[Manuel Caeiro]
Maré vazia
quando o poema se cumpre.
Escuto os cantos da onda -
cantos redondos de um caderno estendido
sob os desígnios da luz.
Catarina Nunes de Almeida, A Metamorfose das Plantas dos Pés
Na capa de A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra uma imagem dos confrontos na Grécia. Não é por acaso. Não foi uma coincidência.
Se existe na actualidade uma sensação difundida, ela é a de uma profunda incerteza. A incerteza está presente a todos os níveis. O planeta azul prossegue o seu solitário caminho pelo universo, ainda que, porventura um dia, venha a transformar-se num féretro gigantesco. A sociedade é cada vez mais um mero nome para a cobiça de uma multiplicidade de comportamentos sociais, de itinerários e destinos individuais. O homem, por seu lado, abandonado a si mesmo, está destinado a lutar só para não se afundar na exclusão. Incerteza vivida, pois, como insegurança permanente: medo de perder o trabalho, medo de envelhecer, medo por não sabermos o que será dos nossos filhos… Esta insegurança que sobrevoa a nossa existência como uma nuvem negra, não só nos mostra a vulnerabilidade a que estamos submetidos, como nos recorda que somos perfeitamente supérfluos. Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente, «a vossa situação depende apenas de vós mesmos». E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial, temos de nos autoavaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os companheiros da minha secção, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu, porque é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. Surgem formas perversas de socialidade (gangs juvenis, hooligans, etc.), proliferam os comportamentos racistas e xenófobos. Identidades políticas anseiam por ter um Estado. O inimigo esconde-se por trás da ama que embala o berço.
in A Mobilização Global seguida de O Estado de Guerra, Santiago López-Petit, Deriva Editores, 2010.
encenado por Renata Portas |
com um texto de Luis Maffei, La Venturosa (por Mariana Schou)
e um texto de Pedro Eiras, Bela Dona (por Isabel Fernandes Pinto).
Temporada de 28 de Setembro a 03 de Outubro, 21h 30, (com excepção do dia 01/10)Mais no Projecto Apalavrado.
Actividades paralelas: Conversa com Pedro Eiras, após espectáculo, dia 02/10
Local de apresentação: Auditório do Grupo Musical de Miragaia: Rua Arménia 10/18.
Relegada durante longas eras em esconderijos longínquos, desde que fora apeada do sistema das espécies agora extintas, a outra fauna voltava à luz vinda das caves da biblioteca onde se guardam os incunábulos, lançava-se em grandes saltos dos capitéis e dos algerozes, empoleirava-se nas cabeceiras dos dormentes. As esfinges, os grifos, as quimeras, os dragões, os hircocervos, as harpias, as hidras, os unicórnios, os basiliscos retomavam a posse da sua cidade. | Italo Calvino
As estantes estão cheias, a cabeça cheia de pó, o chão desarrumado. Não admira que os pés tropecem, que a cinza ameace o céu limpo. Todo o azul celeste mete medo, todo o mar. Caminham por dentro dos músculos as notícias, o futuro antecipado, as previsões metrológicas.Ao carpir das sirenes, os homens chegam-se às varandas. Abrem os estores, dilatam as pálpebras, olham por cima dos pijamas os lençóis da cama onde pernoitam arrumados. Costas com costas, pobres cães vadios, esperam a hora de ir para os empregos. Perfumados. Trabalham o cansaço, uma dor na coluna vertebral, aquele ouvi dizer que sabia como quem traz prendas para casa. Uma consola para o menino, um adereço para a Barbie.Fazem flexões, alongam os músculos, esticam os ossos como quem estica os cordões à bolsa, o estendal de pendurar a alma todos os dias, à mesma hora, até que o coração diga basta. A um canto, o grito incita a fome: gostamos dos aranhiços, das pulgas, das infiltrações. Única distracção no caminho das horas.
"Lembre-se, a este propósito, que as guias sonoras são relevos descontínuos colocados na beira das estradas destinados a emitir vibrações que alertam o condutor, impedindo-o de ultrapassar o limite das rodovias. Consideradas como formas de informação de retorno táctil, são especialmente úteis para casos de distracção ou de adormecimento. Balizamento de vias ou orientação de viajantes, as guias funcionam como uma espécie de barreira sensorial aparentemente invisível, mas criadora de uma rota de navegação segura. O penúltimo texto desta breve antologia, intitulado «Apóstrofe rodoviária» é, a todos os títulos, significativo na união dos dois conceitos: «Abrasivas do sono automóvel, perpetuadoras da sobrevida, ó guias sonoras!» A apóstrofe, seguida da exclamação, é esclarecedora quanto ao tom, ironicamente corrosivo, de muitos dos fragmentos poéticos." do posfácio de Ana Margarida Ramos
Ao lado da questão teórica ou histórica tradicional: «O que é a literatura?», coloca-se hoje com maior premência uma questão crítica e política: «O que pode a literatura?», que valor a sociedade e a cultura contemporâneas atribuem à literatura? Que utilidade? Que papel? «A minha confiança no futuro da literatura, declarava Italo Calvino, assenta na certeza de que há coisas que só a literatura nos pode dar». Será este ainda o nosso credo?
"À medida que me liberto da presença parasita de inéditos, ocorre-me a ideia – e porque não? – de me entregar à escrita de um livro póstumo, concebido como este diário começado há um ano a que chamo O Cheiro dos Livros. Segundo o patusco Walser «Quando se vai a caminho dos sessenta, devemos saber pensar noutra forma de vida.» A quem ele o diz, acabo de calcorrear esse caminho; de momento, sem carro. Deixo o livro com a capa pronta, tenho vindo a rever e a eliminar parte do que fui anotando nos últimos catorze meses."
O texto que aqui se publica é um corpo vivo que sofreu múltiplas transformações de pormenor, quer ao longo dos ensaios quer durante a sua representação, e que continua a sofrer. A versão que vão ler corresponde ao estado do texto após dezenas de ensaios e representações.Os desenhos são uma pequena parte dos figurinos feitos, para o espectáculo, por Sandie Mourão.
"a astronomia não se reduz à observação astronómica – e mesmo esta não tem de ser limitada à observação nocturna. A própria observação nocturna pode ser proposta como uma actividade simples, passível de ser desenvolvida com o auxílio de familiares dos alunos, à porta de casa, no quintal, numa varanda ou num passeio, ao princípio da noite.”
[…] quando chegam à escola, os nossos alunos já adquiriram uma série de conhecimentos sobre astronomia. Já sabem que o Sol nasce todos os dias,, que se põe também todos os dias; que a Lua se vê à noite e que não é sempre igual, que as estrelas são cheias de picos – senão não se chamavam estrelas... Com alguma sorte, sabem que o sol é uma estrela – uma estrela maior que todas as outras e sim, que está mais perto de nós do que as outras estrelas, e como sabem pensar e gostam de o fazer, concluem rapidamente que no Verão estamos mais perto do Sol – ou melhor, que o Sol está mais próximo de nós – e que o frio do Inverno é causado pelas nuvens, que não deixam passar o calor do sol, e pelo maior afastamento do Sol. Já viram horas de desenhos animados e jogaram horas de jogos onde aparecem planetas e “sóis”... em suma, trazem um corpo de conhecimentos sobre astronomia invejável... e maioritariamente errado.Com quem aprenderam? Com todos nós! Não foram eles que inventaram o nascer do Sol. Paulo Simões, in O HOMEM QUE VIA PASSAR ESTRELAS.

[...] Ajudar os alunos a serem sujeitos independentes/autónomos, criativos, expressivos, auto-afirmativos, assertivos, desinibidos, comunicativos, capazes de tomar decisões, a saberem resolver problemas, em suma, a serem auto-regulados e autocontrolados, deverá ser a maior prioridade educacional, hoje.
Julgamos que todos os membros da equipa educativa deverão envidar esforços no sentido de, simultaneamente à preocupação sobre os conteúdos estritamente escolares, formais, e dos meios que facilitam a sua aquisição, enquadrar nos seus programas, projectos ou acções, temáticas relacionadas com as condições que propiciam a aprendizagem (motivação, controlo das emoções e estados de humor, percepção de competência e de capacidade, expectativas, aspirações, atitude positiva face à escola, estabelecimento de objectivos de aprendizagem, percepção da instrumentalidade dos conteúdos, métodos e condições de estudo, aptidões sociais, …). No mesmo sentido, consideramos que, igualmente, uma forma possível de poder realizar este princípio, poderia ser ou existir, não a título facultativo, mas com cariz curricular , a disciplina de Expressão Dramática, desde a Educação de Infância ao Ensino Superior. [...]
A Expressão Dramática entendida, não na sua vertente terapêutica (ex. Psicodrama), de remediação ou recuperação, nem como mera estratégia para veicular mensagens formais, antes, no seu vector preventivo/profiláctico, como instrumento de aprendizagem e de desenvolvimento, propiciador de experiências relacionais/sociais.
Em rigor, a Expressão Dramática [...] parece cumprir, julgamos, os objectivos de desenvolvimento social. [...] De facto, a Expressão Dramática, tendo em consideração os aspectos afectivo/sociais, cognitivo/linguísticos e psicomotores de desenvolvimento, perspectiva-se como um instrumento de actualização e potenciação das aptidões sociais. Tendo em conta, igualmente, comportamentos verbais e não verbais, encerra os componentes fundamentais das competências sociais. É uma prática que põe em acção a totalidade da pessoa, favorecendo, através de actividades lúdicas, o desenvolvimento e uma aprendizagem global (cognitiva, afectiva, sensorial, motora, estética). Neste sentido, ela partilha das intenções da finalidade geral da educação que é o desenvolvimento global da personalidade (Landier & Barret, 1994).Consideramos que todas as outras disciplinas curriculares podem potenciar ou fomentar as capacidades sociais dos indivíduos. Todavia, para além de serem esses os seus objectivos mais específicos e prioritários, são os professores de Expressão Dramática aqueles que, por “não terem preocupações de conteúdos estritos escolares”, estão em melhor posição, teoricamente, têm mais disponibilidade para o desenvolvimento holístico do indivíduo. [...]
É que,
Said e Sheila vivem, no ano 2075, no interior da Galiza, mas estão ligados em comunicação ao mundo global do passado. Uma gigantesca companhia transnacional, a C.U.B., tenta apoderar-se de todas as sementes de cereais existentes como parte de um plano para dominar toda a agricultura do planeta.
O Perigo Vegetal (Ramón Caride e Miguelanxo Prado) é apenas a primeira aventura destes dois corajosos irmãos. Em breve, na Deriva, as aventuras irão continuar com Ameaça na Antártida e O Futuro Roubado.
O Conto da Travessa das Musas é uma viagem por um tempo antigo - uma história que se passou no Porto há muitos anos. Uma história de um menino sem tempo para ficar quieto. Uma história que fala de mercearias, de lojas de miudezas, de carrinhos de linhas e fivelas, de José Gomes Ferreira, de um polícia gordo e pachorrento, de carrinhos de madeira e de flocos de neve (os rebuçados...).
Uma história de um tempo em que os meninos brincavam na rua. Uma história que se passa no Porto, no centro do Porto com o João.
Uma história que vale bem a pena o desafio de procurar a Travessa das Musas.
Aviso: Este livro convida à partilha de memórias e pode ser acompanhado de alguns rebuçados flocos de neve...Excerto de Para que serve a Literatura? de Antoine Compagnon,
traduzido por José Domingues de Almeida
Lemos porque, mesmo se ler não é imprescindível para se viver, a vida se torna mais livre, mais clara, mais vasta para aqueles que lêem do que para aqueles que não lêem. Para já, num sentido muito simples: a vida torna-se mais fácil – pensava nisso ultimamente na China – para aqueles que sabem ler, não só as informações, as instruções, as receitas médicas, os jornais e os boletins de voto, mas também a literatura. Depois, foi-se supondo durante muito tempo que a cultura tornava as pessoas melhores, e que proporcionava uma vida melhor. Francis Bacon disse tudo: «A leitura torna um homem completo, a conversação torna um homem desenvolto, e a escrita torna um homem preciso. É por isso que, se um homem escreve pouco, necessita de uma boa memória; se conversa pouco, necessita de um espírito vivo; e se lê pouco, necessita de muita astúcia, para parecer saber o que não sabe». Segundo Bacon, próximo de Montaigne, a leitura evita-nos ter de recorrer ao fingimento, à hipocrisia e à astúcia; ela torna-nos, pois, mais sinceros e verdadeiros, ou simplesmente melhores.
Um ensaio essencial que problematiza o espaço e o valor da literatura hoje, de Antoine Compagnon (traduzido por José Domingues de Almeida).
Na Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos). Na Cassiopeia, que já acolheu um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.
No próximo dia 7 de Setembro, terça-feira,pelas 21:30 Miguel Carvalho (Grande Prémio Gazeta 2009) apresenta o livro AQUI NA TERRA (2.ª ed.) , na IX Feira do Livro de Gondomar.
Aqui na Terra é o retrato de um certo Portugal. País aquém e sempre além, onde o humano e o divino moldam as circunstâncias da nossa condição. Relatos de um País que, por vezes, não vem no mapa. Quadros e figuras que constituem uma geografia de afectos e desamores, de entregas e renúncias, de comédias humanas e tragédias colectivas. Nestas reportagens, desenha-se um território de sombras e luzes, de martírios e pantomina, de identidade e resignação, habitado por existências vestidas do avesso e «estórias» de trazer pela mão. Um País, enfim, que levamos inscrito por dentro. Mas sempre descrito como quem o olha de fora. País coitadinho e honrado.País em grande ou maltratado.País santificado e do Diabo, onde por vezes anda tudo ligado.
"João Pedro Mésseder conta aos mais pequenos a história de alguns peixinhos vestidos com sentimentos de gente. No seu pequeno mundo (perscrutado pelo olhar de um menino) os habitantes do aquário assumem comportamentos que vincam a diferença e atenuam a natureza que os une. Numa situação limite, as atitudes azedas e preconceituosas acabam por ceder, dando lugar à confraternização, amizade e entreajuda - sem quaisquer moralismos forjados." Salomé Castro, Comércio do Porto, 28 de Dezembro de 2004
"Uma história sobre a diferença e aceitação, mas debaixo de água. Peixes de cores e de naturezas diversas terão de se habituar a partilhar o espaço, o tempo e a comidinha. Não é fácil, como todos o sabem. Mesmo em terra seca, há que ter paciência e aprender a conhecer os outros. E não se trata apenas de sobrevivência. João Pedro Mésseder e Gémeo Luís formaram uma boa equipa para dar início à aposta da Deriva no formato álbum ilustrado para o público infantil." Rita Pimenta, Público (Publicozinho), 4 de Dezembro de 2004
"(...) Belíssimo livro escrito por João Pedro Mésseder e ilustrado por Gémeo Luís que conta as desventuras dum peixe vermelho forçado a brincar só por um cardume antipático." Jornal das Letras, 22 de Dezembro de 2004
É certo que a literatura “pode” muita coisa: pode proporcionar um contacto único com a complexidade do discurso; pode associar discurso e emoção estética; pode promover o conhecimento do outro no tempo e no espaço; pode facultar ao leitor um auto-conhecimento. E é certo que o que chamamos “literatura” é um conjunto de práticas discursivas de tal modo heterogéneo e diversificado que seria possível desenvolver aqui listagens imensas e cheias de especificidades, distinguindo o papel da poesia do da narrativa, distinguindo a função da literatura mais culturalista e de circulação restrita daquela que obtém largos sucessos de mercado, distinguindo a literatura para a infância e a juventudecomo uma área de criação específica, etc. Mas, hoje, talvez o mais importante seja transmitir aos estudantes de literatura, e de poesia em particular, que o seu trabalho incide sobre tipos de discurso que são extremamente abertos ao diálogo com outras artes, com outros discursos, com outras práticas culturais. Se no século XIX emerge, fortíssima, a relação entre Literatura e Nação, hoje o que sobressai é o modo como a Literatura põe em relação identidade linguística, cultural e social com a experiência intercultural que caracteriza o mundo em vivemos. Não há como recusar o breve diagnóstico de Antoine Compagnon, quando descreve o lugar da literatura na sociedade actual:
(...) le lieu de la littérature s’est amenuisé dans notre société depuis une génération:à l’école, où les textes documentaires mordent sur elle, ou même l’on dévorée;dans la presse, où les pages littéraires s’étiolent et qui traverse elle-même une crise peut-être funeste; durant les loisirs, où l’accélération numérique morcelle le temps disponible pour les livres. Si bien que la transition n’est plus assurée entre la lecture enfantine (...) et la lecture adolescente, jugée ennuyeuse parce qu’elle requiert de longs moments de solitude immobile.
Se pensarmos na exiguidade das actuais tiragens de livros de poesia, na sua reduzida visibilidade nas páginas da imprensa, onde facilmente “perde” diante das artes que exploram a imagem visual, se pensarmos na reputação de “difícil” que lhe atribuem os estudantes, no lugar geralmente periférico que os livros de poesia ocupam nas livrarias, esse diagnóstico não pode senão agravar-se.
Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.
«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»
E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.
Do poeta habituado a “dizer”, sobra para a poética, a música verlainiana: “vagas breves”(p. 13); “Suor / do trigo/ a sangrar / no dorso” (p. 23); “Moinho / do vento / violento/ a dobrá-lo” (p. 23); “o amigo é um violino / estimado, obstinado” (p. 24); “de alfinete paciente e carinho antigo / o virtuoso ausente/ omnipresente “ (p. ), “Sotaque e o cognac“ (p 27 ), Mesmo triste a sorrir sempre” (p. 27), “as papoilas as palmas “ (p. 28); “não há orgãos, mãos e olhos, esporas e poros” (p.31); “bebemos buio / fumamos breu” (p. 33); “passa a mão ao de leve pela sede e na seda” (p. 44); “ vão as botas mágoa erecta de ervas” (p. 48). A música que emana dos versos, a música do violino é omnipresente – como se todos os silêncios, todas as solidões tivessem de ser preenchidas agora, pois não se sabe se há música depois, espera-se apenas que ela exista: “espero que haja música / no espaço mítico da morte” (p. 51).