domingo, setembro 26, 2010

Estranhas Criaturas, Henrique Manuel Bento Fialho

Estranhas Criaturas apresenta-se sob a epígrafe de Calvino:
Relegada durante longas eras em esconderijos longínquos, desde que fora apeada do sistema das espécies agora extintas, a outra fauna voltava à luz vinda das caves da biblioteca onde se guardam os incunábulos, lançava-se em grandes saltos dos capitéis e dos algerozes, empoleirava-se nas cabeceiras dos dormentes. As esfinges, os grifos, as quimeras, os dragões, os hircocervos, as harpias, as hidras, os unicórnios, os basiliscos retomavam a posse da sua cidade. | Italo Calvino

Depois é um desfilar de Estranhas Criaturas.... como esta:


HIRCOCERVOS

   As estantes estão cheias, a cabeça cheia de pó, o chão desarrumado. Não admira que os pés tropecem, que a cinza ameace o céu limpo. Todo o azul celeste mete medo, todo o mar. Caminham por dentro dos músculos as notícias, o futuro antecipado, as previsões metrológicas.
   Ao carpir das sirenes, os homens chegam-se às varandas. Abrem os estores, dilatam as pálpebras, olham por cima dos pijamas os lençóis da cama onde pernoitam arrumados. Costas com costas, pobres cães vadios, esperam a hora de ir para os empregos. Perfumados. Trabalham o cansaço, uma dor na coluna vertebral, aquele ouvi dizer que sabia como quem traz prendas para casa. Uma consola para o menino, um adereço para a Barbie.
   Fazem flexões, alongam os músculos, esticam os ossos como quem estica os cordões à bolsa, o estendal de pendurar a alma todos os dias, à mesma hora, até que o coração diga basta. A um canto, o grito incita a fome: gostamos dos aranhiços, das pulgas, das infiltrações. Única distracção no caminho das horas.

Encomende Estranhas Criaturas aqui

sexta-feira, setembro 24, 2010

Em breve: Guias Sonoras e outras abrasivas, de João Pedro Mésseder (Posfácio de Ana Margarida Ramos)





Guias Sonoras e outras abrasivas,
de João Pedro Mésseder



O espelho é a única janela de onde se vê o tempo a passar.
*
Quando alguém morre na casa, o espelho não chora a sua ausência, pois guardou para sempre um duplicado.
*
A memória é uma máquina de emaranhar espectros de estrelas e caudas de cometas.
*
Encontrei um par de botas velhas e sujas de pó. São como um mapa que a mente se apressa a percorrer.


"Lembre-se, a este propósito, que as guias sonoras são relevos descontínuos colocados na beira das estradas destinados a emitir vibrações que alertam o condutor, impedindo-o de ultrapassar o limite das rodovias. Consideradas como formas de informação de retorno táctil, são especialmente úteis para casos de distracção ou de adormecimento. Balizamento de vias ou orientação de viajantes, as guias funcionam como uma espécie de barreira sensorial aparentemente invisível, mas criadora de uma rota de navegação segura. O penúltimo texto desta breve antologia, intitulado «Apóstrofe rodoviária» é, a todos os títulos, significativo na união dos dois conceitos: «Abrasivas do sono automóvel, perpetuadoras da sobrevida, ó guias sonoras!» A apóstrofe, seguida da exclamação, é esclarecedora quanto ao tom, ironicamente corrosivo, de muitos dos fragmentos poéticos." do posfácio de Ana Margarida Ramos

Em Setembro, na Deriva


Com o Outono chegam, também mais livros:

Poesia e afins:
Guias Sonoras, de João Pedro Mésseder
Estranhas Criaturas, de Henrique Manuel Bento Fialho

Ensaio:
A Peste Bubónica no Porto, de Ricardo Jorge

ILC / Deriva [Col. Pulsar:

Para que serve a Literatura?, de Antoine Compagnon [Col. Pulsar]

Narrativa:

Nenhum Olhar, Ricardo Romero
Magic Resort, Florencia Abbate

Infantil:

Conto da Travessa das Musas, João Pedro Mésseder e Manuela São Simão


Faça já o seu pedido para deriva@derivaeditores.pt

segunda-feira, setembro 20, 2010

Para que serve a literatura?, Antoine Compagnon [trad. José Domingues de Almeida]

Para que serve a literatura?, Antoine Compagnon   [trad. José Domingues de Almeida]

Ao lado da questão teórica ou histórica tradicional: «O que é a literatura?», coloca-se hoje com maior premência uma questão crítica e política: «O que pode a literatura?», que valor a sociedade e a cultura contemporâneas atribuem à literatura? Que utilidade? Que papel? «A minha confiança no futuro da literatura, declarava Italo Calvino, assenta na certeza de que há coisas que só a literatura nos pode dar». Será este ainda o nosso credo?

Nascido em 1950, Antoine Compagnon ensinou na Sorbonne e na Universidade Columbia de Nova Iorque. É, desde 2006, Professor Catedrático de Literatura Francesa Moderna e Contemporânea: história, crítica, teoria no Collège de France. É nomeadamente o autor de La Troisième République des Lettres (1983), Les cinq Paradoxes de la Modernité (1990) e Les Antimodernes, de Joseph de Maistre à Roland Barthes (2005).

    
As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, dão a conhecer estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.
Na Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos).
Na Cassiopeia, que já acolheu um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.


domingo, setembro 19, 2010

O Cheiro dos livros [o blogue de Jorge Fallorca ]

«De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro do café»
Sam Savage

É esta a epígrafe do novo blogue de Jorge Fallorca. A seguir com atenção aqui.
E à laia de justificação, fica aqui um post de Abril:

"À medida que me liberto da presença parasita de inéditos, ocorre-me a ideia – e porque não? – de me entregar à escrita de um livro póstumo, concebido como este diário começado há um ano a que chamo O Cheiro dos Livros. Segundo o patusco Walser «Quando se vai a caminho dos sessenta, devemos saber pensar noutra forma de vida.» A quem ele o diz, acabo de calcorrear esse caminho; de momento, sem carro. Deixo o livro com a capa pronta, tenho vindo a rever e a eliminar parte do que fui anotando nos últimos catorze meses." 

sábado, setembro 18, 2010

Ideias para o regresso às aulas # 2 Homem que via passar as estrelas

(mais um figurino de Sandie Mourão)

Mesmo antes do texto e depois do prefácio de Máximo Ferreira, um aviso:

O texto que aqui se publica é um corpo vivo que sofreu múltiplas transformações de pormenor, quer ao longo dos ensaios quer durante a sua representação, e que continua a sofrer. A versão que vão ler corresponde ao estado do texto após dezenas de ensaios e representações.Os desenhos são uma pequena parte dos figurinos feitos, para o espectáculo, por Sandie Mourão.
Porque é de teatro que falamos e teatro é coisa viva, é natural (melhor, desejável) que o texto se mova e se molde. Porque é teatro didáctico (dito assim parece coisa feia, mas não é…), ainda mais justificações encontramos para que o texto se faça à medida das estrelas, perdão, dos alunos.

O Homem que via passar as estrelas é um texto dramático à espera de quem encarne estas personagens: Newton, Próspero, Mercúrio, Vénus, Marte, Urano, ….
E tem, como suporte, um Manual de Exploração Pedagógica, da autoria de Paulo Simões, onde se apresentam várias actividades a desenvolver dentro e fora da sala de aula. Diz Paulo Simões:

"a astronomia não se reduz à observação astronómica – e mesmo esta não tem de ser limitada à observação nocturna. A própria observação nocturna pode ser proposta como uma actividade simples, passível de ser desenvolvida com o auxílio de familiares dos alunos, à porta de casa, no quintal, numa varanda ou num passeio, ao princípio da noite.”
[…] quando chegam à escola, os nossos alunos já adquiriram uma série de conhecimentos sobre astronomia. Já sabem que o Sol nasce todos os dias,, que se põe também todos os dias; que a Lua se vê à noite e que não é sempre igual, que as estrelas são cheias de picos – senão não se chamavam estrelas... Com alguma sorte, sabem que o sol é uma estrela – uma estrela maior que todas as outras e sim, que está mais perto de nós do que as outras estrelas, e como sabem pensar e gostam de o fazer, concluem rapidamente que no Verão estamos mais perto do Sol – ou melhor, que o Sol está mais próximo de nós – e que o frio do Inverno é causado pelas nuvens, que não deixam passar o calor do sol, e pelo maior afastamento do Sol. Já viram horas de desenhos animados e jogaram horas de jogos onde aparecem planetas e “sóis”... em suma, trazem um corpo de conhecimentos sobre astronomia invejável... e maioritariamente errado.Com quem aprenderam? Com todos nós! Não foram eles que inventaram o nascer do Sol. Paulo Simões, in O HOMEM QUE VIA PASSAR ESTRELAS.

Uma belíssima ideia para trabalhar com os alunos em Língua Portuguesa, E.V.T., Expressão Dramática, Área de Projecto, Ciências Físico-Químicas, História… O desafio está lançado
!

quarta-feira, setembro 15, 2010

Literatura Argentina: "Magic Resort" de Florencia Abbate e "Nenhum Lugar" de Ricardo Romero



"Magic Resort" de Florencia Abbate e "Nenhum Lugar" de Ricardo Romero estão quase, quase a chegar.




Florencia Abbate nasceu em Buenos Aires, no dia 24 de Dezembro  de  1976. Licenciada em Letras pela Universidad de Buenos Aires - UBA, é jornalista cultural e autora dos romances "El Grito" e "Magic Resort".
Ricardo Romero nasceu no Paraná, em 1976. Licenciado em Letras pela Universidade de Córdoba, vive, actualmente, em Buenos Aires. Ninguna Parte é o seu primeiro romance. Dirige a revista literária Oliverio. Em 2006, publicou um livro de contos, Tantas Noches como sean necesarias.  Patrícia Gomes, que esteve até há pouco em Buenos Aires e vive actualmente em Barcelona fará a tradução para o português.

domingo, setembro 12, 2010

Ideias para o Regresso às Aulas # 1 - Conto da Travessa das Musas

O Conto da Travessa das Musas tem todos os ingredientes para se transformar num divertido texto dramático. O irrequieto João,  o polícia Bigodes, gordo e pachorrento, as histórias de bruxas e de fadas da velha tia, as brincadeiras na rua, o senhor Olímpio que às vezes  «afogava a solidão em  que vivia em copinhos de tinto», carrinhos de rolamentos, velhas de bigode, funcionários cansados como aquele  que deu nome ao poema de Gomes Ferreira, ilustre morador desta mesma Travessa, o merceeiro... 
Personagens e histórias à espera de serem contadas, recontadas, mostradas, encenadas...




Quem agarra o desafio?

sábado, setembro 11, 2010

O Homem que Via Passar as Estrelas, um texto de teatro para a infância e juventude - a importância da Expressão dramática na Escola

 A propósito do lançamento próximo de O Homem que Via Passar as Estrelas, um texto de teatro para a infância e juventude de Luís Mourão (texto), Sandie Mourão (figurinos/ilustração); manual de exploração pedagógica  de Paulo Simões e prefácio de Máximo Ferreira recuperámos um artigo de  Ana Paula Couceiro Figueira  publicado  originalmente na revista Psychologica e posteriormente aqui.

O Palco da Vida: A expressão dramática enquanto instrumento operatório do desenvolvimento das competências sociais  | Ana Paula Couceiro Figueira

    [...] Ajudar os alunos a serem sujeitos independentes/autónomos, criativos, expressivos, auto-afirmativos, assertivos, desinibidos, comunicativos, capazes de tomar decisões, a saberem resolver problemas, em suma, a serem auto-regulados e autocontrolados, deverá ser a maior prioridade educacional, hoje.
    Julgamos que todos os membros da equipa educativa deverão envidar esforços no sentido de, simultaneamente à preocupação sobre os conteúdos estritamente escolares, formais, e dos meios que facilitam a sua aquisição, enquadrar nos seus programas, projectos ou acções, temáticas relacionadas com as condições que propiciam a aprendizagem (motivação, controlo das emoções e estados de humor, percepção de competência e de capacidade, expectativas, aspirações, atitude positiva face à escola, estabelecimento de objectivos de aprendizagem, percepção da instrumentalidade dos conteúdos, métodos e condições de estudo, aptidões sociais, …). No mesmo sentido, consideramos que, igualmente, uma forma possível de poder realizar este princípio, poderia ser ou existir, não a título facultativo, mas com cariz curricular , a disciplina de Expressão Dramática, desde a Educação de Infância ao Ensino Superior.    [...]
 A Expressão Dramática entendida, não na sua vertente terapêutica (ex. Psicodrama), de remediação ou recuperação, nem como mera estratégia para veicular mensagens formais, antes, no seu vector preventivo/profiláctico, como instrumento de aprendizagem e de desenvolvimento, propiciador de experiências relacionais/sociais.
Em rigor, a Expressão Dramática    [...]  parece cumprir, julgamos, os objectivos de desenvolvimento social. [...] De facto, a Expressão Dramática, tendo em consideração os aspectos afectivo/sociais, cognitivo/linguísticos e psicomotores de desenvolvimento, perspectiva-se como um instrumento de actualização e potenciação das aptidões sociais. Tendo em conta, igualmente, comportamentos verbais e não verbais, encerra os componentes fundamentais das competências sociais. É uma prática que põe em acção a totalidade da pessoa, favorecendo, através de actividades lúdicas, o desenvolvimento e uma aprendizagem global (cognitiva, afectiva, sensorial, motora, estética). Neste sentido, ela partilha das intenções da finalidade geral da educação que é o desenvolvimento global da personalidade (Landier & Barret, 1994).
    Consideramos que todas as outras disciplinas curriculares podem potenciar ou fomentar as capacidades sociais dos indivíduos. Todavia, para além de serem esses os seus objectivos mais específicos e prioritários, são os professores de Expressão Dramática aqueles que, por “não terem preocupações de conteúdos estritos escolares”, estão em melhor posição, teoricamente, têm mais disponibilidade para o desenvolvimento holístico do indivíduo. [...]


É que,
A expressividade da pessoa humana implica o corpo como
condição da tradução dessa expressividade; implica o
enquadramento ambiental como possibilidade de diálogo
existencial na personalidade estruturada e amadurecida e
na personalidade em estruturação e amadurecimento
progressivo (…)
Miranda Santos, 1972, pp. 314-315.
e
É tão importante o contributo do corpo para as expressões
humanas que se poderia falar duma colaboração
indispensável do mesmo para essas expressões ou até
duma “intencionalidade corporal”.
Miranda Santos, 1972, p. 317.



  LER NA ÍNTEGRA AQUI.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Perigo Vegetal na sala de aula

Said e Sheila vivem, no ano 2075, no interior da Galiza, mas estão ligados em comunicação ao mundo global do passado. Uma gigantesca companhia transnacional, a C.U.B., tenta apoderar-se de todas as sementes de cereais existentes como parte de um plano para dominar toda a agricultura do planeta.
O Perigo Vegetal (Ramón Caride e Miguelanxo Prado) é apenas a primeira aventura destes dois corajosos irmãos. Em breve, na Deriva,  as aventuras irão continuar com Ameaça na AntártidaO Futuro Roubado.  

No blogue as Aventuras de Sheila e de Said, algumas possibilidades de exploração pedagógica:


FICHA DE OBSERVAÇâO DO LIVRO - Perigo Vegetal

uma questão de género



Plano Nacional de Leitura 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.



Travessa do Conto das Musas : Modo de Usar




O Conto da Travessa das Musas é uma viagem por um tempo antigo - uma história que se passou no Porto há muitos anos. Uma história de um menino sem tempo para ficar quieto. Uma história que fala de mercearias, de lojas de miudezas, de carrinhos de linhas e fivelas, de José Gomes Ferreira, de um polícia gordo e pachorrento, de carrinhos de madeira e de flocos de neve (os rebuçados...). 
Uma história de um tempo em que os meninos brincavam na rua. Uma história que se passa no Porto, no centro do Porto com o João. 
 Uma história que vale bem a pena o desafio de procurar a Travessa das Musas.

Esta narrativa de João Pedro Mésseder, ilustrada por Manuela são Simão é um livro que gera cumplicidades entre gerações, afinal muitas das realidades ali aludidas já não fazem parte deste  quotidiano de playstations, mp4 e toques polifónicos, mais ainda ressoam na cabeça de alguns pais e de quase todos os avós....

Aviso: Este livro convida à partilha de memórias e pode ser acompanhado de alguns rebuçados flocos de neve...

Sugestão: Por que não construir - depois do livro - um carrinho de rolamentos?  Isso é que era... Eles iam gostar...

quinta-feira, setembro 09, 2010

Para que serve a Literatura? de Antoine Compagnon, traduzido por José Domingues de Almeida



 Excerto de Para que serve a Literatura? de Antoine Compagnon,
  traduzido por José Domingues de Almeida
      Lemos porque, mesmo se ler não é imprescindível para se viver, a vida se torna mais livre, mais clara, mais vasta para aqueles que lêem do que para aqueles que não lêem. Para já, num sentido muito simples: a vida torna-se mais fácil – pensava nisso ultimamente na China – para aqueles que sabem ler, não só as informações, as instruções, as receitas médicas, os jornais e os boletins de voto, mas também a literatura. Depois, foi-se supondo durante muito tempo que a cultura tornava as pessoas melhores, e que proporcionava uma vida melhor. Francis Bacon disse tudo: «A leitura torna um homem completo, a conversação torna um homem desenvolto, e a escrita torna um homem preciso. É por isso que, se um homem escreve pouco, necessita de uma boa memória; se conversa pouco, necessita de um espírito vivo; e se lê pouco, necessita de muita astúcia, para parecer saber o que não sabe». Segundo Bacon, próximo de Montaigne, a leitura evita-nos ter de recorrer ao fingimento, à hipocrisia e à astúcia; ela torna-nos, pois, mais sinceros e verdadeiros, ou simplesmente melhores.
 As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.

quarta-feira, setembro 08, 2010

Para que serve a Literatura?, Antoine Compagnon

Para que serve a Literatura? [La Littérature, Pour Quoi Faire ?]

Um ensaio essencial que problematiza o espaço e o valor da literatura hoje, de Antoine Compagnon (traduzido por José Domingues de Almeida).


Antoine Compagnon, autor de La Seconde Main Ou Le Travail De La Citation, Le Demon De La Theorie: Litterature Et Sens Commun e Les Cinq Paradoxes De La Modernité, apenas para referir os mais conhecidos, conhece agora uma tradução portuguesa,  resultante de uma parceria da Deriva Editores com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto. 



As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.
Na  Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos).  Na Cassiopeia, que já acolheu  um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.

sábado, setembro 04, 2010

Miguel Carvalho na IX FEIRA DO LIVRO DE GONDOMAR


No próximo dia 7 de Setembro, terça-feira,pelas 21:30 Miguel Carvalho (Grande Prémio Gazeta 2009) apresenta o livro AQUI NA TERRA (2.ª ed.) , na IX Feira do Livro de Gondomar.
Aqui na Terra é o retrato de um certo Portugal. País aquém e sempre além, onde o humano e o divino moldam as circunstâncias da nossa condição. Relatos de um País que, por vezes, não vem no mapa. Quadros e figuras que constituem uma geografia de afectos e desamores, de entregas e renúncias, de comédias humanas e tragédias colectivas. Nestas reportagens, desenha-se um território de sombras e luzes, de martírios e pantomina, de identidade e resignação, habitado por existências vestidas do avesso e «estórias» de trazer pela mão. Um País, enfim, que levamos inscrito por dentro. Mas sempre descrito como quem o olha de fora. País coitadinho e honrado.País em grande ou maltratado.País santificado e do Diabo, onde por vezes anda tudo ligado.




quarta-feira, setembro 01, 2010

Filipa Leal e Catarina Nunes de Almeida no Metro de Varsóvia

Wiersze w Metrze / Poesia no Metro é um projecto inspirado nos Poems on the Underground  que teve a primeira edição em 1986, em Londres.
O objectivo da Wiersze w Metrze Wiersze/ Poesia no Metro é dar a conhecer a poesia contemporânea europeia.  Vozes de toda a Europa cruzam-se, por estes dias em Varsóvia,  em português Filipa Leal, Catarina Nunes de Almeida e Nuno Brito.
Nesta edição haverá lugar para happenings,competições de  haiku, poesia em graffiti,performances poéticas, workshops.
 
Toda a informação aqui.

terça-feira, agosto 31, 2010

Joaquim Castro Caldas [1956 - 2008]


ir indo
a gente aprende
o coração à lareira
que se fica a ir
e reacende
até que um dia
alguém se lembre

Joaquim Castro Caldas

sábado, agosto 28, 2010

um verbo | Joaquim Castro Caldas



um verbo

o amor não se diz
isso não se faz ao amor

adeus tempo e modo
não se tem é-se-lhe
o amor quer-se dizer
sabe-nos para a vida
não nos faz espécie

o amor não se diz
isso não se faz ao amor
dá-se-nos damos-lhe

Joaquim Castro Caldas
in Mágoa das Pedras


sexta-feira, agosto 27, 2010

Os cadernos de Gémeo Luís na Visão

Esta semana, na revista Visão, um destaque muito especial para Gémeo Luís (a.k.a. Luís Mendonça), colaborador de muitas derivas e vencedor, em 2006, do Prémio Nacional de Ilustração.

Entre outros trabalhos, na Deriva, Gémeo Luís ilustrou  O Aquário (texto de João Pedro Mésseder) que conhecerá em Setembro uma nova edição..

Plano Nacional de Leitura - Livro recomendado para o 3º ano de escolaridade destinados a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Uma história de peixes, cores e sabores para os mais pequenos. Um aquário é também um mundo em miniatura, onde se jogam relações entre iguais e diferentes, novos e velhos, e onde se geram preconceitos e ideias feitas. As ilustrações ajudam a compreender situações e personagens, sem deixarem de construir um cenário onírico e sedutor.

O Aquário de João Pedro Messeder

Críticas de imprensa

"Deste modo, nota-se, que, no desenlace de O Aquário, como, efectivamente, se verifica ao longo de toda a construção deste conto, existe um intuito moralizante, que, quanto a nós, em nada prejudica a criatividade da obra em análise, facto que, em última instância, acaba por ser consentâneo com a simbologia comummente atribuída a este objecto/espaço, na medida em que o aquário simboliza "a solidariedade colectiva, a cooperação, a fraternidade e o desapego em relação às coisas materiais" (Chevalier e Gheerbrant, 1994: 77), valores acompanhados, nesta obra de João Pedro Mésseder e Gémeo Luís, de um invulgar posicionamento pautado pelo altruísmo, pela amizade, pela dedicação social, pela tolerância e, até, pelo multiculturalismo."
Sara Reis da Silva, Rádio Terra Nova

"João Pedro Mésseder conta aos mais pequenos a história de alguns peixinhos vestidos com sentimentos de gente. No seu pequeno mundo (perscrutado pelo olhar de um menino) os habitantes do aquário assumem comportamentos que vincam a diferença e atenuam a natureza que os une. Numa situação limite, as atitudes azedas e preconceituosas acabam por ceder, dando lugar à confraternização, amizade e entreajuda - sem quaisquer moralismos forjados." Salomé Castro, Comércio do Porto, 28 de Dezembro de 2004

"Uma história sobre a diferença e aceitação, mas debaixo de água. Peixes de cores e de naturezas diversas terão de se habituar a partilhar o espaço, o tempo e a comidinha. Não é fácil, como todos o sabem. Mesmo em terra seca, há que ter paciência e aprender a conhecer os outros. E não se trata apenas de sobrevivência. João Pedro Mésseder e Gémeo Luís formaram uma boa equipa para dar início à aposta da Deriva no formato álbum ilustrado para o público infantil." Rita Pimenta, Público (Publicozinho), 4 de Dezembro de 2004

"(...) Belíssimo livro escrito por João Pedro Mésseder e ilustrado por Gémeo Luís que conta as desventuras dum peixe vermelho forçado a brincar só por um cardume antipático." Jornal das Letras, 22 de Dezembro de 2004

quarta-feira, agosto 25, 2010

Para que serve a Literatura?, Antoine Compagnon [trad. José Domingues de Almeida]







Antoine Compagnon, autor de La Seconde Main Ou Le Travail De La CitationLe Demon De La Theorie: Litterature Et Sens Commun e Les Cinq Paradoxes De La Modernité, apenas para referir os mais conhecidos, conhece agora uma tradução portuguesa,  resultante de uma parceria da Deriva Editores com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto. 

O livro em causa  é Aula Inaugural no Collège de France - La Littérature, Pour Quoi Faire ? -  Para que serve a Literatura?, com tradução de  José Domingues de Almeida ).  Um ensaio essencial que problematiza o espaço e o valor da literatura hoje.


    




 As colecções Pulsar e Cassiopeia, resultantes de uma parceria com o Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,da Faculdade de Letras do Porto,  dão a conhecer  estudos muito relevantes no âmbito da Teoria da Literatura.
Na  Pulsar, foram já editados Jean‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos).
Na Cassiopeia, que já acolheu  um inédito de Pedro Eiras, intitulado Tentações: Ensaio sobre Sade e Raul Brandão, teremos brevemente um ensaio sobre Kafka: Kafka, um Livro sempre Aberto, de Teresa Martins de Oliveira e Gonçalo Vilas-Boas.

terça-feira, agosto 24, 2010

Antoine Compagnon: Para que Serve a Literatura? [col. PULSAR]

(imagem daqui)

A propósito do lançamento de  Para que Serve a Literatura?, de Antoine Compagnon, na colecção PULSAR, fruto de uma parceria com o  Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, da Faculdade de Letras do Porto, onde foram já editados Jean ‑Pierre Sarrazac (com A Invenção da Teatralidade seguido de Brecht em Processo e O Jogo dos Possíveis), Pascal Quignard (com Um Incómodo Técnico em Relação aos Fragmentos), não resistimos a partilhar um  excerto de um texto   Rosa Maria Martelo que pode ser lido na íntegra aqui.



É  certo  que  a  literatura  “pode”  muita  coisa:  pode  proporcionar  um  contacto único com a complexidade do discurso; pode associar discurso e emoção  estética;  pode  promover  o  conhecimento  do  outro  no  tempo  e  no  espaço;  pode  facultar  ao  leitor  um  auto-conhecimento.  E  é  certo  que  o  que  chamamos  “literatura”  é  um  conjunto  de  práticas  discursivas  de  tal  modo  heterogéneo  e diversificado  que  seria  possível  desenvolver  aqui  listagens  imensas  e  cheias  de especificidades,  distinguindo  o  papel  da  poesia  do  da  narrativa,  distinguindo  a função da  literatura mais culturalista e de circulação  restrita daquela que obtém largos sucessos de mercado, distinguindo a literatura para a infância e a juventudecomo uma área de criação específica, etc.  Mas, hoje, talvez o mais importante seja transmitir  aos  estudantes  de  literatura,  e  de  poesia  em  particular,  que  o  seu trabalho  incide sobre  tipos de discurso que são extremamente abertos ao diálogo com  outras  artes,  com  outros  discursos,  com  outras  práticas  culturais.  Se  no século XIX  emerge,  fortíssima,  a  relação  entre  Literatura  e Nação,  hoje  o  que sobressai  é  o  modo  como  a  Literatura  põe  em  relação  identidade  linguística, cultural  e  social  com  a  experiência  intercultural  que  caracteriza  o  mundo  em vivemos. Não há como  recusar o breve diagnóstico de Antoine Compagnon, quando descreve o lugar da literatura na sociedade actual:
(...) le lieu de la littérature s’est amenuisé dans notre société depuis une génération:à  l’école,  où  les  textes  documentaires mordent  sur  elle,  ou même  l’on  dévorée;dans la presse, où les pages littéraires s’étiolent et qui traverse elle-même une crise peut-être funeste; durant les loisirs, où l’accélération numérique morcelle le temps disponible  pour  les  livres.  Si  bien  que  la  transition  n’est  plus  assurée  entre  la lecture  enfantine  (...)  et  la  lecture  adolescente,  jugée  ennuyeuse  parce  qu’elle requiert de longs moments de solitude immobile.

Se pensarmos na exiguidade das actuais tiragens de livros de poesia, na sua reduzida visibilidade nas páginas da imprensa, onde facilmente “perde” diante das artes que exploram a  imagem visual, se pensarmos na  reputação de “difícil” que lhe atribuem os estudantes, no lugar geralmente periférico que os livros de poesia ocupam nas livrarias, esse diagnóstico não pode senão agravar-se.

sábado, agosto 21, 2010

Montolieu

Imaginem-vos cansados, mal dormidos, com alguma fome e a precisarem de descanso total depois de percorridos muitos quilómetros (entre os quais muitos a pé, em cidades europeias). Depois de pararem em cafés, em estradas secundárias do Languedoc e do País Cátaro e depois de desconfiarem do turismo de Carcassone, onde se encontravam milhares de pessoas, têm acesso a um lugarzinho chamado Montolieu, de 760 habitantes segundo um censo de 2000, com 15 livrarias. Quinze livrarias e alfarrabistas! Para não falar de um Hotel em cujo hall de entrada esperava que entrasse o inspector Maigret a todo o momento. Não faltava a Abadia (fortificada, claro) não estivéssemos nós em território de revoltas camponesas e hereges. Por falar nisso, a sede do PCF, outrora forte na região, foi transformada num estranhíssimo «espaço Che» onde pulavam algumas crianças e outros, mais velhos, bebiam café e bolos. Os idosos, provavelmente sem paciência para gerirem «espaços», jogavam no jardim central. Demorei-me dois dias, quase três e ainda hoje lá estaria, não fossem as sempiternas «obrigações».


Mas 15 livrarias e alfarrabistas, duas editoras, ateliers de produção artesanal de livros e ilustrações, bibliotecas numa pequena vila, mesmo que (soube-o depois) se lhe desse o nome de «village du livre» é obra que me custou uns euros (não muitos) em livros (atenção que vim com um saco cheio deles, pagando por um livro do século XVIII 6 euros, com desconto final de 1 euro!). Perdi-me naquilo, acreditem. Como me perdi na leitura de alguns livros, entre cerveja, cigarros e café do verdadeiro arábico, como estava escrito no tal hotel. O jazz e a música clássica esperavam por nós ao fim da tarde, ao ar livre, em restaurantes e poucos bares.

A história destes sortudos 760 habitantes é simples: nos anos 80 um bibliófilo de Paris, farto de estar por lá, criou, com a ajuda da Mairie e de uns quantos entusiastas locais, condições para virem com armas e muitas bagagens alfarrabistas de toda a França (e alguns ingleses também) para Montolieu. A pequena vila ainda hoje está em recuperação deste sonho, depois de ter falecido o seu mentor. Mas aquilo não pára. Só dele, de Michel Braibant, uma grande e antiga fábrica foi adaptada para um enorme lugar onde se pode vender e comprar livros de todos os géneros. Não sem que nos lembrassem que aquela antiga fábrica foi lugar de exílio forçado de 400 republicanos espanhóis que fugiam de Franco e que aquela pequena vila se recusou a entregar. A bandeira da Espanha republicana está lá a recordar-nos.

Nunca antes assentei este nome «Montolieu» no meu mapa mental ou em outro mais físico. Nunca ouvi falar de tal experiência ou desta pequeníssima vila. Mas fui lá ter – esta é, de facto, a teoria da deriva.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Desesperar é preciso, Rui Bebiano e A Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira)

Rui Bebiano, historiador, professor de História Contemporânea na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Sociais, destaca, no  A Terceira Noite , A Mobilização Global seguida de O Estado-Guerra Santiago López-Petit (trad. e notas de Rui Pereira), num breve texto com o pertinente título - Desesperar é preciso - parafraseando a máxima dos navegadores antigos Navegar é Preciso.




Diz Bebiano:
Sublinho Santiago López-Petit, em A Mobilização Global, enquanto penso nesta cultura do um contra o outro apresentada como único cenário do futuro sem esperança em nome do qual tudo nos é pedido.
«Estamos sós face ao mundo. Ou, o que é o mesmo, interiorizámos aquilo que os nossos governantes nos repetem incessantemente: ‘a vossa situação depende apenas de vós mesmos’. E acreditamos que é assim. Temos nós próprios que sair do atoleiro, o que dito pelas palavras próprias da cultura empresarial significa que temos de nos avaliar continuamente. Contra nós mesmos, contra os trabalhadores dos outros países que se esfalfam por conseguir a mesma produção cobrando menos. Incerteza que gera insegurança, insegurança que produz medo. Medo do outro que é como eu. Medo do outro, que é estrangeiro, porque não é como eu. (…) O [novo] estado de natureza alastra como um mar enfurecido até cobrir-nos por completo.»
E mastigo a certeza de que a esperança apenas pode nascer do desespero.


quinta-feira, agosto 19, 2010

O Albatroz, (a propósito de Mágoa das Pedras), de Joaquim Castro Caldas

O Albatroz, (a propósito de Mágoa das Pedras), de Joaquim Castro Caldas 


Ses ailes de géant l'empêchent de marcher. (Baudelaire)
Eu vi a luz em um país perdido. (Pessanha)


Tendo por fundo um eco baudelairiano, Castro Caldas evoca em Mágoa das Pedras (2008) a consciência da indiferença do seu tempo e da sua própria diferença – um albatroz em desasado. Quando o albatroz, o monarca azul dos ares, é por sádico prazer preso pelos marinheiros, perde a graça e as longas e as suas pesadas asas tornam-se um empecilho. O que antes era belo e admirável é agora risível – “lui naguère si beau, qu'il est comique et laid!” . O poeta que enfrenta vendavais e se ri da seta no ar, quando exilado no chão, obrigado a cumprir regras que desconhece e a estar monotonamente no meio de todos, não consegue, sequer, andar. Assim o albatroz de Coleridge e Baudelaire, assim Joaquim Castro Caldas.

Nenhuma imagem é tão perfeita para a poesia e para a figura de JCC como a do albatroz: o poeta incompreendido, o príncipe da altura, o estrangeiro em terra. Façam-lhe ao menos a justiça de o não julgar nem fora , nem antes do tempo (pg.10).
Mágoa das Pedras traz-nos uma memória de um tempo em que se amava “e nunca se pedia / aos corações desamarrados / falava-se de tesouros perdidos / partia-se à procura de um dia” ( p. 35), mas um tempo que não vale já a pena lembrar pois “mordiscar o tempo sabe a esferovite” (p. 28). O poeta continuou a dançar mesmo depois de a música ter parado. Todos os outros, se habituaram a viver sem asas, a andar rente ao chão: ele não, insiste no voo, resiste - “apanho mar e lavo os olhos com luz / deito a cabeça na areia carrego o coração” (p. 13) – e transfigura-se em “anjo mensageiro que por mar, terra e céu” anuncia o apocalipse para os que “informatizam a eternidade” (p. 17) e para os que não perceberam que a grande revolução ainda não está feita.
Mágoa das Pedras é feita de aindas e agoras : “ainda as líricas impressas”, “ainda a vida em fundo” (p. 10), “o lume ainda aceso (p. 20), “um grande amor ainda espera pelo amor ” (p.59) e por agoras, certezas de que acções incompreendidas no passado, agora fariam ainda mais sentido: “agora é que tinha graça” e “há lixo da época ouro hoje […] que agora nos deixam a pele em arrepio” (p.55). Os “aindas” e os “agoras” do texto são pequenos freios impostos ao tempo: tentativas fugazes de, com o capital de vida acumulado, viver de uma forma mais distendida, mas a velocidade impressa no passado, não perdoa e já não há travões possíveis (note-se que quase não há pontos finais, não se pode mesmo parar).

A imagem que o título cataforicamente projecta na obra é a do relógio de água: a clepsidra - água, mágoa, pedra. A água que mede o inexorável passar do tempo e nada fixa. A palavra escrita é a resistência num tempo esquivo: “escrevo à mão a quem se debruça ainda nas líricas impressas” (p. 10), num tempo de sms – “hoje para chegar a tempo manda-se um silêncio a dizer morri, vivalma, nada”(p. 31) - e outras redes.Numa óptica palimpséstica, Mágoa das Pedras traz-nos o desejo presente em Pessanha de “deslizar sem ruído” de passar, de ir. Sem nascimento e sem morte: apenas uma mudança de energia - on/ off : “tudo passa e desaparece, recomeça, a cada vez diferente, a voz sugere, o que está em movimento recupera a fonte, a voz foge, aqui não há morte, a vida recomeça, há só uma energia que muda de forma e mergulha” (p. 9).
Em Castro Caldas, há um paradoxal estar dentro das coisas, estando ao mesmo tempo distante. Há uma incapacidade de parar, de fixar, por pouco tempo que seja, o próprio tempo. Uma fina película - “película de água” (p.9), “película de geada” (p.39) - aproxima-o e afasta-o do concreto, como se esvoaçasse, sem nunca verdadeiramente voar, mas também, sem nunca verdadeiramente poisar. É um estar por dentro, vendo tudo a uma certa distância, ou melhor num outro tempo. A película, o biombo, a neblina devolvem-nos um intervalo e, ainda assim, “tudo se passa por dentro” (p.33).
Os amigos são as estratégias de continuar inscrito, amarrado ao tempo e ao real: são os violinos e são as cartas. O amigo é o príncipe e o livro que depois relido continua novo e puro. O amigo é a faca que rasga caminhos, é aquele que chega sempre a tempo ao mesmo destino.
Em Mágoa das Pedras sente-se a correria desatinada para o abismo, através de um trajecto de acumulação de ideias e de uma de construção sintáctica desajectivada. A febre que empurra para o abismo é a mesma que faz com que se entrecruzem planos e sensações na água, na mágoa que tudo arrasta.
As palavras que tomou de empréstimo – as que disse, as que usou - são agora despidas e despedidas, como que se tivessem atingido uma maioridade que o dispensa, a ele enquanto voz:

Vão-se embora palavras
Deixem-me ali à esquina
Amem e façam-se à vida
Não temam a morte voem
Sabem que são minhas
Para lá dessas fronteiras
Que desapertam as rimas
Com poemas ou bombas
Fucem apanhem boleias
Só vos deixei preparadas
Para os cornos dos poetas
(p. 46)

Num poeta “diseur” é curioso este mandar ir as palavras, sem si, este “ir indo”: as palavras ficam desatadas como puro espírito à procura de uma voz, talvez porque acredite existir só “uma oportunidade” (p.52):

Tinha uma luz para voar
Tinha o dom e a dedicação
Para ir mais longe do que tudo
Mas esqueceu-se de que além do brilho
Só há uma oportunidade 
(p.52)

Depois do sopro no pavio, são as palavras desfraldadas, as palavras ditas e escritas que ficam e sobrevivem ao tempo: são a inscrição possível nas pedras. Não há espaço para corrigir erros, repetindo, qual jockey, a corrida à procura de um outro resultado. O destino é o do albatroz prisioneiro, o do cavalo caído. Resta-lhe apenas ajudar o próximo cavalo a ter melhor sorte “e não culpar ninguém ” (p. 53).
Do poeta habituado a “dizer”, sobra para a poética, a música verlainiana: “vagas breves”(p. 13); “Suor / do trigo/ a sangrar / no dorso” (p. 23); “Moinho / do vento / violento/ a dobrá-lo” (p. 23); “o amigo é um violino / estimado, obstinado” (p. 24); “de alfinete paciente e carinho antigo / o virtuoso ausente/ omnipresente “ (p. ), “Sotaque e o cognac“ (p 27 ), Mesmo triste a sorrir sempre” (p. 27), “as papoilas as palmas “ (p. 28); “não há orgãos, mãos e olhos, esporas e poros” (p.31); “bebemos buio / fumamos breu” (p. 33); “passa a mão ao de leve pela sede e na seda” (p. 44); “ vão as botas mágoa erecta de ervas” (p. 48). A música que emana dos versos, a música do violino é omnipresente – como se todos os silêncios, todas as solidões tivessem de ser preenchidas agora, pois não se sabe se há música depois, espera-se apenas que ela exista: “espero que haja música / no espaço mítico da morte” (p. 51).
Castro Caldas junta, neste livro, os quatro elementos: esconde no título a água e a terra, deixa fugir para a capa o fogo e deixa os versos futuar. Ar, Fogo, Água e Terra, assim o albatroz faz o poema.
Concluímos com Sena e com o seu albatroz:
"Os marinheiros tinham apanhado o albatroz, e a ave, coitada, habituada a sobrevoar livremente as ondas, não sabia andar no convés do navio, tropeçava nas asas. É o que acontece com todos nós, os que voámos alguma vez. Fica-se a vida inteira a tropeçar nas asas, e a dar com a cabeça na gaiola." (Jorge Sena)
Mágoa das Pedras guarda as mágoas do albatroz que tenta voar, mas inevitavelmente inscreve o seu sangue nas pedras. [Paula Cruz]

Mágoa das Pedras, Deriva Editores, 2008


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