sexta-feira, abril 08, 2011

Literatura Castelhana

A revista OS MEUS LIVROS de Abril tem como tema de capa "Literatura Castelhana", controverso rótulo.
Porém, como se sublinha no artigo, de Sara Figueiredo Costa, existe "vida" «para além do castelhano».
Xavier Queipo é o autor da Deriva destacado, mas galegos temos muito mais: Rámon Cáride, Xavier López López, Xurxo Borrazás, Antón Riveiro Coello e Gonzalo Navaza.

Do País Basco, a Deriva deu a conhecer Dorregarai, A Casa-Torre, de Anjel Rekalde. E do outro lado do Atlântico, passe a metáfora repetida, dos Ricardo Romero (Nenhum Lugar) e Florencia Abbate (Magic Resort).

Palavras para que vos quero: 2º Encontro de Literatura Infanto-juvenil da SPA


Programa do 2º Encontro de Literatura Infanto-juvenil da SPA que terá lugar na Biblioteca Almeida Garrett nos próximos dias 15 e 16 de Abril.

terça-feira, abril 05, 2011

Do desconcerto do mundo, Guias Sonoras em "Os Meus Livros", por Andreia Brites

 Do desconcerto do mundo: GUIAS SONORAS, de João Pedro Mésseder

Aforismos, pequenas reflexões, micro-contos ou sentenças (afirma Ana Margarida Ramos no posfácio): o volume começa aí, pela forma, a desviar-se da aparência tradicional da poesia. Mas, à imagem dos haikus, o limite ou a fronteira dialoga obrigatoriamente com o sistema poético. Esta observação não seria relevante, não fora o caso da elaboração sintáctica e semântica assentar numa desconstrução do literal e até dos lugares comuns era tomo de metáforas, ironias, sinestesias, oximoros que provocam tensões ideológicas. («Existe lixa macia como seda / - isto lhe garantiu o fabricante./ Foi essa a que escolheu para amaciar o seu próprio coraçãd’ (pág. 35). Os motivos temáticos vão-se sucedendo, encadeando quase automaticamente: Vida, Democracia, Guerra, Tempo, Morte, Sono, Sonho, Silêncio... servem para questionar a passividade do ser humano, os seus comportamentos e um certo estado interior que está oculto pelos limites das “Guias Sonoras” e é preciso mostrar, limando a realidade superficial. Mésseder escancara as contradições existenciais, implicando as suas palavras nessas mesmas contradições, não ftigndo da melancolia, apesar do sentido crítico. “No Inverno, as árvores envelhecem. Calvas, esqueléticas, sinistrass. Na Primavera, reconquistam a juventude. E todos acham natural esta inversão da lógica do tempo”(pág. 25). ANDREIA BRITES

Procurar a medida: António Cortez sobre Bailias

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domingo, abril 03, 2011

Nos 35 ANOS DO HOMICÍDIO DE MAXIMINO SOUSA, a.k.a. Padre Max

Nos 35 ANOS DO HOMICÍDIO DE  MAXIMINO SOUSA, a.k.a. Padre Max
Padre Max, O Pecador, por Miguel Oliveira, in Aqui na Terra.


O pecador
A 2 de Abril de 1976 a noite estava escura, a iluminação pública desligada e chovia.
Na Casa da Cultura da Cumieira, a sete quilómetros de Vila Real, o padre Maximino de Sousa ensinava Português e Francês a trabalhadores-estudantes. Não era ainda meia-noite quando perguntou as horas.
Doía-lhe a garganta, estava exausto e febril. «Já dei muitas aulas hoje, vamos embora.»
Antes de se dirigir para o seu Simca 1000, de cor amarela, estacionado junto ao fontanário, deteve-se à conversa com alunos a propósito de uns emblemas da UDP que lhes prometera. Ele seria, dali a semanas, o candidato daquele partido de esquerda nas primeiras eleições livres. E era influente entre os jovens. Já no carro, cuja porta direita de trás não trancava, o padre Max – assim era chamado – buzinou para que Carlos, director da Casa da Cultura, se apressasse. À boleia, ia também Maria de Lurdes, de 18 anos, estudante e sua protegida.
O automóvel arrancou.
Carlos esticou as pernas, batendo com os pés num volume debaixo do banco de Maria de Lurdes. «O que é isto que vai aqui?», perguntou. «Sei lá», respondeu o padre. Duzentos metros à frente, parou em casa do amigo para recolher um dos dois garrafões de vinho de cinco litros que lá havia deixado. À saída do carro, Carlos viu uma luva de cabedal de cor castanha, forrada a lã, esquecida no assento. «De quem é esta luva?», questionou-se, intrigado. «Essa luva é tua, pá, não me gozes», atirou-lhe Max, apressado.
Lurdes disse que lhe parecia de rapariga. «Não é, olhem para esta manápula», observou o padre, pegando-lhe. Carlos foi buscar o garrafão enquanto o cunhado ficou breves minutos à conversa com o sacerdote. Despediram-se.
Carlos entrava em casa quando o estrondo se deu e o chão tremeu. Um clarão enorme iluminava o breu.
«Mataram o padre Max!», gritava a irmã.
Lurdes jazia no meio da estrada, ao quilómetro 71.
Ainda disse «que desgraça!» ou «socorre-me!», algo assim.
Max estava caído junto da valeta, à esquerda.
«Ó pá, que desgraça!», disse, a custo.
O Simca era uma amostra.
Ela foi transportada ao hospital num jeep que passava. Ele seguiu no carro do cunhado de Carlos. No caminho, disse que lhe faltava o ar.
Maria de Lurdes chegou já sem vida ao hospital. Vestia três camisolas leves de várias cores.
Max entrou com grande dificuldade em falar.
Perguntaram-lhe o que se passara.
«Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa.»
De seguida, entrou em coma. Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de Abril de 1976. Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.
Nascido na Choupica, Ribeira de Pena, um dos filhos de pais emigrados em França e fugidos aos nazis, Maximino passou parte da infância e adolescência em Almendra, no concelho duriense de Foz Côa. Ali, as mulheres lamentavam que um rapaz «tão bonito» se inclinasse para o sacerdócio.
Ele, porém, não iria ser apenas mais um.  O «baptismo revolucionário» deu-se em França, nos tempos sobressaltados de 1968. Trabalhou na Acção Católica em 1971 e foi professor em Lisboa e Setúbal.
Optou depois por Vila Real por sentir que aí morava a sua vocação e destino. Para o bem e para o mal, não se enganou.
Max foi para a capital transmontana ocupar a sala do primeiro andar na moradia da travessa de D. Dinis, número dois, alugada por mil escudos aos pais de Maria de Lurdes, também emigrados em França.
A jovem vivia com a avó e a irmã. E o padre assumiu o papel de encarregado de educação das raparigas.
Maria das Dores, 72 anos, a proprietária da casa, lembra-se de um padre inteligente e humilde: «Dava tudo o que tinha sem nada pedir em troca.»
Fez-lhe uma coberta e ainda pregou um fecho numas calças velhas. Era um homem além do seu tempo. «Dizia que a virgindade não tinha valor nenhum. E tinha razão.»
O meio era conservador e tradicional.  Max era de esquerda, vestia calças de ganga, agitava consciências.
Dava aulas no liceu e na Escola Industrial e Comercial. Mobilizava lutas de estudantes. Ensinou adultos a ler e a escrever, apoiou os operários nas contestações fabris.  Os jovens seguiam-no, os pais temiam-no.
Os amigos admiravam-lhe as qualidades morais e profissionais.  Famílias abastadas da terra, militantes da direita radical e a maioria dos sacerdotes da região olhavam Max como dispersor do rebanho, incapaz de seguir «uma linha de pudor que estivesse de acordo com os hábitos da terra.»
Desde 1974 que os párocos reclamavam medidas, sob pena do Bispo ser «severamente criticado» e vir «a sofrer amarguras.»
Dom António Cardoso Cunha esticou a corda até onde pôde. «Tenho sido inalteravelmente seu amigo, não obstante os grandes dissabores que (…) tenho experimentado nestes dois últimos anos, devido à sua conduta e actividades de natureza política. Sinto-me no dever de dar uma explicação pública a toda esta gente», escreveu o bispo de Vila Real num bilhete enviado ao «caro Maximino», a 15 de Março de 1976.
O padre era, por esta altura, candidato a deputado nas listas da UDP. E ficou impedido de exercer o ministério. O sacerdote Manuel Morais era dos poucos que lhe tinha «estima e consideração.» À esquerda, militantes do MRPP acusavam-no de traição.
O temperamento brincalhão de Max não era imune a aflições.
Foi ameaçado e puxado pelos colarinhos em reuniões de associações de pais e do clero local. Um Morris vermelho e um Alfa Romeo verde rondavam-no.  Famílias influentes e grupos de rufias da região tiravam-lhe as medidas.  Cartas ameaçadoras, anónimas, eram frequentes. «O seu lugar não é junto dos estudantes, mas sim em Lisboa junto das prostitutas», escrevia-se. Nos muros do liceu, pichagens prometiam-lhe a morte.
À noite, jovens do CDS entretinham-se a insultá-lo à porta de casa e atiravam-lhe garrafas de vinho, vazias e cheias.  Soube-se depois que várias das cartas intimidatórias, sem nome, foram dactilografadas numa máquina de escrever Lettera 22 Olivetti encontrada na sede do CDS de Vila Real.  Max passou a recear a própria sombra.  Inspeccionava o automóvel antes de entrar, era cuidadoso com o fecho das portas, mas a direita, de trás, não teve emenda nem na oficina.  Por duas vezes lhe furaram os pneus, puseram bilhetes no pára-brisas e paus de fósforos na fechadura do carro.  Ramiro Moreira, operacional da rede bombista de extrema-direita, fez-se passar por sindicalista para o vigiar no início de 1976.
Ele, na brincadeira, dizia que qualquer dia lhe punham uma bomba. «Não desisto e, se morrer, é por uma causa justa», ouviram-no, mais a sério.
Queixava-se pouco. Mas nos dias que antecederam a morte, viram-no triste e apreensivo. Ao final da tarde do dia 2 de Abril de 1976, a amiga Maria Manuela disse-lhe à porta do liceu que não ia com ele, nessa noite, à Cumieira.
«Então não te vejo mais.»
Percebendo nela sorriso assustado, corrigiu: «Não te vejo mais…hoje.»  Esteve depois no Governo Civil num encontro de todos os partidos para discutir as eleições desse mesmo mês.  Aí, lamentou a reacção que vinha sentindo nos meios rurais e pediu compreensão democrática. A reunião foi cordata.
Antes das 22 horas deu boleia a um rapaz do seu curso nocturno que ia tratar de uma queimadura na perna direita ao hospital.
Seguiu depois para a Cumieira.
Entregues os garrafões de vinho vazios em casa de Carlos, só parou na Casa da Cultura. A bomba foi colocada no seu carro enquanto dava a última aula de um dia esgotante.  Na estrada, depois da explosão, corpo prostrado no asfalto, só pediu:
«Vejam como me levam.»
Era o último fôlego de quem, qual ironia, havia ajudado os alunos a ensaiar a peça Mortos sem Sepultura, de Sartre, escrita trinta anos antes.
Um texto onde a personagem Canoris é um homem de acção, pronto a enfrentar a morte em nome da liberdade.
Ao funeral, a 5 de Abril, assistiram vinte mil pessoas. «Coisa nunca vista», diz quem lá esteve.
A missa foi celebrada na presença de quarenta sacerdotes, vindos de todo o País. Os párocos de Vila Real recusaram celebrar a missa de 30º dia.
Quando a Polícia Judiciária do Porto entrou em campo, logo mostrou ao que ia: crime passional.  A tese, mirabolante, apontava Carlos, amigo de Max e Maria de Lurdes, como autor de um crime e de uma bomba…em forma de garrafão de vinho.
Carlos esteve confessadamente apaixonado por Maria de Lurdes, mas ela pediu tempo.
A jovem estaria grávida de três meses quando morreu e o padre Maximino seria, para a Judiciária, o principal motivo de ciúme de Carlos.
Insultado e enxovalhado durante um inquérito, o amigo de Max ouviria, da boca de um agente que procurava intimidá-lo, frase lapidar: «Uma das desgraças que trouxe o 25 de Abril foi acabar com a PIDE.»
A PJ investiu o que tinha e não tinha na tese passional.
No primeiro relatório, escreveu que o padre «dava política de modo a cativar os alunos segundo a ideologia da UDP», era defensor «do chamado amor livre» e vivia «maritalmente» com a Maria de Lurdes. «Por tudo isto e o mais que não foi possível averiguar, o padre Maximino não gozava de boa reputação», concluía-se.
Nesta altura, na PJ do Porto, os agentes «do antigamente» adaptavam-se o melhor que podiam à nova situação. «Mas puseram a ideologia a comandar as investigações», conta quem viveu esses tempos por dentro.
Não espantou, por isso, a displicência na salvaguarda de elementos de prova.  A chapa exterior de uma das portas do carro só a encontraram no socalco de uma vinha mais de dois meses depois do atentado.
E passou idêntico período até que recolhessem pedaços do tapete do veículo e examinados os vestígios da bomba.  Só nos anos 80, quando foi necessário voltar à estaca zero, o caso do padre Max entrou em trilhos sólidos: o crime político.   A investigação do assassínio, por desconhecidos, do industrial Joaquim Ferreira Torres, em Agosto de 1979, iluminou a noite da Cumieira. O Sãobentogate, julgamento que «limpou» a PJ do Porto da corrupção interna mais endémica, fez o resto, no início da década de 80.
Torres era o conhecido financiador do MDLP (Movimento Democrático para a Libertação de Portugal), presidido pelo general Spínola e liderado por Alpoim Calvão. Tinha com ligações a ex-PIDES, radicais de direita e aos sectores mais conservadores da Igreja e pôs Portugal a ferro e fogo entre 1975 e 1976. Segundo um dos seus quadros, o movimento custava 15 mil euros por mês, três mil contos à época.
Bombas e incêndios em alvos de esquerda, com algumas vítimas mortais, foi o rasto deixado pelo terrorismo de direita.
O papel de Torres no planeamento e financiamento da operação da Cumieira provou-se no Tribunal Judicial de Vila Real. E contou com a ajuda de gente ligada ao MDLP. Ainda que, na época, alguns elementos pudessem já andar em roda livre, quais prestadores de serviço à conta de bom dinheiro. O receio de Torres voltar a ser preso por causa da rede bombista fê-lo ameaçar, à boca cheia, que abriria o livro sobre as cumplicidades e negócios feitos à sombra do MDLP. Não era «bluff» e foi o seu fim.
O industrial havia sido, logo após o 25 de Abril, fiel depositário de fortunas e valores de figuras influentes e poderosas fugidas no estrangeiro. Uma época em que o MDLP contou com fiéis amigos na PJ do Porto. «Protegia-se gente do fascismo e camuflava-se o envio de importantes somas de dinheiro para fora do País», segundo recordam fontes dessas investigações. O processo do padre Max foi dos mais viajados da Justiça portuguesa. E dos mais longos. Teve de tudo. Até agentes da PJ apanhados nas escutas a sabotar a actividade de colegas. Já para não falar da escassez de meios, da falta de incentivo à investigação e das solicitações constantes para que se desistisse de vasculhar o passado.  A sentença de um processo com 15 volumes e mais de quatro mil páginas foi proferida em 1999, 23 anos após o crime e uma salsada de avanços e recuos. «Condenado» o MDLP enquanto organização que planeou e financiou o atentado, foram absolvidos os alegados executantes. Falta de provas, justificou-se.
O facto do crime ter sido julgado – com desfile de chefes e colaboracionistas da rede bombista incluídos – deve-se, em boa parte, à persistência de dois investigadores da PJ – Artur Pereira, nos anos 80, e Victor Alexandre, nos anos 90 – ao então procurador Paulo Sá e a Mário Brochado Coelho, advogado das vítimas. «O modo como foram investigados e julgados os processos relativos a “crimes de direita” foi mais benévolo. Encobriu-se responsabilidades e responsáveis deliberadamente. O caso do padre Max e de Maria de Lurdes foi um paradigma de obstrução sistemática à descoberta da verdade. E estivemos muito perto de sabê-la toda», diz o causídico.
Se não a sabemos, explica quem conheceu o processo, «é porque há coisas do presente que ainda assentam neste passado. Olhe-se para a matriz do regime, para a gente que beneficiou do que se fez naquele tempo e tirem-se as conclusões.»
Um dos altos quadros do MDLP resumiu, um dia, a situação a um dos investigadores: «Temos de dizer aos avós daqueles que estão no poder para pôr os meninos nos eixos, a ver se eles se portam bem. Senão isto ainda acaba tudo outra vez à estalada.»
Hoje, na Cumieira, quase não há vestígios desse tempo.
A Casa da Cultura será transformada no novo edifício da Junta de Freguesia. E ao quilómetro 71, só uns dizeres desbotados inscritos numa paragem de autocarro velha e enferrujada insistem em preservar a memória e a verdade: «Padre Max, assassinos à solta.»  No cemitério de Santa Iria, o jazigo de Maria de Lurdes é a cara do desleixo.  A campa de Maximino de Sousa é a 1240, a dois passos. As flores são de plástico, mas o craveiro ao fundo da laje preta tem cravos a florir, em rebeldia. Só uma funcionária da Segurança Social de Vila Real lá pára, às vezes. Todos os anos, Maria Augusta, feliz zeladora do cemitério a meias com o marido, recebe chamadas do estrangeiro, emigrantes pedindo que enfeite a última morada dos familiares. Pelo padre Max e Maria de Lurdes, ninguém telefona. Para eles, já não há velas nem flores.
Miguel Carvalho, in Aqui na Terra, 9-16.


sábado, abril 02, 2011

Bailias, hoje no Expresso, por Pedro Mexia

BAILIAS,
de Catarina Nunes de Almeida Deriva, 2010, 68 págs., | Poesia
Pedro Mexia


Em vez de um discurso ‘feminista’, crítico, sarcástico ou desconstrutivo, Catarina Nunes de Almeida (n. 1982) tem escolhido um tom aparentemente anacrónico para proceder, por dentro e de mansinho, a uma revisão empática e irónica do ‘feminino’ em poesia. Veja-se como em “Prefloração” (2006), mas também em “A Metamorfose das Plantas dos Pés” (2008), recuperou um universo vegetal, mais diáfano ou mais sensual, conforme os casos, mas voluntariamente antigo. O recente “Bailias” prossegue esse caminho, convocando desta vez a memória das cantigas de amigo. Os poemas são folguedos, bailes, barcarolas, miniaturas bucólicas, e nem faltam vocábulos arcaicos e outras remissões para a poesia galaico-portuguesa. Uma poesia inicial e canónica, que ecoa em contemporâneos como Eugénio de Andrade (que é por isso citado). Tal como em Eugénio, o erotismo vigiado das cantigas de amigo é aqui chamado para primeiro plano. As “meninas”, correndo pelos bosques e pinhais, pelas noites e as ermidas, descalças até aos ombros, vão ter com os “amigos”, numa sucessão ritualista de anseios, hesitações e glórias. O imaginário medieval apenas nomeava, em chave simbólica, os cabelos e as tranças, mas agora surgem também o “ventre” e a “vulva”, além de subtis deslocações de sentido, corruptelas, alusões. E assim somos guiados de volta a esse tempo genesíaco, tempo de cântico das criaturas: “Dai-me só mais este passo, meu amigo,/ às escuras às curvas/ pelas ervas abaixo./ Dai-me desse certeiro espinho desse derradeiro laço/ às escuras às escuras:/ só mais esse poço primitivo (...)// Alguém atire a primeira perna./ Alguém diga/ desta espádua beberei.” Um cântico violentamente delicado. Pedro Mexia

Dia Internacional do Livro Infantil

Bailias, de Catarina Nunes de Almeida, por Pedro Mexia

«Um cântico violentamente delicado», Pedro Mexia,

sexta-feira, abril 01, 2011

FUTURO PRIMITIVO, de John Zerzan

FUTURO PRIMITIVO, de John Zerzan



As ideias de John Zerzan situam-se na crítica à tecnologia e à cultura simbólica como origem da degenerescência da Humanidade que a iniciou com o advento da agricultura e da domesticação de toda a vida humana e da natureza. Rejeita, portanto, a divisão social e sexual do trabalho e o patriarcado, assim como a separação entre a Natureza e a Cultura. Singular, na visão de Zerzan, é a síntese de várias correntes filosóficas que elabora na crítica à sociedade moderna e pós-moderna como suportes que fazem parte de um mundo que se encontra moribundo. As fontes teóricas do Primitivismo a que Zerzan dá voz vão desde Adorno, aos situacionistas, à antropologia, ao luddismo, à ecologia e ao feminismo, assim como às correntes igualitárias e anti-autoritárias americanas e europeias. O Futuro Primitivo é, para nós, a obra mais marcante de John Zerzan. Para além de reflectir uma revisitação teórica da Pré-História, ataca violentamente as ideias preconcebidas da antropologia oficial e dá-nos a possibilidade de encontrar uma ténue saída para a catástrofe iminente.

«Definir» um mundo não alienado seria impossível e talvez indesejável, mas creio que podemos e deveríamos tentar revelar o não-mundo dos nossos dias e como se chegou até ele. Caímos num monstruoso erro ao adoptarmos a cultura simbólica e a divisão do trabalho, abandonando um mundo de deslumbramento, compreensão e totalidade e esperando por um Nada que nós encontramos, hoje, na doutrina do progresso. Vazia, cada vez mais vazia, a lógica da domesticação, com as suas exigências de domínio total, mostra-nos a ruína de uma civilização que destrói tudo em que toca. Presumir a inferioridade da natureza favorece o domínio de sistemas culturais que não tardarão a tornar a Terra inabitável.
O pós-modernismo diz-nos que uma sociedade sem relações de poder não é mais que uma abstracção. É uma mentira, a menos que aceitemos a morte da natureza e que renunciemos para sempre ao que foi e que poderá, um dia, vir a ser de novo. Turnbull falou-nos da intimidade entre os Mbuti e a floresta, e da sua maneira de dançar como se fizessem amor com ela. Na fímbria de uma vida onde todos os seres são iguais, onde não existia nenhuma abstracção e que se esforça ainda por manter-se viva, eles «dançam com a floresta, dançam com a lua». (Futuro Primitivo, 2007, Deriva). Esta edição portuguesa da Deriva é acompanhada por um prefácio do autor.



John Zerzan nasceu em 1943, em Oregon, EUA, e é licenciado em Ciências Políticas pela Stanford University e em História pela San Francisco State University. Preso em 1966, nos EUA, pela sua participação nos movimentos de desobediência civil e contra a guerra do Vietnam, conhecidos pelos tumultos de Berckeley. Abandonou, mais tarde, uma carreira universitária na University of Southern California. Hoje, dedica-se à educação de crianças e à jardinagem. Promove, ainda, conferências sobre o Primitivismo e Paleo-Anarquismo em todo o mundo. Destaca-se como escritor e filósofo do chamado Primitivismo com a edição de Elements of Refusal (Left Bank Books, Seattle, 1988) e de Future Primitive (Autonomedia, New York, 1994) livro agora traduzido para português pela Deriva e que lhe deu projecção internacional ao serem traduzidas versões para várias línguas. Questioning Technology (Freedom Press, Londres, 1988), The Mass Psychology of Misery, Tonality and the Totality, The Catastrophe of Postmodernism e The Nihilist's Dictionary contam-se entre as suas obras mais recentes. Em 2002, edita Against Civilization: Readings and Reflections, em Los Angeles.

terça-feira, março 29, 2011

Normal, de Ricardo Silveira, por Rui Spranger


Normal, monólogo em um acto de Ricardo Silveira é encenado e interpretado por Rui Spranger e estreará a 20 de Abril de 2011, no Pinguim Café, ficando em cena até dia 22 de Maio, de quarta a sexta às 21h30 e sábado e domingo às 22h30.

Normal é o monólogo de um indivíduo que se encontra sozinho num espaço público, constrangido pela situação e preocupado em ter um comportamento normal. Questiona-se sobre a percepção que os outros terão de si, inquietando-se com as diversas leituras que julga perceber, e vai-se refugiando em estratagemas para passar despercebido, inclusive o controlo do pensamento, numa tentativa de construir o clima mental que lhe convém. Nesse processo reflecte sobre o lugar do individuo na comunidade, sobre a forma como é olhado e qual a pose certa a adoptar para se fundir com os outros, para não causar estranheza nem rejeição. Ao tentar obsessivamente ser normal, interroga-se sobre as condições dessa normalidade e põe em causa o seu próprio comportamento e identidade.

segunda-feira, março 28, 2011

Deriva

Ontem, em Serralves. Deriva de Gil J. Wolman, 1968

28 de Março, 32 anos após Three Mile Island

No próximo dia 28 de Março cumprem-se 32 anos do acidente de Three Mile Island (TMI), em Harrisburg, nos EUA. Uma fusão parcial do reactor provocou grandes emissões de gases radioactivos para a atmosfera, as quais nunca foram quantificadas, nem analisados os seus efeitos na população. Os efeitos do acidente de Fukushima Daichii, com a situação ainda longe de ser resolvida, superam largamente os de TMI. Para assinalar a data, várias centenas de espanhóis e portugueses concentraram-se este Domingo em Almaraz, para exigir o encerramento da central nuclear a 100 km da fronteira portuguesa.


O acidente de Three Mile Island

O reactor TMI-2 sofreu graves danos e uma emissão de gases radioactivos que afectou cerca de 25 mil pessoas. Foi classificado como nível 5 na escala INES. O acidente de TMI começa com uma falha do circuito secundário, que resultou num aumento da temperatura do reactor. Nesse momento, um operador tomou uma decisão errada e introduziu grandes quantidades de água fria no circuito primário de refrigeração, na tentativa de baixar a temperatura. Contudo, esta água ferveu, formando borbulhas de vapor.

Além disso produziu-se hidrogénio, tal como em Fukushima, que foi necessário ventilar para evitar uma explosão dentro da contenção. Esta ventilação deu lugar a uma nuvem radioactiva. Não foi possível evitar uma fusão do núcleo e foi necessário lançar água e areia para o seu interior. Ainda que esta sequência de acontecimentos fosse improvável, ela acabou por produzir-se, com efeitos catastróficos.

Situação em Fukushima é muito grave

32 anos depois, o acidente de Fukushima já provocou, pelo menos, uma fusão parcial de três reactores (números 1, 2 e 3) e emissões procedentes da piscina de combustível usado do reactor número 4. As emissões de trítio, iodo e césio já superam - e continuam a aumentar - em várias vezes a magnitude da catástrofe da central norte-americana e, consoante as estimativas, alcançam níveis entre 10% a 50% das emissões de Chernobil (Ucrânia). Hoje foi detectada radioactividade 10 milhões de vezes acima do limite na água junto ao reactor.

A radioactividade medida na água e no leite em mais de três vezes os níveis permitidos, num raio de 40 km da central. Os legumes apresentam concentrações radioactivas cerca de 30 vezes acima do permitido, sendo que nalguns pontos foram encontradas concentrações de césio-137 3 000 vezes acima dos valores permitidos. Isto é grave, dado que a vida média deste isótopo é de 30 anos, o que significa que tardará cerca de 300 anos a desaparecer. Além disso, a situação torna imprescindível o controlo de peixe e moluscos, dado que a água contaminada pela refrigeração dos reactores escoou para o mar. Como se tudo isto fosse pouco, foi detectada contaminação radioactiva em cinco estações de tratamento de água em Tóquio e existe a preocupação na Coreia e China de que a nuvem transporte quantidades significativas de radioactividade para estes países.

As Nações Unidas consideram que a evolução da situação é imprevisível e que esta crise nuclear deverá prolongar-se por alguns meses. Vários especialistas já classificaram o acidente de Fukushima no nível 7 da INES, o mesmo que Chernobil e o máximo da escala.

Protesto exige encerramento de central nuclear de Almaraz, a 100 km da fronteira

A indústria nuclear anuncia, à semelhança do que fez em acidentes anteriores, que aprenderá com os erros e os corrigirá para que as centrais sejam mais seguras. Vários acidentes se sucederam desde então e o lobby pró-nuclear ainda não percebeu a questão central - que a segurança absoluta não existe e que determinados acontecimentos, por mais improváveis que sejam, acabam por produzir-se.

A pergunta que deve fazer-se não apenas à indústria nuclear, mas a toda a sociedade é: se podemos prescindir da energia nuclear, porquê continuar a manter este imenso perigo? A associação espanhola Ecologistas en Acción elaborou uma proposta de geração de energia eléctrica para 2020, na qual é demonstrado como se pode prescindir da energia nuclear e do carvão, mantendo coberta a procura, de forma ininterrupta, ao longo de todo o ano. Desta forma, poderia libertar-se a Península Ibérica do risco que constitui o funcionamento dos 8 reactores nucleares, eliminando a possibilidade de desastres com o de Fukushima, no Japão.

Para assinalar o aniversário do acidente de Three Mile Island, decorreram hoje acções de protesto junto das centrais nucleares de Garoña y Almaraz. Vários portugueses juntaram-se à concentração de mais de 300 pessoas em Almaraz, para exigir o fim da ameaça que constitui a presença para de reactores nucleares na Península Ibérica. A principal preocupação centra-se no reactor de Almaraz, a 100 km da fronteira, embora um acidente em qualquer central Ibérica (ou mesmo noutros pontos da Europa) possa resultar em impactos muito graves no território português.

domingo, março 27, 2011

Teatro Ensaio: "O Teatro, a Carta e a Verdade" de Harry Mulisch, encenação de Pedro Estorninho

O Teatro, a Carta e a Verdade
de Harry Mulisch, com encenação de Pedro Estorninho.

Harry Mulisch (Foto: Anton Corbijn)


Na história de Mulisch, que pretendemos apresentar em forma de peça teatral, a trama da narrativa espelha os acontecimentos que tiveram lugar em 1987, na Holanda.

Aquando da produção da peça de Fassbinder, Der Müll, die Stadt und der Tod (O lixo, a cidade e a morte) surgiram enormes protestos por esta ser entendida como anti-semita, o que veio a tornar-se um enorme escândalo no mundo do teatro holandês da época. Um actor, Jules Croiset, que protestara contra a encenação da peça, afirmou ter recebido cartas ameaçadoras por causa desta, e acabaria por ser aparentemente raptado, só para ser encontrado no dia seguinte. Na verdade, e como se veio a saber depois, Croiset escreveu ele próprio a carta com ameaças e encenou o seu próprio rapto.

Neste texto teatral Croiset é Herbert a personagem princincipal que chora a morte da mulher. O teatro, a carta e a verdade é um episódio perturbadoramente fascinante, apresentado de forma completamente original. A peça explora as possibilidades do teatro, do fingimento e a fusão/afastamento do actor em relação à vida real. É uma constante interrogação sobre se o que estamos a ver realmente está a acontecer ou se é farsa. Quem é quem? Quem está vivo? Quem está morto? Quem é ele? Herbert ou o actor? Um Teatro? Onde acabará a Literatura e começará o Teatro?

Meta-Teatro no seu estado mais puro.
Oficina 1 do Cace Cultura do Porto
(Rua do Freixo, 1071, Porto - estacionamento gratuito, antiga central eléctrica do Freixo),
de 1 a 10 de Abril de 2011 pelas 21h30.

Apoios / Parcerias

IEFP,IP - CACE Cultural Porto / ESMAE - IPP/ TNSJ/ Embaixada dos Países Baixos/ Moagem CERES S. A./ Deriva Editores/ Associação dos Agentes Funerários de Portugal/ Vinhos do Porto Fonseca apoia a Cultura/Nouvelle Vague Photo.
Mais informações, aqui.

Mensagem do 2 de Abril de 2011, Dia Internacional do Livro Infantil

Mensagem do 2 de Abril de 2011, Dia Internacional do Livro Infantil


O livro recorda | Aino Pervik

“Quando Arno e o seu pai chegaram à escola, as aulas já tinham começado.”
No meu país, a Estónia, quase toda a gente conhece esta frase de cor. É a primeira linha de um livro intitulado Primavera. Publicado em 1912, é da autoria do escritor estónio Oskar Luts (1887-1953).
Primavera narra a vida de crianças que frequentavam uma escola rural na Estónia, em finais do século XIX. O Autor escrevia sobre a sua própria infância e Arno, na verdade, era o próprio Oskar Luts na sua meninice.
Os investigadores estudam documentos antigos e, com base neles, escrevem livros de História. Os livros de História relatam eventos que aconteceram, mas é claro que esses livros nunca contam como eram de facto as vidas das pessoas comuns em certa época.
Os livros de histórias, por seu lado, recordam coisas que não é possível encontrar nos velhos documentos. Podem contar-nos, por exemplo, o que é que um rapaz como Arno pensava quando foi para a escola há cem anos, ou quais os sonhos das crianças dessa época, que medos tinham e o que as fazia felizes. O livro também recorda os pais dessas crianças, como queriam ser e que futuro desejavam para os seus filhos.
Claro que hoje podemos escrever livros sobre os velhos tempos, e esses livros são, muitas vezes, apaixonantes. Mas um escritor actual não pode realmente conhecer os sabores e os cheiros, os medos e as alegrias de um passado distante. O escritor de hoje já sabe o que aconteceu depois e o que o futuro reservava à gente de então.
O livro recorda o tempo em que foi escrito.
A partir dos livros de Charles Dickens, ficamos a saber como era realmente a vida de um rapazinho nas ruas de Londres, em meados do século XIX, no tempo de Oliver Twist. Através dos olhos de David Copperfield (coincidentes com o olhar de Dickens nessa época), vemos todo o tipo de personagens que ao tempo viviam na Inglaterra – que relações tinham, e como os seus pensamentos e sentimentos influenciaram tais relações. Porque David Copperfield era de facto, em muitos aspectos, o próprio Charles Dickens; Dickens não precisava de inventar nada, ele pura e simplesmente conhecia aquilo que contava.
São os livros que nos permitem saber o que realmente sentiam Tom Sawyer, Huckleberry Finn e o seu amigo Jim nas viagens pelo Mississipi em finais do século XIX, quando Mark Twain escreveu as suas aventuras. Ele conhecia profundamente o que as pessoas do seu tempo pensavam sobre as demais, porque ele próprio vivia entre elas. Era uma delas.
Nas obras literárias, os relatos mais verosímeis sobre gente do passado são os que foram escritos à época em que essa mesma gente vivia.
O livro recorda.

Tradução: José António Gomes

Nascida em 1932, na Estónia, Aino Pervik publicou cerca de meia centena de livros para crianças, a par de poesia e narrativas para adultos. Distinguida com vários e prestigiosos prémios e traduzida em diversas línguas, obras suas têm sido adaptadas ao teatro e ao cinema. A velha mãe Kunks, Arabella, a filha do pirata, Paula aprende a sua língua (integrado numa série protagonizada pela mesma personagem) são apenas três dos seus títulos mais conhecidos.

A Mensagem do Dia Internacional do Livro Infantil é uma iniciativa do IBBY (International Board on Books for Young People), difundida em Portugal pela APPLIJ (Associação Portuguesa para a Promoção do Livro Infantil e Juvenil), Secção Portuguesa do IBBY.



Dia Mundial do Teatro, Um Punhado de Terra, de Pedro Eiras

Assim entrámos nos batéis Batéis se foram de terra
tranquila quente de fim de dia
Praia ficou longe manchas de sangue desapareceram todas
mas mar não lavou
não pode lavar
Fumo de casas queimadas era preto
dançavam ao sol labaredas
Mesmo quando não houver fumo
haverá labareda
não apagará
Vimos terra desaparecer para sempre

ficar pequena como pedrinha
Vimos montes onde milho crescia e pássaros voavam
Vimos e vimos
última vez
Agora
como teremos notícias de quem fugiu
de quem morreu?
Como saberemos novas de nossos mortos?
Nunca mais beberemos água do poço
não dançaremos a bater pés na terra
como saberemos novas de nossos mortos?
Nunca mais caçaremos gazela atenta
ó criador
nunca mais ouviremos leão antes de atacar
como saberemos novas
ó cheio de cólera
como saberemos novas de nossos mortos?

in Um Punhado de Terra, de Pedro Eiras

Nota do autor


Praticamente todos os factos que descrevo neste monólogo são verídicos; junto-os, mesmo se não aconteceram todos no mesmo século. Encontrei-os em diversos lugares – em Gomes Eanes de Zurara, Bartolomeu de las Casas, no International Slavery Museum of Liverpool – mas um livro corajoso, organizado por Ana Barradas, serviu-me de fonte principal: Ministros da Noite. Livro negro da expansão portuguesa (Antígona, 1992).

Um monólogo pede um trabalho de ritmos, tessituras, um fluxo de ideias e imagens. Sem sacrificar essas regras, e sem esquecer a exigência ética que em primeiro lugar me levou a escrever, procurei que este texto fosse o mais possível próximo dos factos registados. Apresentar os ecos que sobreviveram até nós e ser o menos possível – ou mesmo nada – enquanto dramaturgo.





sábado, março 26, 2011

Guias Sonoras, João Pedro Mésseder

"Em termos poéticos, os textos aqui reunidos, até pelo seu carácter lapidar, actuam também como roteiro de uma certa visão do mundo,assumidamente contra-corrente, no sentido em que contrariam o pensamento mais comum e apelam a uma reflexão sobre a realidade e a contemporaneidade. Pequenas farpas afiadas, algumas profundamente perturbadoras, os pequenos textos impõem-se também do ponto de vista ideológico, submetendo conceitos, ideologias e, sobretudo, as palavras a um crivo crítico, às vezes desconcertante, capaz de as desconstruir e obrigar à reflexão.Mais insistentemente revisitados, conceitos como a «Democracia», noções como o Tempo, a Noite (muitas vezes associada ao sono e à insónia, mas também à escuridão e, por oposição, à Luz), o Silêncio, a Amizade e uma determinada imagem de Portugal e dos portugueses e da própria contemporaneidade são recriados com uma certa acidez e um desencanto que só, mais esporadicamente, ecoava em Abrasivas. Assim, a dimensão profundamente lírica daquele volume, visível no canto poético de algumas experiências sensoriais ou no culto da palavra enquanto conjugação de significado e significante, perseguida nas suas múltiplas acepções, reveladora do extraordinário fascínio pela linguagem, é atenuada por um relevo crescente da dimensão interventiva dos textos, sobretudo dos introdutórios, a tal capaz de agredir, por atrito, a superfície das consciências. A metáfora da lixa, presente como elemento paratextual na primeira edição, é agora substituída pela das guias sonoras, objectos destinados a evitar o adormecimento. Por outro lado, lidas enquanto balizas físicas, as guias sonoras obrigam a seguir uma rota pré-estabelecida, condicionando a liberdade. Esta sugestão aparentemente contraditória também ecoa em alguns textos, reveladores da fragilidade da humanidade." do posfácio de Ana Margarida Ramos

quinta-feira, março 24, 2011

TEatroensaio: "A Última Porta"

 
O TEatroensaio e o Café Progresso continuam o seu programa para Março com a Leitura Encenada de

"A Última Porta" de Pedro Estorninho. | Este sábado pelas 16h no Café Progresso.

quarta-feira, março 23, 2011

Utopias Piratas e A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra

A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit
+
Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson
30 euros



A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit


 "Aquilo que deve fazer-se para sabotar a realidade é muito simples: há que recusar-se ser uma microempresa. Há que converter-se num interruptor de mobilização global. Interromper a mobilização que nos porta e incendiar a noite. Incendiar a noite não acaba com a noite. Acaba, sim, com o medo da noite." Santiago López-Petit in "A Mobilização Global, seguido de O Estado-Guerra"

Utopias Piratas, de Peter Lamborn Wilson«no século XVII e princípios do século XVIII, numerosas “utopias piratas” independentes vêem a luz do dia em várias partes do globo. A mais famosa entre estas foi Hispaniola, onde os bucaneiros criaram a sua própria sociedade anárquica de curta duração; a Libertália, em Madagáscar; a Baía dos Ranters, também em Madagáscar; e Nassau, nas Bahamas»

segunda-feira, março 21, 2011

Dia Mundial de Poesia



A Deriva festeja o Dia Mundial da Poesia consigo.


Mas, porque um dia é pouco para celebrar autores e livros, esta semana qualquer livro de poesia encomendado a partir do nosso website tem um desconto de 20% sobre o preço de capa.

Visite-nos em http://www.derivaeditores.pt/ e faça a sua encomenda pelo site ou para deriva@derivaeditores.pt.

Poesia, hoje é o dia

sexta-feira, março 18, 2011

Apresentação de Guias Sonoras, 26 de Março, Ílhavo

Apresentação de Guias Sonoras, de João Pedro Mésseder
dia 26 de Março, Biblioteca Municipal de Ílhavo
por Ana Margarida Ramos 

quinta-feira, março 17, 2011

THEO ANGELOPOULOS - O ÚLTIMO MODERNISTA: O PASSADO COMO HISTÓRIA, O FUTURO COMO FORMA.




Numa colaboração da Medeia Filmes com a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (Mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas e Artes Plásticas – Multimédia), terá lugar, de 17 a 23 de Março, o ciclo THEO ANGELOPOULOS - O ÚLTIMO MODERNISTA: O PASSADO COMO HISTÓRIA, O FUTURO COMO FORMA, dedicado à obra do cineasta grego, com três dos seus filmes das últimas duas décadas e a estreia da sua nova obra, A POEIRA DO TEMPO.

TEATRO DO CAMPO ALEGRE | (17 a 23 de Março)

O título do último filme de Theo Angelopoulos não podia adequar-se mais aos objectivos deste pequeno ciclo que agora lhe dedicamos. “A Poeira do Tempo”, assim se intitula, e corporiza, logo ali no título, uma espécie de enunciado programático daquilo que é fundamental no seu cinema: o tempo.

18 Março, O OLHAR DE ULISSES (1994) | 19 Março, A ETERNIDADE E UM DIA (1998)
20  a 23 Março, A POEIRA DO TEMPO (2008)

 quarta-feira, 23 de Março, A POEIRA DO TEMPO
 (sessão das 22h seguida de debate com Fernando José Pereira e João Paulo Sousa)

Horário das sessões: 18h30 e 22h (excepto 22 Março, só 18h30)

quarta-feira, março 16, 2011

Para que serve a Literatura?, Antoine Compagnon [trad. José Domingues de Almeida]






Antoine Compagnon, autor de La Seconde Main Ou Le Travail De La CitationLe Demon De La Theorie: Litterature Et Sens Commun e Les Cinq Paradoxes De La Modernité, apenas para referir os mais conhecidos, conhece agora uma tradução portuguesa,  resultante de uma parceria da Deriva Editores com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto. 

O livro em causa  é Aula Inaugural no Collège de France - La Littérature, Pour Quoi Faire ? -  Para que serve a Literatura?, com tradução de  José Domingues de Almeida ).  Um ensaio essencial que problematiza o espaço e o valor da literatura hoje.


    


 As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.
Na  Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos).
Na Cassiopeia, que já acolheu  um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.

terça-feira, março 15, 2011

Bailias, de Catarina Nunes de Almeida


 «Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada». 


O único maremoto de que há memória

aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.

Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
a música não cabe na boca das aves

e nós, meninas, bailaremos i.


***

Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

domingo, março 13, 2011

12 de Março


Foto da ATTAC
Se há lições a tomar das manifs de todo o país das gerações à rasca foi a inovação no assomo da palavra política despojada de qualquer arrogância ou manipulação, a liberdade assumida em todos os cartazes feitos à pressa e a enorme criatividade surgida nas palavras de ordem. O «microfone aberto» da Praça da Batalha e, mais tarde, dos Aliados, foi uma verdadeira prova de democracia não muito habitual nos tempos que correm. Foi igualmente um acto de coragem dos organizadores a que a população aderiu totalmente e que soube retribuir na rua. No dia seguinte a 12 de Março, ficou patente a ineficácia das colagens partidárias, a sua incompreensão total do fenómeno popular de protesto e também a sobranceria e por vezes o insulto de grande parte dos «comentadores» políticos aninhados nos media. Foi uma jornada de grande participação popular. A partir de hoje, a política não será mais igual.

O Teatro e a Palavra. TEatroensaio 26 de Fevereiro de 2011

Na sequência do estudo iniciado perante o tema O Teatro e a Palavra foquei-me na palavra enquanto expressão máxima da literatura. Não é de modo nenhum a expressão mínima desse mesmo género enquadrando-a, a expressão, no campo da letra e do silêncio fragmentado. Do espaço em branco da página ou do silêncio. É uma forma igualmente legítima de se compreender a sua relação com o teatro.


Assim, somei vários fragmentos em forma de dúvidas que passam pela relação, por vezes ambígua, do Teatro e da Literatura.

Comecemos pela literatura, pela poesia, pela palavra escrita e com a sua mais que possível morte a partir da cacofonia dadaísta, da expressão livre do surrealismo, da arte pop, do letrismo dos anos cinquenta (actualmente Serralves conta com uma exposição de Gil Wolman) ou do primitivismo dos anos sessenta. Todas estas correntes aceleraram a impossibilidade de um critério artístico para a literatura como arte. Digamos que morreu de cansaço ou de falta de superação da sua própria ideia de arte.

Resta-nos, pois, a experiência com a palavra e com o corpo, terreno fértil e aberto para o teatro e a literatura. E aqui surgem-nos dúvidas, por vezes fragmentárias, que teremos todo o gosto em partilhar convosco:

1. Toda a utopia ditatorial ou controlo ideológico passa, hoje, não pela proibição da palavra e do livro e da leitura, mas pela estimulação da leitura até à paranóia, que serviria de preâmbulo para o seu desaparecimento material. Compreendem-se, assim, as campanhas orquestradas para o fomento da leitura dos nossos jovens. A sociedade de mercado fará o resto. Somos todos possíveis compradores de livros, mas razoavelmente poucos o que estão interessados em lê-los.

2. A produção de infa-livros ou sub-livros é consequência da cópia fragmentária do livro e de partes do livro na era da internet. Introduz-se a cópia dos livros de um modo fragmentário retirando-lhe qualquer sentido ou dando o sentido totalitário às palavras que se querem copiar. A palavra ressentir-se-á assim do sentido que se lhe quer dar.

3. Mac Luhan definiu a Era Xerox como a possibilidade enganosa de todos podermos ser Gutenberg. Hoje a produção da palavra escrita estará confiada não ao artesão que a fabrica diligentemente, mas às massas que a desventram, jogando o papel de estranhos autores e editores de compostos de letras. Vê-se aqui a consequência da grande eficácia democratizadora e populista da produção da palavra escrita.

4. O embaratecimento e a acessibilidade absoluta a um meio, determina no próprio nível dos conteúdos o fenómeno volumoso de uma fraude, ou seja, a filosofia do engano intelectual instaurada quer nas salas académicas, quer nas populares. Perante isso, o copyright, sofreu um desprezo absoluto a que nenhum controlo pode estar submetido.

5. A poesia sofre hoje um processo de saturação, a qual está em grande parte submetida à aniquilação transcendental e totalmente fracassada no que seria a sua determinação social, segundo Walter Benjamim, quando diz que ‘o poeta actual faz do mercado e da mercadoria o seu único objecto’. Ou seja, configura o mundo da palavra sob o imperativo novo de uma pura razão industrial, mesmo que não esteja inteiramente consciente disso.

6. Hoje, atravessa na poesia e na produção da palavra escrita, aquilo que Greil Marcus, em Marcas de Batom, diz sobre o sujeito moderno: ‘o rumo de uma negação e destruição que, de um modo ininterruptamente acelerado, se está a apoderar de todas as formas de criação artística’ considerando-o este um processo irreversível de violência simbólica e que vem actuando sob as formas de uma possível vanguarda.

7. Dentro do mercado da poesia, um facto material evidencia o desinteresse activo pela obra de hoje, chegando este a mostrar-se de modo obsceno na quantificação das tiragens que os nossos poetas conhecem, incluindo os mais célebres. (…) Segundo G. Zaid, afirma que as estatísticas depressoras que o livre comércio procura dizem-nos que, apesar de a poesia ser já só para poetas, nem os poetas lêem os poetas. Neste terreno, o número dos que a lêem já não pode aumentar mais, mas sim os que querem ser lidos.

8. Como diriam os situacionistas, no fim dos anos 60, ‘os dias dos poetas acabaram’ concedendo actualidade a Hegel quando afirmava que ter-se-ia liquidado a produção simbólica no seu sentido mais forte. A arte verbal, começaria assim a ser ‘coisa do passado entre nós’. No que respeita à construção teórica e filosófica do sentido da palavra, há que dizer que dela ainda surge como um último baluarte para evitar a sua erosão, tornando possível a existência da palavra como um idioma poético, assumindo, em forma de drama (teatral, portanto) o conflito que ela abre: poesia pois, mas apenas na condição de servir para revelar o fracasso de toda a poesia. Se assim é, o teatro abre-se como verdadeiro espaço de assunção de uma palavra poética livre e para ser ‘ouvida’. Como lemos em Fin de Parti de Beckett, já não há muito a temer, mas também nada a esperar. Não há lugar para o temor, mas muito menos para a esperança.

9. Quem hoje morre como poeta pode estar certo de experimentar a ressurreição próxima como romancista, ou como uma espécie de qualquer comunicador de ondas hertezianas, em que se solicitam usos mais discretos e rebaixados do instrumento linguístico. Segundo Fernando de la Flor, o poeta rejeita o seu velho ofício, fechando a loja das musas e aderindo a novas formas mediológicas de modo a não perecerem, demonstrando que hoje há maus tempos para a mitologia da palavra.

10. É possível que hoje se esteja a criar uma cultura inteiramente independente da palavra, facto que poderá ainda assombrar algumas consciências. A palavra estaria submetida a uma pressão social que a re-situa continuamente, chegando mesmo a prescindir dela, a desprezá-la ou degradá-la, substituindo-a, nas suas funções por outros signos mais rápidos ao ouvido, à retina. Assim é possível que Mac Luhan tivesse razão ao demonstrar que as tecnologias mediadoras são o princípio de tudo. O declínio da poesia está portanto dependente à sua comunicabilidade. Como afirmou Karl Marx em, A Ideologia Alemã, a grande poesia épica foi a primeira vítima da imprensa e da máquina de escrever.

11. A palavra poética sujeita-se assim, estritamente, ao processo de coisificação, de objectualização e até de mercantilização de todo o espaço humano.

12. A poesia já não é expressão da radical alteridade do falante, nem acto de uma qualquer natureza rebelde. Pelo contrário, domesticou-se. O poeta entra no mercado comunicacional valendo-se de versos que não lhe pertencem na verdade, integrando-se num gigantesco processo que visa a hegemonização dos homens e das mercadorias. A literatura não foge a este processo.

13. Segundo Fernando de la Flor, a necessidade de silêncio é o reverso da superprodução inflacionista, a velocidade de execução crescente e cada dia menos exigente, a circulação acelerada pelos canais de informação provocou, nas pessoas, uma grande necessidade de silêncio e recolhimento, produto da saturação com que se manifestam as escritas poéticas do século. Produto também da fartura dos signos modernos que já fazia gritar os dadaístas: «devolvam-me o meu vazio!»

14. Os computadores pessoais são criadores de um embuste que todos constatam enganadoramente: ‘desde a sua aparição, escreve-se mais». Segundo Blanchot, por vezes, o volume ainda não está escrito e o escritor já é apresentado como maduro. A edição de poesia, nos nossos dias, mais do que noutros registos, é completamente fantasmal: publica-se, pois, antes de escrever, o público forma e transmite o que não ouve, o crítico julga e define o que não lê e, por último, o leitor tem de ler o que ainda não está escrito.

15. A música é, nos nossos dias, o código que actua no estrato mais profundo e tornou-se emblema dos modos de percepção estética do indivíduo moderno. Do mesmo modo que a palavra foi, em tempos, testemunho de um culto sagrado. A recente vitória da imagem e que alguns teóricos antecipam já o fim do seu reinado ao mesmo tempo que antevêem um certo regresso à palavra, pode restabelecer um certo equilíbrio destinado ao teatro como expressão de uma totalidade. Fragmentária ou não, a realidade do teatro pode ter uma nova dimensão. Se Lledó tem razão o teatro seria então a convocação dos invisíveis espaços interiores, através da poesia, da leitura, da escrita e do sonho onde, diríamos nós a imagem e a música teriam de expandir-se.

16. Deleuze reafirma alguma verdade na sua afirmação: «hoje, estamos inundados de palavras inúteis, de quantidades ingentes de palavras e imagens. A estupidez nunca é muda e cega. O problema não consiste em conseguir que as pessoas se expressem, mas sim em colocar à sua disposição vácuos de solidão e silêncio a partir dos quais se pudessem vir a ter algo a dizer. As forças repressivas não impedem ninguém de se expressar, pelo contrário, forçam-nos a expressarmo-nos.»

17. Finalmente, o livro, os livros, provam que algo foi escrito, e que também algo está em vias de ser lido. No fundo, trata-se não de um objecto mas sim de um domínio de intenções: de um campo, ou melhor, teatro onde se assiste a uma complexa encenação, onde se representa esse mesmo conjunto inabarcável de relações de leitura e escrita. Possibilidades infinitas para a representação teatral como realidade mediada da palavra.

sexta-feira, março 11, 2011

Actualidade: A Intoxicação Linguística e Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano


"A manipulação dirige-se ao pensamento, aos sentimentos, às acções (e omissões) de toda e qualquer pessoa. Da esfera íntima até à apresentação pública no trabalho, na escola ou na política, não sobra um único aspecto, uma única dimensão da vida que dela não receba a influência. O objectivo final da manipulação é a obtenção da passividade e da submissão. A manipulação das mentes é uma guerra psicológica planificada, elaborada a partir de conhecimentos científicos, contra o desenvolvimento progressista, isto é, solidário e cooperativo do ser humano ou, o que é a mesma coisa, orientada contra o progresso social" in  A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano


A imprensa, a rádio e a televisão baseiam-se na repetição. A melhor ilustração desta circunstância é o ritual da televisão, uma vez que requer a visão e a audição, forçando os espectadores à postura sentada, enquanto a rádio e a imprensa lhe permitem liberdade de movimentos. Esta porque pode suspender-se e retomar-se noutro momento, a rádio porque a recepção da sua mensagem depende apenas do ouvido. Do ponto de vista da transmissão, a rádio é o meio mais rápido. As suas mensagens podem difundir-se praticamente a qualquer momento e, com a ajuda da telefonia, em praticamente todos os lugares. 

Também aqui, porém, o império dos prazos e da imediaticidade existe, elaborado a partir do ritual horário e de calendário que o interpreta, à semelhança do que sucede com os outros meios. E, onde há interpretação há clero, quer seja religioso quer profano. É ele quem decide o que pode ouvir-se, ler-se ou ver-se a que dias e a que horas. Actualmente, pode observar-se como a televisão estatal se molda e inclusivamente antecipa a concorrência comercial da televisão privada, desbragando a linguagem e reduzindo os programas de conteúdo cognitivo em favor das compensações emocionais ou, pelo menos, atirando-os para horas de escassa audiência. 

A minuciosa coacção dos prazos educa para a fugacidade da percepção. A brecha entre o electronicamente perceptível e o que fica registado em papel aumenta dia a dia. É preciso questionar se aquilo que os olhos vêem é fiável, pois desde Aristóteles que se acredita que ver é saber. A redução sucessiva da linguagem transformada num mero código de sinais ominosos, aumenta, claro está, a velocidade da transmissão. Mas a comunicação à velocidade de relâmpago de insinuações binárias, de símbolos positivos e negativos, não passa de um código que nada tem já a ver com a pugna pela expressão humana através da linguagem.  in  A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano