sexta-feira, março 18, 2011

Apresentação de Guias Sonoras, 26 de Março, Ílhavo

Apresentação de Guias Sonoras, de João Pedro Mésseder
dia 26 de Março, Biblioteca Municipal de Ílhavo
por Ana Margarida Ramos 

quinta-feira, março 17, 2011

THEO ANGELOPOULOS - O ÚLTIMO MODERNISTA: O PASSADO COMO HISTÓRIA, O FUTURO COMO FORMA.




Numa colaboração da Medeia Filmes com a Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (Mestrado em Práticas Artísticas Contemporâneas e Artes Plásticas – Multimédia), terá lugar, de 17 a 23 de Março, o ciclo THEO ANGELOPOULOS - O ÚLTIMO MODERNISTA: O PASSADO COMO HISTÓRIA, O FUTURO COMO FORMA, dedicado à obra do cineasta grego, com três dos seus filmes das últimas duas décadas e a estreia da sua nova obra, A POEIRA DO TEMPO.

TEATRO DO CAMPO ALEGRE | (17 a 23 de Março)

O título do último filme de Theo Angelopoulos não podia adequar-se mais aos objectivos deste pequeno ciclo que agora lhe dedicamos. “A Poeira do Tempo”, assim se intitula, e corporiza, logo ali no título, uma espécie de enunciado programático daquilo que é fundamental no seu cinema: o tempo.

18 Março, O OLHAR DE ULISSES (1994) | 19 Março, A ETERNIDADE E UM DIA (1998)
20  a 23 Março, A POEIRA DO TEMPO (2008)

 quarta-feira, 23 de Março, A POEIRA DO TEMPO
 (sessão das 22h seguida de debate com Fernando José Pereira e João Paulo Sousa)

Horário das sessões: 18h30 e 22h (excepto 22 Março, só 18h30)

quarta-feira, março 16, 2011

Para que serve a Literatura?, Antoine Compagnon [trad. José Domingues de Almeida]






Antoine Compagnon, autor de La Seconde Main Ou Le Travail De La CitationLe Demon De La Theorie: Litterature Et Sens Commun e Les Cinq Paradoxes De La Modernité, apenas para referir os mais conhecidos, conhece agora uma tradução portuguesa,  resultante de uma parceria da Deriva Editores com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto. 

O livro em causa  é Aula Inaugural no Collège de France - La Littérature, Pour Quoi Faire ? -  Para que serve a Literatura?, com tradução de  José Domingues de Almeida ).  Um ensaio essencial que problematiza o espaço e o valor da literatura hoje.


    


 As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.
Na  Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos).
Na Cassiopeia, que já acolheu  um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.

terça-feira, março 15, 2011

Bailias, de Catarina Nunes de Almeida


 «Catarina Nunes de Almeida lembra e recria, neste seu terceiro livro, as medievais cantigas de amigo e de amor. Imaginário de música e cantos de segréis, trovas de poetas e memoráveis danças de donzelas de corpos finos. Nos ecos dessas seroadas segura a música do seu universo poético, que cerziu a mulher à natureza e dessa ligação fez nascer íntimos catálogos de pássaros, árvores e frutos, novos espaços de idioma, pelejas, sínteses e fábulas. Move-se, com passo seguro, do antigo para o novo e do novo para o antigo, com a graciosidade e o assombro das bailadas, entre ‘Folguedos e Noites de Pastoreio’, ‘Barcarolas ou Manhãs Frias’, ‘Mágoas ou Cantos de Alvoroço’ e ‘Cantigas de Romãzeira’. Volta, com Bailias, a colocar a poesia no seu primordial lugar de cântico: «Irei eu em todas as minhas mãos / pégasos e ventanias / o corpo preso por um frio gentil / o corpo a tilintar de sonhos. // Serei eu o que ele for / na cavalgada». 


O único maremoto de que há memória

aconteceu nos teus cabelos que hoje são lisos
e deixam a água pelos tornozelos
até ser de manhã.

Agora até a terra passou.
Cruzam-se valsas e expedições na curva do seio
a música não cabe na boca das aves

e nós, meninas, bailaremos i.


***

Meu amigo perdoa-me
se espantei as gazelas
para um canto do sótão
se me cresceram músculos
neste olhar-te neste cuidar que dá cuidado.

Mas do alto dos seios
no ruir das lamparinas
vale a pena olhar-te. Daqui
da mais sincera pobreza
onde permaneces apenas tu
adão e erva
e o céu manchado pelas libelinhas.

Catarina Nunes de Almeida, in Bailias

domingo, março 13, 2011

12 de Março


Foto da ATTAC
Se há lições a tomar das manifs de todo o país das gerações à rasca foi a inovação no assomo da palavra política despojada de qualquer arrogância ou manipulação, a liberdade assumida em todos os cartazes feitos à pressa e a enorme criatividade surgida nas palavras de ordem. O «microfone aberto» da Praça da Batalha e, mais tarde, dos Aliados, foi uma verdadeira prova de democracia não muito habitual nos tempos que correm. Foi igualmente um acto de coragem dos organizadores a que a população aderiu totalmente e que soube retribuir na rua. No dia seguinte a 12 de Março, ficou patente a ineficácia das colagens partidárias, a sua incompreensão total do fenómeno popular de protesto e também a sobranceria e por vezes o insulto de grande parte dos «comentadores» políticos aninhados nos media. Foi uma jornada de grande participação popular. A partir de hoje, a política não será mais igual.

O Teatro e a Palavra. TEatroensaio 26 de Fevereiro de 2011

Na sequência do estudo iniciado perante o tema O Teatro e a Palavra foquei-me na palavra enquanto expressão máxima da literatura. Não é de modo nenhum a expressão mínima desse mesmo género enquadrando-a, a expressão, no campo da letra e do silêncio fragmentado. Do espaço em branco da página ou do silêncio. É uma forma igualmente legítima de se compreender a sua relação com o teatro.


Assim, somei vários fragmentos em forma de dúvidas que passam pela relação, por vezes ambígua, do Teatro e da Literatura.

Comecemos pela literatura, pela poesia, pela palavra escrita e com a sua mais que possível morte a partir da cacofonia dadaísta, da expressão livre do surrealismo, da arte pop, do letrismo dos anos cinquenta (actualmente Serralves conta com uma exposição de Gil Wolman) ou do primitivismo dos anos sessenta. Todas estas correntes aceleraram a impossibilidade de um critério artístico para a literatura como arte. Digamos que morreu de cansaço ou de falta de superação da sua própria ideia de arte.

Resta-nos, pois, a experiência com a palavra e com o corpo, terreno fértil e aberto para o teatro e a literatura. E aqui surgem-nos dúvidas, por vezes fragmentárias, que teremos todo o gosto em partilhar convosco:

1. Toda a utopia ditatorial ou controlo ideológico passa, hoje, não pela proibição da palavra e do livro e da leitura, mas pela estimulação da leitura até à paranóia, que serviria de preâmbulo para o seu desaparecimento material. Compreendem-se, assim, as campanhas orquestradas para o fomento da leitura dos nossos jovens. A sociedade de mercado fará o resto. Somos todos possíveis compradores de livros, mas razoavelmente poucos o que estão interessados em lê-los.

2. A produção de infa-livros ou sub-livros é consequência da cópia fragmentária do livro e de partes do livro na era da internet. Introduz-se a cópia dos livros de um modo fragmentário retirando-lhe qualquer sentido ou dando o sentido totalitário às palavras que se querem copiar. A palavra ressentir-se-á assim do sentido que se lhe quer dar.

3. Mac Luhan definiu a Era Xerox como a possibilidade enganosa de todos podermos ser Gutenberg. Hoje a produção da palavra escrita estará confiada não ao artesão que a fabrica diligentemente, mas às massas que a desventram, jogando o papel de estranhos autores e editores de compostos de letras. Vê-se aqui a consequência da grande eficácia democratizadora e populista da produção da palavra escrita.

4. O embaratecimento e a acessibilidade absoluta a um meio, determina no próprio nível dos conteúdos o fenómeno volumoso de uma fraude, ou seja, a filosofia do engano intelectual instaurada quer nas salas académicas, quer nas populares. Perante isso, o copyright, sofreu um desprezo absoluto a que nenhum controlo pode estar submetido.

5. A poesia sofre hoje um processo de saturação, a qual está em grande parte submetida à aniquilação transcendental e totalmente fracassada no que seria a sua determinação social, segundo Walter Benjamim, quando diz que ‘o poeta actual faz do mercado e da mercadoria o seu único objecto’. Ou seja, configura o mundo da palavra sob o imperativo novo de uma pura razão industrial, mesmo que não esteja inteiramente consciente disso.

6. Hoje, atravessa na poesia e na produção da palavra escrita, aquilo que Greil Marcus, em Marcas de Batom, diz sobre o sujeito moderno: ‘o rumo de uma negação e destruição que, de um modo ininterruptamente acelerado, se está a apoderar de todas as formas de criação artística’ considerando-o este um processo irreversível de violência simbólica e que vem actuando sob as formas de uma possível vanguarda.

7. Dentro do mercado da poesia, um facto material evidencia o desinteresse activo pela obra de hoje, chegando este a mostrar-se de modo obsceno na quantificação das tiragens que os nossos poetas conhecem, incluindo os mais célebres. (…) Segundo G. Zaid, afirma que as estatísticas depressoras que o livre comércio procura dizem-nos que, apesar de a poesia ser já só para poetas, nem os poetas lêem os poetas. Neste terreno, o número dos que a lêem já não pode aumentar mais, mas sim os que querem ser lidos.

8. Como diriam os situacionistas, no fim dos anos 60, ‘os dias dos poetas acabaram’ concedendo actualidade a Hegel quando afirmava que ter-se-ia liquidado a produção simbólica no seu sentido mais forte. A arte verbal, começaria assim a ser ‘coisa do passado entre nós’. No que respeita à construção teórica e filosófica do sentido da palavra, há que dizer que dela ainda surge como um último baluarte para evitar a sua erosão, tornando possível a existência da palavra como um idioma poético, assumindo, em forma de drama (teatral, portanto) o conflito que ela abre: poesia pois, mas apenas na condição de servir para revelar o fracasso de toda a poesia. Se assim é, o teatro abre-se como verdadeiro espaço de assunção de uma palavra poética livre e para ser ‘ouvida’. Como lemos em Fin de Parti de Beckett, já não há muito a temer, mas também nada a esperar. Não há lugar para o temor, mas muito menos para a esperança.

9. Quem hoje morre como poeta pode estar certo de experimentar a ressurreição próxima como romancista, ou como uma espécie de qualquer comunicador de ondas hertezianas, em que se solicitam usos mais discretos e rebaixados do instrumento linguístico. Segundo Fernando de la Flor, o poeta rejeita o seu velho ofício, fechando a loja das musas e aderindo a novas formas mediológicas de modo a não perecerem, demonstrando que hoje há maus tempos para a mitologia da palavra.

10. É possível que hoje se esteja a criar uma cultura inteiramente independente da palavra, facto que poderá ainda assombrar algumas consciências. A palavra estaria submetida a uma pressão social que a re-situa continuamente, chegando mesmo a prescindir dela, a desprezá-la ou degradá-la, substituindo-a, nas suas funções por outros signos mais rápidos ao ouvido, à retina. Assim é possível que Mac Luhan tivesse razão ao demonstrar que as tecnologias mediadoras são o princípio de tudo. O declínio da poesia está portanto dependente à sua comunicabilidade. Como afirmou Karl Marx em, A Ideologia Alemã, a grande poesia épica foi a primeira vítima da imprensa e da máquina de escrever.

11. A palavra poética sujeita-se assim, estritamente, ao processo de coisificação, de objectualização e até de mercantilização de todo o espaço humano.

12. A poesia já não é expressão da radical alteridade do falante, nem acto de uma qualquer natureza rebelde. Pelo contrário, domesticou-se. O poeta entra no mercado comunicacional valendo-se de versos que não lhe pertencem na verdade, integrando-se num gigantesco processo que visa a hegemonização dos homens e das mercadorias. A literatura não foge a este processo.

13. Segundo Fernando de la Flor, a necessidade de silêncio é o reverso da superprodução inflacionista, a velocidade de execução crescente e cada dia menos exigente, a circulação acelerada pelos canais de informação provocou, nas pessoas, uma grande necessidade de silêncio e recolhimento, produto da saturação com que se manifestam as escritas poéticas do século. Produto também da fartura dos signos modernos que já fazia gritar os dadaístas: «devolvam-me o meu vazio!»

14. Os computadores pessoais são criadores de um embuste que todos constatam enganadoramente: ‘desde a sua aparição, escreve-se mais». Segundo Blanchot, por vezes, o volume ainda não está escrito e o escritor já é apresentado como maduro. A edição de poesia, nos nossos dias, mais do que noutros registos, é completamente fantasmal: publica-se, pois, antes de escrever, o público forma e transmite o que não ouve, o crítico julga e define o que não lê e, por último, o leitor tem de ler o que ainda não está escrito.

15. A música é, nos nossos dias, o código que actua no estrato mais profundo e tornou-se emblema dos modos de percepção estética do indivíduo moderno. Do mesmo modo que a palavra foi, em tempos, testemunho de um culto sagrado. A recente vitória da imagem e que alguns teóricos antecipam já o fim do seu reinado ao mesmo tempo que antevêem um certo regresso à palavra, pode restabelecer um certo equilíbrio destinado ao teatro como expressão de uma totalidade. Fragmentária ou não, a realidade do teatro pode ter uma nova dimensão. Se Lledó tem razão o teatro seria então a convocação dos invisíveis espaços interiores, através da poesia, da leitura, da escrita e do sonho onde, diríamos nós a imagem e a música teriam de expandir-se.

16. Deleuze reafirma alguma verdade na sua afirmação: «hoje, estamos inundados de palavras inúteis, de quantidades ingentes de palavras e imagens. A estupidez nunca é muda e cega. O problema não consiste em conseguir que as pessoas se expressem, mas sim em colocar à sua disposição vácuos de solidão e silêncio a partir dos quais se pudessem vir a ter algo a dizer. As forças repressivas não impedem ninguém de se expressar, pelo contrário, forçam-nos a expressarmo-nos.»

17. Finalmente, o livro, os livros, provam que algo foi escrito, e que também algo está em vias de ser lido. No fundo, trata-se não de um objecto mas sim de um domínio de intenções: de um campo, ou melhor, teatro onde se assiste a uma complexa encenação, onde se representa esse mesmo conjunto inabarcável de relações de leitura e escrita. Possibilidades infinitas para a representação teatral como realidade mediada da palavra.

sexta-feira, março 11, 2011

Actualidade: A Intoxicação Linguística e Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano


"A manipulação dirige-se ao pensamento, aos sentimentos, às acções (e omissões) de toda e qualquer pessoa. Da esfera íntima até à apresentação pública no trabalho, na escola ou na política, não sobra um único aspecto, uma única dimensão da vida que dela não receba a influência. O objectivo final da manipulação é a obtenção da passividade e da submissão. A manipulação das mentes é uma guerra psicológica planificada, elaborada a partir de conhecimentos científicos, contra o desenvolvimento progressista, isto é, solidário e cooperativo do ser humano ou, o que é a mesma coisa, orientada contra o progresso social" in  A Formação da Mentalidade Submissa, de Vicente Romano


A imprensa, a rádio e a televisão baseiam-se na repetição. A melhor ilustração desta circunstância é o ritual da televisão, uma vez que requer a visão e a audição, forçando os espectadores à postura sentada, enquanto a rádio e a imprensa lhe permitem liberdade de movimentos. Esta porque pode suspender-se e retomar-se noutro momento, a rádio porque a recepção da sua mensagem depende apenas do ouvido. Do ponto de vista da transmissão, a rádio é o meio mais rápido. As suas mensagens podem difundir-se praticamente a qualquer momento e, com a ajuda da telefonia, em praticamente todos os lugares. 

Também aqui, porém, o império dos prazos e da imediaticidade existe, elaborado a partir do ritual horário e de calendário que o interpreta, à semelhança do que sucede com os outros meios. E, onde há interpretação há clero, quer seja religioso quer profano. É ele quem decide o que pode ouvir-se, ler-se ou ver-se a que dias e a que horas. Actualmente, pode observar-se como a televisão estatal se molda e inclusivamente antecipa a concorrência comercial da televisão privada, desbragando a linguagem e reduzindo os programas de conteúdo cognitivo em favor das compensações emocionais ou, pelo menos, atirando-os para horas de escassa audiência. 

A minuciosa coacção dos prazos educa para a fugacidade da percepção. A brecha entre o electronicamente perceptível e o que fica registado em papel aumenta dia a dia. É preciso questionar se aquilo que os olhos vêem é fiável, pois desde Aristóteles que se acredita que ver é saber. A redução sucessiva da linguagem transformada num mero código de sinais ominosos, aumenta, claro está, a velocidade da transmissão. Mas a comunicação à velocidade de relâmpago de insinuações binárias, de símbolos positivos e negativos, não passa de um código que nada tem já a ver com a pugna pela expressão humana através da linguagem.  in  A Intoxicação Linguística, de Vicente Romano

quinta-feira, março 10, 2011

Correntes d'Escritas, Correntes de afectos

"Luís Catarino é editor da Deriva e trouxe este ano o escritor argentino Ricardo Romero. Para o editor, o Correntes d’Escritas é uma “festa” onde editores trazem os escritores por ser um lugar onde “eles se sentem bem”. Apesar de ser aberto a qualquer pessoa, “cada vez mais é um encontro para a comunidade literária, mas há uma relação com o público do Correntes, que vem cá todos os anos”.
[...]
O editor Luís Catarino relembra encontros que tiveram consequências para além do Correntes. “O último livro editado do Ricardo [Romero] nasceu aqui. Chegou ao pé de mim uma tradutora, a Patrícia, que disse "é o editor que eu esperava encontrar para propor dois escritores argentinos”, conta-nos. Para Luís Catarino, o encontro é também especial pelas “conversas que para lá das mesas existem aqui e ali”. escritor argentino, Ricardo Romero, resume estes dias: “que linda é esta vida!” Estivemos lá e comprovamos: são dias únicos, estes que levam as pessoas a enraizarem-se na Póvoa e quererem voltar todos os anos, para rever amigos, aprender mais e levar um pouco disso tudo para a sua vida no resto do ano." [Jornal Universitário do Porto]
Ler na íntegra aqui.

A DERIVA nas Correntes : Diário Digital(I) e Diário Digital (II); Jornalismo Porto Net, ABC.

O fascismo pós-moderno como (auto)mobilização total | Santiago López-Petit

O fascismo pós-moderno como (auto)mobilização total

Ainda que seja difícil aceitá-lo: dizer o que hoje sucede é dizer aquilo que nos sucede. As antigas análises de conjuntura já não nos falam porque nos afundámos na realidade. Ao invés, uma descrição da neve é-nos bem mais útil para sabermos onde estamos. A neve não é branca, mas antes de uma sujidade pegajosa. Os pés que nela se arrastam, por exemplo, não conseguem livrar-se dela. A neve está sempre meia submersa. Desde quando é verdade que a verdade do mundo se nos impõe como a nossa única verdade? A resposta é simples. Desde que a realidade se unificou com o capitalismo. Antes não era assim. Dantes, quando as análises de conjuntura contavam — ou pelo menos quando acreditávamos que sim — a realidade podia transformar-se. Agora também: «Outro mundo é possível». É isso o que as Organizações Não-Governamentais (ONG) afirmam. Foi isso que meio milhão de pessoas afi rmou no dia 16 de Março de 2002, saindo à rua em manifestação contra a Cimeira da União Europeia (UE) reunida em Barcelona. A manifestação foi um êxito. Graças aos numerosos serviços de ordem, perfeitamente coordenados com a polícia através dos telemóveis, correu tudo muito bem. Todos concordaram com isso. Desde o Senhor Ministro do Interior até aos anizadores, passando pelos diversos tipos de polícias.

Com efeito, a manifestação foi um êxito. Mas a manifestação pareceu-se com um funeral. Todos juntos, a avançar, sem conseguirem que a neve derretesse, sequer, um pouco mais. Cada qual sozinho — com a sua história pessoal, os seus desejos, as suas pequenas esperanças — juntamente com todos os outros. Esta manifestação, para muitos, histórica, é o fascismo pós-moderno. Vou à manifestação porque quero ir. Gritarei: «Outro mundo é possível». Voltarei para casa e continuarei a minha vida de sempre. É evidente que ninguém me obriga a participar. Só faltava isso. Eu sou livre. Eis o fascismo pós-moderno. E, ainda assim, os partidos políticos e os sindicatos de classe foram os últimos a desfilar. E, cansados de esperar, já que não estão acostumados a esperar… decidiram ir para casa. O fascismo pós-moderno é uma mobilização total da vida1 que (re)produz a realidade que se nos impõe como óbvia. Não tem nada a ver com a «auto-implicação no trabalho», «com o pôr a trabalhar» dos afectos… Essa ainda é uma análise economicista. Aquilo que agora se passa é que o capital, enquanto selbstzweckmaschine (máquina que tem a sua finalidade em si mesma) cortou a circularidade da vida. É apenas por vivermos, mais exactamente por levarmos a vida que é a nossa, que (re)produzimos esta realidade que se nos apresenta como pura obviedade. Nos Estados Unidos tornou-se moda, especialmente depois de 11 de Setembro, implantar sob a pele um chip que diz quem se é. Desta forma, em qualquer circunstância, pode-se sempre ser perfeitamente identifi cado. É divertido. É como um piercing, mas mais moderno. É o fascismo pós-moderno. Não é necessário insistir muito para justifi car o porquê desta designação.
Estamos para além do panóptico e das suas múltiplas instituições disciplinares. Tampouco se trata somente de uma sociedade de controlo. O fascismo pós-moderno é a conjunção do (auto)controlo com a produção de diferença. Esta conjunção pode funcionar de modos diferentes, consoante se oriente para «projecto autónomo» ou bem como «imposição heterónoma». É daqui que decorre que a mobilização total da vida possua duas faces, ainda que complementares: a auto-mobilização (o Amor com maiúscula, a busca de si mesmo…) e a mobilização forçada (Estado penal, prisão…). Ficarmo-nos pela aproximação acima é totalmente insuficiente. O fascismo pós-moderno não é unicamente a descrição da modalidade actual de exercício do poder. No fascismo pós-moderno, para além disso, o capitalismo identifi ca-se com a realidade. Esta identificação implica o seu próprio rebentamento. Hoje, a realidade é única, mas diz-se de muitas maneiras. Estes modos de se dizer são as diversas formas históricas (neo-esclavagismo, fordismo, pós-fordismo), todas elas presentes na sua simultaneidade.
Na medida, em que o fascismo pós-moderno as contém a todas constitui a suaprópria culminação. Vejamos mais de perto o que quer dizer o termo culminação. Usualmente, conhece-se por pós-fordismo a etapa actual em que o capitalismo se dispersa e fl exibiliza. Para uma melhor descrição, é conveniente fazer referência à política da relação que o estrutura. A política da relação vigente neste período pode centrar-se no princípio da identidade. Quando o princípio da identidade funciona para dentro, gera uma cultura da empresa. Ao contrário, quando funciona para fora, gera uma cultura da emergência. Ainda que muito diversifi cada, a cultura da empresa tem no toyotismo a sua expressão mais acabada. O toyotismo, como é sabido, organiza a produção a partir de equipas de trabalho e funciona pela incorporação da linguagem da competição desportiva (equipas, passagens do testemunho…). O que nos interessa sublinhar é que esta organização aspira à criação de um nós, no local de trabalho. Um nós ou neo-corporativismo de pequena escala tal que, ainda assim, precisa de uma cultura da emergência e da excepcionalidade penal para controlar o de fora, o Outro. A cultura da emergência recorre à prisão como seu dispositivo fundamental. Existe uma legislação amplíssima, com todos os seus aparelhos que complementam e estendem esse controlo normalizador. Com razão se discute se o pós-fordismo é uma nova estabilização do fordismo, ou uma crise mais avançada. Utilizando a terminologia introduzida, poderíamos afirmar que essa ambiguidade deriva da não existência de um isomorfismo entre a cultura da empresa e a cultura da emergência. Por isso, o pós-fordismo tem obrigatoriamente que tender para a sociedade em rede. Na sociedade em rede o princípio de identidade funciona no interior do princípio da razão suficiente, o que permite uma reformulação das duas culturas que facilita a sua máxima convergência. A sociedade rede conectará entre si os segmentos mais dinâmicos da sociedade, ao mesmo tempo que os desconectará e  marginalizará. A sociedade-rede oferece um modo novo de resolver o afundamento da tríade democracia — Estado — capitalismo. Este novo modo que implica um verdadeiro salto por comparação com a mera convergência entre cultura da empresa e cultura da emergência, plasmar-se-á naquilo que anteriormente designámos por mobilização total (autónoma e heterónoma) da vida pelo óbvio. Pois bem, porque essa é a verdade da sociedade-rede, a esta etapa para que a sociedade tende chamámos fascismo pós-moderno. Neste sentido, o fascismo pós-moderno é, ao mesmo tempo, uma totalidade e a sua culminação.
            A MOBILIZAÇÃO GLOBAL seguido deO ESTADO-GUERRA , Santiago López-Petit

quarta-feira, março 09, 2011

Tempos de Peste, Tempo de ler a Peste Bubónica, de Ricardo Jorge




"No dia 4 de Julho de 1899, era Ricardo Jorge alertado para uns estranhos falecimentos ocorridos na Rua da Fonte Taurina.  Apesar de aparentarem ter sido causados por “moléstias banais”, uma visita pessoal do médico ao local deixou nele a convicção de “estar em frente dum foco epidémico de moléstia singular e nova”. A obra A peste bubónica no Porto recolhe os relatórios médicos redigidos por Ricardo Jorge entre Julho e Agosto desse ano e destinados exclusivamente às autoridades civis. Eles são escritos enquanto grassa a epidemia na cidade, dando conta da impressão causada no imediato pela sucessão dos acontecimentos. O estilo realista das observações realizadas, o registo minucioso das vicissitudes provocadas pela propagação da peste, as anotações acerca das circunstâncias da vida e da morte de cada infectado, contribuem para formar  uma descrição percuciente do prosaísmo da existência das classes populares nessa época. Por detrás das observações clínicas, Ricardo Jorge realiza uma autópsia social da cidade laboriosa. A distribuição geográfica da morte é sensível à morfologia social do Porto. A prospecção de terreno sobre as condições da doença constitui uma sociografia da vida de todos os dias das classes populares, mostrando impressas em letra de forma a luz, o cheiro, o ruído das suas condições de habitações, de alimentação, de trabalho." da introdução de Bruno Monteiro 
Ver mais aqui.

terça-feira, março 08, 2011

Enquanto a Ameaça na Antártida não chega, Perigo Vegetal, Rámon Cáride e Miguel Anxo Prado



Said e Sheila vivem, no ano 2075, no interior da Galiza, mas estão ligados em comunicação ao mundo global do passado. Uma gigantesca companhia transnacional, a C.U.B., tenta apoderar-se de todas as sementes de cereais existentes como parte de um plano para dominar toda a agricultura do planeta.

O Perigo Vegetal é apenas a primeira aventura destes dois corajosos irmãos.Ramón Caride escreveu e Miguelanxo Prado ilustrou.

 “Depois da colheita da planta, as raízes que ficam na terra sofrem uma mutação e originam esta planta destruidora. […] a única forma de a eliminar é arar muito fundo, a vários metros de profundidade, para eliminar todas as raízes e poder voltar a semear. Mas o processo é muito complexo, basta que fique uma raiz, por pequena que seja e regenera-se a praga.” in Perigo Vegetal

Perigo Vegetal  aborda, de uma forma simples, as consequências nefastas da monocultura e da manipulação genética, sem controlo e sem escrúpulos.

O comportamento das plantas geneticamente modificadas é diferente em laboratório e em vastas áreas. Se as plantas geneticamente modificadas tiverem um elevado poder de propagação elevado, as plantas convencionais podem vir a ser exterminadas. A biodiversidade fica em perigo. Com menor diversidade de espécies a vida na Terra torna-se mais sujeita a alterações ambientais. Pelo contrário, quanto mais rica é a diversidade biológica, maior é a oportunidade para descobertas no âmbito da medicina, da alimentação, do desenvolvimento económico, e de serem encontradas respostas adaptativas a essas alterações ambientais.

 

Plano Nacional de Leitura 

Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.



No blogue As aventuras de Sheila e Said são disponibilizados alguns recursos didácticos para auxiliar na exploração do texto.

Críticas

"Uma aventura para miúdos com dez anos ou mais, cujos protagonistas vivem na Galiza, no ano de 2075. Perigo Vegetal conta-nos como experiências com um super-cereal estão a pôr em perigo o planeta. Sheila e Said são dois irmãos que, do futuro, lançam alertas ecológicos para o passado. Uma espécie de diário a quatro mãos, que não deixa de transparecer as embirrações próprias dos manos adolescentes. Vindo da banda desenhada, o ilustrador Miguelanxo Prado cria um ambiente que se adequa bem à natureza do texto. Um tema pertinente." Rita Pimenta, Milfolhas, Público, 20.Dez.03

"Uma obra bem contada, divertida, actual, das que se lêem de uma só vez e fazem novos leitores para as aventuras que se seguem." Helena Pérez, Julho de 2002

segunda-feira, março 07, 2011

Para que serve a literatura?, de Antoine Compagnon [trad. José Domingues de Almeida ]

Para que serve a literatura?
Ao lado da questão teórica ou histórica tradicional: «O que é a literatura?», coloca-se hoje com maior premência uma questão crítica e política: «O que pode a literatura?», que valor a sociedade e a cultura contemporâneas atribuem à literatura? Que utilidade? Que papel? «A minha confiança no futuro da literatura, declarava Italo Calvino, assenta na certeza de que há coisas que só a literatura nos pode dar». Será este ainda o nosso credo? [Mais aqui]
Nascido em 1950, Antoine Compagnon ensinou na Sorbonne e na Universidade Columbia de Nova Iorque. É, desde 2006, Professor Catedrático de Literatura Francesa Moderna e Contemporânea: história, crítica, teoria no Collège de France. É nomeadamente o autor de La Troisième République des Lettres (1983), Les cinq Paradoxes de la Modernité (1990) e Les Antimodernes, de Joseph de Maistre à Roland Barthes (2005).


Outras  obras da colecção Pulsar:


 

domingo, março 06, 2011

O melhor sítio: "Nenhum Lugar", de Ricardo Romero




«O silêncio e a calma do deserto só eram interrompidos pelo chispar do seu isqueiro. Acendia-o e colocava-o em frente dos olhos esperando que o vento o apagasse. Quando o vento o apagava, voltava a acendê-lo e a chama elevava-se por um instante, vibrando na sua alaranjada transparência, até que a brisa o fazia desaparecer outra vez. «Talvez devesse comprar um cachimbo» – pensou Maurício, «dizem que é uma boa maneira de deixar de fumar». Isto era o que Maurício pensava. Entretanto, todo o deserto parecia estar à espera que o seu isqueiro ficasse sem gás. Nenhum Lugar, de Ricardo Romero

Comprar aqui.



MALMEQUERES. in Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes

MALMEQUERES


Vou omitir alguns factos da minha vida. A minha vida, aliás, não oferece o mínimo interesse. Caberia numa linha, se assim fosse imprescindível. O seu relato será sempre um exercício de redundância.

Vivia no Redondo ou no Alvito, numa dessas vilas brancas do Alentejo onde se amontoa o torpor e a inutilidade dos velhos. Desses tempos conservo na memória a cal e a imensidão do seu reflexo, como se atrás de nós nunca se devesse deixar nada, como se cada passo acarretasse a extinção forçosa de qualquer coisa. Morrera primeiro o meu pai. A doença levaria a minha mãe na Primavera seguinte. Cuidei dela até ao último dia, desafiando com frieza o seu olhar conturbado para me conseguir conter. A morte, o desaparecimento, talvez seja isso o que mais nos perturba quando, após caminharmos por um longo prado, nos detemos na orla de um bosque impenetrável. Abandonara o meu emprego em Lisboa e regressara ao Alentejo para tomar conta dos meus pais e ajudar na loja. Tratava-se de um estabelecimento comercial antiquado, pouco atraente, e a forte concorrência das grandes superfícies, primeiro, e depois dos chineses, retirou-lhe qualquer hipótese de sobrevivência. Não tinha mais família. Não tinha expectativas. Vendi a loja e a casa, paguei as dívidas e apanhei o avião para a América.

Creio que consegui ser conciso até agora. Mas estou consciente de que a síntese pode apenas ser uma desculpa, um mero expediente, pouco hábil, aliás, para evitar a repetição. Às vezes sinto que gostaria de ter outra vida para contar, uma existência com maior densidade factual, digamos, mas contrario esse sentimento ao constatar que, qualquer que fosse essa minha vida alternativa, seria idêntica a história de que disporia para contar. Isto conforta-me, não acaba com a tristeza e não desfaz as dúvidas, mas pacifica-me, contém-me, evita que dê largas a uma imaginação febril que tem tanto de inconsequente quanto de auto-destrutivo. Bem necessitei dela e bom uso lhe dei no momento de escolher um ramo de negócio para me estabelecer, aplicando o dinheiro que trouxera de Portugal. As metáforas não enganam, são até demasiadamente precisas. Na verdade descemos, procuramos as raízes e depois a terra, mas a vida leva-nos de subida pelas árvores, optando pelo ramo que nos parece mais seguro ou que nos deixa mais próximos de um ninho, de um favo de mel, de um fruto. A loja de tintas foi um êxito e o serviço de entregas que organizei, de tão eficiente, viria a ser copiado por todos os comerciantes da região. Casei, tive filhos, comprei um apartamento que mais tarde, quando me tornei um empresário abastado, troquei por uma vivenda nos subúrbios, onde a violência urbana e racial demorou a chegar. Comprei uma casa de madeira na margem de um rio, com um longo ancoradouro onde me sentava a pescar ou simplesmente a olhar para as estrelas, nas noites cálidas do Verão, enquanto ouvia as crianças a brincar e pensava que tudo poderia ter sido tão diferente.

A Portugal nunca voltei. Não mantive contactos com ninguém. Só a duas ou três pessoas confidenciei que vinha para a América, mas nunca escrevi a dar o meu endereço. Não tenho saudades. Na cidade onde vivo não há mais portugueses. Durante muito tempo considerei que se tratava de um factor vantajoso.

A Lúcia morreu há dois anos. Cuidaram bem dela no Lar. Apenas desligaram as máquinas quando se tornou de todo impossível iludir os funcionários da seguradora que vinham todos os meses averiguar a evolução do seu estado de saúde. Sabia que nada havia a fazer, que a recuperação estava fora de causa, mas quando estava junto dela, quando lhe tomava a mão era como se de novo a conhecesse e tivéssemos ainda todo o futuro pela frente.

Os meus filhos quiseram que fosse viver com eles, não estaria sozinho e ajudaria a criar os netos. Todavia, prefiro ficar por aqui. Há ainda coisas que esperam por mim. Saíram de casa muito cedo, os meus filhos, como é de costume na América. Telefonam de vez em quando e vêm pelo Natal, a meu pedido. Peço-lhes também que façam de conta que não existo, pois não pretendo incomodar ninguém com a sobrecarga da minha velhice. Gostava que tivessem uma vida plena. Para me entreter ajudo nas obras sociais da paróquia. É uma forma de me lembrar da Lúcia, de a prolongar em mim um pouco mais. Às vezes digo ao padre que acredito em Deus sem convicção. Ele pensa que gracejo e fico livre de explicações e de conversas difíceis.

Não é possível ficar indiferente a certas imagens. Tenho muito de bom na memória e guardo ainda muito mais na imaginação. Creio, contudo, que já falei de mim mais do que suficiente. Nos dias em que o desalento me desestabiliza dou longos passeios pelos prados das redondezas. Pergunto-me se fui digno da existência que tive, mas trata-se de uma questão retórica, à qual sei de antemão que vou responder positivamente. Porém, quando me pergunto se fui feliz não sou capaz de formular uma resposta convincente. Regresso então a casa, cansado, para me ocupar com qualquer coisa que me livre desse tormento. Nas ocasiões de maior pânico grito. Esbracejo e grito. Mas apenas consigo acalmar depois de arrancar, uma a uma, as pétalas de vários malmequeres. in  Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes

 
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sábado, março 05, 2011

OS AMEAÇADOS, in Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho


OS AMEAÇADOS


Os ameaçados calam-se. Concentram-se nas tripas e omitem, fingem não saber, olham para o lado. Sabem tudo, vêem tudo, regam teorias com o cuspo das palavras. Falam em demasia aquilo que calam.
Os ameaçados plagiam as horas com fintas cheias de estilo. Preferem votar à ignorância o que julgam estar ao seu alcance. Eles não entendem o quão rasteiras são as suas vidas, que aos répteis foi atribuído o dom de: arrastar o corpo sobre a própria porcaria. Envolvem tudo num véu discutível e dizem sim ao flash, para à mesa discutirem com a família o ângulo perfilado de medo.
Engraxam os sapatos, por isso sujam os dedos. Vestem o melhor fato, frequentam casas de chá, pedem uma cerveja ao fim da noite e suspiram por fim o desgosto de estarem tão sós no seu rasteiro caminho.
Gosto dos ameaçados, quem mais lembra a ditadura do esquecimento. Gosto de os ver perdidos como cães cegos focinhando contra a vaidade.
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sexta-feira, março 04, 2011

Magic Resort, de Florencia Abbate - nas livrarias


Numa profunda depressão, Max olha, no ecrã, as imagens do ataque às Torres Gémeas. Este jovem com um transtorno bipolar é o centro de uma constelação de personagens com que a autora, Florencia Abbate,  retoma a estrutura múltipla do seu primeiro romance El Grito, para traçar através de diversas perspectivas a cartografia íntima de um presente marcado pelo desenraizamento e pela tecnologia. Nas histórias destas personagens ressoa as inconstâncias do amor e impressão geracional da pós-adolescência. As viagens, os medos as ausências; vozes distintas e escritas que tocam a cadência poética e onírica e, por vezes, quase documental. Magic Resort passa-se entre o 11 de setembro de 2001 e o crash económico argentino de Dezembro de 2004, apresentando-nos um mundo comprimido pela redução das distâncias temporais e o incessante incremento da velocidade. Desde uma clínica psiquiátrica para jovens em Buenos Aires, até à crueldade da guerra na Faixa de Gaza, passando por Espanha das festas electrónicas e pelo tsunami nas costas asiáticas, o romance de Florencia Abbate submerge-nos num apaixonante imaginário «bipolar», que parte do universal ao íntimo e do colossal ao ínfimo.

Editoras: Independentes porquê? Porque fecham, porque resistem…


4 DE MARÇO | Editoras: Independentes porquê? Porque fecham, porque resistem…
Mesa-redonda e debate

Painel com: Júlio Henriques, Deriva Ed., Ed. Mortas, Ed. Antipáticas, Estaleiro Editora, Mula, Oficina do Cego, Oficina Arara


4 de Março, SEXTA-FEIRA, 21h30, Gato Vadio rua do Rosário 281


A consciência não pode render-se mais ao estado actual das coisas. Não é a soda-caústica que nos alimenta, ela apenas nos ajuda a tirar um mundo a limpo. Mundo, onde cada vez mais a nossa vontade de querer viver e de experimentar a aprendizagem colectiva de construir outro mundo não pode ter lugar. Contudo, a crítica não chega para nos deixar despertos. Estas Jornadas procuram o lugar que aos poucos se vai tecendo, são tão só mais um ponto de partida. Depois, a jornada continua.

Mais informações aqui.

Tertúlia "Nós somos o que lemos" - Livraria Leitura [Ceuta] - 5 de Março

Nós Somos o Que Lemos
com a presença de:Manuel António Pina
Rui Amaral
Manuel Jorge Marmelo
João Paulo Sousa
Miguel Miranda
moderação:António Costa
dia 5 de Março | 21.30 | Livraria Leitura, Rua de Ceuta

quinta-feira, março 03, 2011

Guias Sonoras e outras abrasivas, de João Pedro Mésseder - Já nas Livrarias



"Apesar de pouco dotados, certos homens guardam um grão de lucidez, a que basta para intuírem a inteligência de outros. Sentem-na, porém, como um insulto à sua própria cegueira. Dedicam-se então a cultivar um ódio surdo. Por vezes tornam-se ferozes."

quarta-feira, março 02, 2011

O conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)

Sabia que...
Podemos dinamizar uma actividade na sua escola e/ou biblioteca
 Pergunte-nos como....


[...] Da janela, observava aquela travessa de pessoas humildes, onde a sua família era a única de «gente remediada» - assim dizia a mãe - e por onde, ao fim da tarde, circulava um polícia gordo e pachorrento, com cara de tractor amolgado, a quem a garotada chamava «o Bigodes». Era também na rua, quase sem trânsito, que brincava e jogava à bola, com grande alarido, a miudagem das casas pobres. [...]  in O conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)


domingo, fevereiro 27, 2011

Pedro Eiras, no palco

Pedro Eiras e Renata Portas (imagem daqui)
Pedro Eiras, que na Deriva publicou Arrastar TintaUm Punhado de Terra, bem como organizou o livro de ensaio Jovens Ensaítas lêem  Jovens Poetas,  abriu  Correntes d’Escritas, no dia 19 de Fevereiro, com a peça Apalavrado, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim.
 O texto Pedro e Inês, uma comédia sobre a morte, da autoria de Pedro Eiras será, este ano, editado pela Deriva.
Pedro e Inês – 11 emendas e 1 estória. Emendas para salvar Inês – Inès, Agnes, Inese, Ineschka? Mas em boa verdade: acaso se pode emendar seja o que for? Ou apenas ler um anúncio de jornal, ouvir uma mensagem de despedida, desconfiar da estabilidade das cadeiras? O problema é o D. Afonso IV que está dentro de nós.
 

sábado, fevereiro 26, 2011

II Jornadas Galego-portuguesas de Edição Independente | Porto+Compostela/2011



A consciência não pode render-se mais ao estado actual das coisas. Não é a soda-caústica que nos alimenta, ela apenas nos ajuda a tirar um mundo a limpo. Mundo, onde cada vez mais a nossa vontade de querer viver e de experimentar a aprendizagem colectiva de construir outro mundo não pode ter lugar. Contudo, a crítica não chega para nos deixar despertos. Estas Jornadas procuram o lugar que aos poucos se vai tecendo, são tão só mais um ponto de partida. Depois, a jornada continua.
2 DE MARÇO | Abertura das Jornadas

Decrescimento, Crise, Capitalismo,  Palestra e Debate com Carlos Taibo (Prof. U. Autónoma de Madrid/Ensaísta)

2 de Março, quarta-feira, 18h, ESMAE – rua da Alegria 503



3 DE MARÇOO Estado de Excepção não-declarado + Controlo Social e Criminalização
Com Rui Pereira (Jornalista/Professor) + Painel de Testemunhos

3 de Março, Quinta-feira, 18h, ESMAE – rua da Alegria 503

+

Sementes Livres, Transgénicos e o Monopólio da Indústria Agro-alimentar - Debate com Margarida Silva (prof./investigadora), João Torres (biólogo/investigador)


3 de Março, Quinta-feira, 21H30, Gato Vadio rua do Rosário 281

4 DE MARÇO | Editoras: Independentes porquê? Porque fecham, porque resistem…
Mesa-redonda e debate

4 de Março, SEXTA-FEIRA, 21h30, Gato Vadio rua do Rosário 281

Painel com: Júlio Henriques, Deriva Ed., Ed. Mortas, Ed. Antipáticas, Estaleiro Editora, Mula, Oficina do Cego, Oficina Arara

5 DE MARÇO | Ritmos de Resistência, Ensaio Público

5 de Março, sábado, 14h, Jardins do Palácio de Cristal

Projecto Indymedia, 5 de Março, sábado, 15h, Gato Vadio

Oficina de Fanzines – Como fazer uma zine? (1ª parte), 5 de Março, sábado, 15h30, Gato Vadio

O que é uma crítica dos media? - Oficina de autodefesa, Com Rui Pereira (Jornalista/Professor)

5 de Março, sábado, 17h00, Gato Vadio

6 DE MARÇO | “Ser ecológico" numa era pós-industrial e em plena globalização
Oficina com Pedro Jorge Pereira (activista e formador eco-social)

6 de Março, domingo, 15h Gato Vadio

Ritmos de Resistência PROJECTO + DOC | 6 de Março, domingo, 17h, Gato Vadio

Oficina de Fanzines – Como fazer uma zine? (2ª parte), 6 de Março, domingo, 17h30, Gato Vadio
Acções da Soda-Caústica

Hoje, sábado, 26 de Fevereiro, pelas 21:30, O Teatro e a Palavra, no Cace Cultural do Porto, 1ª conferência do ano do TEatroensaio

sábado, 26 de Fevereiro de 2011, 21h30
entrada livre
Cace Cultural do Porto (estacionamento gratuito)
Rua do Freixo, 1071 (antiga central eléctrica do Freixo)

O TEatroensaio apresenta a primeira conferência de 2011, "O Teatro e a Palavra".

Introduzindo o tema anual de trabalho da companhia, o TEatroensaio começa assim um novo ciclo de conferências.

Partindo da ferramenta base do teatro, a palavra, propomo-nos a procurar novas pontes e direcções para esta relação directa, mas nem por isso evidente.

Oradores Convidados:

António Durães - Actor e Encenador

Jorge Deserto - Docente FLUP

António Luís Catarino - Professor, Director Editora Deriva

Pedro Estorninho - Encenador e Dramaturgo, Director Artístico TEatroensaio

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho





Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho
   "Querido poeta que te queixas das contas por pagar: rescinde os contratos. Nas aldeias abandonadas do interior há casas com poços e terrenos por cultivar. Cria galinhas, poemas que ponham ovos, um ou dois porcos, uma pocilga de poemas. Ainda há peixe para pescar, passarinhos por carpir. Levaram-te as asas? Borda asas de ferro nos ossos, deixa que lhes chova para cima até ficarem ferrugem, ri da pobreza. Não esperes pelos cossacos. Mete um STOP no queixume enquanto aqueces a sopinha instantânea ao microondas. Afinal, para que queres um telefone se a solidão não te lamenta? Queres telefonar à solidão ou esperas que ela te ligue?
   Querido poeta, não vês que para escutares o teu Bach no iPod é fundamental haver quem invente o iPod, é preciso Bach e quem o distribua pelos ouvidos dos surdos, são precisos balcões abertos e caixas registadoras. Afinal de que te queixas? Segue o exemplo de tantos dos teus pares e mata-te, abdica, dedica-te à mendicidade. Ou será que tens medo dos becos escuros da cidade? Afinal o que resta em ti de poeta?
   És já só a vergonha de um sonho por cumprir, um sonho de vida literária, um amigo das cavernas discursivas, tens a lábia de quem mete conversa e atira contra o espelho o cuspo venenoso da vaidade, queres-te encapado, esterilizado na lombada, consolado no autógrafo, sonhas com mulheres lindas levantando-se a teus pés, és a contraprova da poesia, nada do que resta em ti é já poesia porque tudo o que em ti resta é, afinal, uma ausência confrangedora de coragem, as franjas duma dor sem nervo, o tremor da desconfiança, um palanque, recitais, um queixume do que afinal pretendias sem vontade para tanto.
   Sai de casa, faz-te à estrada, segue o exemplo. Mata-te. Querido poeta que te queixas da sociedade, por que te ligas à sociedade através de uma rede sem fios? "

Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho 


Ricardo Romero nas Correntes d'Escritas 2011



Ricardo Romero nas Correntes d'Escritas 2011.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Apresentação de "Nenhum Lugar", de Ricardo Romero, nas Correntes d'Escritas


Ricardo Romero participa amanhã na 3.ª mesa de Correntes d'Escritas  -“A minha arte é uma espécie de pacto”, moderada por Rui Zink. Depois, às 17:00, apresentação se Nenhum Lugar na Casa da Juventude. 


Ricardo Romero nasceu, em 1976, no Paraná, Entre Ríos, na Argentina. É licenciado em Letras Modernas pela Universidade Nacional de Córdova e, desde 2002, vive em Buenos Aires. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, Ninguna Parte (Nenhum Lugar, nesta edição que a Deriva Editores agora publica) e, a partir desse mesmo ano, dirigiu a revista Oliverio. No ano de 2006 publicou o seu primeiro livro de contos, Tantas noches como sean necesarias. Em 2007, vários dos seus contos foram editados em diversas antologias dedicadas aos novos autores argentinos. Em 2008, publicou o romance El síndrome de Rasputín, primeira parte do que chama a sua «Ticlogía». A segunda parte desta saga, Los bailarines del fin del mundo, foi publicada em 2009. É igualmente editor da Gárgola Ediciones, onde dirige a colecção “Laura Palmer no ha muerto” e de Negro Absoluto, colecção de policiais dirigida por Juan Sasturain. Desde 2006, é um dos integrantes de El Quinteto de la Muerte, grupo com o qual editou este ano os livros5 (La Propia Cantonera, Uruguai) e La fiesta de la narrativa (Editorial Una Ventana, Buenos Aires). Coordena a Taller de Algo juntamente com Federico Levín. Em Março de 2011, a Editorial Norma publicará o seu romance Perros de la Lluvia.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Chega de Fado, de Paulo Kellerman

"Chega de Fado", o quarto livro de contos de Paulo Kellerman editado pela Deriva, representa a consolidação do percurso discreto mas sólido, e em diversos aspectos ímpar, que este escritor tem vindo a desenvolver. Explorando ao máximo as potencialidade na narrativa breve e marcado por uma construção original. Chega de Fado é um livro habitado por vinte personagens que, unidas em duplas, compõem dez “capítulos” que o formam; em cada um destes “capítulos” (verdadeiros esquissos de potenciais romances), as estórias vão-se sucedendo sob diversas formas narrativas (contos, micro-narrativas, diálogos dramáticos) e evoluindo ou desenvoluindo até à inevitável, e por vezes inconsequente, confrontação total.

Desta multiplicidade de estórias, formatos e vozes nasce uma radiografia desapaixonada e incisiva do quotidiano, um retrato cru dos gestos e dos silêncios, das banalidades e das frustrações, das esperanças e dos secretismos que atravessam as relações e caracterizam a precariedade e imprevisibilidade dos comportamentos e sentimentos de todos nós. Numa escrita elegante e sensível, Paulo Kellerman compõe ambientes urbanos e impessoais perpassados pela omnipresença da incomunicação e da melancolia, ambientes sombrios povoados por seres ávidos de intimidade e compreensão mas incapazes de alcançar uma qualquer forma de felicidade, mesmo que transitória. Ambientes saturados de pessimismo e desânimo, de apatia e solidão, de impotência, de desconforto existencial; até que alguém se insurge e grita chega de repetição e passividade monotonia, chega de lamúria; chega de fado.