segunda-feira, março 07, 2011

Para que serve a literatura?, de Antoine Compagnon [trad. José Domingues de Almeida ]

Para que serve a literatura?
Ao lado da questão teórica ou histórica tradicional: «O que é a literatura?», coloca-se hoje com maior premência uma questão crítica e política: «O que pode a literatura?», que valor a sociedade e a cultura contemporâneas atribuem à literatura? Que utilidade? Que papel? «A minha confiança no futuro da literatura, declarava Italo Calvino, assenta na certeza de que há coisas que só a literatura nos pode dar». Será este ainda o nosso credo? [Mais aqui]
Nascido em 1950, Antoine Compagnon ensinou na Sorbonne e na Universidade Columbia de Nova Iorque. É, desde 2006, Professor Catedrático de Literatura Francesa Moderna e Contemporânea: história, crítica, teoria no Collège de France. É nomeadamente o autor de La Troisième République des Lettres (1983), Les cinq Paradoxes de la Modernité (1990) e Les Antimodernes, de Joseph de Maistre à Roland Barthes (2005).


Outras  obras da colecção Pulsar:


 

domingo, março 06, 2011

O melhor sítio: "Nenhum Lugar", de Ricardo Romero




«O silêncio e a calma do deserto só eram interrompidos pelo chispar do seu isqueiro. Acendia-o e colocava-o em frente dos olhos esperando que o vento o apagasse. Quando o vento o apagava, voltava a acendê-lo e a chama elevava-se por um instante, vibrando na sua alaranjada transparência, até que a brisa o fazia desaparecer outra vez. «Talvez devesse comprar um cachimbo» – pensou Maurício, «dizem que é uma boa maneira de deixar de fumar». Isto era o que Maurício pensava. Entretanto, todo o deserto parecia estar à espera que o seu isqueiro ficasse sem gás. Nenhum Lugar, de Ricardo Romero

Comprar aqui.



MALMEQUERES. in Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes

MALMEQUERES


Vou omitir alguns factos da minha vida. A minha vida, aliás, não oferece o mínimo interesse. Caberia numa linha, se assim fosse imprescindível. O seu relato será sempre um exercício de redundância.

Vivia no Redondo ou no Alvito, numa dessas vilas brancas do Alentejo onde se amontoa o torpor e a inutilidade dos velhos. Desses tempos conservo na memória a cal e a imensidão do seu reflexo, como se atrás de nós nunca se devesse deixar nada, como se cada passo acarretasse a extinção forçosa de qualquer coisa. Morrera primeiro o meu pai. A doença levaria a minha mãe na Primavera seguinte. Cuidei dela até ao último dia, desafiando com frieza o seu olhar conturbado para me conseguir conter. A morte, o desaparecimento, talvez seja isso o que mais nos perturba quando, após caminharmos por um longo prado, nos detemos na orla de um bosque impenetrável. Abandonara o meu emprego em Lisboa e regressara ao Alentejo para tomar conta dos meus pais e ajudar na loja. Tratava-se de um estabelecimento comercial antiquado, pouco atraente, e a forte concorrência das grandes superfícies, primeiro, e depois dos chineses, retirou-lhe qualquer hipótese de sobrevivência. Não tinha mais família. Não tinha expectativas. Vendi a loja e a casa, paguei as dívidas e apanhei o avião para a América.

Creio que consegui ser conciso até agora. Mas estou consciente de que a síntese pode apenas ser uma desculpa, um mero expediente, pouco hábil, aliás, para evitar a repetição. Às vezes sinto que gostaria de ter outra vida para contar, uma existência com maior densidade factual, digamos, mas contrario esse sentimento ao constatar que, qualquer que fosse essa minha vida alternativa, seria idêntica a história de que disporia para contar. Isto conforta-me, não acaba com a tristeza e não desfaz as dúvidas, mas pacifica-me, contém-me, evita que dê largas a uma imaginação febril que tem tanto de inconsequente quanto de auto-destrutivo. Bem necessitei dela e bom uso lhe dei no momento de escolher um ramo de negócio para me estabelecer, aplicando o dinheiro que trouxera de Portugal. As metáforas não enganam, são até demasiadamente precisas. Na verdade descemos, procuramos as raízes e depois a terra, mas a vida leva-nos de subida pelas árvores, optando pelo ramo que nos parece mais seguro ou que nos deixa mais próximos de um ninho, de um favo de mel, de um fruto. A loja de tintas foi um êxito e o serviço de entregas que organizei, de tão eficiente, viria a ser copiado por todos os comerciantes da região. Casei, tive filhos, comprei um apartamento que mais tarde, quando me tornei um empresário abastado, troquei por uma vivenda nos subúrbios, onde a violência urbana e racial demorou a chegar. Comprei uma casa de madeira na margem de um rio, com um longo ancoradouro onde me sentava a pescar ou simplesmente a olhar para as estrelas, nas noites cálidas do Verão, enquanto ouvia as crianças a brincar e pensava que tudo poderia ter sido tão diferente.

A Portugal nunca voltei. Não mantive contactos com ninguém. Só a duas ou três pessoas confidenciei que vinha para a América, mas nunca escrevi a dar o meu endereço. Não tenho saudades. Na cidade onde vivo não há mais portugueses. Durante muito tempo considerei que se tratava de um factor vantajoso.

A Lúcia morreu há dois anos. Cuidaram bem dela no Lar. Apenas desligaram as máquinas quando se tornou de todo impossível iludir os funcionários da seguradora que vinham todos os meses averiguar a evolução do seu estado de saúde. Sabia que nada havia a fazer, que a recuperação estava fora de causa, mas quando estava junto dela, quando lhe tomava a mão era como se de novo a conhecesse e tivéssemos ainda todo o futuro pela frente.

Os meus filhos quiseram que fosse viver com eles, não estaria sozinho e ajudaria a criar os netos. Todavia, prefiro ficar por aqui. Há ainda coisas que esperam por mim. Saíram de casa muito cedo, os meus filhos, como é de costume na América. Telefonam de vez em quando e vêm pelo Natal, a meu pedido. Peço-lhes também que façam de conta que não existo, pois não pretendo incomodar ninguém com a sobrecarga da minha velhice. Gostava que tivessem uma vida plena. Para me entreter ajudo nas obras sociais da paróquia. É uma forma de me lembrar da Lúcia, de a prolongar em mim um pouco mais. Às vezes digo ao padre que acredito em Deus sem convicção. Ele pensa que gracejo e fico livre de explicações e de conversas difíceis.

Não é possível ficar indiferente a certas imagens. Tenho muito de bom na memória e guardo ainda muito mais na imaginação. Creio, contudo, que já falei de mim mais do que suficiente. Nos dias em que o desalento me desestabiliza dou longos passeios pelos prados das redondezas. Pergunto-me se fui digno da existência que tive, mas trata-se de uma questão retórica, à qual sei de antemão que vou responder positivamente. Porém, quando me pergunto se fui feliz não sou capaz de formular uma resposta convincente. Regresso então a casa, cansado, para me ocupar com qualquer coisa que me livre desse tormento. Nas ocasiões de maior pânico grito. Esbracejo e grito. Mas apenas consigo acalmar depois de arrancar, uma a uma, as pétalas de vários malmequeres. in  Alfabeto Adiado, de José Ricardo Nunes

 
ver mais aqui.

sábado, março 05, 2011

OS AMEAÇADOS, in Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho


OS AMEAÇADOS


Os ameaçados calam-se. Concentram-se nas tripas e omitem, fingem não saber, olham para o lado. Sabem tudo, vêem tudo, regam teorias com o cuspo das palavras. Falam em demasia aquilo que calam.
Os ameaçados plagiam as horas com fintas cheias de estilo. Preferem votar à ignorância o que julgam estar ao seu alcance. Eles não entendem o quão rasteiras são as suas vidas, que aos répteis foi atribuído o dom de: arrastar o corpo sobre a própria porcaria. Envolvem tudo num véu discutível e dizem sim ao flash, para à mesa discutirem com a família o ângulo perfilado de medo.
Engraxam os sapatos, por isso sujam os dedos. Vestem o melhor fato, frequentam casas de chá, pedem uma cerveja ao fim da noite e suspiram por fim o desgosto de estarem tão sós no seu rasteiro caminho.
Gosto dos ameaçados, quem mais lembra a ditadura do esquecimento. Gosto de os ver perdidos como cães cegos focinhando contra a vaidade.
ver mais aqui.

sexta-feira, março 04, 2011

Magic Resort, de Florencia Abbate - nas livrarias


Numa profunda depressão, Max olha, no ecrã, as imagens do ataque às Torres Gémeas. Este jovem com um transtorno bipolar é o centro de uma constelação de personagens com que a autora, Florencia Abbate,  retoma a estrutura múltipla do seu primeiro romance El Grito, para traçar através de diversas perspectivas a cartografia íntima de um presente marcado pelo desenraizamento e pela tecnologia. Nas histórias destas personagens ressoa as inconstâncias do amor e impressão geracional da pós-adolescência. As viagens, os medos as ausências; vozes distintas e escritas que tocam a cadência poética e onírica e, por vezes, quase documental. Magic Resort passa-se entre o 11 de setembro de 2001 e o crash económico argentino de Dezembro de 2004, apresentando-nos um mundo comprimido pela redução das distâncias temporais e o incessante incremento da velocidade. Desde uma clínica psiquiátrica para jovens em Buenos Aires, até à crueldade da guerra na Faixa de Gaza, passando por Espanha das festas electrónicas e pelo tsunami nas costas asiáticas, o romance de Florencia Abbate submerge-nos num apaixonante imaginário «bipolar», que parte do universal ao íntimo e do colossal ao ínfimo.

Editoras: Independentes porquê? Porque fecham, porque resistem…


4 DE MARÇO | Editoras: Independentes porquê? Porque fecham, porque resistem…
Mesa-redonda e debate

Painel com: Júlio Henriques, Deriva Ed., Ed. Mortas, Ed. Antipáticas, Estaleiro Editora, Mula, Oficina do Cego, Oficina Arara


4 de Março, SEXTA-FEIRA, 21h30, Gato Vadio rua do Rosário 281


A consciência não pode render-se mais ao estado actual das coisas. Não é a soda-caústica que nos alimenta, ela apenas nos ajuda a tirar um mundo a limpo. Mundo, onde cada vez mais a nossa vontade de querer viver e de experimentar a aprendizagem colectiva de construir outro mundo não pode ter lugar. Contudo, a crítica não chega para nos deixar despertos. Estas Jornadas procuram o lugar que aos poucos se vai tecendo, são tão só mais um ponto de partida. Depois, a jornada continua.

Mais informações aqui.

Tertúlia "Nós somos o que lemos" - Livraria Leitura [Ceuta] - 5 de Março

Nós Somos o Que Lemos
com a presença de:Manuel António Pina
Rui Amaral
Manuel Jorge Marmelo
João Paulo Sousa
Miguel Miranda
moderação:António Costa
dia 5 de Março | 21.30 | Livraria Leitura, Rua de Ceuta

quinta-feira, março 03, 2011

Guias Sonoras e outras abrasivas, de João Pedro Mésseder - Já nas Livrarias



"Apesar de pouco dotados, certos homens guardam um grão de lucidez, a que basta para intuírem a inteligência de outros. Sentem-na, porém, como um insulto à sua própria cegueira. Dedicam-se então a cultivar um ódio surdo. Por vezes tornam-se ferozes."

quarta-feira, março 02, 2011

O conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)

Sabia que...
Podemos dinamizar uma actividade na sua escola e/ou biblioteca
 Pergunte-nos como....


[...] Da janela, observava aquela travessa de pessoas humildes, onde a sua família era a única de «gente remediada» - assim dizia a mãe - e por onde, ao fim da tarde, circulava um polícia gordo e pachorrento, com cara de tractor amolgado, a quem a garotada chamava «o Bigodes». Era também na rua, quase sem trânsito, que brincava e jogava à bola, com grande alarido, a miudagem das casas pobres. [...]  in O conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder (texto) e Manuela São Simão (ilustração)


domingo, fevereiro 27, 2011

Pedro Eiras, no palco

Pedro Eiras e Renata Portas (imagem daqui)
Pedro Eiras, que na Deriva publicou Arrastar TintaUm Punhado de Terra, bem como organizou o livro de ensaio Jovens Ensaítas lêem  Jovens Poetas,  abriu  Correntes d’Escritas, no dia 19 de Fevereiro, com a peça Apalavrado, no Auditório Municipal da Póvoa de Varzim.
 O texto Pedro e Inês, uma comédia sobre a morte, da autoria de Pedro Eiras será, este ano, editado pela Deriva.
Pedro e Inês – 11 emendas e 1 estória. Emendas para salvar Inês – Inès, Agnes, Inese, Ineschka? Mas em boa verdade: acaso se pode emendar seja o que for? Ou apenas ler um anúncio de jornal, ouvir uma mensagem de despedida, desconfiar da estabilidade das cadeiras? O problema é o D. Afonso IV que está dentro de nós.
 

sábado, fevereiro 26, 2011

II Jornadas Galego-portuguesas de Edição Independente | Porto+Compostela/2011



A consciência não pode render-se mais ao estado actual das coisas. Não é a soda-caústica que nos alimenta, ela apenas nos ajuda a tirar um mundo a limpo. Mundo, onde cada vez mais a nossa vontade de querer viver e de experimentar a aprendizagem colectiva de construir outro mundo não pode ter lugar. Contudo, a crítica não chega para nos deixar despertos. Estas Jornadas procuram o lugar que aos poucos se vai tecendo, são tão só mais um ponto de partida. Depois, a jornada continua.
2 DE MARÇO | Abertura das Jornadas

Decrescimento, Crise, Capitalismo,  Palestra e Debate com Carlos Taibo (Prof. U. Autónoma de Madrid/Ensaísta)

2 de Março, quarta-feira, 18h, ESMAE – rua da Alegria 503



3 DE MARÇOO Estado de Excepção não-declarado + Controlo Social e Criminalização
Com Rui Pereira (Jornalista/Professor) + Painel de Testemunhos

3 de Março, Quinta-feira, 18h, ESMAE – rua da Alegria 503

+

Sementes Livres, Transgénicos e o Monopólio da Indústria Agro-alimentar - Debate com Margarida Silva (prof./investigadora), João Torres (biólogo/investigador)


3 de Março, Quinta-feira, 21H30, Gato Vadio rua do Rosário 281

4 DE MARÇO | Editoras: Independentes porquê? Porque fecham, porque resistem…
Mesa-redonda e debate

4 de Março, SEXTA-FEIRA, 21h30, Gato Vadio rua do Rosário 281

Painel com: Júlio Henriques, Deriva Ed., Ed. Mortas, Ed. Antipáticas, Estaleiro Editora, Mula, Oficina do Cego, Oficina Arara

5 DE MARÇO | Ritmos de Resistência, Ensaio Público

5 de Março, sábado, 14h, Jardins do Palácio de Cristal

Projecto Indymedia, 5 de Março, sábado, 15h, Gato Vadio

Oficina de Fanzines – Como fazer uma zine? (1ª parte), 5 de Março, sábado, 15h30, Gato Vadio

O que é uma crítica dos media? - Oficina de autodefesa, Com Rui Pereira (Jornalista/Professor)

5 de Março, sábado, 17h00, Gato Vadio

6 DE MARÇO | “Ser ecológico" numa era pós-industrial e em plena globalização
Oficina com Pedro Jorge Pereira (activista e formador eco-social)

6 de Março, domingo, 15h Gato Vadio

Ritmos de Resistência PROJECTO + DOC | 6 de Março, domingo, 17h, Gato Vadio

Oficina de Fanzines – Como fazer uma zine? (2ª parte), 6 de Março, domingo, 17h30, Gato Vadio
Acções da Soda-Caústica

Hoje, sábado, 26 de Fevereiro, pelas 21:30, O Teatro e a Palavra, no Cace Cultural do Porto, 1ª conferência do ano do TEatroensaio

sábado, 26 de Fevereiro de 2011, 21h30
entrada livre
Cace Cultural do Porto (estacionamento gratuito)
Rua do Freixo, 1071 (antiga central eléctrica do Freixo)

O TEatroensaio apresenta a primeira conferência de 2011, "O Teatro e a Palavra".

Introduzindo o tema anual de trabalho da companhia, o TEatroensaio começa assim um novo ciclo de conferências.

Partindo da ferramenta base do teatro, a palavra, propomo-nos a procurar novas pontes e direcções para esta relação directa, mas nem por isso evidente.

Oradores Convidados:

António Durães - Actor e Encenador

Jorge Deserto - Docente FLUP

António Luís Catarino - Professor, Director Editora Deriva

Pedro Estorninho - Encenador e Dramaturgo, Director Artístico TEatroensaio

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho





Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho
   "Querido poeta que te queixas das contas por pagar: rescinde os contratos. Nas aldeias abandonadas do interior há casas com poços e terrenos por cultivar. Cria galinhas, poemas que ponham ovos, um ou dois porcos, uma pocilga de poemas. Ainda há peixe para pescar, passarinhos por carpir. Levaram-te as asas? Borda asas de ferro nos ossos, deixa que lhes chova para cima até ficarem ferrugem, ri da pobreza. Não esperes pelos cossacos. Mete um STOP no queixume enquanto aqueces a sopinha instantânea ao microondas. Afinal, para que queres um telefone se a solidão não te lamenta? Queres telefonar à solidão ou esperas que ela te ligue?
   Querido poeta, não vês que para escutares o teu Bach no iPod é fundamental haver quem invente o iPod, é preciso Bach e quem o distribua pelos ouvidos dos surdos, são precisos balcões abertos e caixas registadoras. Afinal de que te queixas? Segue o exemplo de tantos dos teus pares e mata-te, abdica, dedica-te à mendicidade. Ou será que tens medo dos becos escuros da cidade? Afinal o que resta em ti de poeta?
   És já só a vergonha de um sonho por cumprir, um sonho de vida literária, um amigo das cavernas discursivas, tens a lábia de quem mete conversa e atira contra o espelho o cuspo venenoso da vaidade, queres-te encapado, esterilizado na lombada, consolado no autógrafo, sonhas com mulheres lindas levantando-se a teus pés, és a contraprova da poesia, nada do que resta em ti é já poesia porque tudo o que em ti resta é, afinal, uma ausência confrangedora de coragem, as franjas duma dor sem nervo, o tremor da desconfiança, um palanque, recitais, um queixume do que afinal pretendias sem vontade para tanto.
   Sai de casa, faz-te à estrada, segue o exemplo. Mata-te. Querido poeta que te queixas da sociedade, por que te ligas à sociedade através de uma rede sem fios? "

Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho 


Ricardo Romero nas Correntes d'Escritas 2011



Ricardo Romero nas Correntes d'Escritas 2011.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Apresentação de "Nenhum Lugar", de Ricardo Romero, nas Correntes d'Escritas


Ricardo Romero participa amanhã na 3.ª mesa de Correntes d'Escritas  -“A minha arte é uma espécie de pacto”, moderada por Rui Zink. Depois, às 17:00, apresentação se Nenhum Lugar na Casa da Juventude. 


Ricardo Romero nasceu, em 1976, no Paraná, Entre Ríos, na Argentina. É licenciado em Letras Modernas pela Universidade Nacional de Córdova e, desde 2002, vive em Buenos Aires. Em 2003, publicou o seu primeiro romance, Ninguna Parte (Nenhum Lugar, nesta edição que a Deriva Editores agora publica) e, a partir desse mesmo ano, dirigiu a revista Oliverio. No ano de 2006 publicou o seu primeiro livro de contos, Tantas noches como sean necesarias. Em 2007, vários dos seus contos foram editados em diversas antologias dedicadas aos novos autores argentinos. Em 2008, publicou o romance El síndrome de Rasputín, primeira parte do que chama a sua «Ticlogía». A segunda parte desta saga, Los bailarines del fin del mundo, foi publicada em 2009. É igualmente editor da Gárgola Ediciones, onde dirige a colecção “Laura Palmer no ha muerto” e de Negro Absoluto, colecção de policiais dirigida por Juan Sasturain. Desde 2006, é um dos integrantes de El Quinteto de la Muerte, grupo com o qual editou este ano os livros5 (La Propia Cantonera, Uruguai) e La fiesta de la narrativa (Editorial Una Ventana, Buenos Aires). Coordena a Taller de Algo juntamente com Federico Levín. Em Março de 2011, a Editorial Norma publicará o seu romance Perros de la Lluvia.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

Chega de Fado, de Paulo Kellerman

"Chega de Fado", o quarto livro de contos de Paulo Kellerman editado pela Deriva, representa a consolidação do percurso discreto mas sólido, e em diversos aspectos ímpar, que este escritor tem vindo a desenvolver. Explorando ao máximo as potencialidade na narrativa breve e marcado por uma construção original. Chega de Fado é um livro habitado por vinte personagens que, unidas em duplas, compõem dez “capítulos” que o formam; em cada um destes “capítulos” (verdadeiros esquissos de potenciais romances), as estórias vão-se sucedendo sob diversas formas narrativas (contos, micro-narrativas, diálogos dramáticos) e evoluindo ou desenvoluindo até à inevitável, e por vezes inconsequente, confrontação total.

Desta multiplicidade de estórias, formatos e vozes nasce uma radiografia desapaixonada e incisiva do quotidiano, um retrato cru dos gestos e dos silêncios, das banalidades e das frustrações, das esperanças e dos secretismos que atravessam as relações e caracterizam a precariedade e imprevisibilidade dos comportamentos e sentimentos de todos nós. Numa escrita elegante e sensível, Paulo Kellerman compõe ambientes urbanos e impessoais perpassados pela omnipresença da incomunicação e da melancolia, ambientes sombrios povoados por seres ávidos de intimidade e compreensão mas incapazes de alcançar uma qualquer forma de felicidade, mesmo que transitória. Ambientes saturados de pessimismo e desânimo, de apatia e solidão, de impotência, de desconforto existencial; até que alguém se insurge e grita chega de repetição e passividade monotonia, chega de lamúria; chega de fado.

domingo, fevereiro 20, 2011

Tempos de Intoxicação Linguística

Hoje em dia, a maior parte da comunicação é realizada através dos chamados meios de massas que, tal como o termo 'comunicação de massas', não deixa de ser um eufemismo. Como é sabido, nem as massas comunicam entre si através destes meios, nem eles são das massas, mas sim de uns poucos que produzem massivamente para as massas.
Em suma, estes poucos detêm o poder de definir a realidade para os demais, de dizer-lhes o que se passa, o que é bom e o que é mau, o que há a fazer e a não fazer, como fazê-lo, etc. Este poder de fixar o programa social de qualquer comunidade é a chave de controlo social. Lorde Nordcliffe, dono de um dos maiores consórcios jornalísticos de princípios do século XX explicava-o assim, sem papas na língua: "Deus ensinou os homens a ler para que eu possa dizer-lhes quem devem amar, quem devem odiar e o que devem pensar".
E o que nos contam é quase sempre a história dos outros, não a nossa. Ora, se estamos ocupados a viver a história dos outros, não temos tempo para nos preocuparmos com a nossa própria. Pois que se dela nos ocupássemos e descobríssemos como são outros que a determinam, não ficaríamos de braços cruzados, tentaríamos mudá-la para melhor.
Produção massiva significa produção em série, indiferenciada, simplificação e estereotipada. Como na produção comunicativa o que está em causa são produtos do pensamento, conteúdos de consciência, essa serialização e indiferenciação têm necessariamente a ver com produção de pensamento indiferenciado, acrítico, mágico.
Na comunicação, o engano não se dá apenas no quadro dos meios primários, senão que, pelo contrário, ele ocorre sobretudo no âmbito dos meios terciários, quando os participantes necessitam, tanto um quanto outro, de aparelhos para comunicar. A técnica da comunicação, acelerada através das grandes distâncias para grandes quantidades de receptores dispersos, conduz à simplificação dos signos em imagens e abreviaturas linguísticas. Deste modo, reduzem as possibilidades da sua própria decifração, ao mesmo tempo que sobrecarregam a percepção com novas abreviaturas e excedem a capacidade da memória.
A maioria das pessoas adquire a sua consciência através do trabalho. Todo o socialismo se baseia na hipótese de que há que consciencializar os seres humanos. Após esta ilustração, serão eles a tomar o seu destino nas mãos, a emancipar-se do poder dominante da economia e dos proprietários dos meios de produção. Uma tal consciencialização não pode dar-se na Era da expansão global dos grandes meios técnicos de comunicação, uma vez que estes não fomentam o trabalho consciente mas, antes, o reduzem. Fazem-no de muitas maneiras. Primeiro, criando tensão. Trata-se de um processo de distracção. Segundo, simplificando a realidade através da oferta dos mesmos padrões de comportamento que são sempre binários: bom e mau, acima e abaixo, falso e verdadeiro, etc. Estas pautas de comportamento realizam-se na figura estética do televisor.
Neste processo é também a imaginação que se simplifica. Às pessoas é servido sempre o mesmo, sob formas cada vez mais elementares, primitivas, uma vez que, de acordo com a economia de sinais, os proprietários têm de fazer investimentos cada vez maiores e, por consequência, têm de chegar a números cada vez maiores de receptores, para rentabilizar esses investimentos. Só se pode chegar a audiências cada vez maiores excluindo a diferenciação e reconduzindo permanentemente ao que todos entendem: coito, violência, saída — entrada, subida — descida, isto é, modelos muito rudimentares. Com estes pares binários atinge-se um forte efeito dramatológico, ainda que à custa de grandes perdas em sentido de realidade e possibilidade de conhecimento, pois quem selecciona abstrai e, claro, tem de deixar mais e mais coisas de fora. Em consequência, é de esperar uma longa época de idiotização mediante uma Humanidade mediaticamente enquadrada.
Na imprensa, o que conta é a apresentação visual dos conteúdos, que são estruturados de forma a predeterminarem as modalidades perceptivas, bem como aquilo que pode conhecer-se e interpretar-se.
E é de esperar que assim continue, enquanto persista a relação directa entre a apresentação como captação visual e as bases comerciais do meio impresso. Quanto maior a tiragem, tanto mais atractiva a apresentação e tanto mais curtos os enunciados. A redução deve-se, em todos os meios, à economia de sinais.
Na radiodifusão como na imprensa, portanto, a linguagem é submetida à lei da economia de sinais, isto é, ganhar tempo e poupar espaço para chegar ao maior número de consumidores com o menor gasto possível para o produtor. Assim, o ganho de tempo é a suprema máxima da sua práxis.
No respeitante à imprensa e à tele e radiodifusão deve, porém, distinguir-se entre ganho de tempo para o produtor da comunicação e ganho de tempo para o seu consumidor. Pelo prisma da autode-terminação, o ganho de tempo do primeiro não corresponde, necessariamente, a um ganho de tempo do segundo, pois este entrega algum do seu biotempo na suposição de que tal entrega valha a pena para si. Ora essa entrega pode muito bem traduzir-se em 'tempo perdido', isto é, em tempo que não compensou os seus défices cognitivos e emocionais. Simplesmente, o tempo gasto não volta.
E o produtor tem a obrigação de reunir todos os consumidores possíveis para a sua comunicação, a fim de poder amortizar com a máxima recepção o gasto técnico que investiu.
Os receptores, por seu lado, querem entreter-se, participar, estar em comunicação, uma vez que são seres humanos e não podem, nem querem, viver isolados. Mas quando primem o botão da rádio ou da televisão, ou pegam num jornal, têm de aceitar a apresentação linguística e icónica de redução de cada um desses meios e abandonar o seu dispositivo cognitivo nas mãos de comunicações heterodeterminadas, sem poder contradizê-las, ao contrário do que sucede na comunicação primária.  in Intoxicação Linguística, de Vicente Romano

Outros livros de Vicente Romano:

A Formação da Mentalidade Submissa

"Segundo os dicionários, manipular significa "operar com as mãos, trabalhar demasiado alguma coisa, manuseá-la, manejar as coisas a seu modo ou intrometer-se nas coisas alheias" e, por fim, "intervir com meios hábeis ou, por vezes, astuciosos, na política, na sociedade, no mercado, etc., com frequência para servir interesses próprios ou de terceiros".
Desta forma, etimologicamente, manipulação acaba por ser uma intervenção consciente num dado material com um fim determinado. Neste sentido, diz-se que o oleiro manipula a argila ou que o realizador de cinema ou de televisão manipula as imagens filmadas. Aqui, vamos referir-nos à manipulação dos conteúdos de consciência, das mensagens dos meios de comunicação no seu sentido mais lato. Trata-se de uma intervenção com consequências sociais e, portanto, de um acto político."  A Formação da Mentalidade Submissa, Vicente Romano

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Versos Olímpicos, José Ricardo Nunes

NOTAS PARA UM DISCURSO DE ENCERRAMENTO


Foram as mais grandiosas Olimpíadas de sempre.
Participaram todas as nações conhecidas.
Os resultados foram além do que seria de esperar.
A organização excedeu-se e merece os elogios
e o aplauso. Passados quarenta dias,
é tempo de entregar o testemunho
a mais uma cidade. Prudente omitir
como ficou pior o mundo nestes quarenta dias.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

2011, com rumo certo





Com o ILC, recebemos em 2011, Kafka, Um Livro Sempre Aberto, de Maria Teresa Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas (col. Cassiopeia), Jean-Claude Pinson,com Para Que Serve a Poesia Hoje? (também em parceria com Culturesfrance),Wittgenstein com Observações sobre "O Ramo de Ouro" de Frazer, com tradução e notas de João José de Almeida; revisão e prefácio de Nuno Venturinha; Rosa Maria Martelo e Pedro Eiras sobre Mallarmé e, também na col. Pulsar, Coleridge por Jorge Bastos da Silva. Ainda na Pulsar, Khôra, de Jacques Derrida e Estudos Pos-coloniais e Literatura, de Jacqueline Bardolph, por Maria de Fátima Outeirinho.

Porque sabemos que o Teatro é um caminho de revolução, em breve chegará  O Homem que Via Passar as Estrelas, de Luís Mourão, com prefácio de Máximo Ferreira. Ainda a pensar nos leitores mais jovens, reeditaremos Perigo Vegetal de Rámon Cáride e Miguelanxo Prado, já de acordo com a nova grafia, e a continuação das aventiras de Sheila e Said, Ameaça na Antártida.

Na História, apresentaremos Notícias das Guerras Napoleónicas /1807-1816, de Isabel Pereira Coutinho, e prefácio de Luís Oliveira Ramos e Finisterrae, Viagem à última Thule de Píteas de Marselha.

Sem rótulos, poesia, ensaio, fragmento, apresentamos um verdadeiro achado: «Do Prazer dos Livros», de Gaetano Volpi.
Em 2011, mais um livro de Santiago López-Petit, Amar e Pensar.

E, dando continuidade, A Peste Bubónica, de Ricardo Jorge, apresentaremos Álbum de fotos da Peste Bubónica do Porto, de Aurélio da Paz dos Reis, com apoio da Torre do Tombo e Sec. Estado Saúde.

Para um público mais jovem, a estreia de Pedro Estorninho com Oliwoops.
Pedro Eiras apresenta o "seu" Pedro e Inês e, na poesia Jorge Fallorca, com O Livro do Fim,  Catarina Costa, com Dos Espaços Confinados e Hugo Neto, com Morte Anual.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Inês Santos Fonseca conversa com Filipa Leal


[A propósito do artigo da Elle (ed. Março) sobre 5 poetas portuguesas, eis todas as respostas de Filipa Leal]


 
Inês Santos Fonseca. A Adília Lopes escreveu a sua autobiografia sumária (e é simultaneamente uma autobiografia simultaneamente ligada ao real e à poesia, à vida e à obra). Consegues escrever a tua?


Filipa Leal. A minha autobiografia é muito pouco sumária, Inês, como viste no texto que entretanto foi publicado na edição d’A Cidade Líquida em Espanha: http://www.sequitur.es/la-ciudad-liquida-y-otras-texturas/. Sei que é longo, mas a minha resposta aqui seria esse texto.

IFS. Lembras-te do primeiro poema/ verso que escreveste? Tinha alguma palavra no feminino?

FL. Cheguei recentemente à conclusão de que o primeiro poema que escrevi não era um poema. Era uma folha de Outono que apanhei do chão e que pedi à minha querida avó Isabel se enviava para uma tia dela muito simpática que vivia em Lisboa, a tia Zélia. Sendo assim, o meu primeiro poema tinha pelo menos três palavras femininas: folha, Isabel, Zélia.
IFS. Hoje, no século XXI, ainda se escreve poesia no feminino ou o(s) género(s) caiu(caíram) em desuso?

FL. Há uma poeta brasileira muito interessante, Marize Castro, que a certa altura escreve: “Amo as palavras. / Por elas também virei homem.” É também através da palavra que viramos, mulheres e homens, os géneros do avesso. A palavra é um género em si mesma.

IFS. E voltando ao nosso século XXI, ainda temos palavras para usar, para gastar nos poemas (quer seja no feminino, quer seja no masculino)? Ou já foi tudo dito como se anunciava nos anos 70 do século passado?

FL. Enquanto continuarmos a gastar a vida, a gastar a imaginação, haverá sempre palavras para gastar no poema.

IFS. E há palavras para recuperar? Como, por exemplo, a palavra "poetisa"?

FL. Sim, talvez seja tempo de recuperar a palavra poetisa. Há uma solenidade quase excessiva na palavra poetisa que me interessa cada vez mais. A antologia da Adília Lopes organizada pelo valter hugo mãe (que tudo o que faz, faz bem) tem um título que alterou a minha visão desta palavra “polémica”: «Quem quer casar com a poetisa?». Apetece dizer: eu quero. Ou então ir para a janela de casa perguntar o mesmo.

IFS. E tu és poeta ou poetisa?

FL. Como escrevi no texto «A Varanda» (publicado na revista Mealibra e mais tarde na antologia luso-brasileira «Um Rio de Contos»): “Esta sou eu que fiz uma pausa na palavra”.

IFS. Março é o mês da Primavera, e a Primavera costuma associar-se à mulher, ao feminino. Lembro-me de uma história em que o Manuel António Pina dizia ter levado anos para conseguir usar a palavra "pétala" num poema. Conseguiu, mas assumiu que sempre teve medo dessa palavra. Alguns poetas - homens - têm realmente medo de algumas palavras. E tu, Filipa, consegues identificar palavras que te assustam, de que desconfias, e que recusas quando escreves?

FL. Durante muito tempo, tive medo da natureza. E por isso, até alguém me lembrar que o mar também era a natureza, não me sentia, por uma questão de pudor, no direito de escrever sobre uma coisa que não compreendia. Tinha medo das palavras da natureza.

Via Facebook de Inês Santos Fonseca.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Da Argentina

[clique na imagem para aumentar]

Newsletter Fevereiro

Correntes d’escritas – Pedro Eiras no Programa paralelo [Teatro]

Bela Dona - Apalavrado 3 | de Pedro Eiras e com encenação de Renata Portas.
Sinopse:

“Não tenho medo de entrar nessa noite onde sou vista e não vejo – mãe, dá-me a mão, mãe- onde os meus olhos cantam como sereias – a noite do corpo, e que me guiem no baile, malditas – que me raptem e acordo com o anel, e regresso aos meus olhos, meia-noite, acordo com as mãos de um fidalgo, qualquer fidalgo, rei, reis aos meus pés. Tremem” - (Excerto de Bela Dona, de Pedro Eiras)

Ficha Técnica:
Autor: Pedro Eiras | Encenação: Renata Portas |  Música Original: Joaquim Pavão | Figurinos: Tucha Martins



Apalavrado 3



“Cada palavra, qualquer palavra, a menor de todas as palavras, qualquer uma, é alavanca do mundo. Cada palavra, qualquer palavra, a menor de todas as palavras, qualquer uma, é a alavanca do mundo”. Valère Novarina

Esta encenação, assim como a Temporada Teatral na Póvoa de Varzim, é da responsabilidade do Varazim Teatro.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

Inês Fonseca Santos conversa com Catarina Nunes de Almeida

Inês Fonseca Santos. A Adília Lopes escreveu a sua autobiografia sumária (e é uma autobiografia simultaneamente ligada ao real e à poesia; à vida e à obra). Consegues escrever a tua?

Catarina Nunes de Almeida . Dificilmente. Não tenho jeito nenhum para falar de mim com ironia. Até lá ainda tenho que aprender a fazer umas quantas caretas à frente do espelho!

IFS. Lembras-te do primeiro poema/verso que escreveste? Tinha alguma palavra no feminino?

CNA. Raramente memorizo versos de poemas, nem mesmo dos meus. Mas lembro-me que aquilo que escrevi, logo desde cedo, tinha uma dimensão física muito grande – creio que, de certo modo, o meu crescimento nas palavras acompanhou o crescimento do meu corpo. Além disso, quando começamos a escrever, estamos muito comprometidos com as nossas experiências pessoais, com a nossa aldeia de afectos, com o nosso umbigo. Há muita inocência, muita sinceridade, porque ainda não retiramos grande gozo a brincar aos poetas-fingidores e a ampliar os pontos de vista. Falta geralmente, nos primeiros poemas, um pouco de sombra. Por isso, a dimensão feminina dessas minhas primeiras palavras, por certo, saltava à vista de forma muito evidente.

IFS. Hoje, no século XXI, ainda se escreve poesia no feminino ou o(s) género(s) caiu(caíram) em desuso?

CNA. Não sei se sei falar sobre isto. A escrita ou é uma apropriação de experiências de outros, ou é uma reciclagem de experiências próprias, ou é devaneio puro. Nessa medida, creio que a poesia pode corresponder a todos os géneros, inclusive ao neutro (aquele que, na verdade, não morreu com o latim). Julgo que o importante é estar apto para separar aquele que escreve daquele que é escrito – ou seja, o sexo do poeta não deve ser confundido com a sua expressão, com a sua voz. Mas como disse: não sei se sei falar sobre isto. Por enquanto, para mim, são questões que podem ficar à margem.

IFS. E voltando a este nosso século XXI, ainda temos palavras para usar, para gastar nos poemas (quer seja no feminino, quer seja no masculino)? Ou já foi tudo dito, como se anunciava nos anos 70 do século passado?

CNA. Penso que neste nosso século XXI o exercício pode ser bem mais interessante do que foi até aqui. Eu creio que a escrita ganha muito ao passar por outros processos criativos que não a simples busca de palavras raras ou novas. O meu terceiro livro, «Bailias», nasceu através de um desses processos, a que chamaria mesmo de “reciclagem”. Podemos resgatar uma linguagem ou uma estética datada e perdida no tempo, e conceder-lhe um novo fôlego ou um efeito inesperado. É uma grande ousadia e um grande desafio. Outra forma de escrever pode ser também contrariar a própria escrita. É um processo que ponho em prática muitas vezes, sobretudo quando comecei a conhecer com mais profundidade as poéticas do Extremo Oriente. A poesia não tem que ser a procura desmedida de palavras – pode muito simplesmente passar por uma prática de “higiene” na linguagem (para usar a expressão de Ezra Pound): uma limpeza do verso, uma redução do mundo ao seu grãozinho essencial. Assim é mais difícil que as palavras se desgastem.

IFS. E há palavras para recuperar? Como, por exemplo, a palavra "poetisa"?

CNA. O que mais existe são palavras para recuperar. Quanto mais recuamos na língua, mais nos surpreendemos com palavras-monumento. O poeta já não é só um fingindor; o poeta é um arqueólogo da linguagem, cada vez mais. Sobre a palavra “poetisa” é que não tenho muito a dizer: eu não distingo o poeta da poeta, assim como ninguém distingue o malabarista da malabarista.

IFS. Tu és poeta ou poetisa?

CNA. Poeta.

IFS. Muitas feministas odeiam o Pessoa. E o Pessoa falava dos casos de "feminino mental", referindo-se a uma determinada sensibilidade e ao modo de a expressar. Ainda existe essa sensibilidade feminina? Fazes uso dela? Ou ela apenas serve (e estimula) a ironia?

CNA. Acredito nesse “feminino mental”. E sim, faço uso da minha experiência enquanto mulher em quase todos os momentos da minha escrita. Ser mulher não é para mim um acto isolado – no meu caso, essa condição aderiu visceralmente às palavras e nunca procurei afastar-me disso.

IFS. O mês de Março é também o mês da Primavera, e a Primavera costuma associar-se à mulher, ao feminino. Lembro-me de uma história do Manuel António Pina em que ele dizia ter levado anos para conseguir usar a palavra "pétala" num poema. Conseguiu, mas assumiu que sempre teve medo dessa palavra. Alguns poetas - sobretudo homens - têm realmente medo de algumas palavras. E tu, Catarina, consegues identificar palavras que te assustam, de que desconfias, e que recusas quando escreves?

CNA. Não descobri ainda nenhuma palavra que considere “interdita”. Mas a poesia é para mim um veículo essencial de Beleza, pelo que mantenho uma postura muito selectiva e resistente em relação às palavras. Procuro, principalmente, trazer para os poemas palavras com um certo grau de nevoeiro, que facultem um pouco de sombra, que potenciem a placidez das imagens. À parte disso, devo confessar que gosto muito de advérbios de modo. E de dar o braço a torcer em relação a certos adjectivos.

[versão completa publicada por Inês Fonseca Santos no Facebook]

Leituras no Mosteiro

Em Novembro de 2010, o Colectivo 84 desenvolveu o projecto Encontros de Novas Dramaturgias Contemporâneas, que teve    como missão “promover e divulgar as novas dramaturgias contemporâneas, nomeadamente a dramaturgia portuguesa, oferecendo igualmente um espaço para a dramaturgia europeia, contributo essencial para as trocas culturais e estéticas asseguradas pela parceria com o Corps de Textes Europe, plataforma europeia de difusão de novos autores e textos para o palco”. O Encontro decorreu em Lisboa no São Luiz Teatro Municipal, entidade co-produtora.
Poucos meses depois, o ciclo Leituras no Mosteiro integra na sua programação uma extensão dos Encontros. No próximo dia 8 de Fevereiro, algumas das peças curtas de dramaturgos portugueses, escritas propositadamente para aquele projecto, serão lidas no Centro de Documentação do Teatro Nacional São João: Tiago Rodrigues, Luís Mestre, Pedro Eiras, Ana Mendes, Paulo Castro, Mickaël de Oliveira, André Murraças e José Maria Vieira Mendes são os seus autores. Alguns dos dramaturgos estarão presentes na sessão.
Amanhã, 8 de Fevereiro,

Peças curtas de Tiago Rodrigues, Luís Mestre, Pedro Eiras, Ana Mendes, José Maria Vieira Mendes, Mickaël de Oliveira, entre outros

Mapa do Mosteiro de São BEnto da Vitória (aqui)

domingo, fevereiro 06, 2011

Venha ler poemas de amor na Casa Fernando Pessoa


Saber mais aqui

        Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.
Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer.


À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs
avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade e o remorso.


Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.
Filipa Leal, A inexistência de Eva