proprietária da casa, lembra-se de um padre inteligente e humilde: «Dava tudo o que tinha sem nada pedir em troca.»
Fez-lhe uma coberta e ainda pregou um fecho numas calças velhas. Era um homem além do seu tempo. «Dizia que a virgindade não tinha valor nenhum. E tinha razão.»
O meio era conservador e tradicional. Max era de esquerda, vestia calças de ganga, agitava consciências.
Dava aulas no liceu e na Escola Industrial e Comercial. Mobilizava lutas de estudantes. Ensinou adultos a ler e a escrever, apoiou os operários nas contestações fabris. Os jovens seguiam-no, os pais temiam-no.
Os amigos admiravam-lhe as qualidades morais e profissionais. Famílias abastadas da terra, militantes da direita radical e a maioria dos sacerdotes da região olhavam Max como dispersor do rebanho, incapaz de seguir «uma linha de pudor que estivesse de acordo com os hábitos da terra.»
Desde 1974 que os párocos reclamavam medidas, sob pena do Bispo ser «severamente criticado» e vir «a sofrer amarguras.»
Dom António Cardoso Cunha esticou a corda até onde pôde. «Tenho sido inalteravelmente seu amigo, não obstante os grandes dissabores que (…) tenho experimentado nestes dois últimos anos, devido à sua conduta e actividades de natureza política. Sinto-me no dever de dar uma explicação pública a toda esta gente», escreveu o bispo de Vila Real num bilhete enviado ao «caro Maximino», a 15 de Março de 1976.
O padre era, por esta altura, candidato a deputado nas listas da UDP. E ficou impedido de exercer o ministério. O sacerdote Manuel Morais era dos poucos que lhe tinha «estima e consideração.» À esquerda, militantes do MRPP acusavam-no de traição.
Ele, porém, não iria ser apenas mais um. O «baptismo revolucionário» deu-se em França, nos tempos sobressaltados de 1968. Trabalhou na Acção Católica em 1971 e foi professor em Lisboa e Setúbal.
Optou depois por Vila Real por sentir que aí morava a sua vocação e destino. Para o bem e para o mal, não se enganou.
Max foi para a capital transmontana ocupar a sala do primeiro andar na moradia da travessa de D. Dinis, número dois, alugada por mil escudos aos pais de Maria de Lurdes, também emigrados em França.
A jovem vivia com a avó e a irmã. E o padre assumiu o papel de encarregado de educação das raparigas.
Maria das Dores, 72 anos, a proprietária da casa, lembra-se de um padre inteligente e humilde: «Dava tudo o que tinha sem nada pedir em troca.»
Fez-lhe uma coberta e ainda pregou um fecho numas calças velhas. Era um homem além do seu tempo. «Dizia que a virgindade não tinha valor nenhum. E tinha razão.»
O meio era conservador e tradicional. Max era de esquerda, vestia calças de ganga, agitava consciências.
Dava aulas no liceu e na Escola Industrial e Comercial. Mobilizava lutas de estudantes. Ensinou adultos a ler e a escrever, apoiou os operários nas contestações fabris. Os jovens seguiam-no, os pais temiam-no.
Os amigos admiravam-lhe as qualidades morais e profissionais. Famílias abastadas da terra, militantes da direita radical e a maioria dos sacerdotes da região olhavam Max como dispersor do rebanho, incapaz de seguir «uma linha de pudor que estivesse de acordo com os hábitos da terra.»
Desde 1974 que os párocos reclamavam medidas, sob pena do Bispo ser «severamente criticado» e vir «a sofrer amarguras.»
Dom António Cardoso Cunha esticou a corda até onde pôde. «Tenho sido inalteravelmente seu amigo, não obstante os grandes dissabores que (…) tenho experimentado nestes dois últimos anos, devido à sua conduta e actividades de natureza política. Sinto-me no dever de dar uma explicação pública a toda esta gente», escreveu o bispo de Vila Real num bilhete enviado ao «caro Maximino», a 15 de Março de 1976.
O padre era, por esta altura, candidato a deputado nas listas da UDP. E ficou impedido de exercer o ministério. O sacerdote Manuel Morais era dos poucos que lhe tinha «estima e consideração.» À esquerda, militantes do MRPP acusavam-no de traição.
O temperamento brincalhão de Max não era imune a aflições.
Foi ameaçado e puxado pelos colarinhos em reuniões de associações de pais e do clero local. Um Morris vermelho e um Alfa Romeo verde rondavam-no. Famílias influentes e grupos de rufias da região tiravam-lhe as medidas. Cartas ameaçadoras, anónimas, eram frequentes. «O seu lugar não é junto dos estudantes, mas sim em Lisboa junto das prostitutas», escrevia-se. Nos muros do liceu, pichagens prometiam-lhe a morte.
À noite, jovens do CDS entretinham-se a insultá-lo à porta de casa e atiravam-lhe garrafas de vinho, vazias e cheias. Soube-se depois que várias das cartas intimidatórias, sem nome, foram dactilografadas numa máquina de escrever Lettera 22 Olivetti encontrada na sede do CDS de Vila Real. Max passou a recear a própria sombra. Inspeccionava o automóvel antes de entrar, era cuidadoso com o fecho das portas, mas a direita, de trás, não teve emenda nem na oficina. Por duas vezes lhe furaram os pneus, puseram bilhetes no pára-brisas e paus de fósforos na fechadura do carro. Ramiro Moreira, operacional da rede bombista de extrema-direita, fez-se passar por sindicalista para o vigiar no início de 1976.
Ele, na brincadeira, dizia que qualquer dia lhe punham uma bomba. «Não desisto e, se morrer, é por uma causa justa», ouviram-no, mais a sério.
Queixava-se pouco. Mas nos dias que antecederam a morte, viram-no triste e apreensivo. Ao final da tarde do dia 2 de Abril de 1976, a amiga Maria Manuela disse-lhe à porta do liceu que não ia com ele, nessa noite, à Cumieira.
«Então não te vejo mais.»
Percebendo nela sorriso assustado, corrigiu: «Não te vejo mais…hoje.» Esteve depois no Governo Civil num encontro de todos os partidos para discutir as eleições desse mesmo mês. Aí, lamentou a reacção que vinha sentindo nos meios rurais e pediu compreensão democrática. A reunião foi cordata.
Antes das 22 horas deu boleia a um rapaz do seu curso nocturno que ia tratar de uma queimadura na perna direita ao hospital.
Seguiu depois para a Cumieira.
Entregues os garrafões de vinho vazios em casa de Carlos, só parou na Casa da Cultura. A bomba foi colocada no seu carro enquanto dava a última aula de um dia esgotante. Na estrada, depois da explosão, corpo prostrado no asfalto, só pediu:
«Vejam como me levam.»
Era o último fôlego de quem, qual ironia, havia ajudado os alunos a ensaiar a peça Mortos sem Sepultura, de Sartre, escrita trinta anos antes.
Um texto onde a personagem Canoris é um homem de acção, pronto a enfrentar a morte em nome da liberdade.
Ao funeral, a 5 de Abril, assistiram vinte mil pessoas. «Coisa nunca vista», diz quem lá esteve.
A missa foi celebrada na presença de quarenta sacerdotes, vindos de todo o País. Os párocos de Vila Real recusaram celebrar a missa de 30º dia.
Foi ameaçado e puxado pelos colarinhos em reuniões de associações de pais e do clero local. Um Morris vermelho e um Alfa Romeo verde rondavam-no. Famílias influentes e grupos de rufias da região tiravam-lhe as medidas. Cartas ameaçadoras, anónimas, eram frequentes. «O seu lugar não é junto dos estudantes, mas sim em Lisboa junto das prostitutas», escrevia-se. Nos muros do liceu, pichagens prometiam-lhe a morte.
À noite, jovens do CDS entretinham-se a insultá-lo à porta de casa e atiravam-lhe garrafas de vinho, vazias e cheias. Soube-se depois que várias das cartas intimidatórias, sem nome, foram dactilografadas numa máquina de escrever Lettera 22 Olivetti encontrada na sede do CDS de Vila Real. Max passou a recear a própria sombra. Inspeccionava o automóvel antes de entrar, era cuidadoso com o fecho das portas, mas a direita, de trás, não teve emenda nem na oficina. Por duas vezes lhe furaram os pneus, puseram bilhetes no pára-brisas e paus de fósforos na fechadura do carro. Ramiro Moreira, operacional da rede bombista de extrema-direita, fez-se passar por sindicalista para o vigiar no início de 1976.
Ele, na brincadeira, dizia que qualquer dia lhe punham uma bomba. «Não desisto e, se morrer, é por uma causa justa», ouviram-no, mais a sério.
Queixava-se pouco. Mas nos dias que antecederam a morte, viram-no triste e apreensivo. Ao final da tarde do dia 2 de Abril de 1976, a amiga Maria Manuela disse-lhe à porta do liceu que não ia com ele, nessa noite, à Cumieira.
«Então não te vejo mais.»
Percebendo nela sorriso assustado, corrigiu: «Não te vejo mais…hoje.» Esteve depois no Governo Civil num encontro de todos os partidos para discutir as eleições desse mesmo mês. Aí, lamentou a reacção que vinha sentindo nos meios rurais e pediu compreensão democrática. A reunião foi cordata.
Antes das 22 horas deu boleia a um rapaz do seu curso nocturno que ia tratar de uma queimadura na perna direita ao hospital.
Seguiu depois para a Cumieira.
Entregues os garrafões de vinho vazios em casa de Carlos, só parou na Casa da Cultura. A bomba foi colocada no seu carro enquanto dava a última aula de um dia esgotante. Na estrada, depois da explosão, corpo prostrado no asfalto, só pediu:
«Vejam como me levam.»
Era o último fôlego de quem, qual ironia, havia ajudado os alunos a ensaiar a peça Mortos sem Sepultura, de Sartre, escrita trinta anos antes.
Um texto onde a personagem Canoris é um homem de acção, pronto a enfrentar a morte em nome da liberdade.
Ao funeral, a 5 de Abril, assistiram vinte mil pessoas. «Coisa nunca vista», diz quem lá esteve.
A missa foi celebrada na presença de quarenta sacerdotes, vindos de todo o País. Os párocos de Vila Real recusaram celebrar a missa de 30º dia.
Quando a Polícia Judiciária do Porto entrou em campo, logo mostrou ao que ia: crime passional. A tese, mirabolante, apontava Carlos, amigo de Max e Maria de Lurdes, como autor de um crime e de uma bomba…em forma de garrafão de vinho.
Carlos esteve confessadamente apaixonado por Maria de Lurdes, mas ela pediu tempo.
A jovem estaria grávida de três meses quando morreu e o padre Maximino seria, para a Judiciária, o principal motivo de ciúme de Carlos.
Insultado e enxovalhado durante um inquérito, o amigo de Max ouviria, da boca de um agente que procurava intimidá-lo, frase lapidar: «Uma das desgraças que trouxe o 25 de Abril foi acabar com a PIDE.»
A PJ investiu o que tinha e não tinha na tese passional.
No primeiro relatório, escreveu que o padre «dava política de modo a cativar os alunos segundo a ideologia da UDP», era defensor «do chamado amor livre» e vivia «maritalmente» com a Maria de Lurdes. «Por tudo isto e o mais que não foi possível averiguar, o padre Maximino não gozava de boa reputação», concluía-se.
Nesta altura, na PJ do Porto, os agentes «do antigamente» adaptavam-se o melhor que podiam à nova situação. «Mas puseram a ideologia a comandar as investigações», conta quem viveu esses tempos por dentro.
Não espantou, por isso, a displicência na salvaguarda de elementos de prova. A chapa exterior de uma das portas do carro só a encontraram no socalco de uma vinha mais de dois meses depois do atentado.
E passou idêntico período até que recolhessem pedaços do tapete do veículo e examinados os vestígios da bomba. Só nos anos 80, quando foi necessário voltar à estaca zero, o caso do padre Max entrou em trilhos sólidos: o crime político. A investigação do assassínio, por desconhecidos, do industrial Joaquim Ferreira Torres, em Agosto de 1979, iluminou a noite da Cumieira. O Sãobentogate, julgamento que «limpou» a PJ do Porto da corrupção interna mais endémica, fez o resto, no início da década de 80.
Torres era o conhecido financiador do MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), presidido pelo general Spínola e liderado por Alpoim Calvão. Tinha com ligações a ex-PIDES, radicais de direita e aos sectores mais conservadores da Igreja e pôs Portugal a ferro e fogo entre 1975 e 1976. Segundo um dos seus quadros, o movimento custava 15 mil euros por mês, três mil contos à época.
Bombas e incêndios em alvos de esquerda, com algumas vítimas mortais, foi o rasto deixado pelo terrorismo de direita.
O papel de Torres no planeamento e financiamento da operação da Cumieira provou-se no Tribunal Judicial de Vila Real. E contou com a ajuda de gente ligada ao MDLP. Ainda que, na época, alguns elementos pudessem já andar em roda livre, quais prestadores de serviço à conta de bom dinheiro. O receio de Torres voltar a ser preso por causa da rede bombista fê-lo ameaçar, à boca cheia, que abriria o livro sobre as cumplicidades e negócios feitos à sombra do MDLP. Não era «bluff» e foi o seu fim.
O industrial havia sido, logo após o 25 de Abril, fiel depositário de fortunas e valores de figuras influentes e poderosas fugidas no estrangeiro. Uma época em que o MDLP contou com fiéis amigos na PJ do Porto. «Protegia-se gente do fascismo e camuflava-se o envio de importantes somas de dinheiro para fora do País», segundo recordam fontes dessas investigações. O processo do padre Max foi dos mais viajados da Justiça portuguesa. E dos mais longos. Teve de tudo. Até agentes da PJ apanhados nas escutas a sabotar a actividade de colegas. Já para não falar da escassez de meios, da falta de incentivo à investigação e das solicitações constantes para que se desistisse de vasculhar o passado. A sentença de um processo com 15 volumes e mais de quatro mil páginas foi proferida em 1999, 23 anos após o crime e uma salsada de avanços e recuos. «Condenado» o MDLP enquanto organização que planeou e financiou o atentado, foram absolvidos os alegados executantes. Falta de provas, justificou-se.
O facto do crime ter sido julgado – com desfile de chefes e colaboracionistas da rede bombista incluídos – deve-se, em boa parte, à persistência de dois investigadores da PJ – Artur Pereira, nos anos 80, e Victor Alexandre, nos anos 90 – ao então procurador Paulo Sá e a Mário Brochado Coelho, advogado das vítimas. «O modo como foram investigados e julgados os processos relativos a “crimes de direita” foi mais benévolo. Encobriu-se responsabilidades e responsáveis deliberadamente. O caso do padre Max e de Maria de Lurdes foi um paradigma de obstrução sistemática à descoberta da verdade. E estivemos muito perto de sabê-la toda», diz o causídico.
Se não a sabemos, explica quem conheceu o processo, «é porque há coisas do presente que ainda assentam neste passado. Olhe-se para a matriz do regime, para a gente que beneficiou do que se fez naquele tempo e tirem-se as conclusões.»
Um dos altos quadros do MDLP resumiu, um dia, a situação a um dos investigadores: «Temos de dizer aos avós daqueles que estão no poder para pôr os meninos nos eixos, a ver se eles se portam bem. Senão isto ainda acaba tudo outra vez à estalada.»
Carlos esteve confessadamente apaixonado por Maria de Lurdes, mas ela pediu tempo.
A jovem estaria grávida de três meses quando morreu e o padre Maximino seria, para a Judiciária, o principal motivo de ciúme de Carlos.
Insultado e enxovalhado durante um inquérito, o amigo de Max ouviria, da boca de um agente que procurava intimidá-lo, frase lapidar: «Uma das desgraças que trouxe o 25 de Abril foi acabar com a PIDE.»
A PJ investiu o que tinha e não tinha na tese passional.
No primeiro relatório, escreveu que o padre «dava política de modo a cativar os alunos segundo a ideologia da UDP», era defensor «do chamado amor livre» e vivia «maritalmente» com a Maria de Lurdes. «Por tudo isto e o mais que não foi possível averiguar, o padre Maximino não gozava de boa reputação», concluía-se.
Nesta altura, na PJ do Porto, os agentes «do antigamente» adaptavam-se o melhor que podiam à nova situação. «Mas puseram a ideologia a comandar as investigações», conta quem viveu esses tempos por dentro.
Não espantou, por isso, a displicência na salvaguarda de elementos de prova. A chapa exterior de uma das portas do carro só a encontraram no socalco de uma vinha mais de dois meses depois do atentado.
E passou idêntico período até que recolhessem pedaços do tapete do veículo e examinados os vestígios da bomba. Só nos anos 80, quando foi necessário voltar à estaca zero, o caso do padre Max entrou em trilhos sólidos: o crime político. A investigação do assassínio, por desconhecidos, do industrial Joaquim Ferreira Torres, em Agosto de 1979, iluminou a noite da Cumieira. O Sãobentogate, julgamento que «limpou» a PJ do Porto da corrupção interna mais endémica, fez o resto, no início da década de 80.
Torres era o conhecido financiador do MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), presidido pelo general Spínola e liderado por Alpoim Calvão. Tinha com ligações a ex-PIDES, radicais de direita e aos sectores mais conservadores da Igreja e pôs Portugal a ferro e fogo entre 1975 e 1976. Segundo um dos seus quadros, o movimento custava 15 mil euros por mês, três mil contos à época.
Bombas e incêndios em alvos de esquerda, com algumas vítimas mortais, foi o rasto deixado pelo terrorismo de direita.
O papel de Torres no planeamento e financiamento da operação da Cumieira provou-se no Tribunal Judicial de Vila Real. E contou com a ajuda de gente ligada ao MDLP. Ainda que, na época, alguns elementos pudessem já andar em roda livre, quais prestadores de serviço à conta de bom dinheiro. O receio de Torres voltar a ser preso por causa da rede bombista fê-lo ameaçar, à boca cheia, que abriria o livro sobre as cumplicidades e negócios feitos à sombra do MDLP. Não era «bluff» e foi o seu fim.
O industrial havia sido, logo após o 25 de Abril, fiel depositário de fortunas e valores de figuras influentes e poderosas fugidas no estrangeiro. Uma época em que o MDLP contou com fiéis amigos na PJ do Porto. «Protegia-se gente do fascismo e camuflava-se o envio de importantes somas de dinheiro para fora do País», segundo recordam fontes dessas investigações. O processo do padre Max foi dos mais viajados da Justiça portuguesa. E dos mais longos. Teve de tudo. Até agentes da PJ apanhados nas escutas a sabotar a actividade de colegas. Já para não falar da escassez de meios, da falta de incentivo à investigação e das solicitações constantes para que se desistisse de vasculhar o passado. A sentença de um processo com 15 volumes e mais de quatro mil páginas foi proferida em 1999, 23 anos após o crime e uma salsada de avanços e recuos. «Condenado» o MDLP enquanto organização que planeou e financiou o atentado, foram absolvidos os alegados executantes. Falta de provas, justificou-se.
O facto do crime ter sido julgado – com desfile de chefes e colaboracionistas da rede bombista incluídos – deve-se, em boa parte, à persistência de dois investigadores da PJ – Artur Pereira, nos anos 80, e Victor Alexandre, nos anos 90 – ao então procurador Paulo Sá e a Mário Brochado Coelho, advogado das vítimas. «O modo como foram investigados e julgados os processos relativos a “crimes de direita” foi mais benévolo. Encobriu-se responsabilidades e responsáveis deliberadamente. O caso do padre Max e de Maria de Lurdes foi um paradigma de obstrução sistemática à descoberta da verdade. E estivemos muito perto de sabê-la toda», diz o causídico.
Se não a sabemos, explica quem conheceu o processo, «é porque há coisas do presente que ainda assentam neste passado. Olhe-se para a matriz do regime, para a gente que beneficiou do que se fez naquele tempo e tirem-se as conclusões.»
Um dos altos quadros do MDLP resumiu, um dia, a situação a um dos investigadores: «Temos de dizer aos avós daqueles que estão no poder para pôr os meninos nos eixos, a ver se eles se portam bem. Senão isto ainda acaba tudo outra vez à estalada.»
Hoje, na Cumieira, quase não há vestígios desse tempo.
A Casa da Cultura será transformada no novo edifício da Junta de Freguesia. E ao quilómetro 71, só uns dizeres desbotados inscritos numa paragem de autocarro velha e enferrujada insistem em preservar a memória e a verdade: «Padre Max, assassinos à solta.» No cemitério de Santa Iria, o jazigo de Maria de Lurdes é a cara do desleixo. A campa de Maximino de Sousa é a 1240, a dois passos. As flores são de plástico, mas o craveiro ao fundo da laje preta tem cravos a florir, em rebeldia. Só uma funcionária da Segurança Social de Vila Real lá pára, às vezes. Todos os anos, Maria Augusta, feliz zeladora do cemitério a meias com o marido, recebe chamadas do estrangeiro, emigrantes pedindo que enfeite a última morada dos familiares. Pelo padre Max e Maria de Lurdes, ninguém telefona. Para eles, já não há velas nem flores.
A Casa da Cultura será transformada no novo edifício da Junta de Freguesia. E ao quilómetro 71, só uns dizeres desbotados inscritos numa paragem de autocarro velha e enferrujada insistem em preservar a memória e a verdade: «Padre Max, assassinos à solta.» No cemitério de Santa Iria, o jazigo de Maria de Lurdes é a cara do desleixo. A campa de Maximino de Sousa é a 1240, a dois passos. As flores são de plástico, mas o craveiro ao fundo da laje preta tem cravos a florir, em rebeldia. Só uma funcionária da Segurança Social de Vila Real lá pára, às vezes. Todos os anos, Maria Augusta, feliz zeladora do cemitério a meias com o marido, recebe chamadas do estrangeiro, emigrantes pedindo que enfeite a última morada dos familiares. Pelo padre Max e Maria de Lurdes, ninguém telefona. Para eles, já não há velas nem flores.
Miguel Carvalho, in Aqui na Terra, 9-16.
sábado, abril 02, 2011
Bailias, hoje no Expresso, por Pedro Mexia
BAILIAS,
de Catarina Nunes de Almeida Deriva, 2010, 68 págs., | Poesia
Pedro Mexia
Em vez de um discurso ‘feminista’, crítico, sarcástico ou desconstrutivo, Catarina Nunes de Almeida (n. 1982) tem escolhido um tom aparentemente anacrónico para proceder, por dentro e de mansinho, a uma revisão empática e irónica do ‘feminino’ em poesia. Veja-se como em “Prefloração” (2006), mas também em “A Metamorfose das Plantas dos Pés” (2008), recuperou um universo vegetal, mais diáfano ou mais sensual, conforme os casos, mas voluntariamente antigo. O recente “Bailias” prossegue esse caminho, convocando desta vez a memória das cantigas de amigo. Os poemas são folguedos, bailes, barcarolas, miniaturas bucólicas, e nem faltam vocábulos arcaicos e outras remissões para a poesia galaico-portuguesa. Uma poesia inicial e canónica, que ecoa em contemporâneos como Eugénio de Andrade (que é por isso citado). Tal como em Eugénio, o erotismo vigiado das cantigas de amigo é aqui chamado para primeiro plano. As “meninas”, correndo pelos bosques e pinhais, pelas noites e as ermidas, descalças até aos ombros, vão ter com os “amigos”, numa sucessão ritualista de anseios, hesitações e glórias. O imaginário medieval apenas nomeava, em chave simbólica, os cabelos e as tranças, mas agora surgem também o “ventre” e a “vulva”, além de subtis deslocações de sentido, corruptelas, alusões. E assim somos guiados de volta a esse tempo genesíaco, tempo de cântico das criaturas: “Dai-me só mais este passo, meu amigo,/ às escuras às curvas/ pelas ervas abaixo./ Dai-me desse certeiro espinho desse derradeiro laço/ às escuras às escuras:/ só mais esse poço primitivo (...)// Alguém atire a primeira perna./ Alguém diga/ desta espádua beberei.” Um cântico violentamente delicado. Pedro Mexia
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